{"id":624,"date":"2008-08-14T00:00:51","date_gmt":"2008-08-13T23:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=624"},"modified":"2009-09-04T15:19:55","modified_gmt":"2009-09-04T14:19:55","slug":"terra-queimada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/terra-queimada\/","title":{"rendered":"Terra queimada"},"content":{"rendered":"<p>A guerra n\u00e3o destruiu apenas estradas, pontes e casas. Destruiu gera\u00e7\u00f5es inteiras de angolanos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081008-1155-terraqueima1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nNos planaltos<\/p>\n<p>Durante a \u00faltima guerra assistiu-se ao \u00eaxodo das popula\u00e7\u00f5es para Luanda, onde n\u00e3o havia combates. As pessoas escolheram um lado, n\u00e3o pelos ideais pol\u00edticos que defendia, mas por ser aquele onde estavam em seguran\u00e7a. No mato, os ex\u00e9rcitos de ambos os lados faziam recrutamentos for\u00e7ados a cada aldeia onde passavam. Recolhiam todos os rapazes com idade suficiente para lutar, isto \u00e9, maiores que a AK47. Se se recusassem, eram mortos sob suspeita de serem simpatizantes da outra fac\u00e7\u00e3o\u2026 <em>tout court<\/em>. De uma forma ou de outra,\u00a0obrigaram os homens a abandonar os campos. Os homens tratavam da desmata\u00e7\u00e3o e abertura de novas lavras pelo que, sem eles, as mulheres cultivavam o mesmo talh\u00e3o anos a fio at\u00e9 este estar exausto. As colheitas eram cada vez mais magras e estavam sempre sujeitas a ser <em>confiscadas<\/em> para abastecer os ex\u00e9rcitos. Em caso de recusa ou de suspeita de fornecimento ao inimigo, minava-se as lavras! Esconder os homens e rapazes ou emigrar para a capital eram as duas \u00fanicas solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081008-1155-terraqueima2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nOs netos da guerra<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias disto ainda hoje se pagam. H\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o de angolanos que cresceu escondido ou que esteve no ex\u00e9rcito e nunca trabalhou. As angolanas, essas, trabalharam sempre. Trabalharam a dobrar porque os homens em vez de estar nos campos ou combatiam ou se escondiam para n\u00e3o combater. As mulheres trabalhavam porque n\u00e3o tinham escolha. Tal como hoje, a fome da crian\u00e7a \u00e0s costas \u00e9 algo que toca no \u00e2mago do instinto maternal e obriga a muitos sacrif\u00edcios.<\/p>\n<p>Os angolanos cresceram ociosos. As gera\u00e7\u00f5es mais velhas n\u00e3o se rev\u00eaem neles. O sonho dos novos \u00e9 poder arranjar um emprego como taxista, seguran\u00e7a ou <em>controlador<\/em> de alguma coisa. Trabalho, s\u00f3 em \u00faltima escolha. Ao ver uma estrada a precisar de repara\u00e7\u00e3o, um angolano n\u00e3o diz que precisa ser reparada. Diz, como j\u00e1 ouvi muitas vezes, &#8220;haviam de c\u00e1 vir os chineses arranjar a estrada&#8221;. Este n\u00e3o \u00e9 o meu pa\u00eds, mas custa-me ouvir esta pregui\u00e7a colectiva a falar.<\/p>\n<p>\u00c0 porta de casa j\u00e1 ouvi um <em>mais-velho<\/em> a ralhar aos dois mo\u00e7os que vivem encostados \u00e0s paredes do pr\u00e9dio, talvez para evitar que caia. Eles tinham acabado de empurrar o carro a algu\u00e9m e exigido pagamento. Diziam que tinham fome e que queriam dinheiro para uma sopa. O <em>mais-velho <\/em>apontava-lhes o dedo, reprovador, e dizia que antigamente se empurrava o carro para ajudar e n\u00e3o para se pedir dinheiro a seguir. Achava estranho estarem sempre com fome. Muita sopa deviam comer\u2026 em latas de <em>Cuca<\/em>. Quem tem fome trabalha!<\/p>\n<p>Na capital n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para lavras. Na capital n\u00e3o h\u00e1 trabalho para todos. Na capital havia milh\u00f5es de refugiados de uma guerra que ningu\u00e9m queria. Hoje em dia continua sem haver trabalho para todos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081008-1155-terraqueima3.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nFazendo pela vida<\/p>\n<p>A perda de gera\u00e7\u00f5es abalou profundamente a coes\u00e3o social dos povos. A tradi\u00e7\u00e3o oral, essencial nos dialectos que n\u00e3o t\u00eam express\u00e3o escrita relevante, perdeu-se. Sem crian\u00e7as \u00e0s quais transmitir o conhecimento das gera\u00e7\u00f5es passadas, o mundo ficou mais pobre. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que saiba quando se plantou a \u00e1rvore na beira do caminho, nem que diga como se faz. Os cemit\u00e9rios \u00e0 sa\u00edda das aldeias foram abandonados com a povoa\u00e7\u00e3o e as campas dos antepassados passaram a ser campas sem nome.<\/p>\n<p>Os cemit\u00e9rios de cada aldeia situam-se geralmente \u00e0 sa\u00edda da povoa\u00e7\u00e3o, nas matas \u00e0 beira da estrada. As campas n\u00e3o ficam escondidas atr\u00e1s de um muro alto, est\u00e3o \u00e0 sombra das \u00e1rvores que viram crescer os que agora repousam. S\u00e3o mantidas limpas e arranjadas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081008-1155-terraqueima4.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAntepassados<\/p>\n<p>Nas aldeias abandonadas, os cemit\u00e9rios foram invadidos pelo capim e pelas termiteiras. Os nomes nas campas desapareceram. Por vezes, apenas uma cruz de madeira tosca identifica o local.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081008-1155-terraqueima5.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nSem nome<\/p>\n<p>A maioria dos homens prefere partir para as cidades do litoral, onde formam uma nova fam\u00edlia, muitas vezes deixando mulher e filhos para tr\u00e1s. No campo v\u00eaem-se poucos. Ainda menos nas lavras. At\u00e9 mesmo profiss\u00f5es mais exigentes fisicamente, habitualmente desempenhadas por homens, s\u00e3o agora ocupadas por mulheres, como o fabrico de blocos de adobe.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081008-1155-terraqueima6.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nM\u00e3e e filho<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 certo que a depend\u00eancia do petr\u00f3leo j\u00e1 se faz notar at\u00e9 mesmo no interior. A necessidade de alimentar os t\u00e1xis, os geradores e os candeeiros obriga a que se tenha de ter dinheiro para comprar o combust\u00edvel. Os lucros provenientes da lavra n\u00e3o s\u00e3o suficientes. Toda a gente produz o mesmo e ningu\u00e9m quer comprar. S\u00f3 na cidade se vende alguma coisa e a baixo pre\u00e7o. Ir para a cidade implica uma caminhada de v\u00e1rios quil\u00f3metros. Podem ser encurtados com uma viagem de t\u00e1xi, que custa cerca de 250 Kz por cada 20 km.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081008-1155-terraqueima7.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nTaxista orgulhoso<\/p>\n<p>Tal como na capital, os taxistas nunca teriam dinheiro para comprar uma carrinha ou uma mota. Trabalham para o dono do ve\u00edculo. T\u00eam de entregar uma determinada quantia ao fim do dia. Tudo quanto fizerem a mais \u00e9 deles. Enquanto isto, as mulheres continuam na lavra, a sustentar os est\u00f4magos da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O aparecimento de dinheiro na m\u00e3o dos agricultores faz nascer neg\u00f3cios um pouco por toda a parte. Os candongueiros da gasolina surgem atr\u00e1s de cada \u00e1rvore nas zonas mais remotas. Ficar sem gasolina a 40 km da povoa\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima pode ser dram\u00e1tico, mas, pelo pre\u00e7o certo, consegue-se prosseguir viagem.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081008-1155-terraqueima8.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n125%<\/p>\n<p>As tabernas e cantinas passam a vender cerveja como nunca e grande parte do dinheiro ganho nem chega a casa.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081008-1155-terraqueima9.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nHavemos de voltar<\/p>\n<p>Mas nem todos os rapazes conduzem t\u00e1xis ou ficam sentados \u00e0 espera do dia seguinte. H\u00e1 alguns que trabalham no campo com a fam\u00edlia. S\u00e3o mais a excep\u00e7\u00e3o que a regra, mas n\u00e3o seria justo ignor\u00e1-los.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081008-1155-terraqueima10.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nNa lavra de batata-doce com a av\u00f3 e a irm\u00e3<\/p>\n<p>Desempenham as fun\u00e7\u00f5es que lhes competiam h\u00e1 muitos anos atr\u00e1s. Nos trabalhos que exigem mais for\u00e7a j\u00e1 substituem as mulheres. Lavrar os campos com um arado e uma junta de bois \u00e9 um bom exemplo. Para al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil faz\u00ea-lo com o filho \u00e0s costas\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081008-1155-terraqueima11.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nSob o olhar do <em>mais-velho<\/em>, o rapaz vai conduzindo os bois<\/p>\n<p>As pontes que foram caindo com a guerra ou com a falta de manuten\u00e7\u00e3o s\u00e3o repostas \u00e0 custa de bra\u00e7os e eucaliptos plantados ainda no tempo do colono, para abastecer o caminho-de-ferro de Benguela. Aquelas \u00e1rvores que &#8220;n\u00e3o se sabe se s\u00e3o plantadas ou se nascem sozinhas, porque nunca ningu\u00e9m viu uma nascer&#8221;, como j\u00e1 ouvi dizer.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081008-1155-terraqueima12.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCaminho para o futuro<\/p>\n<p>O futuro de Angola est\u00e1 nestes rapazes e, sobretudo, raparigas que agora come\u00e7am a sua vida. A escola \u00e9 uma oficina de virtudes, como est\u00e1 escrito nas paredes de todas as escolas prim\u00e1rias. \u00c9 nela que v\u00e3o aprender a construir uma vida melhor. \u00c9 com eles que Angola vai despertar do marasmo trazido por quarenta anos de guerra.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081008-1155-terraqueima13.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nO nascer de um novo dia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerra n\u00e3o destruiu apenas estradas, pontes e casas. Destruiu gera\u00e7\u00f5es inteiras de angolanos. Nos planaltos Durante a \u00faltima guerra assistiu-se ao \u00eaxodo das popula\u00e7\u00f5es para Luanda, onde n\u00e3o havia combates. As pessoas escolheram um lado, n\u00e3o pelos ideais pol\u00edticos que defendia, mas por ser aquele onde estavam em seguran\u00e7a. No mato, os ex\u00e9rcitos de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1,572,530,365],"tags":[17],"class_list":["post-624","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-angola","category-ebanga","category-ganda","category-provincia-de-benguela","tag-marcas-de-guerra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/624","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=624"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/624\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3389,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/624\/revisions\/3389"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=624"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=624"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=624"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}