{"id":702,"date":"2008-08-23T00:00:42","date_gmt":"2008-08-22T23:00:42","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=702"},"modified":"2008-08-16T19:07:29","modified_gmt":"2008-08-16T18:07:29","slug":"duvidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/duvidas\/","title":{"rendered":"D\u00favidas&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Angola \u00e9 um pa\u00eds fant\u00e1stico, cheio de encantos e pronto a ser descoberto. Gosto desta terra que me acolheu. Adaptei-me bem e posso contribuir para a reconstru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds que j\u00e1 sofreu demais. Primeiro foi a guerra para expulsar os colonialistas. Depois foi a guerra fraticida em que cada parte acusava a outra de estar a alimentar\u00a0oportunistas.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 alturas em que me encho de d\u00favidas. \u00c9 mesmo aqui que quero estar? \u00c9 em Luanda que est\u00e1 o meu futuro nos pr\u00f3ximos anos?<\/p>\n<p>Por um lado, parece que estou em Portugal. A arquitectura \u00e9-me familiar e a l\u00edngua quase a mesma, pelo que me sinto em casa, mas depois sou confrontado com uma civiliza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o condiz com a paisagem. Mesmo falando a\u00a0l\u00edngua e conhecendo a hist\u00f3ria que uniu estas duas na\u00e7\u00f5es n\u00e3o consigo deixar de me sentir um estrangeiro. Sei que, para muitos, n\u00e3o passo de um <em>lat\u00f4n<\/em>&#8230;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-0000-duvidas1.jpg\" alt=\"\" \/>\u00a0<br \/>\nUm estrangeiro na Fortaleza de Luanda<\/p>\n<p>\u00c9 nas pequenas coisas que este sentimento vem ao de cima. \u00c9 olhar para os documentos que me acompanham para todo o lado, embrulhados numa bolsa de pl\u00e1stico. S\u00e3o as fotoc\u00f3pias do passaporte e do visto de trabalho, da carta de condu\u00e7\u00e3o portuguesa, da carta internacional que parece uma lista telef\u00f3nica. Ser\u00e1 que quem os concebeu nunca imaginou que, com aquele tamanho, n\u00e3o s\u00e3o nada pr\u00e1ticos de transportar? Fazia-me confus\u00e3o ver os emigrantes em Portugal transportarem os seus documentos como hoje transporto os meus. Mas agora percebo que n\u00e3o h\u00e1 outra solu\u00e7\u00e3o. Temos mesmo de andar com tudo aquilo atr\u00e1s embrulhado em pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>H\u00e1 dias em que chego a casa cansado. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o cansa\u00e7o f\u00edsico, \u00e9 tamb\u00e9m o cansa\u00e7o que o afastamento dos que mais quero provoca. \u00c9 a vontade de ir para casa descansar. \u00c9 ter vontade de parar o carro n\u00e3o na Rua Am\u00edlcar Cabral, mas na Rua de Mo\u00e7ambique. \u00c9 a vontade de enfiar as m\u00e3os por entre as grades do port\u00e3o e sentir um nariz h\u00famido e frio na ponta de um rafeiro que se agita ao ritmo da cauda. \u00c9 a vontade de poder dizer que cheguei. \u00c9 a falta de um abra\u00e7o apertado que deixa um quentinho dentro do peito. S\u00e3o as saudades de me virar na cama e dar uma cabe\u00e7ada na estante, ou de encostar a cabe\u00e7a \u00e0 parede enquanto durmo. S\u00e3o as saudades de olhar para a pilha dos livros que ainda est\u00e3o por ler e saber que posso come\u00e7ar amanh\u00e3. Os c\u00e1 de casa j\u00e1 li todos&#8230; \u00c9 a vontade de espreitar pela janela da casa de banho e ver os novos ramos da oliveira a crescer.<\/p>\n<p>Sinto falta de um quarto Vigor e de um pastel de nata da Marianita. Sinto falta de beber \u00e1gua da torneira ou de gelo nas bebidas.<\/p>\n<p>Aborrece-me saber que podia fazer algumas coisas mas tenho as ferramentas a cinco mil quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia. Aborrece-me saber que a bomba do po\u00e7o voltou a avariar e que n\u00e3o posso perder uma tarde de volta dela porque estou longe.<\/p>\n<p>Tenho saudades de andar de comb\u00f3io e de metropolitano. Gostava de parar numa passadeira sem que o condutor atr\u00e1s desate a buzinar. Queria montar o GPS no Patrol e ir procurar geocaches.<\/p>\n<p>Vou fazendo algum exerc\u00edcio f\u00edsico para manter algumas rotinas, mas j\u00e1 tenho saudades de ir ao gin\u00e1sio. E fazer Body Combat sozinho n\u00e3o \u00e9 das coisas mais estimulantes do mundo. Apetecia-me dan\u00e7ar uma Rumba com a Cristina ou de ir ao teatro reclamar das Bachatas&#8230;<\/p>\n<p>Esta dist\u00e2ncia, que n\u00e3o me deixa enxugar l\u00e1grimas nem partilhar alegrias, \u00e9 uma chatice.<\/p>\n<p>At\u00e9 h\u00e1 umas semanas, o passar do tempo era medido em comprimidos de mefloquina. N\u00e3o fosse o Diabo tec\u00ea-las e ter de voltar para casa mais depressa que o previsto, fui mantendo a profilaxia do paludismo at\u00e9 partir para a prov\u00edncia de Benguela. Agora j\u00e1 me\u00e7o o tempo em semanas para o regresso&#8230; e perdi o medo aos mosquitos. Pelo sim, pelo n\u00e3o, vou batendo as palmas!<\/p>\n<p>\u00a0<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-0000-duvidas2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCalend\u00e1rio<\/p>\n<p>Agora que comecei a fazer a contagem decrescente para as primeiras f\u00e9rias em casa, o tempo custa a passar porque a novidade de Angola \u00e0s vezes parece rotina e j\u00e1 n\u00e3o me faz esquecer o quanto gosto de Portugal, com todos os seus defeitos e enganos.<\/p>\n<p>Hoje deu-me para ter saudades de casa&#8230; acontecer\u00e1 mais vezes, mas tem rem\u00e9dio. Basta pensar em todas as raz\u00f5es que me ajudaram a decidir partir para esta terra maravilhosa! E amanh\u00e3 \u00e9 dia de ir comer ao xilombo da Xilombo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Angola \u00e9 um pa\u00eds fant\u00e1stico, cheio de encantos e pronto a ser descoberto. Gosto desta terra que me acolheu. 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