{"id":748,"date":"2008-08-21T00:00:38","date_gmt":"2008-08-20T23:00:38","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=748"},"modified":"2009-08-23T01:34:54","modified_gmt":"2009-08-23T00:34:54","slug":"a-caminho-de-ebanga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-caminho-de-ebanga\/","title":{"rendered":"A caminho de Ebanga"},"content":{"rendered":"<p>Perdida nos confins do munic\u00edpio de Ganda, a caminho de nenhures, h\u00e1 uma pequena povoa\u00e7\u00e3o que, tal como muitas outras, j\u00e1 teve dias melhores. Rodeada pelos campos f\u00e9rteis do celeiro de Angola, foi um importante centro agr\u00edcola. Depois veio a guerra\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nGuardando a \u00e1gua<\/p>\n<p>Hoje em dia, as fazendas foram abandonadas e o seu estado de ru\u00edna \u00e9 um espelho do que acontece nos campos. A agricultura ainda \u00e9 quase de subsist\u00eancia e a falta de acessos dificulta o escoamento dos produtos.<\/p>\n<p>A falta de dinheiro, de produtos e da vontade de resistir a uma guerra intermin\u00e1vel obrigou a que fechassem as cantinas, onde se vendia tudo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAntigo chafariz<\/p>\n<p>O colono partiu para Portugal, na maior ponte a\u00e9rea de sempre. Foi recebido como <em>retornado<\/em>, essa palavra feia, que descreve algu\u00e9m que voltou onde nunca esteve. Deixou tudo para tr\u00e1s, levando consigo apenas as mem\u00f3rias e um esp\u00edrito aberto, diferente do metropolitano. Foi acusado, julgado e condenado pela crise que se instalou ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o. Alguns regressaram, mas j\u00e1 n\u00e3o tornaram \u00e0 terra que os viu nascer e crescer. Preferiram come\u00e7ar de novo. As fazendas e entrepostos ficaram abandonados e o tempo tratou do resto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee3.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nDo tempo do colono<\/p>\n<p>Antes da guerra destruir a ponte sobre o Rio Cov\u00f4mbua, Ebanga ficava a meio caminho entre Ganda e Balombo, a norte. Agora, a \u00fanica estrada que a liga ao mundo vai-se mantendo em funcionamento apenas por necessidade absoluta. S\u00f3 mesmo a amea\u00e7a de minas \u00e9 que impede que se abandone a pista esburacada e se circule no capim das bermas. Quase toda a gente anda a p\u00e9. N\u00e3o h\u00e1 dinheiro para transportes p\u00fablicos. Ali\u00e1s, nem h\u00e1 transportes p\u00fablicos. As frotas de t\u00e1xis privados, pequenas motorizadas, circulam todo o dia para tr\u00e1s e para a frente. Tanto condutor como passageiro levam os p\u00e9s de lado, para evitar um tombo quando se passa em areia. Ao contr\u00e1rio de Luanda, onde o pre\u00e7o da viagem nos candongueiros \u00e9 de 50 Kz, aqui n\u00e3o se faz uma viagem por menos de 200 Kz. Nas motorizadas transportam-se duas ou tr\u00eas pessoas, mais a carga.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee4.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n\u00c0 espera do t\u00e1xi<\/p>\n<p>Ao longo desta estrada v\u00e3o aparecendo pequenas placas assinalando uma povoa\u00e7\u00e3o escondida na mata. Estas aldeias desapareceram durante a guerra. As suas lavras e caminhos foram minados ou ocupadas por ex\u00e9rcitos com fome. A paz fez com que as pessoas voltassem e reconstru\u00edssem as casas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee5.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nNuma clareira na mata, fica Mussili<\/p>\n<p>Naquele que foi o reduto da <em>UNITA<\/em> durante a \u00faltima guerra, a sensa\u00e7\u00e3o que temos \u00e9 que todas as aldeias e povoa\u00e7\u00f5es ostentam a bandeira do <em>MPLA<\/em>. Mas quem julgar que se trata apenas do hastear da bandeira do vencedor para evitar suspeitas de lealdade, um pouco \u00e0 semelhan\u00e7a de ter uma fotografia do Oliveira Salazar na parede, desengane-se. De vez em quando aparece uma bandeira da <em>UNITA<\/em>. Se os vizinhos com convic\u00e7\u00f5es diferentes se conseguem entender, n\u00e3o vejo porque o resto do pa\u00eds n\u00e3o o far\u00e1.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee6.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAldeia <em>MPLA<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>Nalguns s\u00edtios hasteia-se a bandeira angolana, mas as suas semelhan\u00e7as com a do <em>MPLA<\/em> n\u00e3o passam despercebidas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee7.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAldeia <em>UNITA<\/em><\/p>\n<p>As cores nacionais s\u00e3o motivo de orgulho dos angolanos. Qualquer pretexto \u00e9 bom para usar uma bandeira, um cachecol ou uma camisa preta, vermelha e amarela.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee8.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nFuturo de Angola<\/p>\n<p>Regressemos \u00e0 estrada\u2026<\/p>\n<p>Grande parte do caminho \u00e9 feita ao longo dos eucaliptais plantados para abastecer o caminho-de-ferro de Benguela. Hoje em dia v\u00e3o sendo explorados para madeira e para as pontes de toros que permitem manter a estrada em funcionamento quando as ribeiras s\u00e3o mais profundas. As matas j\u00e1 se come\u00e7aram a misturar com os eucaliptos, aproveitando as clareiras deixadas pelo abate ou pelas queimadas descontroladas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee9.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nO abra\u00e7o<\/p>\n<p>Muito de vez em quando cruzamo-nos com um autom\u00f3vel. Uma carrinha de caixa aberta carregada de gente e haveres. Um t\u00e1xi a passo de caracol, que regateia todas as corridas e transporta muito mais carga do que a idade da Hiace levaria a supor.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee10.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nRegateando a corrida<\/p>\n<p>As termiteiras servem de marcos quilom\u00e9tricos. Assinalam a for\u00e7a da terra, cheia de vida, que n\u00e3o desiste. Resistem \u00e0s queimadas, \u00e0s guerras e \u00e0 obstina\u00e7\u00e3o do homem em querer mais do que precisa. Ficar\u00e3o c\u00e1 bem depois de partirmos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee11.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nA cidade das t\u00e9rmitas<\/p>\n<p>Pouco antes de chegar a Ebanga, avistamos a antiga Miss\u00e3o. Foi abandonada h\u00e1 muitos anos, como seria de esperar. Alguns edif\u00edcios est\u00e3o em estado avan\u00e7ado de ru\u00edna, outros foram reconvertidos para outras utiliza\u00e7\u00f5es. Uma escola prim\u00e1ria nova surgiu ao lado do velho edif\u00edcio. O templo resiste.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee12.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nMarcas do passado<\/p>\n<p>Os grandes mon\u00f3litos gran\u00edticos que dominam a paisagem n\u00e3o s\u00e3o est\u00e9reis como aparentam. As suas faces rochosas quase nuas, escondidas atr\u00e1s de um fino vestido de l\u00edquenes, s\u00e3o a verdadeira riqueza da regi\u00e3o. \u00c9 l\u00e1 no alto que surgem as nascentes que alimentam os cursos de \u00e1gua e permitem a agricultura nas plan\u00edcies. De uma fenda na rocha jorra a \u00e1gua com for\u00e7a. De um <em>vulc\u00e3o<\/em>, dizem os locais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee13.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Vulc\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Com mais \u00e1gua dispon\u00edvel, os campos t\u00eam mais gente e s\u00e3o mais tratados. \u00c0 volta das ribeiras aparecem alguns pomares e planta\u00e7\u00f5es de batata-doce. Nas encostas mais acima planta-se mandioca e ananases.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee14.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nVendo o tempo a escorrer<\/p>\n<p>O milho alterna com os bananais. Quase todos os lavradores s\u00e3o velhos. Noutra qualquer parte de Angola seriam <em>mais-velhos<\/em>. Mas aqui n\u00e3o h\u00e1 muitos <em>mais-novos<\/em> para fazer a compara\u00e7\u00e3o. T\u00e3o longe de tudo, s\u00e3o poucas os jovens que ficam nas lavras.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee15.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Paula<\/em> e <em>Puto Basta<\/em>, a s\u00e9rio<\/p>\n<p>No meio das queimadas v\u00e3o surgindo pequenos formigueiros que se assemelham a cogumelos. Na pr\u00f3xima \u00e9poca haver\u00e1 uma planta\u00e7\u00e3o naquele talh\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee16.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nNascem como cogumelos, literalmente<\/p>\n<p>Finalmente chegamos a Ebanga. J\u00e1 se avista o edif\u00edcio da Administra\u00e7\u00e3o no cimo da encosta. Durante a guerra foi entaipado e remodelado pela for\u00e7a das circunst\u00e2ncias. Hoje cumpre a sua fun\u00e7\u00e3o com a dignidade poss\u00edvel, em grande parte emprestada pela bandeira.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee17.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nA Administra\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O edif\u00edcio, do tempo do colono, reunia todas as condi\u00e7\u00f5es para receber algu\u00e9m habituado a confortos da metr\u00f3pole. Um po\u00e7o, um chafariz, uma piscina. Actualmente, o po\u00e7o est\u00e1 atulhado e o chafariz seco. A piscina j\u00e1 n\u00e3o recebe \u00e1gua do <em>vulc\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee18.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nMarcas de um tempo que j\u00e1 passou<\/p>\n<p>As constru\u00e7\u00f5es tradicionais fazem-nos esquecer tempos idos e relembram que Ebanga \u00e9 um local bem africano, onde ainda se depende da terra tanto para alimento como para abrigo. O seu isolamento tornou-a auto-suficiente em muitos aspectos. O corte das vias de comunica\u00e7\u00e3o impediu a importa\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas construtivas novas, que implicariam a compra de materiais do exterior, empobrecendo ainda mais as popula\u00e7\u00f5es e, numa terra onde tudo \u00e9 importado, o pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee19.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCasas e espigueiros<\/p>\n<p>Ebanga pareceu-me um cantinho do Para\u00edso, depois de olvidar que est\u00e1 assim gra\u00e7as ao sofrimento de gera\u00e7\u00f5es. \u00c9 curioso como o Purgat\u00f3rio de muitos pode ser agrad\u00e1vel para outros.<\/p>\n<p>Com a reabilita\u00e7\u00e3o do caminho-de-ferro e das estradas que ligam \u00e0 costa, toda esta regi\u00e3o se prepara para voltar a ser um centro agr\u00edcola, porque o futuro de Angola n\u00e3o passa por uma juventude a conduzir t\u00e1xis. \u00c9 preciso reduzir as importa\u00e7\u00f5es e aumentar a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Nota mental: Caramba, acho que a campanha eleitoral me est\u00e1 a afectar. Acabei de resumir, numa frase, os programas de governo de todos os partidos\u2026<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>Chegou a hora da despedida. \u00c9 altura de voltar a Luanda. Voltarei? N\u00e3o sei. Passaria, de bom grado, mais uns dias a tentar conhecer as pessoas e a terra, mas a vida n\u00e3o o permite.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/081908-1415-acaminhodee20.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAt\u00e9 breve<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perdida nos confins do munic\u00edpio de Ganda, a caminho de nenhures, h\u00e1 uma pequena povoa\u00e7\u00e3o que, tal como muitas outras, j\u00e1 teve dias melhores. Rodeada pelos campos f\u00e9rteis do celeiro de Angola, foi um importante centro agr\u00edcola. 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