{"id":769,"date":"2008-08-25T00:00:05","date_gmt":"2008-08-24T23:00:05","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=769"},"modified":"2011-10-05T11:31:46","modified_gmt":"2011-10-05T10:31:46","slug":"acambarcamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/acambarcamento\/","title":{"rendered":"A\u00e7ambarcamento"},"content":{"rendered":"<p>O abastecimento de g\u00e9neros \u00e9 muito complicado em Angola. \u00c0 excep\u00e7\u00e3o de alguns artigos, quase tudo o resto \u00e9 importado. Anos de guerra criaram uma depend\u00eancia atroz do exterior e das importa\u00e7\u00f5es. Os produtos chegam \u00e0s lojas apenas de tanto em tanto tempo. Isso faz com que nunca se saiba bem o que se pode comprar a dado momento.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes vamos ao Jumbo fazer compras para algumas semanas ou procurar algum produto que esteja demasiado caro no supermercado da esquina. Temos sempre surpresas. O que vimos encher corredores inteiros na visita anterior, agora est\u00e1 esgotado e n\u00e3o se sabe quando vem mais. Quando temos marcas concorrentes que possam substituir, n\u00e3o h\u00e1 problema, mas \u00e0s vezes ficamos mesmo sem escolha.<\/p>\n<p>O tecido industrial angolano, talvez por ainda estar a sair do tear, tem dificuldades em abastecer o mercado. N\u00e3o \u00e9 raro que marcas de manteiga ou iogurtes angolanos esgotem durante umas semanas. A \u00e1gua engarrafada nacional sofre do mesmo problema.<\/p>\n<p>Produtos tradicionais, como o \u00f3leo de palma, t\u00eam de ser importados de Singapura porque a produ\u00e7\u00e3o nacional n\u00e3o \u00e9 suficiente.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/082208-1914-aambarcamen1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nPara a Muamba<\/p>\n<p>Por isso, s\u00f3 h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o. A\u00e7ambarcar. Sempre que se encontra um produto que se consome habitualmente, compra-se uma quantidade absurda. N\u00e3o sabemos quando vai haver mais. \u00c9 preciso ver as datas de validade e fazer umas contas de cabe\u00e7a para ver se ainda vai estar bom quando se estiver a acabar este lote. Puxa-se o carrinho para perto da prateleira e atesta-se.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/082208-1914-aambarcamen2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nLactic\u00ednios<\/p>\n<p>Mesmo os produtos que se compram de m\u00eas a m\u00eas podem estar muito tempo esgotados, por isso \u00e9 bom ter reservas\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/082208-1914-aambarcamen3.jpg\" alt=\"Produtos em duplicado e triplicado\" \/><br \/>\nEm duplicado e triplicado<\/p>\n<p>Como toda a gente o faz, os produtos esgotam-se cada vez mais depressa. Quanto mais se importa, mais se a\u00e7ambarca. \u00c9 um ciclo vicioso, mas \u00e9 assim que funciona\u2026<\/p>\n<p>Nas lojas, quase todos os produtos frescos s\u00e3o muito caros. \u00c9 normal encontrar tomates a 10\u20ac por kilo. S\u00e3o tomates importados que chegaram a Angola em contentores refrigerados. Na terra do marisco pode-se comprar camar\u00e3o congelado, de baixa qualidade, a pre\u00e7o de lagosta fresca na Europa\u2026<\/p>\n<p>Para os congelados n\u00e3o temos muita escolha. At\u00e9 nas ruas vemos vender frango congelado importado. Para os hort\u00edcolas, j\u00e1 descobrimos que em vez de reclamar do pre\u00e7o, mais vale ir directamente \u00e0 fonte. Vamos \u00e0s lavras ou \u00e0s bancas fora do centro e compramos tomates, batatas e fruta a pre\u00e7os quase angolanos.<\/p>\n<p>As <em>zungueiras<\/em>, que \u00e9 o nome que se d\u00e1 \u00e0s vendedoras ambulantes, costumam abastecer-se nos arrabaldes de Luanda. Aproveitamos as escapadelas para fora do bul\u00edcio da cidade e fazemos o mesmo. \u00c0s vezes somos surpreendidos. Quando estamos dispostos a regatear at\u00e9 aos 500 Kz por um balde de tomates que custaria 800 Kz perto do centro, supondo que nos v\u00e3o pedir 600 Kz, prop\u00f5em-nos apenas 400 Kz. Ficamos desarmados. Acabamos por levar muito mais coisas que o previsto, mas gastamos menos. Ficamos contentes por ter sido a um pre\u00e7o justo e, especialmente, porque o dinheiro foi para as gentes da terra e n\u00e3o para a empresa estrangeira.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/082208-1914-aambarcamen4.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>M\u00e3e<\/em> Lucinda<\/p>\n<p>Como a escassez de balan\u00e7as \u00e9 semelhante \u00e0 de todos os outros produtos, as transac\u00e7\u00f5es fazem-se em unidades de volume. Para batatas, cebolas, tomates e similares, a unidade b\u00e1sica \u00e9 o balde. Costumam ter cerca de cinco litros de capacidade. Para n\u00e3o haver d\u00favidas quanto at\u00e9 onde se enche o balde, tem de ficar <em>cogulo<\/em>. N\u00e3o se pode l\u00e1 meter mais nada. \u00c9 claro que a vendedora h\u00e1bil j\u00e1 sabe como h\u00e1-de empilhar os g\u00e9neros para poupar um ou dois por balde.<\/p>\n<p>Se um balde for muito, faz-se uma pilha com quatro ou cinco unidades. A fruta costuma ser vendida assim.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/082208-1914-aambarcamen5.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nA unidade \u00e9 a pilha<\/p>\n<p>A maioria dos produtos \u00e9 de produ\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ou comprada nos mercados de prov\u00edncia. Geralmente t\u00eam bom aspecto. Quase sempre melhor que os das coisas do supermercado. Somos f\u00e3s!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O abastecimento de g\u00e9neros \u00e9 muito complicado em Angola. \u00c0 excep\u00e7\u00e3o de alguns artigos, quase tudo o resto \u00e9 importado. Anos de guerra criaram uma depend\u00eancia atroz do exterior e das importa\u00e7\u00f5es. Os produtos chegam \u00e0s lojas apenas de tanto em tanto tempo. 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