{"id":780,"date":"2008-08-27T00:00:24","date_gmt":"2008-08-26T23:00:24","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=780"},"modified":"2009-09-05T23:33:43","modified_gmt":"2009-09-05T22:33:43","slug":"fronteira-da-fuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/fronteira-da-fuba\/","title":{"rendered":"Fronteira da fub\u00e1"},"content":{"rendered":"<p>Durante s\u00e9culos, o territ\u00f3rio conhecido por Angola teve umas fronteiras indefinidas. Angola era a extens\u00e3o de costa entre os rios Zaire e Cunene, que se prolongava para o interior do continente at\u00e9 chegar a Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p>Os portugueses, essencialmente comerciantes, concentravam-se junto \u00e0 costa. As vias de comunica\u00e7\u00e3o com o interior eram dif\u00edceis. A partir do s\u00e9culo XIX, come\u00e7aram a estabelecer-se entrepostos cada vez mais para o interior, sendo que o mais importante era o do comerciante Silva Porto. Este comerciante alojou o explorador Livingstone durante uma das suas viagens. N\u00e3o gostaram um do outro. O ingl\u00eas achou o portugu\u00eas atrasado e o portugu\u00eas achou o ingl\u00eas com a mania das superioridades.<\/p>\n<p>Com a expans\u00e3o do imp\u00e9rio colonial Ingl\u00eas, que pretendia unir o Cairo \u00e0 cidade do Cabo com possess\u00f5es inglesas, foi necess\u00e1rio definir as, ainda difusas, fronteiras orientais de Angola. A presen\u00e7a portuguesa no interior refor\u00e7ou-se e foram efectuadas explora\u00e7\u00f5es cimentar o conhecimento do territ\u00f3rio. Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens efectuaram miss\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o de Angola a Mo\u00e7ambique, cartografando novas terras. O ultimato ingl\u00eas impediu o mapa cor-de-rosa, que unia Angola a Mo\u00e7ambique e acabou por dar origem ao Hino Nacional\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/082308-0944-fronteirada1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nHermenegildo Capelo e Roberto Ivens passaram a ser um \u00fanico explorador<\/p>\n<p>O crit\u00e9rio de ocupa\u00e7\u00e3o efectiva, em detrimento da ocupa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, estabelecido na Confer\u00eancia de Berlim de 1885, deu origem \u00e0s fronteiras actuais de Angola, tra\u00e7adas a r\u00e9gua e esquadro numa mesa alem\u00e3, desrespeitando as fronteiras naturais e sociais existentes.<\/p>\n<p>As fronteiras n\u00e3o coloniais sempre foram male\u00e1veis e definidas pela esfera de influ\u00eancia das v\u00e1rias tribos ou por acidentes naturais importantes. As l\u00ednguas faladas em determinadas regi\u00f5es eram os verdadeiros marcos fronteiri\u00e7os. Actualmente, essas fronteiras t\u00eam vindo a desaparecer. A implanta\u00e7\u00e3o do Portugu\u00eas como l\u00edngua oficial criou um sentimento de unidade nacional que reflecte as fronteiras de Berlim. Se, na prov\u00edncia, \u00e9 habitual ouvir os dialectos locais, nas cidades o Portugu\u00eas \u00e9 omnipresente. Muitos angolanos j\u00e1 s\u00f3 falam Portugu\u00eas e n\u00e3o sabem a l\u00edngua dos pais.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 fronteiras que nunca desaparecem. Ao longo de Angola, h\u00e1 uma linha difusa, muito tortuosa, que serpenteia por montes e vales e \u00e9 indiferente a tribos e dialectos, a ricos e pobres. Eu chamo-lhe a fronteira da <em>Fub\u00e1<\/em>.<\/p>\n<p>Em Angola, a base da alimenta\u00e7\u00e3o consiste em dois tipos de farinha, a <em>fub\u00e1<\/em>. Usa-se <em>fub\u00e1<\/em> de milho ou <em>fub\u00e1<\/em> de <em>bomb\u00f3<\/em>, isto \u00e9, mandioca. Quem come milho diz que a outra n\u00e3o presta e vice-versa. De norte a sul do pa\u00eds se faz <em>funge<\/em> com uma ou outra e h\u00e1 sempre discuss\u00e3o acerca de qual o melhor.<\/p>\n<p>A fronteira original era definida apenas pelas condi\u00e7\u00f5es climat\u00e9ricas. A mandioca n\u00e3o se d\u00e1 em todo o lado e demora bastante tempo a crescer. O milho precisa de ser regado e permite colheitas mais regulares. No interior ainda \u00e9 assim que se determina onde passa a linha de demarca\u00e7\u00e3o. Nas cidades, apesar da migra\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es, da mistura dos povos e da perda das l\u00ednguas tradicionais, h\u00e1 h\u00e1bitos que n\u00e3o perdem. N\u00e3o se usa a outra <em>fub\u00e1<\/em>. A fronteira torna-se tortuosa, contornando bairros, casas e pratos. A qualquer momento muda e, sem darmos por isso, estamos do lado errado. Felizmente que as disputas fronteiri\u00e7as se resumem a um &#8220;N\u00e3o sei como consegues comer isso&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante s\u00e9culos, o territ\u00f3rio conhecido por Angola teve umas fronteiras indefinidas. Angola era a extens\u00e3o de costa entre os rios Zaire e Cunene, que se prolongava para o interior do continente at\u00e9 chegar a Mo\u00e7ambique. Os portugueses, essencialmente comerciantes, concentravam-se junto \u00e0 costa. As vias de comunica\u00e7\u00e3o com o interior eram dif\u00edceis. 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