{"id":806,"date":"2008-08-29T00:00:53","date_gmt":"2008-08-28T23:00:53","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=806"},"modified":"2009-09-05T23:17:52","modified_gmt":"2009-09-05T22:17:52","slug":"mas-que-las-hay-hay","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/mas-que-las-hay-hay\/","title":{"rendered":"Mas que las hay, hay"},"content":{"rendered":"<p>Uma das principais diferen\u00e7as entre o europeu e o africano \u00e9 rela\u00e7\u00e3o que cada um mant\u00e9m com as for\u00e7as que regem a Terra.<\/p>\n<p>Por estas paragens, n\u00e3o se pergunta se se acredita em feiticeiros ou n\u00e3o. Eles existem. Ponto final. A grande quest\u00e3o \u00e9 mesmo se um dado feiticeiro \u00e9 suficientemente poderoso para nos ajudar ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Explicaram-me que h\u00e1 feiticeiros capazes de grandes magia, branca e negra. T\u00eam sempre o cuidado de referir que a negra \u00e9 a magia m\u00e1, a que faz sofrer as pessoas. Depois perguntam-me porque se associa a maldade ao negro&#8230; ser\u00e1 que tem a ver com a cor da pele? L\u00e1 tenho de explicar que n\u00e3o, a magia m\u00e1 j\u00e1 era negra antes dessa mania de associar todos os males a \u00c1frica.<\/p>\n<p>Quem sabe por onde anda, tenta evitar determinadas ruas. L\u00e1 vivem feiticeiros poderosos, sem grandes escr\u00fapulos, que conseguem fazer desaparecer o dinheiro dos bolsos das pessoas tocando-lhes na roupa com um len\u00e7o. Para mim, ocidental cartesiano, deve haver algum truque. Para o africano, \u00e9 algo que acontece e cuja \u00fanica explica\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo a magia poderosa. O dinheiro desaparece e pronto.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o apenas as pessoas menos instruidas, segundo os princ\u00edpios ocidentais, que acreditam nos poderes dos feiticeiros tradicionais. Na Nig\u00e9ria, altos quadros de empresas petrol\u00edferas t\u00eam sido envolvidos em esc\u00e2ndalos de desvio de fundos para feiticeiros. Os processos do mundo ocidental podem sempre ser agilizados com a ajuda das for\u00e7as an\u00edmicas de todo um continente. Geralmente acabam por desaparecer alguns milh\u00f5es de d\u00f3lares, juntamente com um feiticeiro. N\u00e3o estou a par dos resultados&#8230;<\/p>\n<p>Os feiti\u00e7os passam de pais para filhos. S\u00e3o parte fundamental da tradi\u00e7\u00e3o oral africana. As hist\u00f3rias s\u00e3o sustentadas pelas magias dos feiticeiros lend\u00e1rios, capazes das maiores maravilhas.<\/p>\n<p>Os guerreiros que combatiam sem medo da balas faziam-no porque acreditavam absolutamente nos poderes do feiticeiro. Quem n\u00e3o acreditasse certamente seria atingido.<\/p>\n<p>Quando as coisas n\u00e3o correm bem, a culpa ser\u00e1 certamente de um feiti\u00e7o mal-intencionado e procura-se o respons\u00e1vel. Na Tanz\u00e2nia s\u00e3o os albinos quem paga as favas, com culpas ou n\u00e3o. Em Angola tamb\u00e9m h\u00e1 muitos albinos com fama de serem feiticeiros. Dizem que, como t\u00eam de passar mais tempo abrigados do Sol, v\u00e3o aprendendo os conhecimentos mais obscuros com os <em>mais-velhos<\/em>. Para os lados da Guin\u00e9, um rec\u00e9m-nascido albino \u00e9 deixado numa encruzilhada fora da aldeia, logo na primeira noite.<\/p>\n<p>Os melhores feiticeiros trabalham com for\u00e7as inexplic\u00e1veis e s\u00e3o capazes de desafiar as leis que regem o mundo ocidental. Muitos asseguram ser capazes de voar de um continente para o outro usando apenas uma casca de ginguba. Prometem apresentar provas aos mais desconfiados, mas a magia n\u00e3o funciona com os c\u00e9pticos. Desaparecem sem deixar rasto, nunca chegando a esclarecer se a casca \u00e9 de amendo\u00edm torrado ou cru. Ser\u00e3o aqueles que desaparecem das terras nigerianas?<\/p>\n<p>Um ocidental assume que o desaparecimento do feiticeiro \u00e9 a prova da do logro, mas um africano tem a certeza de que se tornou invis\u00edvel apenas por falta de f\u00e9 da nossa parte. Pior cego \u00e9 aquele que n\u00e3o quer ver.<\/p>\n<p>As cren\u00e7as tradicionais e animistas est\u00e3o t\u00e3o enraizadas que se sobrep\u00f5em a tudo o resto. Tive um professor Et\u00edope que me deu um exemplo vivido por ele. Tentando explicar uns fragmentos da cultura Oromo e Amara, as duas principais etnias et\u00edopes, contou que, quando era pequeno, acompanhou muitas vezes o pai, pastor evang\u00e9lico,\u00a0nas suas viagens. Lembrava-se de ver as pessoas mais simples lan\u00e7ar algumas ervas \u00e0 \u00e1gua e pedir protec\u00e7\u00e3o \u00e0s for\u00e7as da natureza antes de atravessar um rio. Achou estranho ver o pai fazer o mesmo. Como estava na idade das perguntas confrontou o pai acerca do seu comportamento. Afinal de contas, era um pastor crist\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00ab<em>H\u00e1 coisas que nem Deus explica. Se queremos atravessar em seguran\u00e7a, temos de ter a natureza do nosso lado. Faz como eu.<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>O Mist\u00e9rio da F\u00e9 aplica-se n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 transmuta\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e do vinho&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/290808-0000-masquelashay1.jpg\" alt=\"Transmuta\u00e7\u00e3o ortogr\u00e1fica\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nTransmuta\u00e7\u00e3o das letras<\/p>\n<p>Por muito que conhe\u00e7amos as tradi\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as dos povos, nunca as poderemos compreender totalmente. Falta-nos a viv\u00eancia desde a idade em que aprendemos como funciona o mundo. Nunca haver\u00e1 um ocidental a acreditar na veracidade de todos os relatos de feiti\u00e7os, mesmo que seja o maior especialista na \u00e1rea. Duvidar\u00e1 sempre e tentar\u00e1 explicar as coisas de outro modo, mais adequado \u00e0s suas pr\u00f3prias cren\u00e7as. \u00c9 quase como ver um ocidental budista. Pode conhecer todos os ritos, todos os prov\u00e9rbios e toda a m\u00edstica associada ao budismo. Pode at\u00e9 ser um praticante ac\u00e9rrimo e um defensor incans\u00e1vel, mas, por muito que tente, nunca ser\u00e1 budista. Faltar-lhe-\u00e1 sempre o crescer dentro do budismo, de aprender aquilo que n\u00e3o se pode ensinar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das principais diferen\u00e7as entre o europeu e o africano \u00e9 rela\u00e7\u00e3o que cada um mant\u00e9m com as for\u00e7as que regem a Terra. Por estas paragens, n\u00e3o se pergunta se se acredita em feiticeiros ou n\u00e3o. Eles existem. Ponto final. 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