{"id":85,"date":"2008-06-20T20:08:11","date_gmt":"2008-06-20T19:08:11","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=85"},"modified":"2009-07-18T15:48:53","modified_gmt":"2009-07-18T14:48:53","slug":"temas-recorrentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/temas-recorrentes\/","title":{"rendered":"Temas recorrentes"},"content":{"rendered":"<p>Hoje o dia foi mais calmo e tenho a oportunidade de escrever acerca daquelas pequenas coisas que foram sendo relegadas pela <em>quantidade<\/em> de Luanda que me tem entrado pelos olhos.<\/p>\n<p>Numa das visitas aos musseques dei por mim a pensar que em Portugal tinha trabalhado em ruas semelhantes aquela onde seguia. Com tanto lixo e mis\u00e9ria como na angolana. Os bairros degradados, quer de lata, quer de tijolo s\u00e3o iguais em todo o lado. A principal diferen\u00e7a \u00e9 que em Portugal sei que se andar umas centenas de metros numa dada direc\u00e7\u00e3o, saio do bairro e entro numa zona, n\u00e3o digo que normal, nem civilizada, mas menos miser\u00e1vel. Aqui anda-se quil\u00f3metros e a mis\u00e9ria mant\u00e9m-se. Vai apenas variando a sua tonalidade.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Portugal, aqui os cheiros esbatem-se. Apesar de haver muito lixo nas ruas e dos esgotos correrem a c\u00e9u aberto, n\u00e3o se pode dizer que cheire mal. \u00c9 certo que h\u00e1 s\u00edtios que emanam o seu fedor, mas o calor e a atmosfera equatorial fazem com que os cheiros passem despercebidos. N\u00e3o \u00e9 habitua\u00e7\u00e3o, porque estou c\u00e1 h\u00e1 t\u00e3o pouco tempo que n\u00e3o posso estar habituado. Os bairros de lata portugueses t\u00eam um cheiro caracter\u00edstico, causado pela perp\u00e9tua escorr\u00eancia de \u00e1guas de lavagem. A sapon\u00e1ria liberta um odor que se assemelha ao cheiro do detergente <em>Super<\/em><br \/>\n<em>Pop<\/em>. \u00c9 de tal maneira caracter\u00edstico, que s\u00f3 o cheiro deste detergente me faz lembrar bairros degradados. Talvez por ter um cheiro muito activo e ser barato, seja o preferido nos bairros de lata. Vai na volta s\u00e3o apenas coincid\u00eancias.<\/p>\n<p>Cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que a rela\u00e7\u00e3o do africano com o lixo \u00e9 apenas um reflexo de um choque civilizacional em grande escala. A rela\u00e7\u00e3o do africano tradicional com o lixo \u00e9 simples: todo o lixo \u00e9 biodegrad\u00e1vel. Come-se e o resto atira-se para um canto. Passado algum tempo o lixo desaparece. O grande problema acontece quando adopta um estilo de vida ocidental, e o lixo que produz j\u00e1 n\u00e3o se degrada, amontoa-se e n\u00e3o desaparece. A rela\u00e7\u00e3o com o lixo rege-se por princ\u00edpios com 10 000 anos mas aplica-se a lixo que s\u00f3 se inventou h\u00e1 100.<\/p>\n<p>Com a migra\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es das aldeias para os arrabaldes de Luanda, os comportamentos n\u00e3o se actualizaram. O lixo continuava a ser lixo e era tratado como tal. Infelizmente, muitas gera\u00e7\u00f5es nasceram rodeadas de montanhas de lixo e aquilo que choca o branco ocidental \u00e9 apenas a vida como ela \u00e9 para o africano. Desde que c\u00e1 cheguei j\u00e1 vi v\u00e1rias garrafas de cerveja vazias serem atiradas para o meio da estrada, onde se partiram. \u00c9 banal ver algu\u00e9m beber uma <em>Coca<\/em>&#8211;<em>Cola<\/em> e deixar cair a lata aos p\u00e9s. O lixo faz parte da vida. No centro de Luanda h\u00e1 contentores de lixo e uma recolha mais ou menos regular, o que n\u00e3o impede que haja lixo por todos os cantos. Nos musseques n\u00e3o h\u00e1 contentores, ponto final. Mas entre ir deitar o lixo fora no s\u00edtio apropriado ou deix\u00e1-lo cair ao ch\u00e3o, a hip\u00f3tese que vence \u00e9 a que der menos trabalho. De qualquer das formas, a recolha de lixo limita-se a transport\u00e1-lo para uma imensa lixeira&#8230;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062008-1954-temasrecorr1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nOs pintores de letreiros s\u00e3o todos artistas<\/p>\n<p>Os buracos nas estradas nascem mais depressa do que se conseguem reparar e mesmo nas zonas feitas de novo, rapidamente aparecem. O calor que torna o asfalto mais fluido, associado \u00e0s constantes travagens e mau estado das suspens\u00f5es degrada as estradas num instante. Fica-se com a sensa\u00e7\u00e3o que as rachas das paredes s\u00e3o tapadas com papel de parede\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062008-1954-temasrecorr21.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nO tr\u00e2nsito ca\u00f3tico e os candongueiros<\/p>\n<p>No dia em que visitei a Fortaleza de Luanda, achei que podia ver um resqu\u00edcio do passado em bom estado de conserva\u00e7\u00e3o. Afinal de contas \u00e9 l\u00e1 que est\u00e1 instalado o Museu Militar Central.<\/p>\n<p>\u00c0 entrada do forte h\u00e1 algumas pe\u00e7as de artilharia e dois avi\u00f5es do tempo da Guerra do Ultramar. Todas as pe\u00e7as mais destac\u00e1veis j\u00e1 foram retiradas, as outras foram estragadas. No entanto ainda se consegue perceber o que eram. Espalhadas por ali h\u00e1 v\u00e1rias est\u00e1tuas e pedras. Est\u00e3o l\u00e1 os marcos topon\u00edmicos que assinalavam a Avenida de Lisboa. Est\u00e3o l\u00e1 as est\u00e1tuas de Cam\u00f5es, de D. Afonso Henriques e de outras personagens ilustres da hist\u00f3ria Portuguesa. Algumas foram retiradas do interior da fortaleza, outras foram trazidas de Luanda.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que se passou nos pa\u00edses comunistas da Europa Central, onde destru\u00edram todas as est\u00e1tuas de Lenin e Stalin, aqui apenas se retiraram os s\u00edmbolos do colonizador do s\u00edtio. Pela maneira como est\u00e3o dispostas ou desmontadas, no caso das est\u00e1tuas de pedra, fiquei com a sensa\u00e7\u00e3o de que foram para ali levadas por n\u00e3o se saber o que fazer delas. O que representam n\u00e3o \u00e9 amado nem odiado. \u00c9 apenas indiferente.<\/p>\n<p>A \u00e2nsia por apagar os s\u00edmbolos portugueses passou tamb\u00e9m pelo rebaptismo de alguns arruamentos e povoa\u00e7\u00f5es. O curioso \u00e9 que o trabalho foi abandonado a meio e grande parte da topon\u00edmia subsiste.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062008-1954-temasrecorr31.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCom algumas excep\u00e7\u00f5es, as \u00fanicas placas topon\u00edmicas que se v\u00ea s\u00e3o as pr\u00e9-1975<\/p>\n<p>A Angola independente optou por esquecer 500 anos de hist\u00f3ria. Existe uma Angola africana at\u00e9 ao s\u00e9c. XV que d\u00e1 um salto para o dia 17 de Novembro de 1975, com um epis\u00f3dio a 4 de Fevereiro de 1961. Por muito que se negue, o passado n\u00e3o desaparece. Faz-me lembrar um cantinho \u00e0 beira-mar plantado que resolveu esquecer 50 anos da sua hist\u00f3ria recente.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062008-1954-temasrecorr41.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nN\u00e3o percebo a cara feia\u2026<\/p>\n<p>Ontem cheg\u00e1mos a casa e corria ar nos canos. N\u00e3o \u00e9 raro acontecer em Luanda por isso nem sequer foi surpresa. Fomos adiando o jantar \u00e0 espera da \u00e1gua. Acab\u00e1mos por desistir e fazer o jantar com as reservas que t\u00ednhamos. As faltas de \u00e1gua s\u00e3o cr\u00f3nicas. As roturas v\u00e3o acontecendo um pouco por toda a cidade. As canaliza\u00e7\u00f5es s\u00e3o antigas e a manuten\u00e7\u00e3o que sofrem resume-se a ir tapando buracos. Felizmente que as repara\u00e7\u00f5es s\u00e3o r\u00e1pidas (o que faz pensar que sejam um pouco atamancadas).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062008-1954-temasrecorr51.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCondom\u00ednio fechado da pra\u00e7a de touros<\/p>\n<p>As falhas no abastecimento el\u00e9ctrico tamb\u00e9m s\u00e3o cr\u00f3nicas e s\u00f3 com o recurso a geradores um pouco por toda a cidade se consegue um abastecimento mais ou menos regular. O nosso est\u00e1 sem gas\u00f3leo\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062008-1954-temasrecorr61.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>in:<\/em> <a title=\"SanzalAngola\" href=\"http:\/\/www.sanzalangola.com\/galeria\/album45\/Cedida_por_Rui_Ribeiro_8_001\" target=\"_blank\">Sanzala Angola<\/a><\/p>\n<p>Com a partida dos portugueses, todas as infra-estruturas foram nacionalizadas e ocupadas. A pra\u00e7a de touros que estava a ser constru\u00edda perto do aeroporto foi transformada em complexo habitacional. Tem ar de campo de concentra\u00e7\u00e3o provis\u00f3rio, mas moram l\u00e1 muitas fam\u00edlias. O pr\u00f3prio Hotel Katekero, no antigo Largo Serpa Pinto, est\u00e1 a ser usado como edif\u00edcio de apartamentos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062008-1954-temasrecorr71.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nParab\u00f3licas e roupa a secar na fachada do Hotel<\/p>\n<p>H\u00e1 uns dias perguntava-me acerca da hist\u00f3ria do refrigerante <em>Mission of California<\/em>. Julgo que j\u00e1 n\u00e3o se venda. Numa fotografia de 1970 j\u00e1 aparece a pintura na fachada do pr\u00e9dio em frente\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062008-1954-temasrecorr81.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>in:<\/em>\u00a0<a title=\"SanzalAngola\" href=\"http:\/\/www.sanzalangola.com\/galeria\/album45\/125_Largo_e_Rua_Serpa_Pinto_1970\" target=\"_blank\">Sanzala Angola<\/a><\/p>\n<p>Este fim-de-semana vou lavar os olhos a outras paragens. Talvez v\u00e1 almo\u00e7ar \u00e0 ilha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje o dia foi mais calmo e tenho a oportunidade de escrever acerca daquelas pequenas coisas que foram sendo relegadas pela quantidade de Luanda que me tem entrado pelos olhos. Numa das visitas aos musseques dei por mim a pensar que em Portugal tinha trabalhado em ruas semelhantes aquela onde seguia. 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