Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

25  09 2008

Sonhos de criança

Em Luanda há muitas crianças. Fazem parte da vida da cidade e enchem as ruas de sorrisos. As crianças angolanas têm sonhos modestos, mas genuínos e maravilhosos. Sonham uma vida melhor, sonham em ser crianças mais tempo, sonham não ter de trabalhar desde novos ou de ser mães antes de acabar a escola. Infelizmente, algumas deixam a infância muito cedo porque os angolanos mais pequenos e frágeis pagam com os sonhos os pecados dos adultos.

Enquanto são crianças, vivem os seus sonhos como podem, através das brincadeiras e das danças. Imaginam como será o mundo quando deixarem a infância ou prolongam as tradições orais com jogos e canções.


Uns sonham em ser condutores

Os brinquedos aparecem do que os rodeia. Na maior parte das vezes dos montes de lixo que se encontram a cada canto. Não é por isso que são menos felizes.


Outros já conduzem

Desde cedo que se assiste à segregação que se vai prolongar para o resto da vida. Meninas para um lado, meninos para o outro. Eles correm, puxam e fazem força num recreio do tamanho da cidade. Elas fazem pequenos grupos à porta de casa e saltam ao elástico ou cantam. Desde cedo que têm os irmãos mais novos a seu cargo…


Elas discutem o futuro

Eles são desconfiados. Se alguém lhes interrompe a brincadeira, fogem a sete pés. Elas fazem perguntas, muitas perguntas. Olham as pessoas de frente e regressam à brincadeira.


Ou ensinam os mais novos a jogar


24  09 2008

Unhas-de-fome

Os Portugueses andam sempre a contar os tostões. Ora por necessidade, lá no cantinho à beira-mar plantado, ora por hábito, porque a vida nunca foi fácil.

Mesmo em Angola damos por nós a fazer contas de cabeça aos preços de tudo. Regateamos quantias miseráveis e achamos tudo caro. No supermercado somamos os preços todos só para saber se podemos pagar com o dinheiro que levamos – é que o Multicaixa nem sempre funciona.

Dei por mim a maldizer um tubo de pasta de dentes, que se recusava a deixar-me usar as últimas gotas do dentífrico. Resmunguei que os preços andavam pela hora da morte e que não estava para pagar uma fortuna por um tubo novo. Depois lembrei-me que tinha trazido dois de Portugal… mesmo assim insisti e consegui lavar os dentes mais uma vez com o primeiro tubo. Toma!


Espremido até à última gota. Sou um unhas-de-fome


23  09 2008

Destino África-Cacém

O relógio marca 18:00, mais um dia de trabalho que chega ao fim (daqui a uns meses já não será bem assim), preparo-me para arrumar e regressar a casa.

Saío da empresa e no caminho até à estação de comboios, despeço-me da cidade, da sua azáfama, do seu corre-corre e da sua agitação. Amanhã regressarei.

Na estação de comboios, enquanto espero, lanço um último olhar sobre a cidade, a correria é muita, todos se preparam para regressar a casa, as filas de carros são intermináveis e todos querem chegar primeiro, uns apitam, outros protestam. O comboio chega e antes de entrar, ainda vejo a bandeira angolana que se agita ao vento, como quem diz adeus a quem parte, estou certa que poucos a viram.

Finalmente estou a caminho de casa, mais vinte minutos e chego a Agualva-Cacém.

Ao chegar à estação, apercebo-me que estou numa terra distante (ou será a mesma de sempre…), em que centenas de africanos, também regressam a casa dos seus trabalhos.

Uns passos mais à frente vejo zungueiras (e não são visões), umas vendem doces de côco, outras maçarocas de milho pronto a comer e maçarocas por cozinhar, umas vendem roupa interior, outras enchidos…

Por momentos, penso que saí no destino errado ou será que viajei numa casca de ginguba… vejo que não, estou no destino correcto e continuo o caminho até casa.

Chego finalmente a casa, depois de um dia de trabalho sabe bem o aconchego do lar. Vou à janela espreitar e vejo crianças a brincar e penso mais uma vez que estou em África…

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As brincadeiras

Na realidade estou em Portugal, mas o meu coração está em Angola e por isso a minha sensibilidade para esta realidade está mais desperta.

Amanhã é outro dia e sei que vou chegar à estação de Entrecampos e terei a bandeira de Angola a acenar como que a dizer “Bom dia Alegria!”


23  09 2008

O pó dos desvios

Numa das nossas voltinhas pelos arredores de Luanda, resolvemos ir até à praia.

Inesperadamente, a estrada que liga Luanda ao Sul estava cortada. O trânsito era desviado para umas estradas de terra que de estrada só tinham o nome. Pó por todos os lados. Carros que se contorciam a contornar os buracos, tentando não ficar atolados na areia fina. Vários quilómetros de pára-arranca. Os carros que habitualmente circulam na estrada de asfalto, aqui, todos juntos, parecem muitos mais do que realmente são.


Trânsito compacto

O pó que levantam faz desaparecer o horizonte. Obriga-nos a manter as janelas fechadas e ligar o ar condicionado. Está calor e passa muita gente de janela aberta. O suor escorre-lhes da cara e deixa riscos escuros numa pele coberta de pó branco. Quase parecem louros.

O pouco vento que há, arrasta o pó ao longo da estrada, mantendo tudo debaixo de uma névoa artificial que coa a luz do sol e muda a cor ao metal, ao vidro, às árvores e às pedras.


A espaços, os carros à nossa frente começam a desviar-se de perigos invisíveis. Umas vezes são valas fundas, outras são zonas de areia fina ou de buracos mais perigosos. Às vezes é um pesado que se materializa uns metros à nossa frente. Surge da poeira como se o pó se tivesse aglutinado naquele instante e assumisse a forma de um camião. Desviamo-nos também. Um pouco depois, o condutor atrás faz o mesmo. O camião passa e o carro da frente já foi engolido na nuvem que se segue…


Surpresa


22  09 2008

Fui ao Baeta!

Ao fim de alguns meses em Angola, dei por mim a olhar para o espelho e a ver uma coisa parecida com um Beatle. Um cometa, portanto.

Raros eram os dias em que acordassem sem ter o cabelo a imitar um desastre aéreo. Não havia pente ou água que ajudasse. E o remoinho no alto da cabeça tinha vida própria.

Só havia uma solução: cortar o cabelo. Mas onde?

Perguntei ao nosso guia, o tal Português que mata leões à bofetada, quanto custaria um corte de cabelo. Depende… nos barbeiros de rua, cerca de 1000 kz. No Hotel Trópico, onde têm umas meninas bonitas a cortar cabelo, 50 dólares.


Uma barbearia chamada Desejo

O mais barato é mais caro que em Portugal… estamos bonitos.

Quis o destino que me cruzasse com o zungueiro das 11h15, que vai da Mutamba à Maianga. Nesse dia, tal como nos outros, vendia máquinas de cortar cabelo.

«Quanto é?»
«1800»
«É caro…»
«Lá na loja custa 3000…»
«1200. Que dizes?»
«É pouco.»
«É p’ra negociar, yá?»
«Hmmm… 1500»
«Pode ser»

Será que os 300 Kz de desconto me faziam mossa no orçamento? Provavelmente não, mas regatear faz parte do negócio. Pelo que tenho visto, os preços propostos são cerca do dobro do custo. Da metade para cima é a margem do vendedor. Assim por alto, teve um lucro de 600 Kz.

Depois de carregada a máquina, deitei mãos à obra. A meio do trabalho tive uma certa pena da máquina, dó mesmo. Acho que nunca previram ter de vir a cortar arame…

 
Depois de muito esforço

Como o cabelo venceu várias vezes a carga da bateria, ainda andei a passear pela casa com um aspecto um pouco estranho. Meia cabeça cabeluda e a outra meia com o cabelo curto. Fui motivo de galhofa, claro.

Mas agora já pareço eu outra vez. E deixei de ter vontade de cantar Yé-yé-yé agarrado à escova de dentes, sempre que me vejo ao espelho


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