2
09
2010
Certas profissões foram, até há poucas décadas, quase hereditárias. Eram exercidas durante gerações pelas mesmas famílias, quer por necessidade, quer por condicionantes geográficas. Os pescadores são um bom exemplo.
Os meios pequenos e a imutabilidade do trabalho mantém vivas tradições antiquíssimas. Algumas quase adivinhamos serem velhas de milénios e remontarem a crenças de povos antigos que chegaram ao que hoje é Portugal.
A decoração dos barcos Fenícios só ficava completa com a pintura de um olho de cada lado da proa. O olho que protegeria a embarcação das tempestades. Ainda hoje, na Turquia e Líbano, é comum usar-se o símbolo do olho como amuleto. Em Portugal, por onde os Fenícios também passaram, ainda se encontram resquícios dessa tradição importada.
Bote com olhos
Talvez não seja feito com intenção, mas, ao pintar o barco, há pescadores que acham a proa demasiado despida e muitos optam por desenhar olhos ou símbolos semelhantes.
Em Porto Brandão, terra que sobrevive graças ao terminal fluvial e restaurantes, há alguns destes exemplos de superstições milenares desenhadas nas proas.
1
09
2010
Por vezes, o cumprimento escrupuloso das regras estabelecidas, roçando o excesso de zelo, é contra-producente. A sinalização vertical das estradas, por exemplo, é uma área onde nos deparamos com desperdício devido a uma interpretação demasiado literal das regras.
Em rotundas com muitas entradas, mas pouco movimento, encontramos autênticas cacofonias visuais, porque alguém entendeu que os sinais à direita de cada via deviam ser repetidos também à esquerda em todos os acessos.
Visão dupla
Aquilo que deveriam ser regras de circulação passou a ser uma distração, algo que nos prende a atenção sem ser pelas razões apropriadas. Os condutores chegam à rotunda e julgam ser um expositor de sinais de cedência de prioridade e sentidos giratórios.
Na verdade, talvez seja uma campanha da prevenção rodoviária, para fazer crer a quem bebeu que já está a ver a dobrar.
31
08
2010
Estava para escrever este artigo desde finais de Junho, altura em que me deparei com os arquivos da Quinta Nova abertos e o seu espólio a ser carregado para um grande contentor verde prenunciador de destruição. Fui adiando, até que uma reportagem do Público, relatando o facto consumado, o tornou inevitável.
A Quinta nova foi, durante anos, o viveiro da Junta Autónoma das Estradas (JAE). Na altura em que o Estado cuidava das estradas, era daqui que se transplantavam os loendros para os separadores das auto-estradas e as árvores para as bermas das estradas nacionais. Depois veio a febre das privatizações, de fazer dinheiro rápido ao concessionar a manutenção das estradas a privados por várias décadas, a um custo muito superior ao real e, acima de tudo, superior ao recebido.

Abandono
Pode-se argumentar de que assim a entidade estatal responsável pelas infra-estruturas rodoviárias é menos vulnerável à corrupção, situação que levou à extinção da JAE e criação de três novos organismos, com as mesmas pessoas e idênticos vícios. Na verdade, a corrupção a esse nível triplicou e foi acompanhada por corrupção mais refinada, em esferas mais altas, como prémio pelos excelentes negócios que as empresas fazem à custa do património estatal e que depois se orgulham de ter como presidentes honorários e directores de topo antigos ministros.

Abandono
Com a extinção da JAE, a Quinta Nova passou para as mãos das Estradas de Portugal (EP). O edifício principal sofreu obras profundas, para albergar a sede distrital da EP. Isto passou-se em 2007. Menos de dois anos volvidos e a propriedade foi abandonada, com a transferência da referida sede para Almada, numa manobra que só se pode chamar de criminosa para a Fazenda Pública.

Pedaço de memória
Para trás ficou um arquivo que remontava aos primórdios do Estado Novo, com documentos da década de 1930, onde se guardaram documentos importantes e outros, que talvez o pareçam menos agora, mas que seriam preciosos para historiadores futuros.

Relação de material abatido em Fevereiro de 1937
Poderá parecer um preciosismo fútil, desejar que se arquivem as requisições de material, os relatórios de acidentes de trabalho ou os mapas de trabalho de há um século, mas esta é a única maneira de preservar a memória e de poder rebater aqueles que dizem “Nunca antes se fez assim”. Destruir a memória é reescrever a História. Preservando apenas parte dos documentos, apaga-se parte do Passado, as fundações do Futuro.

Portugal enxovalhado
Talvez um relatório de abate de material possa parecer demasiado insignificante para se preservar, mas há que relembrar um episódio que mostra como as memória mais insuspeitas podem ser cruciais para a compreensão da História. Com a destruição da Casa da Índia no terramoto de 1755, perdeu-se grande parte dos documentos que relatavam as primeiras viagens ao longo da costa africana da expansão Portuguesa. Com base nos registos restantes, acreditava-se que o número de viagens fosse muito reduzido, mas tal noção foi desmentida quando se encontrou uma nota encomenda de várias toneladas de biscoito (bolachas grandes e duras para consumo no mar em viagens longas). Tamanha encomenda só pode significar que o número de expedições era muito maior que o indicado pelos documentos sobreviventes.
Dizem que parte dos documentos foi destruída e outra preservada. Que parte restou? Que critérios usaram? Quanto empobreceu a nossa memória?
30
08
2010
Para quem julga ser impossível maltratar a Língua Portuguesa mais do que já foi, com um acordo ortográfico cretino e outras aventuras, basta ler as traduções marteladas que os produtos chineses (importados via Espanha) têm nas suas embalagens.
Por vezes, penso que mais valia prescindir da rotulagem em Português, obrigatória por lei, a bem da Língua, porque tamanhas barbaridades são escusadas.
Há dias encontrei muitas destas pérolas que, apesar de menos absurdas que as de há uns anos, continuam a deixar-me os cabelos da nuca todos eriçados. Fotografei um par delas, representativas do lote.
A primeira é a tradução literal de Notebook Power Cable para um muito luso Cabo de Poder de Caderno. Pelo menos acertaram na ordem das palavras.
Traduzir não é só abrir o dicionário
A segunda pérola é a omissão no dicionário usado de uma tradução para Airproof, bem como a misteriosa transformação de um frasco em panela. O resultado é um frasco hermético confundido com uma panela de airproof. Sem a fotografia não tinha lá chegado.
Tradução imaculada
Mas o toque final foi a tradução de aço inoxidável, que de imaculado só tem a primeira acepção de Stainless. De Stainless Steel Item a Mercadoria de Aço Imaculada nem a concordância de género com mercadoria em vez de aço se aproveita. Será o frasco hermético?
29
08
2010
Os marcos de correios de ferro fundido dos anos cinquenta, espalhados por portugal e colónias. Simbolizavam não só o Estado, mas também a ligação ao mundo. Ainda hoje, na sua maioria, resistem ao tempo, mas começam a sofrer com a modernidade. Cada vez se escrevem menos cartas e, acima de tudo, os Correios passaram-nos a encarar como um empecilho em vez de missão. É preciso enviar alguém abrir os marcos e levar as, cada vez menos, cartas à estação. Um salário e combustível. Seria tão mais simpático se as pessoas se deixassem de mandar cartas e postais ou que as fossem entregar directamente na estação de correios mais próxima e que, de passagem, comprassem também um livro ou uma colecção de bordados típicos e um serviço Vista Alegre, convenientemente expostos na mesma.
São nove da manhã e a última recolha foi ontem. Deixo a carta?
Para desabituar as pessoas de usar os marcos e, a dada altura, poder justificar a sua venda para a sucata por falta de uso (e tanto ferro fundido deve valer uma fortuna), os CTT optaram por assustar as pessoas. Não coloque correio no marco, porque pode ser roubado.
Sinceramente, com a quantidade de cartas que se enviam por dia, o único ladrão que se lembraria de assaltar um marco do correio seria um coleccionador fanático de selos não carimbados. Mas isso daria mais trabalho e chatices do que ir comprá-los à estação. Já agora, trazia também uns discos de folclore queniano.
13
08
2010
Cresci perto de uma linha de caminho-de-ferro movimentada, com os combóios a fazer parte da vida desde pequeno. Das memórias mais antigas que tenho, é estar na estação de Torre da Gadanha, perto de Montemor-o-Novo. A fazer o quê só sei o que me contam, mas o certo é que já lá voltei e de imediato reconheci os cheiros da infância.
O creosote com que se impregnam as chulipas tem um cheiro característico, a que associo sempre aos combóios. Tal como o barulho que o balastro faz quando se caminha na linha, com as pedras a ajeitarem-se sob o nosso peso.
Tire-fonds na estação de Vale do Peso, Crato
Hoje em dia, as chulipas de madeira, corruptela fonética de sleeper, estão a ser substituídas por dormentes de betão, de mais fácil manutenção e mais adequados às velocidades elevadas dos combóios modernos. Aliás, de há uns anos para cá, a tecnologia ferroviária evoluiu muito e quase se pode dizer que a única coisa que se manteve foi o facto de os combóios ainda circularem sobre carris.
As travessas de madeira não perderam totalmente o seu préstimo, porque ainda são indispensáveis, pela sua flexibilidade e adaptabilidade, na montagem de aparelhos de mudança de linha.
Perdeu-se o cheiro e os tire-fonds, porque agora usam-se porcas e pernos roscados, mas ficou o barulho do balastro e a magnífica cor da ferrugem dos carris.