Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

11  03 2010

MinOP

Afonso Loureiro

Inicialmente projectado para bloco de escritórios, o Ministério das Obras Públicas é um dos mais emblemáticos edifícios da cidade. Situa-se no largo da Mutamba, junto do Ministério das Finanças e do Governo Provincial de Luanda.

MinOP
Visto da Rua Frederich Engels

Foi construído no final da década de 1960 e o seu arquitecto, Vasco Viera da Costa, foi o mesmo que desenhou o Mercado do Kinaxixi, demolido em 2008. Apenas as máquinas de ar-condicionado instaladas nos elementos da fachada lhe alteram a traça exterior original.

MinOP
Visto da Mutamba

É um dos pontos de referência da cidade, de aspecto inconfundível e visível de quase toda a baixa.


10  03 2010

Se Maomé não vai aos correios

Afonso Loureiro

Os Correios de Angola funcionam de uma forma pouco ortodoxa devido às circunstâncias especiais do próprio país. As moradas confusas, o desmoronar de estruturas e a aplicação da teoria angolana da resolução de problemas assim o ditam.

As empresas que querem entregar facturas, por exemplo, acabam por fazê-lo em mão, enviando um motorista fazer o serviço que competiria aos correios. É um desperdício de recursos, mas é a única maneira de garantir a entrega.

Quem quiser receber cartas necessita de arrendar uma caixa postal. De outra forma nunca receberá a correspondência. As empresas detêm quase o exclusivo dos apartados pois são as únicas que recebem correspondência em quantidade suficiente que justifique o custo do arrendamento. Mas as empresas costumam localizar-se nas zonas nobres das cidades, onde ainda há um resquício de toponímia, pelo que não seria de todo impossível que se lá entregasse correspondência, como num serviço de correios normal.

CTT
Correios, Telefones e Telégrafos

Cabe às empresas ir verificando os apartados para recolher a correspondência que entretanto tenha chegado, mas, como nem sempre se esperam cartas, podem-se passar meses entre cada visita. É nestas situações que tudo se torna um pouco surreal. Se a correspondência se for acumulando porque o destinatário não a vai recolher, os correios entregam-na.

A teoria angolana da resolução de problemas funciona. Quando a correspondência começa a ocupar demasiado espaço na estação de correios é mais fácil ir entregá-la ao cliente do que andar aos saltos por cima dos sacos. Pelo menos não se faz como no Cairo onde há a queima mensal do correio não entregue.

Proponho um novo lema: “Correios de Angola – Se não vem buscar, nós entregamos”.


03 2010

Um verdadeiro sucesso

Afonso Loureiro

Os números oficiais que comprovam o sucesso do CAN já saíram e não foi necessário invocar os argumentos habituais da beleza dos estádios, do orgulho nacional ou da prestação da equipa angolana para convencer os mais cépticos.

Uma das justificações para a organização do campeonato de futebol e a construção de estádios milionários era a necessidade de dar a conhecer Angola ao mundo e de receber turistas. Na altura toda a gente perguntou onde se iriam alojar esses milhares de turistas anunciados, com os hotéis por terminar e os existentes sobrelotados, mas com a dificuldade de obtenção de vistos que deixou muitos adeptos à porta dos consulados, o problema do alojamento foi resolvido.

Cerca de um mês depois do fim da competição o governo anunciou que os turistas tinham acorrido em massa. 5′000, para ser mais exacto. Cerca de um décimo da capacidade do estádio 11 de Novembro, em Luanda. Um sucesso, portanto.


03 2010

Dia da mulher

Afonso Loureiro

Um pouco por todo o mundo, o oitavo dia de Março é o Dia da Mulher. Na maior parte dos países é apenas um dia comemorativo como tantos outros.

Em Angola, e porque as mulheres são o motor económico do país, o Dia da Mulher é feriado nacional. Agradecem especialmente os homens por não terem de ir para o emprego. As mulheres continuam com a lida da casa.

Rainha Ginga
Símbolo da mulher angolana

Há exactamente um ano, no Dondo, o dia da Mulher calhou num Domingo. O feriado passaria para o dia seguinte, mas isso não impediu que uma dúzia de mulheres comemorasse a data indo almoçar ao restaurante em frente à estação.


03 2010

Higiene automóvel

Afonso Loureiro

Os luandenses adoram os seus carros. Mesmo as viaturas mais modestas têm autocolantes, aplicações de cromados, vidros escurecidos e um rádio a tocar bem alto. Tratam das máquinas como não tratam da cidade, mantendo-as limpas e bonitas.

Apesar de haver muita gente a quem não faz confusão nenhuma atirar lixo pela janela, há um verdadeira obsessão colectiva pela limpeza dos carros. Em qualquer esquina há alguém a lavar o carro a pano e, no centro de Luanda, há muitos rapazes que ganham a vida lavando carros com água que retiram das valetas ou de fugas da rede pública. Como é proibido lavar os carros na via pública, a fiscalização, quando não está ocupada a procurar máquinas de ar condicionado a pingar nos passeios, costuma esperar pelos donos para lhes aplicar a multa da lavagem indevida.

Albino a lavar um carro
Ganhando a vida

Na periferia florescem autênticas lavagens automáticas nos vaus dos rios que ainda marcam a paisagem. Com um gerador, uma bomba e uns metros de mangueira nasce um negócio lucrativo. Desde que haja água e gasóleo para o gerador não há mãos a medir para tanto cliente.

Os principais clientes são as frotas de candongueiros, porque os motoristas têm de entregar a carrinha lavada e atestada ao final do dia. Também não é invulgar encontrar carros da polícia e pesados nestes sítios.

Em virtude do clima e das condições da maioria das estradas de Luanda os preços praticados variam consoante a estação do ano. No Cacimbo, com muito pó, uma lavagem à beira-rio custa cerca de 500 Kz, mas com a lama do Verão o preço sobe para quase o dobro.


03 2010

Dos arquivos: O trânsito à luz da Lei da Selva

Afonso Loureiro

A vida selvagem africana consegue explicar muitas das regras que regem os comportamentos dos condutores luandenses. Impera a lei do mais forte ou do mais apto e ninguém pensa duas vezes no elo mais fraco.

Quando um predador é pressentido por uma das grandes manadas das chanas e savanas, todos os animais dispersam, fugindo do destino fatal a que estão condenadas as presas. Assim que a fera isola e persegue um único animal, geralmente o mais fraco ou azarado, todos os outros regressam à sua rotina. Enquanto o leão estiver a comer aquele bicho não perseguirá mais nenhum e a manada voltará a pastar no mesmo local, rodeando a refeição e os leões.

No trânsito de Luanda, comparando os condutores aos herbívoros que pastam e os polícias aos leões, assiste-se a um espectáculo semelhante. Os leões, neste caso, não querem devorar a presa e contentam-se com um refresco ou uma gasosa. Assim que os condutores pressentem ou avistam um polícia na berma e se sentem particularmente azarados, começam tentar a mudar para as faixas mais à esquerda e tornar-se invisíveis no meio da manada ou seguir imediatamente atrás de um veículo maior e ficar escondidos até ao último instante, altura em que é tarde demais para o polícia atacar. Se o polícia ferrou alguém, todos respiram de alívio e comportam-se como se nada fosse. Enquanto estiver a chegar a um entendimento com aquele cidadão os restantes estarão seguros.

Da mesma maneira que cada um apenas se preocupa com fugir a tempo dos predadores, também não tem grandes escrúpulos em fechar cruzamentos, fazer manobras ilegais ou perigosas, desde que chegue primeiro que os outros. Aliás, os espelhos retrovisores são mera decoração e apenas têm utilidade na altura de estacionar de marcha à ré. Cada um preocupa-se em não bater no carro da frente, porque controlar o carro que segue atrás é inútil. Todos sabem que ele fará o possível por não nos bater, desde que façamos o mesmo a quem nos procede. O hábito de ir espreitando o espelho nas mudanças de direcção perde-se porque todos sabem que se pode esperar tudo. Muda-se de faixa com a confiança de que os restantes condutores, se seguirem um palmo que seja atrás, arranjarão o espaço necessário para que o carro caiba. Talvez buzinem em protesto da manobra inesperada, mas há que encarar isso como um balido no meio do rebanho.

Candongueiro «Deus no céu bicho na terra» 
Lei da Selva

A Lei da Selva pode ser resumida a um simples «Eu por mim e os outros que se lixem!». Depois de se perceber que esta é a única regra verdadeiramente válida e cumprida nas estradas angolanas, torna-se bem mais fácil conduzir e saber o que esperar dos outros motoristas.

Uma das coisas que depressa se aprende é que os estacionamentos paralelos em marcha-atrás só são possíveis se se entrar de frente no lugar e depois voltar a sair para corrigir a manobra. Se alguém comete a ingenuidade de estacionar como mandam as regras, o mais certo é não poder recuar porque alguém se lhe colou à traseira. Ao ganhar meia-dúzia de metros de asfalto cumpriu o «Eu primeiro» da Lei da Selva, ao não facilitar a manobra cumpriu o «E os outros que se lixem!». O mesmo se passa nos cruzamentos que são trancados por uns com medo de que sejam trancados por outros. Quem atravessa o carro na rua pensa «Eu já cá estou…» e nunca mais se preocupa com os outros.

Se alguém fica entalado no trânsito e o condutor de trás se apercebe que o pode ultrapassar pela direita ou na berma da mão contrária para ganhar dois lugares, não hesitará nem um segundo. Tem muita pena pelo azar do outro, mas cada um trata de si. Por esta razão, sempre que há um pequeno estrangulamento, as filas crescem a olhos vistos apenas porque há uns mais espertos que os outros que seguem fora de mão até ao aperto e depois forçam a entrada na fila por saberem que o condutor de trás está condicionado a não bater. O que se resolveria com um pouco de paciência ao seguirem todos na mesma fila mais devagar acaba por se tornar um nó górdio com duas e três filas para cada lado a tentar passar no espaço de uma.

Por estas e por outras é que os expatriados precisam de um desmame da condução angolana quando vão de férias a casa.


Próxima Página »