9
02
2010
Os luandenses têm um extraordinário à-vontade para regar qualquer pedaço de parede, pára-choques alheio ou berma de estrada que encontrem em momento de aflição urinária. A desculpa habitual é a falta de sanitários públicos, mas notam-se diferenças de decoro entre quem procura um canto recatado para esvaziar a bexiga e aqueles que o fazem no meio da rua enquanto pedem números de telefone às raparigas que passam.
É um choque cultural, mas temos de o aceitar. A dada altura deixa de nos incomodar. Aliás, se a mais ninguém faz confusão, apenas podemos concluir que o problema é nosso. Mas assim que nos tornamos imunes aos urinadores na via pública somos confrontados com outras coisas que nos deixam a pensar se é verdade que sejamos os únicos enganados na cidade inteira.
À vista do Governo Provincial, a um quarteirão do Ministério das Relações Exteriores e mesmo debaixo das janelas do Ministério da Economia é frequente ver um dos pedintes profissionais do bairro sentar-se na pontinha do degrau da casa em ruínas e, com os calções pelos joelhos, deixar um belo monte de caca montada em espiral no meio do passeio, quase com direito a uma bandeirinha no topo a atestar a sua perfeição. Quem quiser que desvie o olhar ou tape o nariz, que ele terminará o serviço com a maior das calmas, como quem está sentado na sanita a ler o jornal.
Não é o acto do pedinte que me choca, é a aparente normalidade com que a situação é encarada. O polícia que guarda a porta do ministério está a ver o que se passa, o segurança da loja ao lado também e quem tem de desviar os pés do presente acabou de ver quem o deixou. Nenhum deles reclama. Nenhum deles diz que está mal. Quase adivinho que encolham os ombros e pensem «Isso é Angola…»
8
02
2010
A aparente arbitrariedade que reina a nova toponímia de Luanda é inexplicável. Todos admitem que é um sentimento lícito desejar apagar as marcas do passado colonial. Por essa razão há pedestais vazios e escudos com as quinas apagadas.
Seria compreensível que se procurasse também alterar a toponímia de forma a que os heróis do colono fossem substituídos por outros mais de acordo com a nova era. Mas a verdade é que tal não sucede. Os pais das independências de vários países africanos, os ídolos da ideologia do regime e os heróis angolanos ligados ao partido no poder viram os seus nomes atribuídos às ruas com menor conotação à repressão colonial, como lhe chamam, e, estranhamente, foram preservados aqueles que poderiam gerar sentimentos de revolta.
Os vários comandantes da guerrilha contra o Exército Português e os da guerra civil, de coragem comprovada ou apenas relatada, viram os seus nomes substituir os das ruas mais emblemáticas da cidade, quase como que lutando para ver quem conseguia uma rua mais importante.
A principal rua da Luanda Velha
Não consigo perceber a razão de se mudar o nome da Rua Direita mas que se preserve as de Governadores Gerais de Angola ou as dos vencedores das guerras contra tribos várias. Da mesma forma acho estranho que as personagens da História mais longínqua da cidade, Paulo Novais e Salvador Correia, por exemplo, sejam simplesmente esquecidas. Podem representar o colono, mas sem eles a cidade e o país não existiriam como os conhecemos.
Mas, uma vez tomada a decisão, também não se pode aceitar que se fique a meio caminho. Quando se muda o nome de uma rua tem de se fazer de uma vez só. As hesitações só mostram falta de convicção no gesto. Não será o custo dos painéis de azulejos a explicar razão porque, tantos anos após se ter atribuído o novo nome, a Rua Direita de Luanda ainda tenha placas com o nome antigo.
ex-Rua Direita
Felizmente que os correios não distribuem porta-a-porta e ninguém liga às moradas, recorrendo todos a pontos de referência em vez de nomes de ruas, porque senão a confusão seria digna de uma Torre de Babel.
7
02
2010
Seguranças sentados em cadeiras partidas à porta das lojas e bancos, quase sempre a dormitar, são uma instituição angolana, uma definição de identidade nacional, digamos.
São um subproduto da guerra civil. Representam a resposta a tempos conturbados em que as lojas eram assaltadas com muita frequência e também à falta de preparação de muitos homens para outra coisa que não segurar numa arma. Os combatentes, recrutados ainda adolescentes, sem instrução e sem profissão, foram empurrados para serviço de sentinela nos tempos de paz.
Pelo aspecto das novas montras das lojas, que começam a dispensar cada vez mais as grades grossas em troco de uma grande vidraça que permita expôr a mercadoria, o clima de insegurança que motivou a contratação de guardas para cada porta está a dissipar-se.
Por outro lado, os seguranças limitam-se apenas a marcar presença. Há muito que foram proibidos de usar armas em serviço e, em caso de assalto, saem da frente do ladrão não vá sobrar para eles. O salário de miséria que recebem não é o suficiente para se chatearem. Não morrem de fome porque recebem uma refeição por dia e é costume fazerem dois ou três turnos de 24 horas seguidas para pouparem nos transportes para casa.
Por serem tão mal pagos e estarem habituados a nada fazer, quando chega a altura de intervir, uma vez que até foram equiparados a agentes da autoridade, qualquer desculpa serve para se deixarem estar esparramados na cadeira desengonçada. Se arrombam um carro em frente à loja que os contratou, não viram ou estava muito escuro para perceber quem era. Aliás, a menos que os donos dos carros da redondeza vão contribuido com umas gasosas aqui e ali, é mínima a esperança de que sequer levantem a voz aos ladrões, quanto mais intervir.
Alguns lojistas resolveram ser criativos e atacaram este problema de uma forma inesperada. Em vez de aumentar os salários, o que seria encarado como pagar mais para os seguranças continuarem a dormir, cativaram-nos com benesses intangíveis. A solução mais criativa que encontrei até agora foi um montarem um pequeno televisor no fundo da loja virado para fora. Os programas entretêm os seguranças mas, como o ecrã é pequeno, força-os a ficar perto da porta.
A meio da noite, os seguranças das lojas vizinhas arrastam as cadeiras para junto dessa loja e assistem juntos ao futebol ou ao que estiver a passar. Mesmo que o programa seja aborrecido e acabem por adormecer, obstruem de tal maneira a passagem que desmotivam qualquer assaltante.
O sistema funciona tão bem que quase garanto que o dono dessa loja pode dispensar o seu segurança, já que os vizinhos estão a pagar para que os seus lhe guardem a televisão. O único aperfeiçoamento que consigo imaginar é que deixem o comando do lado de fora. Assim, se o programa for mau a assistência pode trocar de canal.
6
02
2010
Durante a estação seca, as planícies angolanas estão cobertas de capim seco, intercalado por uma ou outra mancha verde perto dos cursos de água. O Verão traz a chuva que faz germinar em poucos dias as sementes do ano anterior. Quem julga que o capim angolano é semelhante à erva dos lameiros terá uma surpresa. Consoante a quantidade de água, o capim cresce entre dois a três metros, formando barreiras quase impenetráveis. Ao longo das estradas que, meses antes tinham um horizonte longínquo, ergue-se um muro verde de cada lado.
O capim era usado para a construção de casas e telhados, mas tem vindo a ser substituído pelas chapas onduladas, menos adaptadas ao clima tropical, mas implicam muito menos trabalho. Não é usado como forragem, por isso agora apenas preenche a paisagem.
Um pouco por todo o país, com o aproximar do Cacimbo os camponeses começam a pensar em maneiras rápidas de preparar os campos. As lavras novas têm de ser conquistadas às matas e as velhas foram engolidas pelo capim que cresceu durante o Verão. A desmatação e as queimadas são função dos homens. As mulheres virão depois para o cultivo.
Assim que as chuvas começam a rarear, o horizonte enche-se de colunas de fumo. Cada uma marca uma queimada, que é o processo mais expedito para limpar os terrenos. Enquanto o capim ainda está verde as queimadas são mais ou menos controláveis e à noite as chamas acabam por esmorecer. Alguns fogos duram vários dias e queimam grandes áreas, mas as queimadas fazem parte de uma tradição que vem sendo passada de geração em geração há séculos.
Por esta época, na província é fácil saber onde ficam as povoações mais remotas. Mesmo que não apareçam nos mapas, haverá uma coluna de fumo a indicar as lavras.
Lavras na Barragem das Mabubas
5
02
2010
A Sexta-feira de Luanda é conhecida como o dia dos homens ou pelo dia em que as mulheres casadas dormem sozinhas, tal é a fama das aventuras extra-conjugais dos angolanos. Enquanto as mulheres ficam em casa a cuidar dos filhos, os homens vão para as festas nocturnas onde muita cerveja, pouca roupa e música para dançar com os corpos bem enrolados resultam em frequentes facadas no matrimónio.
Por aqui o assunto é encarado com alguma ligeireza. Dizem-me que é dos ares da terra ou do espírito livre dos angolanos. Mulheres, amantes, namoradas e engates de ocasião ocupam cada uma o seu lugar na escala dos afectos. Por vezes têm conhecimento umas das outras, na maioria dos casos apenas sabem que existem. Algumas queixam-se da situação enquanto outras encolhem os ombros e dizem Isso é Angola…
Devido a uma coincidência cheia de ironia, o dia em que as mulheres casadas dormem sozinhas ou o dia em que os homens vão cumprir os seus deveres conjugais em leito alheio é também o dia dos casamentos. Para que os festejos do matrimónio decorram sem interrupções pelo fim-de-semana todo, os casamentos celebram-se na tarde de Sexta-feira.
Em frente às conservatórias perfilam-se as madrinhas e as amigas da noiva, todas a escorrer suor em bica, apertadas nos seus vestidos demasiado pequenos para o tamanho que idealizaram o corpo, quase todas com as mamas a ser espremidas para fora do decote e uns saltos altos nos quais mal se têm em pé. Os padrinhos ficam nas sombras, de fato completo e gravata larga, alguns mais descamisados que outros, mas todos a suar desmesuradamente enquanto aguardam que os respectivos noivos cheguem.
De tempos a tempos chega um carro decorado com a noiva. Dependendo das posses de cada um, o carro é melhor ou pior, mas a decoração segue preceitos. Fitas e rendas nos puxadores e jantes, grandes tiras a envolver o capot, ramos e flores entalados nas portas tornam o carro um arranjo floral com rodas. O pormenor mais importante, aquele que nunca falha por mais que a decoração seja original, é a matrícula tapada com folha de alumínio. Convencionou-se que o carro da noiva não mostra a matrícula. Apesar de ser ilegal, a polícia tolera-o, até porque há coisas mais importantes com que se preocupar.
A noiva chega, entra com o noivo na conservatória, saem casados e cedem o lugar ao casal seguinte. Depois vão para a festa. Neste momento a coisa complica-se. O noiva é agora uma mulher casada e a Sexta-feira dita que durma sozinha. O noivo é agora um homem casado e a tradição manda que na Sexta-feira vá para uma festa e durma com outra que não a esposa. Como se resolve este problema bicudo?
4
11
2008
Já anteriormente tinha gabado a calma da cidade ao fim-de-semana. Luanda transfigura-se. Passa a ser uma pacata cidade de província, com pessoas a conversar às esquinas, sem buzinas ou ânimos exaltados atrás dos volantes.
Quando os feriados calham num Domingo, são gozados na Segunda-feira seguinte, pelo que os fins-de-semana prolongados até são frequentes. Hoje foi um desses dias.
Acordei particularmente repousado, sem o barulho das máquinas da obra perpétua que decorre debaixo da minha janela.
Virei-me de barriga para cima e pus-me a contar os carros que passavam. Eram poucos. Ao terceiro, desisti. Estava aborrecido. Resolvi fazer ronha. Virei-me para o lado e apreciei o silêncio. Passou uma mota barulhenta. Voltou o silêncio. Fui adormencendo.
Algum tempo depois, pareceu-me muito, mas deve ter sido apenas um fechar de olhos, fui acordado com uns estalidos. A porta da varanda, a apanhar com o Sol directamente, dilatava e reclamava. Voltei-me para o outro lado. Fiz cócegas aos lençóis com os dedos dos pés. Abracei o colchão, pendurando as mãos de fora da cama. Virei-me, rebolei, espreguicei-me. Lá em cima estava a armação da rede mosquiteira, velando por mim. Uma mancha vermelha na parede e outra na rede faziam a vez de memorial aos mártires da malária. Cocei a barriga e lembrei-me de Fausto. Comecei a trautear a música e adormeci.
Farto de ronha, procurei a abertura na rede. Levantei-me. Fui à janela. Nada. Nem os pássaros se viam. Só a roupa a acenar nos estendais denunciava haver ainda gente em Luanda.
Que silêncio!