Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

12  10 2008

Amor-ódio

Afonso Loureiro

A relação de Angola e dos Angolanos com Portugal e com os Portugueses é algo de muito esquisito.

Por um lado, há um ódio institucional à potência colonial, ao colono e a tudo o que remeta para os cinco séculos que antecederam 1975. Muitos Angolanos dizem que o colono era feio, mau e comia criancinhas. Alguns dizem mesmo que Angola só está assim, neste buraco, por causa do colono, que só cá veio roubar.

Por outro lado, dizem-me que no tempo do colono é que as coisas funcionavam. Que não havia assaltos nem bandidos. Que, nessa altura, Luanda estava limpa e a electricidade não faltava todos os dias. Dizem-me que os Portugueses calculavam tudo e que as casas não caíam.

Portugal continua a ser uma referência para muitas coisas. Os restaurantes em Luanda quase todos servem comida portuguesa. O vinho é considerado bom se vier de Portugal, mesmo que seja o pior carrascão do mundo. Para temperar a comida, é frequente ver latas de azeite e óleo com a inscrição “Tempero Português”. Os supermercados abastecem-se de produtos portugueses e, às vezes, sul-africanos.


Carrascão Tuga

Há Angolanos que foram doutrinados desde pequenos a odiar Portugal e o tempo colonial. A sua maioria tem agora perto de vinte anos. Sabem de cor e salteado todas as atrocidades cometidas pelos portugueses desde que Diogo Cão chegou ao Rio Congo e são incapazes de apontar coisas boas. É um pouco à semelhança daqueles que apenas são capazes de apontar os defeitos do regime de Salazar.

Os mais velhos são críticos dos dois períodos. Apontam defeitos e virtudes ao regime colonial e à Angola independente. Falam dos contratos, que roçavam a escravatura. Falam da falta de condições actual. Lamentam que a política se tenha sobrepujado ao bem-estar das pessoas.

Durante a campanha eleitoral, havia uma candidata, a “Mamã Coragem”, que fazia uns discursos saudosistas do passado, elogiando o tempo colonial e criticando o Governo. Dizia que, se os angolanos soubessem como era a vida no tempo colonial, se revoltariam por viver no meio do lixo e da pobreza. É uma figura histórica da libertação de Angola e acabou por não ser eleita. Talvez tenha sido demasiado incómoda.

Depois da Independência, muitas cidades mudaram de nome. As cidades brancas ficaram com o nome das cidades negras que as rodeavam. Algumas passaram a ser chamadas pelos dois nomes. A ordem com que são referidos ainda é um pouco aleatória.

O Português, como branco, é visto como explorador. Como Português, é um símbolo de tempos menos difíceis. É uma dicotomia interessante…

Mas, às vezes, no meio de tanto mal-dizer do colono, há coisas que me deixam boquiaberto. O antigo governador da província de Cabinda foi destacado para o Bié, no interior. Lançou uma campanha de obras para recuperar a cidade do Cuíto, que foi destruída na guerra de 1992-2002. Em Outubro de 2002, o Presidente da República foi lá ver o andamento das obras. Fez um discurso onde prometeu que o Cuíto havia de voltar a ser como Silva Porto! Em que ficamos, Zé Dú?


in Semanário Angolense nº281


11  10 2008

Juromenha

Afonso Loureiro

Quase a cair para o outro lado do Guadiana, onde Espanha diz já não ser Portugal, mas onde os Oliventinos são orgulhosos do seu passado Português, está o Castelo da Juromenha.

Como tantos outros, o seu estado não é famoso e só a reconstrução para a comemoração do centenário o deixou com um ar mais viçoso.


A marca da campanha

Um baluarte com duas igrejas e várias construções em estado de conservação variável. Algumas com um ar habitável e pormenores interessantes. Outras são pedaços de História com muitas histórias.


Transpondo o portão principal

A Igreja Matriz sofreu obras de conservação. Puseram-lhe um telhado novo e começaram a limpar as coisas antes que se degradem mais. É uma bela surpresa transpor a porta lateral e entrar numa atmosfera de penumbra com umas colunas inesperadas.


Pedras seculares

A subida até à torre sineira não é fácil. Muitos degraus estão em falta e às vezes é preciso dar um passo quase maior que a perna.


O Guadiana ao fundo

Depois da visita ao castelo, veio o almoço, onde se pode matar as saudades de bacalhau!


Até comi o feijão verde


10  10 2008

Amanhã vou estar bonito

Afonso Loureiro

Ai vou, vou.

Ao fim de quase quatro meses voltei ao ginásio. Foi só para matar saudades, mas tinha de vir fazer umas aulas daquelas boas, mesmo boas.

Na primeira hora, Powerjump. As saudades do trampolim eram muitas e quase me faziam esquecer que a falta de treino se paga com a bela da dor-de-burro. Faixas bem escolhidas fazem a diferença!

Uma horinha de intervalo e depois o Body Combat (Mortal Kombat, como lhe chama o Lopes). Novamente uma excelente aula da Vanessa, com aquelas músicas mais antigas, que nos fazem recordar movimentos e permitem ir piscando o olho a quem sabe aquilo tudo de cor-e-salteado.

Agora sinto-me um pouco maçado. Ou se calhar, amassado. Amanhã é que vão ser elas. Vou andar pelos cantos todo torcido e a resmungar sempre que mexer uma perna.

No entanto, os treinos a solo que tenho feito lá em Luanda têm compensado. Não ando a tentar acompanhar as coisas como quem nunca fez ou já se esqueceu.

Para a semana há mais. Depois vai ser mais um longo jejum…

Mas tudo isto é compensado pelo facto de poder fazer companhia à Mais-que-tudo. Isso e de lhe estar sempre a perguntar quando é que ela aceita a proposta indecente dos professores…


10 2008

Jantes cromadas

Afonso Loureiro

Luanda, terra dos buracos e da lama, é também a terra dos todo-o-terreno. É compreensível. Um todo-o-terreno comporta-se melhor nos buracos. Não é à toa que o carro preferido dos luandenses seja o Toyota Rav 4. É aqui que acaba o bom-senso. É que esta é também a terra das jantes especiais, de preferência cromadas, daquelas que se deformam e partem quando entram num buraco mais fundo.

Luanda, terra em que se circula sempre em primeira velocidade ou não se circula de todo, é também a terra dos motores V6 a gasolina, com muitos litros de cilindrada. Já que não se vai a lado nenhum, ao menos que se vá com estilo. É também a terra dos pneus de baixo perfil, concebidos para andar depressa ou, no caso de Luanda, para melhor realçar a jante cromada que se acabou de amolgar no buraco.


A cinco quilómetros por hora…

Aliás, carro de angolano que não tenha cromados, nem sequer pode ser considerado carro. Será talvez uma carroça, com um burro lá dentro, na melhor das hipóteses. O carro de sonho do luandense tem jantes cromadas, espelhos cromados, grelhas cromadas nos faróis, frisos cromados, vidros fumados com autocolantes cromados e aplicações cromadas no interior. É o fenómeno bling-bling, importado dos videoclips da MTV. Se os candongueiros não tivessem de andar de azul e branco, aposto que já havia uma frota de iáces pretas e cromadas com jantes de raios de 18″ e pneus mais largos.

Não é por nada, mas continuo a sentir-me arrepiado quando vejo um Range Rover com pneus de baixo perfil e jantes cromadas de 24″. Serve para quê? Contornar delicadamente todas as irregularidades da estrada? No entanto, por estes lados, a qualidade de um carro é proporcional ao tamanho das jantes, cromadas, claro.


Contra-senso


10 2008

Alentejo

Afonso Loureiro

Para calar um pouco as saudades deste país de que tanto gosto, viemos dar um passeio até ao Alentejo profundo.

Algumas paragens para abastecer depósitos, estômagos e espíritos forma necessárias. E todas elas foram boas. Até mesmo pagar gasóleo a um preço de fugir - me fez lembrar o desperdício de energia em Angola, com combustíveis baratos.

A caminho do almoço, pude conduzir numa auto-estrada, essa invenção que entorpece os sentidos pela sua monotonia. Mas não tinha buracos nem azuis-e-brancos a circular pela berma ou a fazer manobras esquisitas.


Para sul 

E é tão bom saber que basta esticar o braço para dar um carinho à Mais-que-tudo!

Primeira geocache em Pegões. Como prometi elogiar as boas e reclamar das más, esta é filha de um cabresto. Tal como a seguinte, já em Montemor.

Seguimos até Borba, a vila branca. Pelo caminho voltei a ver céus azuis, com nuvens brancas em farrapos finos. Voltei a ver um pôr-do-Sol que deixa o céu vermelho e nos cega pelos espelhos. A luz do fim de tarde criou muitas oportunidades para fotografias espantosas. Algumas das quais deixei passar por estar demasiado embriagado com o que me rodeava.

Ao contrário de Luanda, aqui as coisas têm o seu ritmo secular ainda afinado. Não há correrias nem pressas. À medida que nos afastávamos da cidade, as velocidades médias foram diminuíndo e o pedal da embraiagem descansando cada vez mais.

A Pensão Inaramos, onde já estive há mais de quatro anos, fez obras. A velha porta de madeira verde foi substituída por uma de alumínio e vidro. O Sr. Jorge continua a estar ao cimo das escadas a assustar os clientes. É cego e tem a recepção sempre às escuras. Esta pensão é uma pequena jóia. Não pode ter mais de uma estrela porque tem muitas escadas, mas tem condições para merecer mais umas quantas.

Fica de frente para uma das portas da muralha do velho castelo de Borba, isto é, do quarto até à próxima geocache são cerca de 40 metros… nada mau.

O jantar voltou a ser na cervejaria Arado, onde a sopa tinha outra vez massa. Ao contrário do choco em Setúbal, demasiado salgado, aqui tudo estava excelente.

Que saudades que tinha destas estradas a perder de vista, dos montes no cimo dos montes e das searas que fingem ser o mar e escorrem por entre as árvores.

Amanhã vai ser dia de cansar o dedo a tirar fotografias. A luz de Outono é fantástica e a terra também!


07 2008

Dos arquivos: Futuro

Afonso Loureiro

Desde que a guerra terminou que o governo angolano tem feito um esforço para reduzir o número de armas ilegais em circulação. As campanhas de entrega de armas de guerra têm tido algum sucesso, mas, como sempre, apenas as pessoas de bem entregam as suas. Nos jornais oficiais apela-se à necessidade de haver um desarmamento completo da população civil, a bem da democracia. As eleições estão à porta e não convém haver ânimos exaltados e armas misturadas. Aliás, as eleições só são possíveis porque há uma melhoria das condições económicas e uma maior estabilidade social. As estradas que ligam as várias províncias já são mais seguras e os bandos armados são perseguidos.

Por outro lado, o MPLA vai ganhar as eleições com maioria absoluta. As acções de campanha têm sido eficazes e a voz da oposição está demasiado fragmentada para causar mossa. Nas minhas voltinhas por Luanda tenho visto muitas sedes nacionais dos pequenos partidos da oposição. Creio que são 98 forças diferentes a concorrer às eleições. Na Rádio Angola ouvem-se notícias que dão conta de acções de massas (comícios), a entrega de equipamento escolar e de reinaugurações (cá como lá) de centros de saúde ou de mercados.

Para que não haja dúvidas acerca dos resultados eleitorais, estão a ser criados todos os mecanismos legais de controlo e observação. A experiência do Zimbabwe mostra que a credibilidade internacional das eleições africanas não se consegue apenas com a nomeação de um governo. É preciso mostrar que foram justas. O MPLA não precisa de se preocupar. Até os homens de Savimbi, segundo o Jornal de Angola, estão com ele.

A única voz discordante que se ouve é a da Rádio Despertar. No âmbito dos acordos de paz, a VORGAN continuava a emitir, mas sob este novo nome. Pelo estilo de notícias que emite, parece-me o jornal Avante cá do sítio.

Até 2012 vão ser renovados doze mil quilómetros de estradas por todo o país. É um primeiro passo para a melhoria das condições de vida. Apesar de Angola ser um país extraordinariamente rico, não consegue tirar proveito da sua riqueza por falta de vias de comunicação e 95% do seu produto interno bruto deriva do petróleo. Com tantos recursos minerais e agrícolas, o país não deveria depender tanto do petróleo. Mas enquanto não houver estradas ou caminhos-de-ferro a funcionar normalmente, como se escoam os produtos?

Há cerca de uma semana, a ligação ferroviária de Luanda a Malanje foi restabelecida e a produção agrícola dessa zona fértil poderá chegar à capital.

A renovação da rede viária permitirá também o regresso de muita gente às suas províncias de origem, reduzindo a pressão humana sobre Luanda. Não faz sentido que metade da população de um país se concentre, sem condições, à volta da capital. Espaço aqui não falta.

Desde que cá estou já assisti a uma campanha de vacinação em massa das crianças até aos cinco anos. A doença focada, desta vez, era a poliomielite. Ainda se vêem pessoas com marcas do polio. Algumas muito novas.

Entretanto, também se estão a fazer campanhas nas rádios para explicar o objectivo dos censos que se avizinham. Numa linguagem muito simples, explicam que pretendem conhecer as condições de vida dos angolanos e que as respostas devem ser verdadeiras.

No bairro do Cassenda a criminalidade subiu e a explicação oficial é o grande número de jovens desocupados. No meio dos muitos angolanos trabalhadores, há uma minoria de rapazes que se sustentam das esmolas dos brancos, das lavagens de carros e do guardar lugares de estacionamento. Sem aspirações, o pouco que recebem equivale a um dia de trabalho esforçado dos carregadores, vendedores e condutores. Lavar carros na via pública é proibido em todo o mundo. Em Luanda faz parte da paisagem e tem sido grandemente ignorado. Há problemas piores. Mas as autoridades perceberam que é também uma fonte de sustento dos desocupados e controladores. Foi anunciado que nas Ingombotas (onde moro) a polícia vai estar atenta aos lavadores de carros.

Angola quer evitar importar mão-de-obra, mas, acima de tudo, quer evitar que apenas os estrangeiros lucrem com a riqueza do país, pelo que as empresas têm de respeitar quotas mínimas de trabalhadores angolanos. É um ponto de vista com o qual concordo plenamente. Quando se trata de técnicos especializados, é inevitável contratar estrangeiros porque ainda não há quadros nacionais suficientes. O que choca e vai contra as pretensões angolanas, é a importação de mão-de-obra não especializada. Há trabalho para fazer, muita gente ao alto e importam-se operários da China.

Há muitos exemplos deste fenómeno um pouco por Angola, mas a mim basta-me olhar para a rua onde moro. Pelas onze da noite começa-se a ouvir a máquina de cortar asfalto, que não passa de uma serra circular com rodas e que trabalha a gasolina. Faz uma barulheira ensurdecedora. Passa debaixo da minha janela, que é no primeiro andar… Habitualmente tenho de dormir com o barulho da clientela do salão de jogos do rés-do-chão (que foi uma casa de alterne no tempo do colono). Agora é a máquina. Depois vem o martelo pneumático e a escavadora. Não há sossego. Vou à janela ver quem trabalha a estas lindas horas. Um brasileiro e um chinês, nenhum angolano (não era preciso controlar). Às duas da manhã as máquinas param. O brasileiro começa a cantar. Seria uma serenata?

Cá por casa já temos bomba. Não estamos totalmente dependentes do abastecimento público. Com 3000 litros de reserva devemos estar mais ou menos descansados.


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