4
07
2009
Quando os relógios marcam perto das seis da manhã, o escuro do céu é vencido pelo Sol que se esconderá atrás do manto de cacimbo durante o resto do dia. Aos poucos, a luz amarela dos candeeiros começa a ser substituída pela luz metálica da alvorada e a cidade desperta lentamente.
Os carros ainda não se juntaram ao seu carrossel diário e a cidade parece demasiado silenciosa sem o coro de buzinas habitual. O pó que levantam também está adormecido na rua e não incomoda narinas nem olhos. Os cobradores dos candongueiros ainda não gritam os destinos, talvez por não terem as peixeiras como contraponto. Pendurados na porta da iáce por um só braço, quase que sussurram «Sã-Pálo» ao ouvido de quem passa.
À porta dos bancos, os poucos seguranças que estão acordados sentam-se com as mãos nos bolsos e olhos vermelhos nas cadeiras desconjuntadas do costume. Os outros enroscam-se nas fardas duras ou em casacos coloridos, dormindo silenciosamente mais umas horas.
Nas esquinas, os miúdos que ganham a vida a engraxar sapatos, ou melhor, desperdiçam a vida a engraxar sapatos, já estão a pé, para apanhar os primeiros clientes do dia. Têm a cara fechada, um pouco mais resignada que o costume. Talvez seja ainda sono ou, se calhar, a falta de azáfama deixa-lhes mais tempo para pensar na vida. O primeiro clientes chega, com o passo lento. Mas o miúdo, a estas horas, também trabalha devagar e acaba por lhe tirar a escova das mãos e terminar o serviço. Paga na mesma e não trocam uma palavra.
Cama dura
A troco de o manter limpo, um rapaz dorme no capacho de uma loja. Sempre é menos duro que o cimento do passeio. Acordará assim que a loja abrir e passará o resto do dia a arrumar e lavar carros.
Lá ao fundo, a torre reluzente da Sonangol assiste, impávida, à primeira demolição do dia.
3
07
2009
Mesmo nos dias em que nos sentimos quase Kaluandas e achamos que nada nos poderá surpreender, Luanda esboça um sorriso malandro e mostra-nos que estamos completamente enganados.
Ali para os lados do Liceu Salvador Correia, que agora tem um nome qualquer que ninguém conhece e continua a ostentar o nome antigo na fachada, há um pequeno jardim. Como muitos jardins da época, tem o formato de escudo.
Como nem tudo em Luanda é lixo e buracos e o Governo Provincial até se preocupa em recuperar espaços públicos, este jardim sofreu obras de beneficiação. Entretanto foi esquecido e já se degradou um bocado, mas isso é só um fait-divers.
Quem adormece a pensar em África, quase sempre acaba por sonhar com animais selvagens. Leões e elefantes percorrem savanas perfeitas, assustando zebras código-de-barras que se afogam no mar de capim ondulante.
Os angolanos sonham com jacarés que comem diamantes lá nas Lundas, com os leões e as avestruzes zambianos e com um ou outro elefante do Botswana, como os que viram na Quiçama a posar para os turistas. O orgulho com que elegeram a Palanca Negra semi-extinta a símbolo nacional, destronando a welwitschia do Namibe, só mostra que gostam da sua fauna.
Embora a Palanca só se veja em desenhos e em esculturas de pau-engraxado e cornos de plástico lá no mercado de arte do Benfica, Luanda resolveu homenagear a fauna nacional. Quem não conhece o famoso Pinguim Real Tropical, espécie endémica de Angola? No jardim em forma de escudo em frente ao Salvador Correia há um bando deles, empoleirados nos calhaus da cascata que aparece na propaganda turística da cidade.
Dei por bem empregues as centenas de manhãs de infância e juventude perdidas a ver documentários de vida selvagem, porque descobri logo as diferenças entre o pinguim tropical e o outro, o tal que mora lá na Antártida. Os do gelo têm crias que se assemelham a bolas de penugem castanha e os mwangolés, cheios de estilo, já trazem o fato de cerimónia desde que nascem.

Espécie endémica de Angola
A prova de que Angola é um país diferente é que encontramos pinguins e, provavelmente, outros bichos que os esquimós também não comem, em lugar de destaque nos jardins da capital, sob a forma de esculturas coloridas.
Como os pinguins são, decididamente, a fauna mais tropical que há, não me vou espantar quando erguerem um monumento ao urso polar equatorial num separador da Estrada da Corimba.

À espera dos ursos polares
Ainda não vi os famosos elefantes, mas tenho alargado os horizontes em termos faunísticos.
Nota: Tenho de descobrir se ainda há pinguins na Baía dos Tigres…
2
07
2009
O fenómeno das zungueiras é mais recente do que se possa imaginar. Surgiram em Luanda com a chegada dos refugiados congoleses que, à falta de meios de subsistência, se viram forçados a vender a retalho pelas ruas. Grande parte dos angolanos nasceram e cresceram já na era da zungueira, pelo que não poderão imaginar a cidade sem elas. A memória dilui-se na juventude.
Convivo com elas há cerca de um ano e sinto que já fazem parte da paisagem urbana da cidade, tal como as iáces pintadas de azul e branco ou os Corolla vermelhos. No entanto, todos os dias me surpreendo. Recentemente, comecei a reparar mais nas que vendem comida nas esquinas. Quase todas usam um saco de plástico como luva para tocar na comida. Numa terra onde o lixo faz parte da vida e se assiste a verdadeiros atentados de saúde pública em cada canto, as zungueiras não mexem na comida com a mão que toca no dinheiro suado.
Não sei se é por imposição dos fiscais, se por terem aprendido na escola, se por terem passado a palavra umas às outras. O certo é que não posso deixar de louvar a atitude.
1
07
2009
As mulheres dançam em círculo, entoando ladaínhas monótonas com voz cansada. Arrastam os pés com um baque-baque surdo, levantando o pó fino que lhes vai cobrindo os panos coloridos. As mulheres que começaram a dançar desgarradas aproximam-se do círculo que cresce e, aos poucos, encontram o seu lugar. De fora só se adivinham contornos escuros que rodopiam contra o lusco-fusco do cacimbo.
Um pouco ao acaso, cada mulher recita umas palavras e as restantes, em coro, respondem com o refrão. Pelo meio, há umas que interrompem com um lamento ou um gemido. Os pés continuam a arrastar a poeira, com o raspe-raspe ritmado.
Os homens conversam nas cadeiras de plástico, enquanto afastam os mosquitos chegados com o final da tarde. O quarto minguante compete com as lâmpadas nuas penduradas para iluminar as caras gastas e olhos vermelhos. O funge de milho e o peixe frito que as mulheres prepararam antes do anoitecer começa a circular. As gasosas também.
As mulheres mais novas meneiam as ancas, bamboleando o corpo e embalando a criança que têm às costas. As mais velhas limitam-se a arrastar os pés no círculo, com os braços pendurados ao lado do corpo, mostrando desânimo completo. O filho mais velho sente-se desorientado. Amanhã tem de ir escolher a caixa para pôr o pai no chão. Está revoltado. A viúva cumprimenta os recém-chegados que nem conhece. Limita-se a repetir o nome. Filomena. Filomena. Filomena…
30
06
2009
A varanda da Aerogare do Huambo é um local fantástico para se conhecer mais um pouco da História de Angola, nem que seja através dos pequenos episódios que nunca chegam aos livros.
No intervalo entre os aviões que chegam e partem, pouco mais há para fazer que olhar para o céu e, indecentemente, escutar fragmentos de conversas que o vento traz.
Desta feita, quatro militares sentaram-se na mesa ao lado, partilhavam memórias do tempo da guerra, que uns tinham vivido e outros já só tinham ouvido contar, por serem demasiado novos.
O mais velho, da Força Aérea, puxou do tema do último ataque ao aeroporto do Huambo, por parte das forças da Unita. Não mostrava saudades da batalha, mas agora sentia-se demasiado relaxado.
Chez Savimbi
Um oficial bem mais novo contou a sua versão do que se passou nessa manhã, pelo ponto de vista de quem se tinha visto no meio de uma guerra sem saber bem como.
«No dia em que a guerra começou, no dia 9, eu ainda nem sabia disparar a arma. Meti a cartucheira e depois foi o Kota Jamaica que me mostrou como se fazia.»
Outro atalhou: «O Jamaica correu por ali e só parou lá no fundo. Nunca tinha medo. Deu bwé de tiros.»
O mais velho acrescentou «É, ele safou muitos aqui…»
Violência
Temores e aventuras passados entre os abrigos de terra que protegiam os aviões e os soldados foram pintando uma história de bravura e improvisação numa batalha confusa. Mais umas cervejas e o assunto foi mudando para coisas mais mundanas: as namoradas, o carro novo, quem pagava a rodada seguinte.
Foram interrompidos pelo Capitão, que tinha chegado à esplanada. Em jeito de início de conversa, avisou o oficial mais novo: «Se não me dás saldo, nunca mais chegas a segundo tenente!». Deixei de prestar atenção à conversa. O novo assunto tinha menos interesse que o jacto que acabara de aterrar e se dirigia à placa.
19
06
2009
Angola é uma terra cheia de problemas, não há como negá-lo. Tem os mesmos problemas que as outras e depois tem uns só dela. Para os resolver, é necessário manter a calma e concentrarmo-nos nos mais importantes.
Os angolanos são um povo prático e, ao longo dos tempos, desenvolveram e aperfeiçoaram uma teoria de resolução de problemas simples e eficaz, que levam à prática a cada oportunidade que surge. Assenta em princípios simples e não implica dispendiosas acções de formação para que seja transmitida. Cada um aprende fazendo ou vendo fazer.
Em vez de expôr a teoria, vou explicar como se aplica com alguns exemplos, para que se tenha uma ideia de como os angolanos aprendem a usá-la. Mais tarde farei a exposição teórica.
Exemplo 1
Problema:
O vizinho de cima tem um cano roto na casa-de-banho e chove-nos na sala.
Resolução:
Batemos-lhe à porta e reclamamos da água.
Ele responde «O problema não é meu. É teu. É na tua sala que chove.»
Problema resolvido!
Os menos preparados poderão zangar-se com o vizinho, chamar-lhe nomes e ser até desagradável, insinuando que a mãe do senhor era algo que não honrada. Na verdade, isto não passa de um choque cultural, um daqueles mal-entendidos que acontecem quando não se está perfeitamente integrado numa sociedade diferente. Se aplicarmos a teoria angolana para a resolução de problemas a este caso concreto, a solução é muito mais simples do que se julga.
Exemplo 2
Problema:
O vizinho de cima tem um cano roto na casa-de-banho e chove-nos na sala. Ele diz que o problema é nosso.
Resolução:
Partimos o tecto da sala e reparamos o cano roto.
No dia seguinte, ele bate-nos à porta e reclama que não tem chão na casa-de-banho. Respondemos «O problema não é meu. É teu. Já não me chove na sala.»
Problema resolvido!
Analisando com cuidado, percebemos que todo este processo assenta no princípio da conservação da energia. A teoria angolana implica que a responsabilidade pela resolução do problema seja canalizada para outrém, não resolvendo de imediato a questão, mas evitando desperdício de energia. Eventualmente, a responsabilidade chegará a alguém que terá de investir mais energia na transmissão da responsabilidade do que na resolução efectiva do problema. Pode demorar um pouco mais, mas acaba por se resolver.
Exemplo 3
Problema:
Os iogurtes comprados no supermercado estavam estragados. Reclamamos. Aplicam a teoria angolana e dizem-nos que o problema é nosso.
Ponto de vista do supermercado:
Energia necessária para aceitar a reclamação, receber os iogurtes estragados e trocar por outros, devolver ao fornecedor, preencher papéis: muita.
Energia necessária para recusar a reclamação: desprezável.
Ponto de vista do cliente:
Energia necessária para ir ao supermercado, esperar que alguém atenda a reclamação, provar que os iogurtes estavam estragados, esperar pelos novos, regressar a casa e descobrir que também estão estragados: muita.
Energia necessária para deitar fora os iogurtes e comprar outros na loja da esquina: desprezável.
Torna-se óbvio que a solução que conserva mais energia é a que segue a teoria angolana de resolução de problemas.
Depois de interiorizarmos esta filosofia de vida, começamos a perceber como Luanda funciona. Os geradores, os depósitos de água, os todo-o-terreno passam a fazer todo o sentido e, na verdade, permitem poupar muita energia que poderia estar a ser desperdiçada em reclamações inúteis.
A rua tem buracos? O problema é teu, compra um jipe!
Não há electricidade 22 horas por dia? Compra um gerador, que não temos nada a ver com isso.
Faltou a água? A culpa é da guerra. Se tivesses depósito, safavas-te…
Ninguém te consegue ligar? Anda com dois telefones.
Os angolanos gostam da sua teoria de resolução de problemas. Poupa-lhes muitos dissabores, pelo menos a curto prazo. Mas o que aconteceria se fosse aplicada pelo resto do mundo em relação a Angola?

O esgoto não tem tampa? O problema é de quem lá cai!