Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

02 2012

Com Fé em Deus e a doutrina de Salazar

De vez em quando encontramos perdido por esses recantos de Portugal verdadeiros anacronismos que, pela lei das revoluções, deveriam ter sido saneados, quebrados ou escondidos. Estes foram apenas esquecidos.

Perto de Mafra, numa pequena povoação localizada no fim de uma estreita estrada e, portanto, a caminho de nenhures, há uma singela lápide que se enquadra nesta categoria.

Foi descerrada por ocasião da inauguração de uma nova fonte e lavadouro. Ostenta uma declaração de fidelidade ao regime de Salazar, na altura em que o General Humberto Delgado se candidatava à Presidência da República.

Lápide da fidelidade ao regime
Com Fé em Deus e a doutrina de Salazar

Ainda mais curioso que esta prova de fidelidade ao regime, é a própria data inscrita. Foi precisamente neste dia 10 de Maio de 1958 que ficou famosa a frase «Obviamente, demito-o!» do próprio General Humberto Delgado.


25  01 2012

O sonho esfuma-se

Fazem-se projectos. Sonham-se futuros. Criam-se esperanças a cada pequeno pontapé que se sente. É fruto desejado e amado.

De um momento para o outro tudo se esfuma, tudo se adia. Há que aceitar, porque estas coisas não acontecem apenas aos outros. Os pontapés deixam de ser sinais de alegria. São antes tristes lembranças de que nem tudo está bem. E as festas na barriga são carinhos que magoam, provas de amor que fazem chorar.

Nos últimos dias têm-me vindo muitas vezes à memória o mais curto conto de Hemingway: «For sale: baby shoes. Never worn».

O próximo correrá melhor…


18  01 2012

O tal projecto

Durante grande parte de Setembro, Outubro e Novembro, consegui voltar ao ritmo de um artigo diário. Ou, pelo menos, tentei andar perto desse ritmo. Mas depois… depois acabou-se o tempo livre. O Aerograma não ficou esquecido, mas só tem recebido artigos novos a cada semana. Como de costume, há uma série de rascunhos a meio que poderão ser promovidos, mas em data incerta.

Um novo projecto surgiu no horizonte e com uma data limite para entregar. Já por aqui mostrei bocadinhos do trabalho de aprendiz de marceneiro. Uns perguntaram-se se andava a construir um baú, outros se era uma cadeira de "sumapau". Andavam enganados.

A verdadeira razão do projecto prende-se com uma novidade cá em casa que chegou sob a forma de dois risquinhos azuis. Vamos ser pais daqui a uns meses e, mesmo antes de nascer, a criança já me toma o tempo quase todo.

Resolvi estrear-me na paternidade construíndo a primeira cama da descendência. As lições do meu próprio pai ajudaram-me, mas houve muito que tive de reaprender.

A cama
Confirma-se que não é um baú

Para a estrutura principal, usei tábuas de lambrim, cavilhas de madeira e um único parafuso – a minha vergonha. Foi para isto que construí a mesa para a tupia. Sem ela, ainda agora estaria de volta de guias e batentes para fazer os rasgos onde tudo encaixa.

A cama completa
Com grade e estrado

Para a grade perdi a preguiça e resolvi fazer espigas e respigas como manda a ordem. É certo que demorei mais para terminar a grade do que para desenhar, fazer e montar a restante estrutura. Mas ficou bonita e a obra feita deixa-me feliz.

Falta fazer as gavetas – ou as prateleiras, dependendo da preguiça – que vão fechar as duas aberturas em baixo, e um estrado de ripas onde assentar o colchão. Para aproveitar os dias mais curtos em que não se pode dar avanço ao resto, há que encerar e polir tudo.

Entretanto, se tudo correr bem, hoje ao final do dia vamos saber se é moço ou moça.


16  01 2012

Nem para ti és boa, Microsoft

Durante muitos anos usei exclusivamente um computador portátil para quase tudo. Nos primeiros tempos senti falta do teclado completo dos computadores de secretária, mas, como tudo na vida, fui-me habituando. Agora, que estou em casa, e o portátil passa mais tempo na secretária ligado ao monitor grande, o teclado grande tornou-se indispensável – os computadores portáteis não são desenhados para ser cómodos a escrever.

Aproveitando uma avaria no rato, resolvi perder o amor a alguns tostões e comprar um teclado e rato sem fios novos. A decisão não foi fácil, porque há dezenas de modelos e marcas diferentes. Alguns têm aspecto sólido, outros um toque desagradável e outros ainda, preços de fugir.

Apesar de cada vez apreciar menos os programas da Microsoft, tenho de reconhecer que o equipamento que vendem costuma ser bom. Ratos e teclados duráveis e bastante agradáveis de usar são a norma. Acabei por escolher um conjunto desta marca, embora me tenha causado uma certa estranheza anunciarem como característica decisiva e inovadora ter uma tecla Windows. Julgava que já era de tal modo padrão que ninguém se atrevesse a desenhar um teclado sem ela.

Chegado a casa, desempacotei tudo, meti as pilhas nos compartimentos devidos e liguei o receptor a uma porta USB. Como estava a trabalhar em Linux, temi que a maioria dos botões amaricados que adornam a parte superior do teclado (que servem para abrir o correio ou ajustar o volume ou o zoom) não funcionassem, ou que o rato não respondesse adequadamente. Enganei-me. Tudo funcionou melhor do que o esperado sem sequer ter de configurar nada.

No dia seguinte, liguei o computador e escolhi o Windows como sistema operativo. Para minha surpresa, nem teclado nem rato davam sinais de trabalhar. Ao fim de alguns minutos, começaram a funcionar, mas nem por isso de modo satisfatório. O rato, a principal razão que me levou a comprar também o teclado, funcionava pior que o avariado e os botões adicionais que tão bem funcionavam no Linux, estavam como que paralisados.

Descobri então porque razão havia um CD dentro da caixa. Sem ele, o equipamento Microsoft não funciona devidamente em sistemas operativos Microsoft. Deve ser a primeira vez que alguma coisa funciona muito melhor na concorrência que na própria marca. A Microsoft lá terá as suas razões…


14  01 2012

Traga as páginas amarelas de Lisboa e duas listas de Mirandela

Graças ao cumprimento obrigatório das normas europeias, mas também um pouco para fazer figura, grande parte dos restaurantes tem por lá escondidas umas cadeiras mais altas ou de encaixar nas mesas para as crianças dos clientes. É inovação recente, pois não foi assim há tanto tempo que ainda se via o empregado a atravessar a sala com duas ou três listas telefónicas debaixo do braço para acomodar os petizes.

A idade das crianças classificava-se segundo uma escala decrescente de listas telefónicas. Aos três anos viam o assento da cadeira subir à custa das páginas amarelas de Lisboa e duas listas da Linha de Sintra. No ano seguinte, as duas da Linha de Sintra bastavam e, aos seis anitos, talvez se compusesse a cadeira com uma singela lista de assinantes de Beja.

Novamente graças às normas europeias e também para fazer figura, já nem as castanhas se vendem embrulhadas na página dos canalizadores das páginas amarelas de há dois anos. Parece que não é higiénico ter a tinta em contacto com a casca da castanha, a tal parte que não se come. Embrulho de castanha assada, tal como assento de criança, agora só com o carimbo CE.

Mas mesmo que se quisesse fechar os olhos a tanta norma, agora já é tarde para ressuscitar o hábito de reciclar as listas telefónicas como papel de embrulho ou assento de crianças nas cadeiras do restaurante. Cada vez menos gente tem telefone em casa, e os anunciantes têm fugido das páginas amarelas para meios com melhor retorno.

A ideia que temos das listas telefónicas de formato enciclopédico está cada vez mais longe da realidade. Durante anos foram encolhendo. Depois passaram a ter de um lado a lista de assinantes e do outro as páginas amarelas. A redução continuou e foi de tal forma, que hoje parecem pequenas revistas impressas em mau papel fugidas de algum quiosque.

Lista telefónica encolhida
Embrulha quatro dúzias de castanhas

Agora, se faltarem as cadeiras de criança, já nem as listas são solução de recurso.


05 2008

Dos arquivos: Até Luanda, P.!

E foi hoje que a P. partiu para se juntar a quem lhe dá muita alegria (ou alergia).

A equipa está quase completa. Só falto eu.


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