Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

14  05 2012

Toponímia em azulejos

Na década de 1930, o Automóvel Clube de Portugal espalhou por todo o país milhares de indicações toponímicas para que os condutores não se perdessem perdidos. De nada servem mapas de estradas sem pontos de referência.

Os nomes eram compostos por letras avulsas produzidas em série. Eram desenhadas com um efeito tridimensional, mas nem sempre eram colocadas com o lado certo para cima, em especial as simétricas, como os NN, os II e os OO. Por cima ficava um azulejo com as iniciais do ACP. Nalguns casos este azulejo foi mais tarde retirado.

Como eram colocados nas entradas de cada povoação servida por estrada acessível a automóveis, podem hoje dar-nos uma ideia do quanto cresceram as terras e por onde passavam as estradas mais importantes. São como anéis de crescimento das árvores. É curioso encontrá-los a duas ou três ruas de distância em vilas ou cidades que hoje contam com muitos milhares de habitantes. Marcam o centro histórico de terras sem história.

Torcêna
Tercena, como o “O” invertido e grafia anterior a 1930

Como muitas outras marcas do passado, vão desaparecendo aos poucos. Não são suficientemente velhos para merecerem atenção, mas vão despertando a cobiça de alguns, que os arrancam das paredes velhas.


11  05 2012

Com Fé em Deus e a doutrina de Salazar

De vez em quando encontramos perdido por esses recantos de Portugal verdadeiros anacronismos que, pela lei das revoluções, deveriam ter sido saneados, quebrados ou escondidos. Estes foram apenas esquecidos.

Perto de Mafra, numa pequena povoação localizada no fim de uma estreita estrada e, portanto, a caminho de nenhures, há uma singela lápide que se enquadra nesta categoria.

Foi descerrada por ocasião da inauguração de uma nova fonte e lavadouro. Ostenta uma declaração de fidelidade ao regime de Salazar, na altura em que o General Humberto Delgado se candidatava à Presidência da República.

Lápide da fidelidade ao regime
Com Fé em Deus e a doutrina de Salazar

Ainda mais curioso que esta prova de fidelidade ao regime, é a própria data inscrita. Foi precisamente na véspera, no dia 10 de Maio de 1958, que o General Humberto Delgado proferiu a famosa frase «Obviamente, demito-o!».


05 2012

Parceria Público-privada quase medieval

Havia um convento no alto de um monte que tinha um burro. Certa vez, durante uma qualquer guerra, o exército quis confiscá-lo. As freiras argumentavam que o burro era essencial para o convento porque sem ele não tinham maneira de trazer coisas essenciais do sopé do monte. Eram todas muito velhas e o burro permitia aligeirar a carga. O oficial encarregue do confisco teve pena das freiras e deixou-lhes o burro.

A guerra continuou e, passados uns meses, voltou a ser exigido o confisco do burro das freiras. Os mesmos argumentos foram invocados de parte a parte. O burro era essencial para o esforço de guerra e sem o burro as freiras não podiam continuar a vida no seu convento. As freiras ganharam novamente.

Durante vários anos o Quartel-General foi pedindo o confisco do burro do convento, mas tal nunca aconteceu. Todos os oficiais ponderavam o valor do burro para a guerra e achavam que mais valia deixá-lo com as velhas freiras.

Até que a guerra acabou. Um dos oficiais que quis confiscar o burro acabou por perguntar às freiras porque era o animal não necessário para o convento, uma vez que elas consumiam apenas o que cultivavam na horta ou criavam no galinheiro. A Madre Superiora esclareceu de imediato que o burro era de extrema importância pois sem ele não havia maneira de ir ao vale buscar palha para o burro.

A máquina burocrática e legislativa de hoje é um pouco como o burro do convento. Existe para justificar a sua existência. Quando já está tudo regulamentado inventam-se novos regulamentos para alterar os antigos. Quem ganha a vida como legislador não pode um dia decidir que tudo está legislado. Se não há mais nada para legislar, legisle-se acerca da largura máxima permitida para as riscas amarelas das abelhas, legisle-se até ao ponto do bom-senso ser abolido e depois legisle-se para que ninguém o possa instituir outra vez. A burocracia existe para ir buscar mais burocracia ao fundo do vale para a burocracia comer.

Hoje em dia, quem quer abrir uma empresa, pedir uma licença para alguma coisa ou apenas perguntar se pode inspirar profundamente quando se espreguiça, atravessa um mar de regulamentos e requisitos que deixariam Kafka espantado. Licenças para isto, pedidos de vistoria para aquilo, taxas, taxas das taxas, impostos nas taxas e nas taxas das taxas, selos, carimbos e formulários on-line que se têm de mandar por correio registado. Tudo é contrário à lei a não ser que explicitamente permitido.

Nem sempre foi assim. Épocas houve em que o bom-senso reinava e se assumia que nada era contrário à lei excepto quando expressamente proibido ou causasse perturbação à ordem pública. A febre legislativa que tornou tudo tão complicado e burocrático veio estragar um esquema que durou milénios.

No Concelho de Loures, numa pequena povoação de seu nome Bolores, há um pequeno exemplo do sistema antigo, quase medieval, aplicado já no séc. XX. É a prova de que se pode viver sem o embrulho da burocracia.

Fonte de Bolores
Fonte de Bolores

O proprietário de um terreno quis aproveitar a água de uma nascente em terras públicas. Hoje seria impossível, o Estado, que não e pessoa de bem, preferiria selar a nascente a sequer pensar que alguém poderia usar a água sem taxas, licenças, coimas e inspecções. Na década de 1950, não era preciso tanto.

O aproveitamento foi permitido com algumas contrapartidas, dignas de constar num foral fernandino. O dono do terreno construiria, a custas suas, um chafariz para usufruto da população. Teria direito a canalizar para o seu terreno toda a água sobejante. Faz lembrar o regulamento do aqueduto de Évora, que contemplava o calibre máximo dos ramais. Nas caixas de saída do ramal era instalado um pequeno canudo de barro com a abertura permitida, que regulava o caudal. Toda a restante água continuava pelo aqueduto até chegar a Évora. Os proprietários trocavam a incerteza das suas captações por uma parte fixa do caudal do aqueduto, cendendo as suas nascentes ao canal principal. 

Fonte de Bolores

Parceria Público-privada

Em Bolores, a fonte foi construída. O município fica com a obra feita, e o Sr. Francisco João pode usar a água que sobrar. É o que se chama uma parceria público-privada em que todos ganham, não daquelas modernas em que o Estado constrói o chafariz, paga a água ao dono do terreno e este ainda pode cobrar a quem dela beber.


05 2012

Avenida António Enes

Queluz cresceu à sombra do Palácio. Durante duzentos anos foi este o centro em torno do qual orbitava a vida da povoação. Sem ele, Queluz seria apenas o lugar do cruzamento da estrada de Sintra com a de Algés a Belas, no que ainda hoje é conhecido como «Os Quatro Caminhos», o largo materializado pelas avenidas Elias Garcia, da República, D. Pedro IV e António Enes.

Com a chegada do comboio e o fim da Monarquia, o centro do lugar tornou a ser o cruzamento. O centro da povoação afastou-se do Palácio. O comércio e as pequenas vilas onde se vinha passar férias cresceram entre os quatro caminhos e a linha de caminho-de-ferro, no troço da estrada de Belas a que se deu o nome de António Enes, em homenagem ao importante escritor, deputado e Comissário Régio em Moçambique que morreu em Queluz em 1901.

Conheci a Avenida António Enes ainda com poucos prédios e muitas ruínas das antigas vilas. Na altura, era ladeada de grandes plátanos, cujas copas se tocavam e fechavam a rua num túnel verde, o que a tornava muito apetecível nos dias de Verão. A iluminação pública consistia numa série de candeeiros pendurados em cabos que atravessavam as copas, por ser impossível usar postes normais. É uma memória de infância vívida.

Avenida António Enes
As árvores cortadas

Entretanto, a cada vila que era demolida para dar lugar a mais um prédio de vários andares encostado ao do lado, várias árvores eram abatidas, muitas com o pretexto de que era a única forma de movimentar as máquinas e outras apenas porque se aproveitavam as estremas do lote para erguer as paredes em vez de usar a área de implantação da casa demolida. A avenida foi perdendo as árvores aos poucos, até restarem apenas uns exemplares miseráveis e maltratados. O túnel verde tornou-se um deserto estéril de tinta plástica e marquises de alumínio. Ficou horrorosa.

Avenida António Enes
Árvores novas substituem as velhas

Recentemente descobri que as últimas destas resistentes foram também cortadas. Subi a avenida e contei dois ou três cepos com os anéis ainda bem visíveis. Os últimos testemunhos do que tinha sido a avenida desapareciam. Felizmente que o fizeram por outros motivos que não o corte cego. Pouco mais à frente, novas árvores ocupavam o lugar das que tinham sido abatidas há décadas e alguns caldeiros abertos no passeio de novo ostentavam também o seu rebento. Volta a haver árvores estimadas na António Enes. Talvez regressem os candeeiros pendurados num fio e as tardes de Verão fresquinhas. Talvez.

Avenida António Enes
Esperemos que não as deixem secar

Neste momento sobra apenas uma árvore adulta, das muitas dezenas que bordejavam a rua. Era a mais pequena das seis que ficavam junto ao armazém da estação de comboio. Quando construiram a nova estação, o pior, menos funcional e mais feio mamarracho do mundo, as árvores quase centenárias estavam contempladas no projecto arquitectónico. Ficariam a esconder o edifício e disfarçavam a pequenez do largo, mas o argumento de que as máquinas não passavam foi mais forte e abateram cinco árvores colossais. Curiosamente, as máquinas raramente por ali andaram. Os desaterros e fundações especiais foram todos feitos mais a oeste.


05 2012

Malaposta

Acerca dos marcos quilométricos que duram mais que a própria estrada e que hoje servem para perdurar nomes e história, já escrevi anteriormente. Na altura usei como exemplo o marco da IV Légua da Estrada Real de Lisboa a Coimbra, mandada abrir por D. Maria I, para o serviço de malaposta.

Esse marco resistiu no seu lugar até 1985, altura em que foi destruído num acidente automóvel. Depois de reconstruído foi colocado uns metros ao lado, longe da estrada que quase o fez desaparecer.

Marco de Carregado
Marco do Carregado

Alguns quilómetros mais a norte, à saída da povoação do Carregado, está outro marco desta estrada. Tem uma forma curiosa, com uma secção em forma de losango. Ficava no entroncamento da estrada para as Caldas da Rainha com a Estrada Real. Devido às obras que as estradas vão sofrendo, também este está um pouco deslocado. A construção da auto-estrada obrigou a enfiar a Estrada Real numa funda vala. O marco mantém-se na cota original, agora fora de contexto.

Marco de Carregado
Marco do Carregado

Por se tratar de um monumento de pouca importância turística, a sua zona de protecção resume-se a um rectângulo com meia dúzia de metros quadrados. É impossível fazer uma fotografia que não apanhe a auto-estrada ou o lote da estação de recepção de satélite.

Um pormenor muito curioso é que o canteiro aparenta ter gravado no marco uma inscrição com o sotaque lisboeta: «derige» em vez de «dirige». 


27  09 2011

Dos arquivos: Palácio de Queluz

Parece-me um pouco criminoso morar à vista do Palácio Nacional de Queluz e poucas vezes falar nele. Por vezes esquecemo-nos do que está perto e procuramos coisas interessantes fora de portas. Uma visita ao Domingo de manhã ainda é gratuita e só por um passeio nos jardins já valia a pena.

Foi neste palácio e no mesmo quarto que nasceu e morreu D.Pedro IV, depois de abdicar duas vezes a favor dos filhos e de ter sido Imperador do Brasil, a meio mundo de distância.

Mas isso é assunto para outras histórias. Hoje escrevo sobre um único painel de azulejos, porque há muito me apercebi que se o todo é interessante, deve-o aos pormenores.

O Corredor das Mangas, uma comprida sala cheia de janelas que une dois corpos do Palácio, está decorado com painéis de azulejos em tons de azul e amarelo. É uma decoração leve e com as janelas abertas para o jardim quase se acredita estar ao ar livre. Informam-nos na visita que datam do final do séc. XVIII e sobreviveram ao incêndio de 1934. Atribuem-nos a um conhecido ceramista da época, Francisco Jorge da Costa, mas os estilos diferentes fazem-nos acreditar que o mestre se dedicou a uns e pôs os discípulos a trabalhar noutros.

Alguns painéis apresentam um traço simples, com perspectivas distorcidas e personagens caricaturadas, mas outros são verdadeiras obras naturalistas, como o agricultor chinês da parede mais próxima da Sala dos Embaixadores.

Agricultor chinês
Agricultor chinês em Queluz

Curiosamente, a Sala dos Embaixadores foi das áreas que mais sofreu com o incêndio, tendo sido reconstruída na sua quase totalidade e não custa a crer que este mesmo painel tenha sido danificado e o seu restauro lhe tenha trazido um traço mais apurado. Mesmo assim, julgo que seja original.


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