Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

25  08 2008

Açambarcamento

O abastecimento de géneros é muito complicado em Angola. À excepção de alguns artigos, quase tudo o resto é importado. Anos de guerra criaram uma dependência atroz do exterior e das importações. Os produtos chegam às lojas apenas de tanto em tanto tempo. Isso faz com que nunca se saiba bem o que se pode comprar a dado momento.

Às vezes vamos ao Jumbo fazer compras para algumas semanas ou procurar algum produto que esteja demasiado caro no supermercado da esquina. Temos sempre surpresas. O que vimos encher corredores inteiros na visita anterior, agora está esgotado e não se sabe quando vem mais. Quando temos marcas concorrentes que possam substituir, não há problema, mas às vezes ficamos mesmo sem escolha.

O tecido industrial angolano, talvez por ainda estar a sair do tear, tem dificuldades em abastecer o mercado. Não é raro que marcas de manteiga ou iogurtes angolanos esgotem durante umas semanas. A água engarrafada nacional sofre do mesmo problema.

Produtos tradicionais, como o óleo de palma, têm de ser importados de Singapura porque a produção nacional não é suficiente.


Para a Muamba

Por isso, só há uma solução. Açambarcar. Sempre que se encontra um produto que se consome habitualmente, compra-se uma quantidade absurda. Não sabemos quando vai haver mais. É preciso ver as datas de validade e fazer umas contas de cabeça para ver se ainda vai estar bom quando se estiver a acabar este lote. Puxa-se o carrinho para perto da prateleira e atesta-se.


Lacticínios

Mesmo os produtos que se compram de mês a mês podem estar muito tempo esgotados, por isso é bom ter reservas…

Produtos em duplicado e triplicado
Em duplicado e triplicado

Como toda a gente o faz, os produtos esgotam-se cada vez mais depressa. Quanto mais se importa, mais se açambarca. É um ciclo vicioso, mas é assim que funciona…

Nas lojas, quase todos os produtos frescos são muito caros. É normal encontrar tomates a 10€ por kilo. São tomates importados que chegaram a Angola em contentores refrigerados. Na terra do marisco pode-se comprar camarão congelado, de baixa qualidade, a preço de lagosta fresca na Europa…

Para os congelados não temos muita escolha. Até nas ruas vemos vender frango congelado importado. Para os hortícolas, já descobrimos que em vez de reclamar do preço, mais vale ir directamente à fonte. Vamos às lavras ou às bancas fora do centro e compramos tomates, batatas e fruta a preços quase angolanos.

As zungueiras, que é o nome que se dá às vendedoras ambulantes, costumam abastecer-se nos arrabaldes de Luanda. Aproveitamos as escapadelas para fora do bulício da cidade e fazemos o mesmo. Às vezes somos surpreendidos. Quando estamos dispostos a regatear até aos 500 Kz por um balde de tomates que custaria 800 Kz perto do centro, supondo que nos vão pedir 600 Kz, propõem-nos apenas 400 Kz. Ficamos desarmados. Acabamos por levar muito mais coisas que o previsto, mas gastamos menos. Ficamos contentes por ter sido a um preço justo e, especialmente, porque o dinheiro foi para as gentes da terra e não para a empresa estrangeira.


Mãe Lucinda

Como a escassez de balanças é semelhante à de todos os outros produtos, as transacções fazem-se em unidades de volume. Para batatas, cebolas, tomates e similares, a unidade básica é o balde. Costumam ter cerca de cinco litros de capacidade. Para não haver dúvidas quanto até onde se enche o balde, tem de ficar cogulo. Não se pode lá meter mais nada. É claro que a vendedora hábil já sabe como há-de empilhar os géneros para poupar um ou dois por balde.

Se um balde for muito, faz-se uma pilha com quatro ou cinco unidades. A fruta costuma ser vendida assim.


A unidade é a pilha

A maioria dos produtos é de produção própria ou comprada nos mercados de província. Geralmente têm bom aspecto. Quase sempre melhor que os das coisas do supermercado. Somos fãs!


24  08 2008

Luanda vai à festa

Se eu tivesse chegado hoje, tinha tido uma experiência muito diferente. A Luanda de fins de Agosto não é igual à de meados de Junho. Está mais bonita. Está orgulhosa.

Luanda, essa velha senhora está a preparar-se para a festa das eleições. Como todas as senhoras da sua idade, é vaidosa. Vai experimentando vestidos novos e aplicando maquilhagem.

Quando cá cheguei, todos os edifícios tinham o ar de abandono que as últimas décadas de desleixo lhes davam. A camada de pó conseguia quase ocultar a idade da última camada de tinta e realçava todas as maleitas que a idade traz. Digamos que se assemelhava a pó-de-arroz sobre rugas bem vincadas…


Entra feio e sai bonito. É mesmo isto que queremos

Nas últimas semanas temos assistido à aplicação de uma camada de maquilhagem. Alguns muros e edifícios têm vindo a ser pintados com cores garridas. Vermelho, laranja e amarelo. Azul forte. As paredes brancas, cheias de graffiti foram repintadas e aparentam ser telas imaculadas. Outros prédios recebem uma pintura discreta, em tons de pastel não muito longe dos originais, mas deixam de sobressair no horizonte como edifícios degradados. Passam a ser um edifício discreto, bonito até. Os viadutos são decorados com motivos tradicionais e tornam-se autênticas obras de arte. Do outro lado da rua, um mestre pintor de reclames, esforça-se para que o letreiro da loja faça frente a semelhante concorrência.


Alegria no trabalho

Antes disso, Luanda fez uma limpeza de pele, digamos. Lentamente, as artérias que ligam o aeroporto ao centro da cidade têm ganho cor e brilho. O pó tem sido insistentemente varrido e já não parece ser um trabalho inglório. As brigadas de vassouras que, diligentemente, foram varrendo cada centímetro várias vezes ao dia, durante mais de um mês, conseguiram ganhar vantagem ao pó. Os montes que juntam são cada vez menores e há menos lixo nas bermas. Só faltam duas rodelas de pepino nos olhos para a senhora se sentir no Paraíso…


Todos os lugares são bons para pendurar as decorações

Como todas as mulheres modernas, não dispensa a cirurgia plástica. A prova disso são as obras que decorrem a um ritmo febril um pouco por toda a parte. Alisam-se umas estradas aqui, fazem-se uns implantes de viadutos por ali, uma lipo-aspiração de lixos vários em locais estratégicos e temos menos dez anos em cima!

Os vestidos novos são emprestados pelos partidos políticos, que enchem as janelas e paredes de bandeiras coloridas, forram os postes com faixas e atravessam as ruas com pendões que fazem lembrar festas populares. Os candongueiros enchem as Hiace de bandeiras e autocolantes do partido da sua preferência. Na sua maioria MPLA e UNITA, mas os outros também vão dando um ar da sua graça. A caminho das concentrações de simpatizantes, seguem em marcha lenta com lotação a triplicar. Gritam palavras de ordem e buzinam mais que o habitual. A festa está próxima!


Na falta de lugares no interior, abre-se a esplanada

Os sorrisos parecem mais abertos, como se esta preparação para a festa das eleições fosse o culminar do processo de paz que começou há dezasseis anos. Ou então é o brilho da tinta nova que se reflecte na alma das gentes.


Inimigos de outrora partilham a festa

O facto de se ver pessoas vestidas com a cor dos seus partidos a partilhar Cucas com os vizinhos, que envergam outra cor, só me faz pensar que talvez agora as coisas funcionem. Tanto se reprimiu os sentimentos de tribalismo que alimentaram a guerra que, hoje em dia, já só há Angolanos.

Enchem-me de optimismo, estas gentes de sorriso fácil e de esperança desmedida!


23  08 2008

Dúvidas…

Angola é um país fantástico, cheio de encantos e pronto a ser descoberto. Gosto desta terra que me acolheu. Adaptei-me bem e posso contribuir para a reconstrução de um país que já sofreu demais. Primeiro foi a guerra para expulsar os colonialistas. Depois foi a guerra fraticida em que cada parte acusava a outra de estar a alimentar oportunistas.

Mas há alturas em que me encho de dúvidas. É mesmo aqui que quero estar? É em Luanda que está o meu futuro nos próximos anos?

Por um lado, parece que estou em Portugal. A arquitectura é-me familiar e a língua quase a mesma, pelo que me sinto em casa, mas depois sou confrontado com uma civilização que não condiz com a paisagem. Mesmo falando a língua e conhecendo a história que uniu estas duas nações não consigo deixar de me sentir um estrangeiro. Sei que, para muitos, não passo de um latôn

 
Um estrangeiro na Fortaleza de Luanda

É nas pequenas coisas que este sentimento vem ao de cima. É olhar para os documentos que me acompanham para todo o lado, embrulhados numa bolsa de plástico. São as fotocópias do passaporte e do visto de trabalho, da carta de condução portuguesa, da carta internacional que parece uma lista telefónica. Será que quem os concebeu nunca imaginou que, com aquele tamanho, não são nada práticos de transportar? Fazia-me confusão ver os emigrantes em Portugal transportarem os seus documentos como hoje transporto os meus. Mas agora percebo que não há outra solução. Temos mesmo de andar com tudo aquilo atrás embrulhado em plástico.

Há dias em que chego a casa cansado. Não é só o cansaço físico, é também o cansaço que o afastamento dos que mais quero provoca. É a vontade de ir para casa descansar. É ter vontade de parar o carro não na Rua Amílcar Cabral, mas na Rua de Moçambique. É a vontade de enfiar as mãos por entre as grades do portão e sentir um nariz húmido e frio na ponta de um rafeiro que se agita ao ritmo da cauda. É a vontade de poder dizer que cheguei. É a falta de um abraço apertado que deixa um quentinho dentro do peito. São as saudades de me virar na cama e dar uma cabeçada na estante, ou de encostar a cabeça à parede enquanto durmo. São as saudades de olhar para a pilha dos livros que ainda estão por ler e saber que posso começar amanhã. Os cá de casa já li todos… É a vontade de espreitar pela janela da casa de banho e ver os novos ramos da oliveira a crescer.

Sinto falta de um quarto Vigor e de um pastel de nata da Marianita. Sinto falta de beber água da torneira ou de gelo nas bebidas.

Aborrece-me saber que podia fazer algumas coisas mas tenho as ferramentas a cinco mil quilómetros de distância. Aborrece-me saber que a bomba do poço voltou a avariar e que não posso perder uma tarde de volta dela porque estou longe.

Tenho saudades de andar de combóio e de metropolitano. Gostava de parar numa passadeira sem que o condutor atrás desate a buzinar. Queria montar o GPS no Patrol e ir procurar geocaches.

Vou fazendo algum exercício físico para manter algumas rotinas, mas já tenho saudades de ir ao ginásio. E fazer Body Combat sozinho não é das coisas mais estimulantes do mundo. Apetecia-me dançar uma Rumba com a Cristina ou de ir ao teatro reclamar das Bachatas…

Esta distância, que não me deixa enxugar lágrimas nem partilhar alegrias, é uma chatice.

Até há umas semanas, o passar do tempo era medido em comprimidos de mefloquina. Não fosse o Diabo tecê-las e ter de voltar para casa mais depressa que o previsto, fui mantendo a profilaxia do paludismo até partir para a província de Benguela. Agora já meço o tempo em semanas para o regresso… e perdi o medo aos mosquitos. Pelo sim, pelo não, vou batendo as palmas!

 
Calendário

Agora que comecei a fazer a contagem decrescente para as primeiras férias em casa, o tempo custa a passar porque a novidade de Angola às vezes parece rotina e já não me faz esquecer o quanto gosto de Portugal, com todos os seus defeitos e enganos.

Hoje deu-me para ter saudades de casa… acontecerá mais vezes, mas tem remédio. Basta pensar em todas as razões que me ajudaram a decidir partir para esta terra maravilhosa! E amanhã é dia de ir comer ao xilombo da Xilombo!


22  08 2008

Coisas de pré-sinalização, adenda

O artigo acerca das coisas de pré-sinalização deixou-me um amargo de boca. Reparei que não tinha nenhuma fotografia que ilustrasse bem as formas que assume o sinal de perigo rodoviário. Todos os dias me deparo com estas cenas, mas nem sempre levo a máquina a jeito… Acabei por mostrar outras coisas típicas de Luanda. Os carros batidos, a sucata nas ruas e acidentes. Se calhar devia ter retardado a publicação até estar perfeito… Mas o óptimo é inimigo do bom.

Acontece que, uns dias depois, me deparei com dois exemplos de pré-sinalização no seu estado natural e selvagem. Nem sequer podia pedir melhor enquadramento para a fotografia.

E assim me redimo. Cá está a verdadeira filosofia da coisa de pré-sinalização!


Com a carrinha parada, a bateria ganha a função de assinalar o obstáculo


21  08 2008

A caminho de Ebanga

Perdida nos confins do município de Ganda, a caminho de nenhures, há uma pequena povoação que, tal como muitas outras, já teve dias melhores. Rodeada pelos campos férteis do celeiro de Angola, foi um importante centro agrícola. Depois veio a guerra…


Guardando a água

Hoje em dia, as fazendas foram abandonadas e o seu estado de ruína é um espelho do que acontece nos campos. A agricultura ainda é quase de subsistência e a falta de acessos dificulta o escoamento dos produtos.

A falta de dinheiro, de produtos e da vontade de resistir a uma guerra interminável obrigou a que fechassem as cantinas, onde se vendia tudo.


Antigo chafariz

O colono partiu para Portugal, na maior ponte aérea de sempre. Foi recebido como retornado, essa palavra feia, que descreve alguém que voltou onde nunca esteve. Deixou tudo para trás, levando consigo apenas as memórias e um espírito aberto, diferente do metropolitano. Foi acusado, julgado e condenado pela crise que se instalou após a revolução. Alguns regressaram, mas já não tornaram à terra que os viu nascer e crescer. Preferiram começar de novo. As fazendas e entrepostos ficaram abandonados e o tempo tratou do resto.


Do tempo do colono

Antes da guerra destruir a ponte sobre o Rio Covômbua, Ebanga ficava a meio caminho entre Ganda e Balombo, a norte. Agora, a única estrada que a liga ao mundo vai-se mantendo em funcionamento apenas por necessidade absoluta. Só mesmo a ameaça de minas é que impede que se abandone a pista esburacada e se circule no capim das bermas. Quase toda a gente anda a pé. Não há dinheiro para transportes públicos. Aliás, nem há transportes públicos. As frotas de táxis privados, pequenas motorizadas, circulam todo o dia para trás e para a frente. Tanto condutor como passageiro levam os pés de lado, para evitar um tombo quando se passa em areia. Ao contrário de Luanda, onde o preço da viagem nos candongueiros é de 50 Kz, aqui não se faz uma viagem por menos de 200 Kz. Nas motorizadas transportam-se duas ou três pessoas, mais a carga.


À espera do táxi

Ao longo desta estrada vão aparecendo pequenas placas assinalando uma povoação escondida na mata. Estas aldeias desapareceram durante a guerra. As suas lavras e caminhos foram minados ou ocupadas por exércitos com fome. A paz fez com que as pessoas voltassem e reconstruíssem as casas.


Numa clareira na mata, fica Mussili

Naquele que foi o reduto da UNITA durante a última guerra, a sensação que temos é que todas as aldeias e povoações ostentam a bandeira do MPLA. Mas quem julgar que se trata apenas do hastear da bandeira do vencedor para evitar suspeitas de lealdade, um pouco à semelhança de ter uma fotografia do Oliveira Salazar na parede, desengane-se. De vez em quando aparece uma bandeira da UNITA. Se os vizinhos com convicções diferentes se conseguem entender, não vejo porque o resto do país não o fará.


Aldeia MPLA

Nalguns sítios hasteia-se a bandeira angolana, mas as suas semelhanças com a do MPLA não passam despercebidas.


Aldeia UNITA

As cores nacionais são motivo de orgulho dos angolanos. Qualquer pretexto é bom para usar uma bandeira, um cachecol ou uma camisa preta, vermelha e amarela.


Futuro de Angola

Regressemos à estrada…

Grande parte do caminho é feita ao longo dos eucaliptais plantados para abastecer o caminho-de-ferro de Benguela. Hoje em dia vão sendo explorados para madeira e para as pontes de toros que permitem manter a estrada em funcionamento quando as ribeiras são mais profundas. As matas já se começaram a misturar com os eucaliptos, aproveitando as clareiras deixadas pelo abate ou pelas queimadas descontroladas.


O abraço

Muito de vez em quando cruzamo-nos com um automóvel. Uma carrinha de caixa aberta carregada de gente e haveres. Um táxi a passo de caracol, que regateia todas as corridas e transporta muito mais carga do que a idade da Hiace levaria a supor.


Regateando a corrida

As termiteiras servem de marcos quilométricos. Assinalam a força da terra, cheia de vida, que não desiste. Resistem às queimadas, às guerras e à obstinação do homem em querer mais do que precisa. Ficarão cá bem depois de partirmos.


A cidade das térmitas

Pouco antes de chegar a Ebanga, avistamos a antiga Missão. Foi abandonada há muitos anos, como seria de esperar. Alguns edifícios estão em estado avançado de ruína, outros foram reconvertidos para outras utilizações. Uma escola primária nova surgiu ao lado do velho edifício. O templo resiste.


Marcas do passado

Os grandes monólitos graníticos que dominam a paisagem não são estéreis como aparentam. As suas faces rochosas quase nuas, escondidas atrás de um fino vestido de líquenes, são a verdadeira riqueza da região. É lá no alto que surgem as nascentes que alimentam os cursos de água e permitem a agricultura nas planícies. De uma fenda na rocha jorra a água com força. De um vulcão, dizem os locais.


Vulcão

Com mais água disponível, os campos têm mais gente e são mais tratados. À volta das ribeiras aparecem alguns pomares e plantações de batata-doce. Nas encostas mais acima planta-se mandioca e ananases.


Vendo o tempo a escorrer

O milho alterna com os bananais. Quase todos os lavradores são velhos. Noutra qualquer parte de Angola seriam mais-velhos. Mas aqui não há muitos mais-novos para fazer a comparação. Tão longe de tudo, são poucas os jovens que ficam nas lavras.


Paula e Puto Basta, a sério

No meio das queimadas vão surgindo pequenos formigueiros que se assemelham a cogumelos. Na próxima época haverá uma plantação naquele talhão.


Nascem como cogumelos, literalmente

Finalmente chegamos a Ebanga. Já se avista o edifício da Administração no cimo da encosta. Durante a guerra foi entaipado e remodelado pela força das circunstâncias. Hoje cumpre a sua função com a dignidade possível, em grande parte emprestada pela bandeira.


A Administração

O edifício, do tempo do colono, reunia todas as condições para receber alguém habituado a confortos da metrópole. Um poço, um chafariz, uma piscina. Actualmente, o poço está atulhado e o chafariz seco. A piscina já não recebe água do vulcão.


Marcas de um tempo que já passou

As construções tradicionais fazem-nos esquecer tempos idos e relembram que Ebanga é um local bem africano, onde ainda se depende da terra tanto para alimento como para abrigo. O seu isolamento tornou-a auto-suficiente em muitos aspectos. O corte das vias de comunicação impediu a importação de técnicas construtivas novas, que implicariam a compra de materiais do exterior, empobrecendo ainda mais as populações e, numa terra onde tudo é importado, o próprio país.


Casas e espigueiros

Ebanga pareceu-me um cantinho do Paraíso, depois de olvidar que está assim graças ao sofrimento de gerações. É curioso como o Purgatório de muitos pode ser agradável para outros.

Com a reabilitação do caminho-de-ferro e das estradas que ligam à costa, toda esta região se prepara para voltar a ser um centro agrícola, porque o futuro de Angola não passa por uma juventude a conduzir táxis. É preciso reduzir as importações e aumentar a produção.

Nota mental: Caramba, acho que a campanha eleitoral me está a afectar. Acabei de resumir, numa frase, os programas de governo de todos os partidos…

Chegou a hora da despedida. É altura de voltar a Luanda. Voltarei? Não sei. Passaria, de bom grado, mais uns dias a tentar conhecer as pessoas e a terra, mas a vida não o permite.


Até breve


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