Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

15  08 2008

Aventuras culinárias, outra vez

Depois das experiências com o baço, as várias maneiras de comer mandioca e algumas invenções com ingredientes um pouco mais tradicionais, resolvi experimentar algo de novo.


Uma pequena mandioca

Na Canjala comprei 1000 Kz de banana-pão. São cerca de 20 bananas grandes como tudo. À primeira vista, cada uma pesa meia arroba e mede mais que um carro.

Olhei para o monte de bananas em cima da bancada e comecei a pensar que se calhar foi asneira comprar tantas… não sei o que fazer com uma, quanto mais com vinte! Fui à internet procurar receitas. Assustei-me, só havia receitas rebuscadas, que envolviam ingredientes que não tinha e dotes culinários que não domino, como levar o açúcar ao ponto pérola…

Acabei por encontrar algo de simples. Banana-pão assada no forno com casca. Só é preciso forno, uma faca e um pouco de açúcar. E a banana, claro!

Agarrei em quatro bananas, lavei-as, fiz-lhes um corte na casca a todo o comprimento e pus uns grãos de açucar entre a casca e a banana. Como o quadro eléctrico andava a fazer das suas, tive de ligar o gerador para poder ligar o forno eléctrico. As bananas cozinharam por cerca de meia-hora, até a casca estar preta. Não sei se foi cedo ou tarde, mas tirei-as e provei. É bom!

Partilhei com os colegas e a P. descobriu que as bananas também podem ter caroços…

Como somos só três e assei quatro bananas, ficou uma à espera de destino.

No dia seguinte, com remorsos por deitar fora uma banana, pensei em como lhe podia dar utilidade. Acabei por pôr uma panela ao lume e ir juntando algumas coisas, entre as quais, a banana assada cortada aos pedaços e sem as sementes. E não é que consegui fazer um arroz de banana?

Ao fim de quase uma semana só tinha conseguido dar caminho a um quinto das bananas. Temi que as restantes se estragassem. Era preciso encontrar um receita que envolvesse uma quantidade absurda de bananas e que não fosse complicada. A solução óbvia era fazer um bolo. A internet é a salvação de cozinheiros enrascados. Encontrei uma receita que, com as devidas adaptações à realidade angolana, poderia muito bem ser tentada.

Um monte de bananas, mais alguns ovos, óleo e pão ralado resultam num excelente bolo. Não sei se ficou assim porque aldrabei a receita ou porque as bananas eram boas, mas o certo é que não fui o único a provar e aprovar.


Cá está ele


14  08 2008

Terra queimada

A guerra não destruiu apenas estradas, pontes e casas. Destruiu gerações inteiras de angolanos.


Nos planaltos

Durante a última guerra assistiu-se ao êxodo das populações para Luanda, onde não havia combates. As pessoas escolheram um lado, não pelos ideais políticos que defendia, mas por ser aquele onde estavam em segurança. No mato, os exércitos de ambos os lados faziam recrutamentos forçados a cada aldeia onde passavam. Recolhiam todos os rapazes com idade suficiente para lutar, isto é, maiores que a AK47. Se se recusassem, eram mortos sob suspeita de serem simpatizantes da outra facção… tout court. De uma forma ou de outra, obrigaram os homens a abandonar os campos. Os homens tratavam da desmatação e abertura de novas lavras pelo que, sem eles, as mulheres cultivavam o mesmo talhão anos a fio até este estar exausto. As colheitas eram cada vez mais magras e estavam sempre sujeitas a ser confiscadas para abastecer os exércitos. Em caso de recusa ou de suspeita de fornecimento ao inimigo, minava-se as lavras! Esconder os homens e rapazes ou emigrar para a capital eram as duas únicas soluções.


Os netos da guerra

As consequências disto ainda hoje se pagam. Há uma geração de angolanos que cresceu escondido ou que esteve no exército e nunca trabalhou. As angolanas, essas, trabalharam sempre. Trabalharam a dobrar porque os homens em vez de estar nos campos ou combatiam ou se escondiam para não combater. As mulheres trabalhavam porque não tinham escolha. Tal como hoje, a fome da criança às costas é algo que toca no âmago do instinto maternal e obriga a muitos sacrifícios.

Os angolanos cresceram ociosos. As gerações mais velhas não se revêem neles. O sonho dos novos é poder arranjar um emprego como taxista, segurança ou controlador de alguma coisa. Trabalho, só em última escolha. Ao ver uma estrada a precisar de reparação, um angolano não diz que precisa ser reparada. Diz, como já ouvi muitas vezes, “haviam de cá vir os chineses arranjar a estrada”. Este não é o meu país, mas custa-me ouvir esta preguiça colectiva a falar.

À porta de casa já ouvi um mais-velho a ralhar aos dois moços que vivem encostados às paredes do prédio, talvez para evitar que caia. Eles tinham acabado de empurrar o carro a alguém e exigido pagamento. Diziam que tinham fome e que queriam dinheiro para uma sopa. O mais-velho apontava-lhes o dedo, reprovador, e dizia que antigamente se empurrava o carro para ajudar e não para se pedir dinheiro a seguir. Achava estranho estarem sempre com fome. Muita sopa deviam comer… em latas de Cuca. Quem tem fome trabalha!

Na capital não há espaço para lavras. Na capital não há trabalho para todos. Na capital havia milhões de refugiados de uma guerra que ninguém queria. Hoje em dia continua sem haver trabalho para todos.


Fazendo pela vida

A perda de gerações abalou profundamente a coesão social dos povos. A tradição oral, essencial nos dialectos que não têm expressão escrita relevante, perdeu-se. Sem crianças às quais transmitir o conhecimento das gerações passadas, o mundo ficou mais pobre. Já não há ninguém que saiba quando se plantou a árvore na beira do caminho, nem que diga como se faz. Os cemitérios à saída das aldeias foram abandonados com a povoação e as campas dos antepassados passaram a ser campas sem nome.

Os cemitérios de cada aldeia situam-se geralmente à saída da povoação, nas matas à beira da estrada. As campas não ficam escondidas atrás de um muro alto, estão à sombra das árvores que viram crescer os que agora repousam. São mantidas limpas e arranjadas.


Antepassados

Nas aldeias abandonadas, os cemitérios foram invadidos pelo capim e pelas termiteiras. Os nomes nas campas desapareceram. Por vezes, apenas uma cruz de madeira tosca identifica o local.


Sem nome

A maioria dos homens prefere partir para as cidades do litoral, onde formam uma nova família, muitas vezes deixando mulher e filhos para trás. No campo vêem-se poucos. Ainda menos nas lavras. Até mesmo profissões mais exigentes fisicamente, habitualmente desempenhadas por homens, são agora ocupadas por mulheres, como o fabrico de blocos de adobe.


Mãe e filho

Também é certo que a dependência do petróleo já se faz notar até mesmo no interior. A necessidade de alimentar os táxis, os geradores e os candeeiros obriga a que se tenha de ter dinheiro para comprar o combustível. Os lucros provenientes da lavra não são suficientes. Toda a gente produz o mesmo e ninguém quer comprar. Só na cidade se vende alguma coisa e a baixo preço. Ir para a cidade implica uma caminhada de vários quilómetros. Podem ser encurtados com uma viagem de táxi, que custa cerca de 250 Kz por cada 20 km.


Taxista orgulhoso

Tal como na capital, os taxistas nunca teriam dinheiro para comprar uma carrinha ou uma mota. Trabalham para o dono do veículo. Têm de entregar uma determinada quantia ao fim do dia. Tudo quanto fizerem a mais é deles. Enquanto isto, as mulheres continuam na lavra, a sustentar os estômagos da família.

O aparecimento de dinheiro na mão dos agricultores faz nascer negócios um pouco por toda a parte. Os candongueiros da gasolina surgem atrás de cada árvore nas zonas mais remotas. Ficar sem gasolina a 40 km da povoação mais próxima pode ser dramático, mas, pelo preço certo, consegue-se prosseguir viagem.


125%

As tabernas e cantinas passam a vender cerveja como nunca e grande parte do dinheiro ganho nem chega a casa.


Havemos de voltar

Mas nem todos os rapazes conduzem táxis ou ficam sentados à espera do dia seguinte. Há alguns que trabalham no campo com a família. São mais a excepção que a regra, mas não seria justo ignorá-los.


Na lavra de batata-doce com a avó e a irmã

Desempenham as funções que lhes competiam há muitos anos atrás. Nos trabalhos que exigem mais força já substituem as mulheres. Lavrar os campos com um arado e uma junta de bois é um bom exemplo. Para além disso, não é fácil fazê-lo com o filho às costas…


Sob o olhar do mais-velho, o rapaz vai conduzindo os bois

As pontes que foram caindo com a guerra ou com a falta de manutenção são repostas à custa de braços e eucaliptos plantados ainda no tempo do colono, para abastecer o caminho-de-ferro de Benguela. Aquelas árvores que “não se sabe se são plantadas ou se nascem sozinhas, porque nunca ninguém viu uma nascer”, como já ouvi dizer.


Caminho para o futuro

O futuro de Angola está nestes rapazes e, sobretudo, raparigas que agora começam a sua vida. A escola é uma oficina de virtudes, como está escrito nas paredes de todas as escolas primárias. É nela que vão aprender a construir uma vida melhor. É com eles que Angola vai despertar do marasmo trazido por quarenta anos de guerra.


O nascer de um novo dia


13  08 2008

Esticando as pernas

Vindos lá da província de Benguela, tivemos de parar algumas vezes no caminho para esticar as pernas. A foz do Cubal e a Canjala foram os locais eleitos. A escolha não se deveu apenas ao cansaço, mas também à existência de mercados agrícolas em ambos.

Na foz do Rio Cubal vende-se essencialmente bananas. Há grandes plantações ali perto. São baratas e bem boas.


Vendedoras de bananas

Os atractivos deste sítio são mais do que comerciais, há também formações geológicas muito interessantes. As camadas sedimentares que formam as arribas junto à costa vão sendo cortadas pelos rios que conseguem atingir o Atlântico. Há outros que se perdem nas areias do deserto do Kalahari. Aqui o espectáculo é magnífico!


O Rio Cubal bem encaixado

Quem aqui pára, geralmente não contempla a paisagem tecendo considerações acerca da sua beleza. Daqui apenas tiram o magro sustento.


Guardador de bananas e de sonhos

Junto das vendedoras de bananas também há lavadeiras, que aproveitam a sombra da ponte para tratar da roupa, que depois fica a corar ao sol nas moitas em redor.

Com esta aglomeração de gente, há sempre alguém que prepara refeições, ganhando mais alguns Kwanzas e enganando a fome.

Onde há mulheres, há crianças. Até terem idade para ir à escola acompanham a mãe. É costume ver as mulheres com três filhos. Um pela mão, outro às costas e mais um na barriga.


O sono dos justos, o almoço e a roupa a corar

Na Canjala, mais uma zona martirizada pela última guerra, o mercado é maior. Tem mais variedade e quantidade. Tem também dezenas de miúdos que cercam os carros a tentar vender sacos de plástico, guardar o carro, limpar-lhe o pó ou só receber dinheiro para não ser tão chatos. Fazem pela vida da maneira que podem.

Assim que se pára o carro, é-se cercado por uma multidão de caras novas. Os rapazes, que ainda não têm idade para conduzir um táxi, vendem sacos de plástico para as compras. As raparigas, algumas já com filhos às costas vendem sacos de ginguba, garrafas de óleo de palma e farinha. As mulheres ficam nas bancas onde vendem quantidades maiores.

As carreiras regulares de autocarros que ligam Luanda às províncias do Sul param sempre aqui e o negócio é feito através das janelas para não se perder muito tempo.


O cerco


As bancas


Arranjando o cabelo


Esperando os clientes

Mesmo nas várias bancas se notam diferenças. Há bancas mais bem abastecidas, com produtos viçosos e de aspecto fresco. Outras, mais modestas, compram a mercadoria às anteriores e vendem mais barato.

Os preços não são os mesmos de Luanda. Este é um mercado de província, afinal. Comprei alguns quilos de mandioca por apenas 200 Kz. A maior de todas media quase 80 cm.


Roendo uma laranja

Fui convencido a experimentar banana-pão. Comprei uma quantidade incrível por 1000 Kz. Sozinho não teria comprado tanta, mas o condutor insistiu que era bom e que valia mesmo a pena. Depois conto como foi.


As compras feitas


O cerco, outra vez

Também me convenceram a experimentar uma fruta cá da terra, o mabok. Há com cada coisa mais estranha por estes lados… A melhor maneira que tenho para descrever o mabok é que se trata do cruzamento entre um coco, um maracujá e um prato de moelas. Parece um maracujá grande, é tão duro que só se abre à pedrada e depois está cheio de uns pedaços muito escorregadios com um caroço que não se separa com facilidade. É ácido e com um sabor característico que não é desagradável.


O elo perdido

Depois desta última paragem, metemo-nos à estrada para chegar a Luanda lá pela hora do jantar. A longa viagem deu-me tempo para meditar acerca do que une e separa as gentes da Canjala e da foz do Cubal.

Ambos os locais partilham uma ponte do tempo do colono destruída, uma ponte metálica apoiada nos pilares antigos e uma ponte nova alguns metros a jusante do rio. Terá sido a falta de ponte que tornou possível a existência dos mercados?


Antiga ponte da Canjala


Antiga ponte do Cubal

O rio tinha de se atravessar, nem que fosse de barco. A necessidade de trocar os produtos deve ter obrigado a que as gentes se fossem juntando nas margens. Os mercados estabeleceram-se e cimentaram-se… mas isto é tudo especulação minha.


12  08 2008

Banhos d’água fria

No dia em que cheguei de Ganda, a primeira coisa que fiz foi enfiar-me no chuveiro e tomar um duche quente. Tinha passado quatro dias sem me lavar decentemente e acho que já começava a cheirar a catinga…

Em Luanda é costume a água faltar. Exceptuando as coisas novas, tudo o resto se vai mantendo de pé à custa de soluções de recurso. A rede de água não é excepção. É perpetuamente remendada e emendada, tentando-se fazer as reparações mais depressa que as avarias surgem. Tenho de reconhecer que os piquetes da EPAL trabalham depressa. Mesmo em avarias grandes, a água não falta muito tempo seguido.

Desta feita, quando quis tomar banho, a água estava com pouca pressão. Corria um fio tímido nas torneiras que lhe deixava adivinhar um fim próximo.

A recente avaria eléctrica cá de casa privou-nos de algumas coisas a que já nos tínhamos acostumado, como a água corrente todo o dia. Agora, quando não há água na rede, nós também não temos, apesar de conseguirmos olhar para 3000 litros de líquido precioso logo abaixo da janela. Sem bomba, a água só lá fica a descansar e a rir-se para nós.

Enfiei-me na banheira e abri a torneira. Ainda dava para me ir lavando.

Infelizmente, a caldeira está ligada no mesmo circuito que a bomba… e nada de água quente.

Antes com frio do que a cheirar mal, não é?


11  08 2008

Fenómenos

Tenho tido a sorte de ser acompanhado por um guia fantástico. É português, mas está em Angola desde 1961. Combateu na Guerra do Ultramar e por cá ficou. Já bebeu das águas do Bengo. Não regressa.

É mais angolano que português. É preto por dentro, mas de pele branca. Fala muitos dos dialectos principais e sabe praguejar nos outros todos, embora mantenha o seu sotaque beirão. Regateia tudo, absolutamente tudo, até ao último tostão. Já o vi regatear os últimos 5 Kz. Não resiste a uma mulher bonita. Seja ela de que cor for. Segundo diz, primeiro as mulheres são pretas, depois ficam mulatas, depois passam a morenas e, a dada altura parecem loiras. Promete casamento a todas, mas só por uma noite…


Um pedido de casamento à vendedora de ananases

Conduz como um africano e não se atrapalha em sair do carro para ir insultar mais de perto quem bloqueou o cruzamento. Os angolanos ficam desarmados ao ver um branco a praguejar em kimbundu fluente e a tecer considerações acerca da profissão da progenitora do condutor.

Conhece os recantos todos do país, bem como as variações gastronómicas das várias regiões. No dia da cabidela em Ganda, avisou-me logo que a galinha ia ser dura. E era!

Às vezes lembra-se de contar as suas aventuras. Todas têm uma aura de fantástico, a roçar o improvável ou cinematográfico, misturado com o inventado na altura. No entanto, as histórias são contadas com um colorido tal que não se consegue destrinçar onde começa a liberdade artística e onde termina o real. É um excelente contador de histórias, portanto. Os temas recorrentes são a guerra, as mulheres, os diamantes, as mulheres, os percalços na estrada, as mulheres, a caça e as mulheres. Ficamos na dúvida se o Casanova não seria um português a viver em Angola… Fala da Angola colonial e nas coisas boas que havia, mas não é um saudosista. Angola é o seu país, esteja como estiver.

Quando se junta a outros portugueses que estiveram em Angola nos temos do Império, há sempre a tendência de contar uma história que supere a do parceiro. E é nas histórias de caça que a imaginação perde as estribeiras e lá se confirma o tal provérbio dos caçadores, pescadores e outros mentirosos.

Pelas conversas a que tenho assistido, estou plenamente convencido que em Angola é possível carregar rinocerontes às costas, matar jacarés só com o mau hálito, estrangular jibóias com as meias e matar leões à bofetada.


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