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08 2010

Angolares

Para muitos, São João de Angolares é apenas o nome da Roça que o Santomense mais famoso do mundo deu a conhecer, mas a História da povoação do mesmo nome é muito mais interessante que alguns programas de culinária.

Apesar de descoberta em 1470 pelos portugueses, o terreno acidentado e a falta de gente e meios impediu a ocupação efectiva do território, pelo que grande parte da ilha de São Tomé era território livre. Os Angolares, diz-se, são os descendentes dos sobreviventes do naufrágio de um negreiro na costa sul da ilha, que terá ocorrido em meados do século XVI.

Durante décadas, o reino dos angolares co-existiu com os portugueses, que exploravam cana-do-açúcar com escravos. Alguns dos escravos fugiam a juntavam-se aos angolares, buscando refúgio, situação que resultou em algumas escaramuças.

Uma revolta de escravos em 1595, que terminou no ano seguinte com a morte do líder dos revoltosos, o Rei Amador Vieira, que chegou a controlar quase por completo a ilha. Com a revolta dos escravos o cultivo da cana-do-açúcar foi abandonado e apenas com a introdução do cacau e café foi necessário mais terra para cultivo e mão-de-obra escrava importada de África, pelo que a pressão sobre o reino dos Angolares foi quase inexistente durante o Grande Pousio em que a agricultura santomense passou a ser de mera subsistência. Apenas um século depois houve uma fricção de relevo, com um acordo assinado em 1693, após uma incursão de Mateus Pires em território Angolar para reprimir uma prática habitual dos angolares, a de assaltar as fazendas mais próximas para roubar mulheres, que eram poucas no seu reino.

Durante mais de século e meio este acordo vigorou e os angolares viveram com governo e instituições próprias. A sua capital era a vila de Santa Cruz, a actual São João dos Angolares.

Com a abolição da escravatura acolheram também muitos dos libertos que abandonaram as roças, que se tornavam angolares de direito próprio, os quais nunca aceitaram trabalhar no campo como assalariados. Para além da agricultura de subsistência, produziam sal, peixe seco, porcos, madeira, cordas, taças e colheres em madeira, que vendiam na cidade e exportavam por circuitos próprios.

A introdução das culturas do cacau e café forçou-os a ocupar um território cada vez mais pequeno, com a expansão das roças para dentro dos seus domínios. Os três séculos e meio de História do Reino dos Angolares terminaram no final do séc. XIX. O seu último rei, de seu nome Simão Andreza ainda foi imortalizado em fotografia de Almada Negreiros.

Rei Simão Andreza
Rei Angolar Simão Andreza

Actualmente, a identidade do povo Angolar ainda está viva, com alguns falantes da língua Angolar e muitas tradições que persistem e os diferenciam dos restantes santomenses.


08 2010

Património escondido

Por vezes esquecemo-nos que a verdadeira riqueza patrimonial está mesmo debaixo do nosso nariz e que aquilo que nos toca mais fundo, por fazer parte da cultura que nos moldou como portugueses, pode estar nos sítios mais insuspeitos.

Na povoação de Alcainça, um modesto povoado do Concelho de Mafra com uma história que precede a própria nacionalidade, encontramos, para além de edifícios do séc. XII, um bonito, ainda que modesto, portal manuelino.

Vale a pena fazer o desvio para o apreciar.

Portal Manuelino
Portal Manuelino da Antiga Capela do Espírito Santo de Alcainça Grande

Coordenadas aproximadas (WGS84): N 38º 55.190′ W 9º 17.400′


08 2010

Cerveja crioula

A propósito de uma cerveja santomense que nos deram a provar no aniversário da Cristina, perguntei se as histórias que se contavam eram verdadeiras.

Quais histórias?
– Diziam que, durante muitos anos não houve cerveja nacional em São Tomé.
Foi havendo, foi havendo… Mas diziam porquê?
– Contavam que quando havia cerveja não havia garrafas, que quando havia garrafas faltava a água ou a electricidade ou que, quando havia garrafa, água e electricidade, faltavam as caricas.
  Ah! Sim, é verdade. Durante uns anos foi assim mesmo. E agora há tudo, mas faltam os rótulos!

O nosso anfitrião mostrou, orgulhoso, a garrafa de vidro escuro sem quaisquer vestígios de rótulo ou identificação. Com um sorriso, acrescentou:

Mas o problema foi resolvido. O rótulo vem estampado nas caricas!

Cerveja Rosema
Cerveja santomense

As garrafas são grandes e, em vez de pedir duas minis, em São Tomé pede-se uma cerveja e dois copos. As garrafas de meio litro são indicadas para se partilhar a cerveja, como fazíamos os três. Mesmo sendo fraco bebedor e não apreciando grandemente cerveja, devo confessar que era saborosa. Partilhei o sentimento com o nosso amigo, que concluiu:

Dizem que é uma boa água que faz uma boa cerveja. Nós temos água excelente, das nascentes nos picos e esta cerveja não leva conservantes nenhuns. Também só se aguenta uma semana, mas não se pode ter tudo.


08 2010

Angola em fotos: Vitral

Vitral na Igreja do Caxito
Vitral da Igreja do Caxito, já com alguns vidros quebrados.


31  07 2010

Com tanto canastrão por aí…

São sempre as pessoas que nos marcam que mais falta nos fazem quando desaparecem. As que nada nos dizem, ou com as quais não nos identificamos, podem sair de cena com um estardalhaço descomunal, mas não será por isso que nos marcam. Depois há outras que saem de fininho, mas que nos deixam um vazio difícil de preencher. São aquelas que nos ajudaram a crescer de uma forma ou de outra. Algumas fazem parte do nosso círculo mais próximo, de família e amigos, mas há desconhecidos que também cumprem o seu papel a moldar quem somos. «Os bons partem sempre primeiro» diz o provérbio, porque dos maus não queremos saber.

Morreu António Feio, um actor que prestigia a profissão e um encenador cujo trabalho sempre apreciei. Porque de cancros pancreáticos há poucos sobreviventes, a condecoração que recebeu no princípio do ano foi uma espécie de homenagem póstuma ainda em vida, à boa maneira portuguesa, de só dar valor às pessoas depois de partirem.

Com tanto canastrão a ganhar a vida como actor, porque tinha de morrer um dos bons? Das várias peças em que o vi, nunca me apercebi que as personagens fossem o António Feio. Tinham a cara dele, mas as semelhanças ficavam-se por aí. Não era o António Feio a fazer de. Era a personagem interpretada pelo actor.

Saíu de fininho, sem passar cavaco a ninguém. Um dia estava vivo, no outro doente, no seguinte longe das notícias e depois soube-se que morreu. Aproveitou a vida, garantiu uma vez.


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