Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

04 2010

Seguro automóvel

A maioria das seguradoras internacionais exclui Angola das suas coberturas de seguro automóvel por acharem o risco demasiado elevado. Basta olhar para a Carta Verde e vemos que quase todos os países africanos estão cortados. As condições das estradas e o estilo de condução assim o ditam.

Mesmo assim, as companhias de seguros angolanas contratavam seguros  contra terceiros a quem quisesse. Por não serem obrigatórios, quase só as empresas e estrangeiros o faziam e, apesar do elevado risco de acidente, as apólices não eram muito caras porque as companhias entendiam que os condutores que contratavam seguros eram um pouco mais cautelosos que a maioria.

Acidente
Despistou-se numa recta

A partir de Fevereiro de 2010 a situação mudou e o seguro automóvel tornou-se obrigatório. Até então os preços acessíveis das coberturas eram definidos pelas próprias seguradoras. Temendo que o maior risco conduzisse a um aumento exponencial dos preços das apólices, o Governo estabeleceu um valor base para o seguro obrigatório, quase três vezes superior ao praticado pela maioria das seguradoras antes da entrada em vigor da lei. Hoje em dia, para se conduzir um carro em Angola é necessário desembolsar qualquer coisa como cinco ordenados mínimos anuais só em seguro.

Como curiosidade, apesar da moeda oficial ser o kwanza e o Governo tudo fazer para que as transacções em moeda estrangeira diminuam, o prémio do seguro obrigatório é de cem mil dólares. Os kwanzas continuam apenas a servir de trocos.

Continua a haver muitos carros sem seguro. A polícia sabe-o, mas não tem controlado com muito afinco esta questão, em contraste com o que aconteceu quando verificavam se os carros tinham macaco e triângulo ou cadeirinha de bébé. Sabem perfeitamente que em caso de acidente as coisas se resolverão por si, tal como acontecia antes do seguro ser obrigatório. No entanto, se forem chamados a um acidente e o culpado não tiver seguro, apreendem-lhe o carro até que este pague a multa e os estragos.

Acidente
Faixa da esquerda para virar à direita, faixa da direita para seguir em frente

Quando não há seguros e a polícia não vem os condutores adoptam a técnica da apreensão civil, fazendo o mesmo que se fazia antes do seguro se tornar obrigatório. Depois da habitual discussão acalorada para determinar a responsabilidade do acidente e o custo estimado da reparação, o condutor culpado entrega os documentos do carro como penhor. Quando pagar o arranjo recebe os documentos de volta. Caso a reparação seja cara deixa também o carro e, se não tiver dinheiro para a pagar, o outro pode vendelo. Simples e funcional.


04 2010

Estrelas

O céu deste hemisfério deixou-me perdido. As constelações que me eram mais familiares desapareceram e o cacimbo ou as nuvens que cobrem o céu durante grande parte do ano deixam apenas vislumbrar estrelas isoladas. É difícil reconhecer padrões e arranjar novas mnemónicas para identificar as estrelas.

A Lua sempre foi servindo de companhia quando voltava os olhos para cima, mas até essa me trocou as voltas, pendurando-se em direcções pouco usuais e deixando-me sempre na dúvida quanto à fase em que estaria.

A esperança de alguma vez vir a reconhecer o céu angolano foi esmorecendo à medida que a data de regresso se aproximava. Mas as surpresas acontecem e dei por mim de boca aberta a olhar para três estrelas famosas numa cidade às escuras, lá nas terras altas do café do Kwanza Sul.

Constelação de Orion
Orion, ou as Três Marias

Um Orion brilhante parecia correr no céu de pernas para o ar, furando as nuvens ainda pouco densas do princípio da noite. Procurei outras constelações, mas nenhuma estava suficientemente visível para a reconhecer e, pouco depois, a nuvens fecharam o céu definitivamente. Ainda falta ver o Cruzeiro do Sul.


04 2010

Poder tradicional

A sociedade tradicional angolana é regida pelos costumes e é personificada na figura do soba de cada bairro. Os sobados de outros tempos, em que o soba local era a única autoridade conhecida, já não existem, mas foram responsáveis pela manutenção de alguma autoridade no interior do país durante a guerra civil. A constituição angolana prevê a coexistência de duas leis diferentes para reger as gentes, uma delas, a tradicional, é aplicada pelos sobas, dentro de certos limites, obviamente. O direito consuetudinário, ou costumeiro, aplica-se às zonas rurais segundo os usos e costumes de gerações. Nas cidades aplica-se a legislação escrita.

Cada bairro tem o seu soba e todas as decisões da vida comum passam por ele. Pelo cargo que ocupa e pelo facto de ser quase sempre um ancião, é respeitado e obedecido.

Os Sobas
Reunião de Sobas

Os sobas são um poder independente, mas são pagos e fardados pelo Estado. Usam uma farda caqui com um chapéu que os permite distinguir facilmente. Na altura das eleições legislativas muitos receberam também motorizadas, não do Estado, mas do Governo, ou do MPLA, o que vai dar ao mesmo.

Soba empurrando mota
A caminho do posto

Na província, nos últimos dias do mês, é frequente encontrarmos verdadeiras procissões de mais-velhos fardados de castanho claro em direcção a um posto administrativo. Vão-se juntar aos que chegaram mais cedo para conversar enquanto esperam que os 6’000 kz mensais lhes sejam entregues.


04 2010

O 666 não anuncia coisa boa

Há dias em que Luanda nos convence que a única relação que se pode ter com Angola é a de amor-ódio. Amor pelo país e ódio pela capital. Não que a cidade o mereça, mas há um acumular de situações aborrecidas que vão desgastando o pouco ânimo que resta.

Não bastando as contrariedades que afectam todos, como o trânsito, a lama nas ruas e os cortes de água e luz diários, há também uma grande parte da cidade a viver sem condições ou dignidade. Tudo isto afecta o estado de espírito dos luandenses, que sentem que a guerra ainda não acabou, pelo  menos a julgar pelas condições em que se vive.

Armário eléctrico
As falhas que saturam

Aquilo que talvez seja mais difícil de suportar é a corrupção dos polícias e fiscais. Em certas alturas acreditamos que se comportam como verdadeiros ladrões, usando a farda para intimidar as vítimas. A situação é tão flagrante que é fácil adivinhar que os ordenados estão atrasados quando as operações de fiscalização se multiplicam nos primeiros dias do mês.

As situações vão-se repetindo, com pedidos de gasosa ou venda de facilidades quase diários por parte de quem devia perseguir os bandidos mas ganha a vida com estes esquemas. São tão frequentes que acabamos por não contar a metade deles, para não passar por exagerados. Mas o de hoje merece relato.

Logo após chegar do trabalho, fomos a pé ao estádio dos Coqueiros, aproveitando a última luz do dia. No regresso, ao passar uma esquina, ouvimos uma interpelação habitual.

«Amigo… Amigo…»

Já nem fazemos caso, tantos são os amigos desconhecidos que nos pedem «só cem kwanzas» a cada passo que damos. Tenho pena, mas não sou um mealheiro com pernas para andar a sustentar desocupados com bons corpinhos para trabalhar em outras coisas que não sejam o levantamento Cuca. Mas o chamamento continuou.

«Amigo… Senhor…»

A variação foi estranha e olhámos para trás, tentando perceber quem era. Era um polícia de giro, com a sua farda azul. Como de costume, anotei o número da braçadeira – 666. Para quem acredita nessas coisas, não é sinónimo de boas notícias. Pediu-nos os documentos. Perguntei-lhe porquê.

«Porque é hora morta e vocês andam na rua.»

Olhei em volta. Por todo o lado se via gente a andar de um lado para o outro, ou não fosse esta uma das praças mais movimentadas da cidade. Há menos de quinze minutos atrás era de dia e o céu ainda mostrava nuvens avermelhadas. Se esta é a hora morta, custa-me a conceber como será descrita a madrugada. Mas qualquer coisa o levou a achar que o nosso comportamento era suspeito e merecedor de mais atenção por parte da autoridade. A intenção era óbvia, assegurar fundos para o jantar. Fingiu que leu os dados dos passaportes e, desconsolado por estar tudo em ordem, mandou-nos seguir.

Quero acreditar que nos quis controlar os documentos de forma aleatória, mas o certo é que os únicos dois brancos na rua éramos nós e não andou a incomodar mais ninguém. Cada vez tenho mais saudades dos polícias da província.


31  03 2010

Agradável surpresa

Sair de Luanda é sempre uma boa notícia, que a cidade esgota a paciência de qualquer um num instante. O último resquício do clima de guerra em que a capital ainda vive sente-se ao cruzar a fronteira da Província do Bengo, com o pedido de gasosa disfarçado de controlo de estrangeiros. Daí para a frente estamos noutro país, com gente diferente.

Na província vão-se vendo sinais de desenvolvimento que passam despercebidos no meio do bulício da cidade. Estradas recuperadas ou em obras, centros das cidades arranjados e alguns campos cultivados com mais que agricultura de subsistência.

Com as estradas em melhores condições e as viagens entre cidades a demorar horas em vez de dias ou semanas, os transportes rodoviários abastecem o interior de forma mais fiável. Os postos de abastecimento são mais numerosos e o combustível esgota menos vezes. O desenvolvimento do país não está a ser só feito com estradas e pontes, há escolas e lojas novas um pouco por todo o lado.

Em Calulo, numa paragem para abastecer estômago e carro, encontrámos o passo seguinte do desenvolvimento num edifício acabado de arranjar. Uma nova biblioteca ajudará os alunos da cidade a aprender, porque de nada adianta ter escolas sem livros.

Biblioteca Maria Carolina
A nova biblioteca

Uma biblioteca pode parecer pouco, mas são estas pequenas obras que contribuem para a melhoria das condições de vida.


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