9
04
2010
Junto dos principais mercados de Luanda encontram-se sempre carregadores prontos a entregar algumas centenas de quilos de cimento, peixe congelado ou grades de cerveja em qualquer parte da cidade. Os triciclos motorizados começam a ser mais frequentes, mas o carrinhos de mão ainda reinam.
Os restos de uma palete, muitos pregos e a roda de um automóvel são transformados num carro que foi evoluindo em função das necessidades. Duas plataformas convergentes permitem que a carga se equilibre sobre a roda sem grande esforço. Quando vazios, estes carrinhos são empurrados na vertical, usando os pés como pegas, o que facilita as manobras.

Carros de mão
Na província, com caminhos menos planos, os carrinhos de uma só roda não são tão adequados. A necessidade ditou que se construísse uma versão diferente, mais estreita e com duas rodas. Parecem trotinetes de madeira, com um guiador alto para se poder controlar a direcção sobre a carga.

Trotinete de carga
A versão do campo, com rodas de madeira e as peças esculpidas à mão, é bem mais artesanal que a da cidade, que recicla materiais. Os rapazes do campo sabem que as suas máquinas são muito mais divertidas que os carrinhos de mão da cidade. Afinal de contas, quando não há nada para transportar, uma descida na estrada pode ser feita como se fossem de mota.

Transporte tradicional
Não podemos deixar de admirar o engenho e empenho dedicados à criação destas máquinas que os graúdos usam para ganhar a vida e os miúdos para fazer corridas.
8
04
2010
As angolanas adoram tratar do cabelo e variar os penteados. Salões de beleza, sempre cheios, são visão corrente nas ruas principais dos bairros, mas nos quintais mais sossegados, à sombra da mangueira, é costume ver as mulheres fazer trancinhas umas às outras.
Nos fins-de-semana de tratar da carapinha, como lhes chamam, as primas, irmãs e tias revezam-se a entrançar os cabelos de uma sortuda. Como fazer centenas de pequenas tranças é extenuante, trabalham em equipa, mas vão sugerindo opções para abreviar o esforço «Tens o cabelo muito comprido, devias cortar… Ficava mais bonito se pintasses. Se quiseres trato disso.»
Posto de venda de postiços
Na rua vendem-se os postiços, extensões de cabelo mais ou menos natural que complementam o penteado novo. O cabelo brasileiro faz sucesso e permite que cada uma ostente o cabelo comprido que todos acham desejável.
Mulheres de cabelo curto são olhadas de lado. Os homens não gostam de as ver assim e as outras mulheres dizem que parecem bandidas. Aliás, as filhas mais rebeldes, se começam a dar muito trabalho à mãe, arriscam-se a uma tosquia radical que as vai fazer perder a vontade de sair à rua. Se saírem, mesmo com um chapéu, já sabem que «vão lhes estigar». Nada como um golpe na vaidade para fazer acalmar.
7
04
2010
Uma das principais queixas que as empresas a operar em Angola têm é o elevado absentismo dos seus trabalhadores angolanos. Os baixos salários praticados, a desconfiança que os angolanos têm uns dos outros, a esperança de encontrar alguma coisa melhor e uma economia paralela que absorve grande parte dos desempregados levam a que muitos se decidam a não voltar a pôr os pés num emprego que não é o ideal.
O desemprego é especialmente preocupante nos angolanos que investiram no estudo. Quanto mais se aprende mais se alargam os horizontes e há trabalhos onde as pessoas se sentem desaproveitadas.
Há cerca de um ano a nossa empresa publicou um anúncio para recrutamento de recém-licenciados ou estudantes finalistas em algumas áreas. Tínhamos como objectivo contratar duas ou três pessoas. Durante o período em que as candidaturas eram aceites recebemos e analisámos cerca de quatro centenas de currículos. Os melhores trabalham hoje connosco.
Entretanto, nos meses seguintes, continuaram a chegar cartas. Algumas tinham-se atrasado nos correios, outras tinham sido enviadas meses após o fim do concurso. Até agora chegaram mais de quinhentas.
Recebemos um milhar de candidatos para duas vagas, o que é assustador. O mercado de trabalho está tão saturado que os patrões se podem dar ao luxo de oferecer misérias e continuar a ter quem queira trabalhar para eles.
Mercado de trabalho informal: a candonga
Para além do número de candidatos, há outras coisas interessantes a analisar. Na imensa pilha de cartas recebidas foi muito frequente encontrar currículos de irmãos enviados simultaneamente, quase que como uma candidatura familiar. Cerca de um quinto das respostas eram de pessoas que à data estavam empregadas e encontrámos também quem tivesse enviado o currículo duas e três vezes no espaço de algumas semanas a julgar pelos carimbos dos correios. Houve ainda quem tivesse enviado currículo, fotografias, certificados e cópias de documentos mas que não tenha incluído uma única forma de contacto.
6
04
2010
Nas estradas angolanas um camião voltado numa curva é visão frequente, infelizmente. Longas distâncias e grandes rectas propiciam a que os condutores andem mais depressa que o recomendado e façam poucas pausas. Uma distração ou excesso de confiança podem fazer com que saiam da estrada.
No fim da curva
Nas pontes mais estreitas, as guardas partidas quase sempre assinalam o local onde um contentor caiu ao rio. Nestes casos, o acidente acontece quase sempre porque dois camiões tentaram cruzar-se no estreitamento, cumprindo o código de estrada oficioso.
Ultrapassagem mal medida
Nas estradas principais que já estão arranjadas, a maioria dos acidentes deve-se ao excesso de velocidade. Se o asfalto está em bom estado, é quase certo que em cada curva se encontram carros virados ou queimados e cargas espalhadas. Ao fim de alguns dias sobram apenas as carcaças que vão enferrujar lentamente nos anos seguintes.
Mal travado
Para além do surreal acidente testemunhado em primeira mão na estrada para Malanje, deparei-me com outro igualmente bizarro a caminho do Huambo.
Numa subida íngreme a muitos quilómetros de qualquer povoação, uma pequena multidão acotovelava-se na berma da estrada e espreitava para o fundo de um barranco. Lá em baixo, no meio da clareira acabada de abrir, um camião carregado de colchões estava de pernas para o ar.
Todos os que espreitavam lá para baixo eram passageiros. O condutor tinha parado para urinar, mas ninguém reparou que o camião tinha ficado mal travado até ser tarde demais. Desceu até à berma e depois rebolou até ao fundo do talude. Um dos passageiros que me contava a história riu-se e comentou “a gente só faz acidentes”. Tal como no outro acidente, neste também parece que ninguém se magoou.
5
04
2010
No planalto do Amboím, a meio caminho entre Luanda e Huambo, fica a Cela. Na década de 1950 foi lá instalado um colonato pela Junta Provincial de Povoamento. As aldeias do antigo colonato foram absorvidas pelo projecto Aldeia Nova, embora ainda se vejam algumas inscrições a indicar J.P.P. e datas de fundação de meados da década de 1960.
Para além dos produtos agrícolas também se produzia carne e lacticínios, aproveitando as grandes extensões de pastagens disponíveis. O leite da região ganhou fama e até mesmo hoje, muitos anos depois do nome colonial ter sido preterido por Wako-Cungo, a própria Lactiangol vende leite sob a marca comercial de Leite da Cela.
Igreja
Os canais de irrigação abandonados há anos foram limpos e recuperados recentemente, permitindo que aquele grande planalto voltasse a ser cultivado em grande escala. De facto, as primeiras explorações agrícolas de cariz comercial estão a funcionar, produzindo hortícolas que conseguem fazer chegar às principais cidades graças às estradas recuperadas.