14
04
2010
Durante uns meses, o nosso técnico de ar condicionado reduziu todas as avarias das diversas máquinas a apenas duas categorias, a falta de gás ou necessidade de colocar aparelhos novos. Chegava, apontava o comando à unidade interior, via os códigos de erro e concluia «O outro também fazia isto e teve de se meter uma máquina nova». Ao fim de duas visitas ficou claro que percebia tanto daquilo como de pesca de atum-rabilho e foi necessário encontrar um substituto.
O novo técnico de ar condicionado é bem mais competente. Até à data não houve máquina que não conseguisse reparar ou diagnosticar a avaria convenientemente e os problemas não se resolvem apenas com a substituição por peças novas. O seu único defeito é funcionar no fuso horário variável angolano.
Assisti muitas vezes a pessoas atender o telefone na esplanada e garantir que estão «quase a chegar» ou que «estão mesmo no princípio da rua e só precisam de encontrar lugar para estacionar», imediatamente antes de pedir mais uma cerveja e um prato de tremoços. A hora que combinaram é no tal fuso horário que varia conforme as prioridades de cada um.
Para quem está habituado, saber que a visita esperada está mesmo a chegar é o mesmo que dizer que ainda têm tempo para ir tratar da sua vida. Para nós é um pouco desconcertante ficar um dia inteiro à espera do homem e, sempre que lhe telefonamos, teve um furo, está mesmo a estacionar, «já girou quatro vezes [o quarteirão] e não arranjou lugar e vai ver se na marginal consegue», vem a caminho ou qualquer outra coisa. Por cada telefonema sabemos perfeitamente que à hora combinada temos de somar um intervalo variável, nunca inferior a duas horas, para uma estimativa conservadora da hora de chegada.
Estou mesmo a chegar
É preciso não levar estas coisas muito a sério. Em cada terra temos de nos habituar aos hábitos dos locais. É isso que distingue o turista do viajante. Em Roma sê romano e em Luanda esquece os relógios.
13
04
2010
Um fenómeno misterioso envolve os passaportes chineses em Angola que, segundo os anúncios publicados no jornal, desaparecem às mãos cheias ou são perdidos na via pública.
Muitas explicações têm sido adiantadas para justificar estes desaparecimentos, algumas das quais apontam para esquemas de emigração ilegal de chineses para Angola utilizando os vistos válidos dos passaportes declarados perdidos e partindo do princípio de que os chineses são todos iguais aos olhos dos fiscais nas fronteiras. O esquema começaria pela declaração de perda do documento, o que justificaria a emissão de uma segunda via do visto, legalizando novamente o portador do passaporte desaparecido. O seu passaporte seria enviado para a China onde outra pessoa o utilizaria para voltar a entrar em Angola. Em teoria, este esquema em cadeia podia funcionar perpetuamente, uma vez que a validação dos vistos nas fronteiras era feita visualmente.
Obra chinesa
Desde que o controlo passou a ser feito por via electrónica, esquemas deste tipo passaram a ser mais difíceis, senão mesmo impossíveis. As entradas e saídas de cada visto e passaporte são comunicadas directamente aos serviços de estrangeiros e não apenas confirmadas com o carimbo respectivo.
A verdade é bem menos poética do que se poderia desconfiar. Os passaportes dos trabalhadores chineses estão entregues ao capataz de cada obra, que se reconhece facilmente por ser o único que não anda de fato-macaco e que acompanha os trabalhadores nos autocarros com um molho de passaportes amarrados com um elástico. Assim, quando se perde um, perdem-se todos. Como os chineses são dos poucos que publicam anúncios esperando que alguém lhes encontre e devolva os passaportes, vão surgindo teorias de conspiração para explicar o desaparecimento de tão grande número de documentos.
Uma das razões que leva a que se acredite na existência destas manobras de emigração ilegal é a imensa desconfiança, quase a roçar a paranóia, que Angola tem dos estrangeiros. Se alguém perde um passaporte na rua, de certeza que é para lesar o país ou para roubar os angolanos, e a melhor conspiração é aquela que não se consegue provar.
Curiosamente, desde que os vistos passaram a ser controlados por computador, o número de passaportes chineses perdidos diminuiu consideravelmente. Antes que este facto reforce a teoria da conspiração, é preciso acrescentar que as obras públicas pararam em Angola mais ou menos pela mesma altura e o número de chineses no país também se reduziu.
12
04
2010
A base da alimentação em Angola é o funge. Faz-se apenas com farinha, ou fuba, e água quente. Dependendo da região, é de milho ou mandioca, e quem habitualmente come de uma, quase nunca toca na outra.
Nas zonas rurais é frequente ver-se grandes manchas brancas nos granitos que afloram no planalto. São as eiras comunitárias onde as mulheres secam e preparam a fuba.
Fazendo fuba
O processo é muito artesanal, com a mandioca a ser moinha com um martelo tosco e semrpe revolvida até que fique uma farinha seca e fina. Quanto mais fina mais cara se poderá vender no mercado, porque a venda dos produtos que cultivam é a principal fonte de receitas das famílias de camponeses.
No mercado
A farinha de milho é feita quase sempre com o trabalho de duas ou três mulheres de volta do pilão. Antes disso secam o grão ao Sol e depois de ter a farinha bem moída voltam a secá-la, tal como se faz com a de mandioca.
Nos mercados rurais a farinha é vendida por volume e a medida geralmente usada é uma lata de litro de óleo de palma, que costuma sobressair, bem vermelha, de uma pilha de farinha alva.
11
04
2010
Com a importação de motorizadas de baixo custo e as cadeias de distribuição a funcionar melhor, levando de forma regular combustíveis até às províncias mais distantes, surgiu um novo negócio, os moto-táxis. Nos arredores de Luanda, mas especialmente nas zonas rurais, onde as estradas ainda não foram todas recuperadas, as motas tornaram-se rapidamente um meio de transporte de eleição, capaz de encurtar muito a duração das viagens. Com ou sem carga, mesmo nos caminhos mais estreitos, os taxistas de duas rodas vão a todo o lado.
Como não é partilhado, o trajecto fica naturalmente mais caro que num candongueiro, mas os duzentos ou trezentos kwanzas da corrida são recuperados por chegar mais cedo e sair mais tarde do mercado, não perdendo parte do dia a caminho.
Esperando os clientes
Quase ninguém lhes chama táxis. Da mesma maneira que as iáces são os candongueiros, os moto-táxis são os kupapatas, palavra que descreve bem as condições de transporte. Uma tradução livre para kupapatas será qualquer coisa como mete-a-pata, porque é com um pé de cada lado que os menos experientes vão equilibrando as motorizadas nos sítios mais dificeis.
Um pormenor que distingue os mais experientes é o casaco grosso que costumam vestir. Depressa aprendem que o frio de mota é muito pior que o frio a pé e, numa terra conhecida pela pouca roupa usada, andam encasacados e de golas levantadas. Nos dias mais frios alguns chegam mesmo a vestir o casaco ao contrário, para o vento não entrar pelos fechos.
Os capacetes, que se tornaram obrigatórios apenas recentemente, foram ganhando adeptos. Juntamente com os óculos escuros, emprestam um ar mais profissional ao motorista e têm a vantagem de proteger a cabeça. Alguns levam também consigo um capacete para os passageiros, mas muitos optam por não o usar.
Os kupapatas não servem apenas para transportar pessoas. Nas zonas onde operam começam de imediato a surgir pequenos negócios de revenda de gasolina, reparação de furos, lavagem de motas ou angariação de clientes. Numa terra onde as oportunidades ainda são escassas, cada um trata de preencher o seu nicho.
10
04
2010
Oliveira da Figueira é uma personagem memorável das aventuras de Tintin. É o comerciante nato, que consegue vender as coisas mais inusitadas a quem com ele se cruza. Em Luanda ainda não me cruzei com ele mas, a avaliar pelo que se vê vender nas ruas, sinto que o seu espírito está presente.
Pronto-a-vestir
Lembro-me dele sempre que vejo um vendedor de gravatas a passear pelo meio dos carros, esticando a mercadoria para os pescoços dos condutores e fazendo-os ver-se ao espelho para confirmar que aquela cor liga muito bem com o casaco. Felizmente que a maioria das pessoas não se deixa ir em cantigas, porque já têm o banco de trás ocupado com peixinhos dourados, um par de halteres e um colchão insuflável azul e branco adquiridos no cruzamento anterior.
Vendedora de soutiens
Os vendedores dos cruzamentos de Luanda são persistentes. Mesmo após as primeiras recusas continuam a demonstrar que a sua mercadoria é claramente superior à da concorrência e, ainda por cima, tem um preço mais acessível. Vendem óculos de sol a quem já os tem, nem que seja porque se pode fazer colecção de autênticos Ray-ban com lentes de vidro totalmente originais pela módica quantia de 1’000 Kz ou outra oferta justa que o comprador queira fazer. Vendem latas de quilo de sangacho de atum ou de salada de frutas em calda com o mesmo sorriso com que vendem tapetes felpudos com pandas desenhados. Vendem latas de inseticida e copos de cerveja em dias alternados. Vendem mobílias, pastas, desodorizantes, pão e sapatos. Pelo meio andam os ardinas e os reis do disco pirata.
Vende-se tudo
Só estou à espera de ver um par de esquis à venda para ter a certeza de que o Oliveira da Figueira passou por aqui.