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19  04 2010

Dia do sapateiro

Parece ser tradição angolana dar nomes sugestivos aos dias e aos meses. Homenageando feriados ou tradições, Fevereiro é o mês das catanas, Março é das mulheres e Abril das mentiras, Junho das Crianças e por aí fora.

As Sextas-feiras são conhecidas por dia do homem, apesar de ser mais correcto dizer que são anoite do homem. As mulheres casadas dormem sozinhas (ou pelo menos não com o respectivo) e os homens vêem-se a braços com a santíssima trindade angolana: cerveja, música e mulheres com pouca roupa. É às Sextas-feiras que o trânsito do final do dia começa logo a seguir ao almoço, para ultimar os preparativos da festa que se há-de prolongar até às primeiras horas de Segunda-feira.

Alfaiataria Sereia
Alfaiates

É precisamente a Segunda-feira que se segue aos fins-de-semana de festa que ganha o nome de dia do sapateiro. Chega-se tarde e com pouca vontade de trabalhar. Remendos e soluções improvisadas vão ter de servir até ao dia seguinte, quando as coisas voltarem ao normal.

Diz o provérbio que trabalho feito à noite aparece de manhã, mas em Angola, trabalho feito no dia do sapateiro aparece na Terça.


18  04 2010

Mudanças

Quando era pequeno fazia-me muita confusão saber que amigos mudavam de casa. Não era capaz de conceber eu próprio alguma vez ter de o fazer. Grande parte das minhas memórias estavam ancoradas ao quintal e às quatro paredes a que chamei casa desde sempre. Para além do mais, os amigos que se mudavam partiam para longe e alguns nunca mais voltei a ver. O conceito de mudar de casa assustava-me. E ainda assusta.

Entretanto, numa das voltas que a vida dá, fui trabalhar para Angola e mudei de casa. Por ser uma situação temporária, a mudança não foi completa. Levei comigo o essencial, mas deixei para trás muito do que me rodeava. Aos poucos fui-me habituando à nova morada, até ao ponto onde decorei os sítios das coisas e as mãos procuram sozinhas as portas dos armários ou sou capaz de reconhecer os pequenos ruídos característicos de cada recanto. Mas, no fundo, sabia que não era a minha casa e esta não era a mudança que me  assustava em pequeno.

Rua da Maianga
Moradas

Com o contrato a chegar ao fim, nova mudança me espera. Desta vez numa direcção conhecida, de volta às minhas referências. Mas não deixa de me assustar, porque deixamos sempre um bocadinho de nós para trás.


17  04 2010

Novo restaurante

A caminho do trabalho, ou de casa, conforme a hora do dia, numa das avenidas que costuma estar entupida e nos dá tempo para melhor apreciar a paisagem, surgiu um novo restaurante. O trabalho afincado de um pintor ao longo de quase uma semana resultou numa fachada amarela com um letreiro que, para além de informativo, é explicativo. Por ele ficamos a saber que se mata a fome no restaurante do Jean Paul, certamente um dos muitos refugiados congoleses que rumaram a Angola há quase duas décadas.

Restaurante Jean Paul
Jean Paul mata fome

Um pormenor que quase me escapou da primeira vez que vi o novo letreiro foi a chávena de café, bebida inusitada na maioria dos restaurantes que não se destinam principalmente a clientela estrangeira. Os produtores nacionais reclamam que os angolanos já não têm o hábito de beber café e que preferem o chá, que chega ao mercado a um preço muito mais baixo.


16  04 2010

Missão do Cuando

A alguns quilómetros do Huambo, na estrada que liga à cidade do Cuíto, um pequeno desvio leva-nos à barragem do rio Cuando, que abastece a cidade de água. A albufeira está cheia e apenas um descarregador barulhento impede que transborde. O barulho deve-se ao vácuo gerado pelo movimento da coluna de água que, a certa altura, faz com que seja aspirado ar ruidosamente. Todas as tubagens vibram e a barragem parece ter um motor a trabalhar. É desconcertante no início, mas depois passa a fazer parte da personalidade do lugar.

Descarregador de cheia
Descarregador

Uma estrada estreita percorre o coroamento da barragem. Do outro lado, no cimo da colina, está a Missão do Cuando, que ficou um pouco à margem dos combates de 1993, mas não deixou de sofrer. Hoje em dia é um edifício que procura manter a dignidade, apesar dos sinais de ruína serem mais que evidentes.

Igreja
Missão do Cuando

Buracos de bala, telhas arrancadas, remendos e pouca gente marcam a actualidade. Nalguns casos, a história da missão confunde-se com a dos seus habitantes, como é o caso do mais-velho que lá conhecemos, que ali tinha nascido e crescido. Também ele ostentava as mazelas da guerra.

Igreja
Arquitectura característica

Todos os edifícios da missão estão às escuras, com excepção da igreja vazia. A cruz brilhante no topo da fachada contrasta com a evidente escuridão que enche as janelas das casas em redor. Serve de farol à esperança de que dias melhores virão.

Igreja
À noite

Lá mais abaixo, na albufeira, pescam-se os últimos peixes e toma-se banho antes de regressar a casa. Com excepção do perpétuo pat-pat-pat do descarregador, o silêncio toma conta da paisagem e, por momentos, percebemos porque se escolheu aquele sítio para a missão.


15  04 2010

O abacateiro e a grávida

A Mãe Mónica tinha um abacateiro frondoso no quintal. Aquela sombra grande que se abanava nos dias de Verão era o seu orgulho. Começou por ser uma árvore pequenina, plantada por alturas da Dipanda, quando a família procurou a segurança lá no São Paulo de Luanda. A árvore foi crescendo até que os ramos passaram os muros do quintal e passaram a oferecer abacates a quem passava na rua.

Um dia notou que as folhas estavam menos viçosas e que os ramos começavam ficar despidos. Chegada a altura dos abacates, os poucos que medraram eram amargos e pequenos. A árvore foi adoecendo e secando até que morreu no ano seguinte. Foi um desgosto.

“A culpa”, defende a Mãe Mónica, “é de alguma grávida que me apanhou um abacate lá na rua!”

Segundo a tradição dos Quimbundo, as mulheres grávidas estão proibidas de apanhar os frutos das árvores porque as secam. A vida da árvore é passada para o filho que têm no ventre, numa curiosa associação dos mistérios da vida e da morte.

Flor seca
Flor de embondeiro

Feitiços, feiticeiros e encantamentos fazem parte da vida em Angola e por isso não há razão para duvidar deste toque mortal das mulheres grávidas, tal como noutras partes do mundo a superstição dita que o sal não deva passar de mão em mão ou que os gatos pretos dão azar.


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