24
04
2010
A memória é despertada pelos pormenores mais insignificantes. Desta vez recuei vinte anos graças a uma pequena gralha num cartaz no Huambo, junto das oficinas do caminho de ferro que hoje são um cemitério de locomotivas.
O cartaz, que deseja boa viagem aos visitantes é uma pequena cortesia para os que ainda têm muitos quilómetros de estrada pela frente. Acontece que, no que toca à língua inglesa, aparenta ter sido escrito pelo agente Crabtree, o inglês que se fazia passar por polícia francês e acreditava falar a língua, na série ‘Allo ‘Allo! e que, por sua vez, tinha sido inspirada no jardineiro algarvio do argumentista, que também julgava ser fluente em inglês e dizia coisas como Good Bing ou Gid Moaning.

Au revoir
Por momentos esperei que me surgisse detrás de um eucalipto um polícia de bicicleta, mas depressa voltei à realidade. Ainda faltavam muitos quilómetros até Luanda e o Huambo não é Nouvion.
23
04
2010
As salamandras são animais quase invisíveis para quem vive em ambientes urbanos. São muito sensíveis a alterações do seu habitat e a sua fama de bicho peçonhento faz com que muitas sejam mortas só porque tiveram o azar de se cruzar com um humano. É verdade que segregam toxinas que podem causar convulsões, mas, a menos que se coma uma, não sei como alguém se possa queixar do seu veneno. De qualquer das formas, as pintas amarelas brilhantes servem de aviso para a intragabilidade do bicho.
Salamandra aventureira
Vivem em lugares húmidos e pouco poluídos, como margens de regatos lentos, sapais e grutas. Graças às chuvas de Abril, que deixaram os campos encharcados, e às temperaturas mais elevadas, as salamandras começaram a aventurar-se um pouco mais que o habitual. Perto de Valverde, em Évora, as salamandras deixaram as margens do rio e invadiram os campos e as estradas e tive a oportunidade de ver numa noite mais salamandras juntas do que tinha visto até então. Por outro lado, é fácil perceber que as estradas, mesmo que pouco movimentadas, são locais onde muitas são atropeladas.
22
04
2010
Calhou em conversa falar de cicatrizes, das pequenas marcas que vão povoando o nosso corpo à medida que aprendemos as leis da física da forma mais dolorosa. São condecorações atribuídas pelo mundo à experiência adquirida e quase todas nos trazem memórias vívidas do momento em que a pele cedeu e mordemos os lábios para não berrar.
Cicatriz
Ao longo de três décadas fui coleccionando a minha dose de cicatrizes: cortes nos dedos, arranhões fundos, pontos cirúrgicos e falhas no cabelo. Aprendi bem cedo que garrafas partidas e canas acabadas de cortar abrem golpes fundos em dedos de menino inconsciente. Usar a cama dos pais como trampolim pode acabar com um sobrolho ao peito e que as bicicletas alheias são mais duras que o crânio próprio. Chaves de bocas em sítios apertados resultam em nós dos dedos esfolados e nem sempre cortar coisas duras com o gume da faca para fora é garantia de que não haja um dedo em risco. Em primeira mão soube os efeitos provocados pelas picadas de variados insectos e aracnídeos e descobri também que, apesar de não deixar cicatriz, enfiar facas em torradeiras não é saudável. Quase posso estabelecer uma cronologia do acidente só de olhar para as mãos.
Cicatrizes
As marcas do uso que vão ficando nas coisas são as cicatrizes do mundo que nos rodeia. Talvez por isso as ruínas e as coisas esquecidas me interessem tanto. As paredes velhas abrigam muitas histórias, algumas das quais só mesmo as cicatrizes ficaram para que as imaginemos.
21
04
2010
Há edifícios cuja arquitectura os torna verdadeiros ícones das cidades. Alguns servem de pontos de referência mesmo para quem não os conhece. O prédio do livro de Luanda é um desses casos. Depois de explicado que parece um livro aberto, poucos há que não o sejam capaz de reconhecer. Fica perto do Largo da Maianga, a caminho da Igreja da Sagrada Família, mesmo ao lado do edifício da Unitel.
Prédio do livro
Mas acontece que em Luanda até os pontos de referência mais importantes podem ser confundidos. O prédio do livro, ao que parece, tem um sósia para os lados do São Paulo. Descobrimos às nossas custas ao tentar chegar a uma morada cujo único ponto de referência era o famoso edifício.
O sósia
Para evitar confusões, o prédio do livro passou a ser referido como o da Maianga. Talvez existam mais sósias por aí.
20
04
2010
A arte popular, que tem desaparecido à medida que as mensagens se tornam cada vez mais homogéneas e padronizadas, continua a ser um sinal de que a autenticidade das coisas não se perdeu. Mas como a inspiração se vai buscar naquilo que nos rodeia, às vezes deparamo-nos com alguma contaminação do popular pelo produto industrial.

Obélix angolano
O mais interessante é que estas contaminações cruzam as fronteiras mais improváveis. A meio mundo de distância encontrei um gaulês famoso por ter caído a um caldeirão de poção mágica enquanto pequenino a servir de inspiração a dois artistas. Para os lados de Évora, no lugar de Santa Sofia, uma aldeia escondida atrás do viaduto da auto-estrada para Espanha, estava disfarçado de alentejano, com um bigode menos farfalhudo e certamente sonhando com javalis assados.

Obélix alentejano
Num dos bairros em volta da refinaria de Luanda encontrei-o atarefado transportando lubrificantes em vez de menires, muito longe da sua Bretanha natal. A inspiração dos artistas partiu do desenho de Uderzo, que parece ter criado uma personagem com um traço verdadeiramente popular.