29
04
2010
Quando era pequeno e o mundo visto de baixo parecia muito maior que hoje, uma das coisas que me maravilhava era a Lua, que estava sempre no mesmo sítio mesmo que eu corresse o mais depressa que conseguisse. Aparecia e desaparecia atrás dos telhados e das árvores, mas acabava sempre por me apanhar, sempre a olhar para mim.
Depois cresci e a Lua foi ofuscada pela nova iluminação do bairro. Veio a escola, o liceu, a universidade e, durante muitos anos, não olhei para o céu com a atenção devida. Cheguei mesmo a pensar que a luz eléctrica tinha vindo para acabar com a antiquíssima ligação do Homem com as estrelas.
Por entre os telhados
Entretanto, a Lua voltou a fazer parte da vida, e olhar para ela é saber que se pode partilhar momentos a dois, vendo ambos o mesmo, ainda que a meio mundo um do outro. Simboliza memórias, projectos e sorrisos.
E agora, num fim de tarde em Luanda, a Lua baixa acompanhou-me por trás dos prédios da Ingombota, como fazia quando era pequeno. Juntaram-se duas recordações numa só, misturando rumbas e pirilampos com o deslumbramento de quem descobre o mundo. Olhei-a pelo canto do olho, sorri-lhe e pensei em ti.
28
04
2010
A pouco e pouco, o tecido agrícola angolano vai deixando de ser de subsistência. Ao longo das estradas para o interior surgem indicações para fazendas novas, que se escondem atrás dos montes. As plantações costumam ficar bastante afastadas das vias principais, porque as distâncias em África têm uma escala diferente e fazendas com menos que uns milhares de hectares são apenas hortas. Mesmo assim, com alguma sorte, somos capazes de avistar uma ou outra cultura nova mais perto da estrada.

Maracujás
Perto do Wako Cungo, numa zona bem abastecida de água, surge uma plantação recente junto da estrada para o Huambo. Tem alguns trabalhadores a cuidar do que parecem ser videiras, apesar de por estas bandas não ser habitual produzir-se uvas ou vinho. Mais perto apercebemo-nos que as folhas são mais pequenas e que as vinhas são, afinal, maracujás bem tratados.
Com a estrada recuperada, vai ser mais fácil fazê-los chegar aos mercados, reduzindo um pouco as necessidades de importação de coisas que se podem produzir localmente, que isto de ter as zungueiras a vender fruta namibiana com tanta terra inculta é um contra-senso.
27
04
2010
Os mosquitos são uma chatice. Se fosse só pelas gotinhas de sangue que nos sugam, nem incomodariam muito, mas as doenças que transmitem e os bobões que deixam na pele só fazem com que sintamos um prazer sádico ao esborrachá-los depois de os perseguir pelo quarto a meio da madrugada. A pausa súbita no zumbido irritante que nos acordou e a pequena mancha escura na parede significam um sono mais descansado a seguir.
Devido a uma interessante sucessão de acontecimentos, os primeiros meses do ano foram relativamente calmos no que toca a estes sugadores de sangue e paciência. Entre as grandes chuvadas que se abateram sobre Luanda no princípio do ano e limparam as valas e charcos, reduzindo muito o número de larvas de mosquito e as duas semanas em latitudes onde não há essas preocupações, já me tinha esquecido com podem ser incomodativos.
Regresso a Luanda no meio de uma explosão de mosquitos ávidos de sangue, já sem o hábito de ir espreitando pelo canto do olho onde andam os bicharocos. No fim do primeiro dia sentia-me como uma pregadeira de alfinetes. Mas antes que fosse comido vivo, depressa tornei a causar estragos à fauna local.
Está só a descansar
26
04
2010
Há uns tempos, depois de umas chuvadas fortes que deram cabo de parte da rua que demorou seis meses a reparar, um camião do lixo e respectiva tripulação de cantoneiros foi surpreendido pelo abatimento súbito do piso. Acabou por ser retirado do buraco com a ajuda de duas máquinas pesadas. Durante algumas horas temeu-se que as avarias fossem graves, mas voltou a circular no dia seguinte apenas com alguns arranhões adicionais na pintura.
Rua abatida
Umas semanas volvidas, eis que me deparo com outro camião de recolha de lixo pouco afortunado. Uma curva mal medida e uma valeta funda resultaram num eixo assente no chão e o serviço parado. A isto é o que se chama ter um dia lixado, passe o trocadilho forçado.
As duas pedrinhas de pré-sinalização
Os cantoneiros abrigaram-se à sombra de uma mangueira frondosa enquanto esperavam por socorro. O camião ficou a trabalhar, talvez porque em Luanda nunca se desligam os motores. O estrago resumiu-se ao ego do condutor e, no dia seguinte, recolheu-se o lixo com normalidade.
Mas, decididamente, carros do lixo e buracos não combinam nada bem.
25
04
2010
A propósito do aniversário da Batalha do Cuito-Cuanavale e da quantidade de mortos que encheram o Cuando-Cubango na guerra civil, calhou em conversa falar-se das rusgas que um e outro lado faziam para recrutar alguns soldados e muita carne para canhão.

Cinema Miramar
As rusgas cegas eram temidas por todos e as famílias já estavam avisadas que, caso um dos filhos desaparecesse, era bem provável que o tivessem de ir buscar ao quartel, apresentando comprovativos de adiamento de serviço militar.
Um angolano veterano destas andanças contava que em Luanda era arriscado ir ao cinema, especialmente se o filme fosse classificado para maiores de 18 anos. Por vezes acontecia que paravam dois ou três camiões da tropa e esperavam pelo fim da fita. Assim que as portas se abriam começavam a carregar todos os homens válidos. Tinham a garantia de que todos eram adultos e, antes que houvesse tentativas de usar cunhas para se esquivarem à tropa, arrancavam e só paravam no aeroporto, onde eram todos metidos em aviões de carga e, na altura, enviados para o Cuando-Cubango para umas semanas de instrução antes de seguir para a frente. Depois, logo se veria. A única hipótese, contou-me o M., era ficar para o final e rezar para que os camiões enchessem todos. Um verdadeiro filme de terror. Felizmente que agora só enche as memórias dos mais velhos.