4
05
2010
No princípio do ano, um alto funcionário do estado angolano ligado ao banco central anunciou a re-introdução de moedas metálicas, que tinham perdido toda a credibilidade em virtude das constantes desvalorizações do kwanza.
Faz sentido que se cunhem moedas para substituir as notas de denominações mais baixas, que se estragam muito depressa. Por trocar de mãos muitas vezes por dia, a vida média de uma nota de 50 kz deve ser de apenas alguns meses, por exemplo.
Os meses foram passando, mas as novas moedas não se viam circular. Até que, muito discretamente, os fundos das caixas registadoras começaram a chocalhar sempre que se abria ou fechava a gaveta. Fazendo umas perguntas na mercearia ficamos a saber que são as novas moedas, mas que não dão jeito nenhum porque ainda só há de 1 kz.
Realmente é estranho que, numa altura em que as notas de 5 kz são quase desprezadas, se introduzam moedas com valores faciais ajustados aos preços de uma década. Depressa descobrimos que são moedas dessa altura.
Moedas de 1 kz
Quando os preços são arredondados para os cinco kwanzas mais próximos, a introdução de moedas de 1 kz com os presentes níveis de inflacção só faria sentido se houvesse uma correcção do valor do kwanza, passando a moeda de 1 kz a valer o mesmo que a nota de 10 kz, por exemplo. As pessoas só as voltam a usar quando estas forem úteis. Numa terra onde os porta-moedas deixaram de se usar há muitos anos não faz sentido encher os bolsos de moedinhas sem valor. Ninguém vai pagar a corrida no candongueiro em moedas de 1 kz. Espero que seja apenas um prelúdio para a cunhagem de moedas de 50 kz e 100 kz.
3
05
2010
Ninguém o admite abertamente, talvez por ser um dos segredos mais bem guardados de Angola, mas aqui e ali vão-se ouvindo rumores de que a tentativa de encher a baía de Luanda com areia é apenas o início da cópia dos luxos existentes no Dubai.
Para além das ilhas artificiais e dos hotéis de dúzias de estrelas com campos de ténis nos terraços e restaurantes subaquáticos, o Dubai inaugurou com toda a pompa e circunstância uma pista de esqui no meio do deserto. Um grande armazém refrigerado, que daria um excelente entreposto frigorífico, acolhe árabes enregelados para dar uns bate-cús na neve acabadinha de sair da máquina. Angola prepara-se para fazer o mesmo, mas a uma escala muito maior, nem que seja porque é um país muito mais importante que um pedacito de deserto lá nas arábias.
Em vez de um modesto pavilhão climatizado, Luanda vai ser a primeira cidade tropical do mundo com um bairro inteiro transformado em estância de esqui. Ainda não tenho confirmação oficial, mas os pequenos indícios que têm vindo a aparecer não deixam margens para dúvidas.

Os pinguins já chegaram
Em primeiro lugar, as obras no Liceu Salvador Correia, que aparentam serr de recuperação, mas acredito que visem transformar o Liceu Salvador Correia num chalé alpino para acolher os esquiadores, com bares, restaurantes e um hotel de luxo. Na torre do relógio instalarão um teleférico que a ligará ao edifício da CIF ou da Sonangol, ambos com heliportos nos terraços.
Depois temos as decorações alusivas à neve, que me levam a concluir que a pista principal comece à porta do liceu, onde já colocaram os pinguins para dar um ar mais típico à coisa, e termine no Largo Serpa Pinto, onde descobri o último indício.
Esta pista decisiva é a mais discreta e só por um mero acaso reparei nela. Parado no largo estava um carro com pneus de neve. Só posso concluir que seja de um dos promotores da estância, já preparado para a sua inauguração.

Pneu de neve
Agora a sério. Tenho pena do sujeito que comprou o carro importado do norte da Europa ainda com pneus de neve. Vai achar que são os piores pneus do mundo quando se desfizerem ao fim de poucos milhares de quilómetros, mas não podia deixar passar a oportunidade de brincar um bocadinho com estas coincidências e as obras megalómanas em Luanda.
2
05
2010
A Quibala já viu dias melhores. A guerra civil deixou-lhe marcas fundas, com quase todos os edifícios do centro semi-destruídos e a reconstrução nacional passou-lhe ao lado, por haver cidades mais importantes na lista.
No centro
O seu campo de concentração dos tempos da república popular trouxe-lhe uma notoriedade indesejada, que a colocou no mapa como a terra para onde se enviavam os mais indesejáveis, com a esperança de que não regressassem. Até então a Quibala era apenas mais um cruzamento importante no planalto.
Em frente ao quartel
A cidade cresceu para os arrabaldes à custa de muitos telhados de chapa zincada e ruas enlameadas. O que resta do centro colonial assemelha-se a uma cidade-fantasma, esvaziada de vida. Tem habitantes, mas parecem sentir-se deslocados. Alguns velhos letreiros, que resistem até aos dias de hoje, apontam para negócios há muito fechados e simbolizam muitas vidas interrompidas.
Banco desaparecido
Junto das muralhas do antigo forte empoleirado no batólito de granito que domina a paisagem, o ponto mais alto da povoação, ficam os velhos depósitos de água, que estiveram largos anos sem serventia. Actualmente, uma derivação feia traz água até uma estação de tratamento de aço inox israelita. Água potável já há, mas electricidade ainda não, assim o indicam as ruas escuras e o barulho dos pequenos geradores a arrancar no meio dos bairros ao pôr-do-Sol.
Na porta de armas
Ao lado do quartel vazio, há uma pensão. Várias casas baixas organizadas em torno de dois pátios, permitem alojar os viajantes que pernoitam na Quibala. Os preços são os habituais, chegando quase aos cem dólares por noite nos quartos duplos. Água poderá ou não haver, dependendo do nível do depósito no telhado. O pequeno gerador não tem potência suficiente para a bomba do poço, os frigoríficos do bar e as lâmpadas de 100 W dos quartos, que iluminam com a convicção de uma vela.
Gerador fraquinho
Com o fim da guerra as pessoas começaram a refazer as suas vidas. Os pequenos negócios vão surgindo um pouco por todo lado, com mercadorias a chegar por estradas agora em boas condições. Os primeiros chineses que cá chegaram abriram também lojas de fotografia que fazem um sucesso tremendo e ao final do dia as ruas enchem-se com as risadas e as batas brancas dos muitos alunos da Quibala.
Escola de Inglês
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05
2010
Há muitos, muitos anos, no tempo em que Luanda era ainda uma cidade pequenina e cujos arrabaldes começavam no que hoje é o centro, os comboios paravam na Maianga. A estação da Cidade Alta ligava o centro de Luanda a Malange quase desde o princípio do séc. XX. Aliás, os caminhos-de-ferro angolanos nasceram cerca de três décadas depois da inauguração da primeira linha portuguesa.
Entretanto foi desactivada. A Cidade Alta deixou de ser o centro económico da cidade e a estação da Boavista ganhou importância. Depois da independência veio a guerra civil e os comboios foram fazendo viagens cada vez mais curtas, até que deixaram de circular de vez em Luanda a seguir às primeiras eleições.

A estação da Cidade Alta
A cidade foi crescendo e a estação, bem como o parque de manobras e edifícios anexos foram sendo utilizados para outros fins. Há uns anos tentaram que se tornasse a sede da Associação Chá de Caxinde, mas por uma razão ou por outra, esse projecto foi posto de lado e a estação ficou esquecida, arrumada a um canto. De estação passou a igreja, mercearia e habitação. Não fosse ostentar ainda o letreiro meio escondido com o nome do apeadeiro, poucos diriam que alguma vez teriam aqui chegado comboios.
Na esquina do outro lado da rua há um edifício também bastante degradado, a antiga habitação do chefe de estação, posto bem mais cotado na época, a avaliar pelas condições da casa.

Morada do chefe de estação
Actualmente são duas ruínas anónimas, que a cidade esqueceu, mas ainda não desapareceram debaixo de uma torre de estritórios moderna. Seriam sítios interessantes para instalar museus ou centros culturais.
30
04
2010
Em 2008, com o petróleo em alta, havia mais dinheiro do que aquele que se conseguia gastar e as empreitadas adjudicadas eram a perder de vista. O crescimento económico era dos maiores do mundo, sem previsões de abrandamento.
No ano seguinte chegou a crise dos fundos especulativos e os cofres do Banco de Angola secaram de tal maneira que se passou a dar importância ao dinheiro que se desviava, coisa que até então não causaria grande mossa. Os pagamentos às construtoras foram sendo adiados, fazendo as dívidas acumular-se até ascenderam a vários milhares de milhão de dólares. As obras começaram a parar por falta de pagamento e algumas empresas repatriaram centenas de trabalhadores estrangeiros e despediram dezenas de milhar de angolanos.
Este ano, o governo angolano anunciou que vai, finalmente, começar a pagar estas dívidas e explicita ainda que começará pelas construtoras portuguesas. Fiquei a matutar no assunto e não consegui perceber a razão dessa preferência nem de onde viria esse dinheiro, uma vez que tais montantes parecem não existir nos cofres do Estado.

Em obras
Fez-se-me luz uns dias mais tarde, quando soube que Angola se vai socorrer dos 500 milhões de euros emprestados por Portugal para o efeito. Se bem percebo, Portugal paga as dívidas às empresas portuguesas, tornando-se credor de Angola e esperando que daqui a uns anos não tenha de perdoar dívidas incobráveis, como aconteceu anteriormente. Fico sem saber quem paga a factura, afinal.