Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

05 2010

Bicho misterioso

Há umas semanas encontrei um bicharoco muito mal engendrado e desengonçado a tentar, sem grande sucesso, agarrar-se à chapa do carro. Como fauna bizarra é coisa que se encontra em África com facilidade, julguei que me tivesse cruzado com mais um bicho desconhecido.

Na altura, depois de conseguir que ele parasse de escorregar pela chapa da porta, tirei-lhe uma fotografia para melhor estudar o caso ou, no mínimo, poder mostrá-la aos incrédulos quando lhes digo que há bichos esquisitos por todo o lado.

Louvadeus novinho
Parece que sobraram peças

Dias mais tarde, de volta de um pequeno Cessna lá nas oficinas, o mistério ficou resolvido ao encontrar um familiar do desconhecido. Afinal era um louvadeus muito novinho. O seu primo, já crescido e verde, foi mais fácil de reconhecer.

Louvadeus adulto
Curioso

Nem tudo o que parece é e, neste caso, o que parecia ser uma novidade era apenas um novo ponto de vista. Mas não faço ideia como conseguem os louvadeus chegar a adultos quando são tão desengonçados em pequenos.


05 2010

Eufemismos

Vivendo em Luanda, pouco remédio temos para além de nos acostumarmos aos cortes de energia diários. Durante algumas horas todos os dias, a electricidade é desligada num bairro e desviada para outro, que antes estava às escuras. Quem tem gerador, garante que o gasóleo não se esgote, porque terá de o usar regularmente.

Armário eléctrico
Electricidade

Para além dos cortes programados, há os outros, aqueles que vêm fora do horário, mas chegam tão disfarçados que quase acreditamos que tenha sido para atalhar caminho ou esquecimento de olhar o relógio. Estes últimos, são quase sempre ocasionados pelas sobrecargas que se geram imediatamente após o restabelecimento da energia, por causa de todos os frigoríficos e máquinas de ar condicionado que arrancam em simultâneo, tentando recuperar o atraso que levam em relação ao calor tropical de que a cidade é farta.

A necessidade de abastecer os bairros alternadamente prende-se com a falta de capacidade dos grupos geradores na cidade e linhas de alta tensão das barragens do interior. Não há potência suficiente para abastecer a capital inteira, mas, segundo a posição oficial, os cortes são justificados, não pela falta de energia, mas porque o fornecimento ‘’continua em estado de procura reprimida’’, que é um eufemismo muito mais bonito.

Lá diz o provérbio, ‘’É o pão a acabar e as pessoas a deixar de comer’’.


05 2010

O inspector da TAAG

A transportadora aérea angolana voltou a voar para a Europa, após mostrar que os seus aviões mais recentes, a frota de Boeing 777, já cumpria os requisitos de segurança exigidos. Os Jumbo ainda têm alguns destinos vedados, porque nem todas as irregularidades encontradas foram sanadas, mas, pelo que sei, também este assunto ficará encerrado dentro de pouco tempo.

Na altura em que a proibição foi imposta, as inspecções das autoridades aeronáuticas internacionais eram frequentes. Visavam assegurar-se que as recomendações estavam a ser cumpridas a bom ritmo, tanto pela TAAG como pelo Estado angolano. Uma dessas visitas ficou famosa, pelo menos em Angola, porque o inspector não concluiu a missão e regressou mais cedo sem emitir um relatório oficial.

Apesar de parecer um contra-senso, esta atitude foi a que mais beneficiou Angola, porque as irregularidades encontradas, diz-se, eram tão graves que obrigariam a medidas mais drásticas, como a proibição de efectuar serviços de linha aérea internacional por parte da TAAG ou restrição do espaço aéreo angolano. A única forma de o evitar era não entregar o relatório, invocando falta de condições para trabalhar ou qualquer outro motivo que permitisse prorrogar automaticamente o prazo por mais seis meses.

O inspector partiu, deixou um relatório preliminar com as coisas que tinham de ser corrigidas antes que alguém visse e prometeu voltar daí a meio ano. Houve uma grande reviravolta nos meios da aviação civil durante esses seis meses, e as inconformidades mais graves ficaram resolvidas, mesmo a tempo da nova inspecção felicitar Angola pelo trabalho.

Felizmente, o trabalho não parou por aí e a prova é que na inspecção seguinte, a TAAG regressou à Europa com os seus próprios aviões, ao invés de os alugar à África do Sul.

Todos se perguntam o que terá visto o inspector que o tenha chocado tanto. Sinceramente, não sei, mas no aeroporto encontro coisas realmente estranhas, como o estendal de roupa mais alto do mundo.

TAAG estendal
Roupa seca a qualquer altitude


05 2010

Aerograma, o livro

O livro inspirado no Aerograma está cada vez mais próximo da sua forma final. Mais uma revisão foi concluída e apenas falta integrar parte das matérias publicadas após a última compilação e preparar algumas imagens para impressão.

Correcções
Quase pronto

Como os leitores do Aerograma são uma parte muito importante da experiência, lanço o desafio de proporem artigos que gostassem de ver publicados no livro. Por limitação do número de páginas, nem todos os artigos puderam ficar no manuscrito e há sempre o receio de ter ignorado algum que é considerado importante.

Por outro lado, para melhor poder calcular o número de exemplares a imprimir, começo a aceitar pré-reservas para a aquisição do livro. Quando tiver data de publicação e preço de capa definidos avisarei.


05 2010

O General, a amante dele e a casa da morta

Quando relatamos histórias de Angola enfrentamos um grande problema, porque quase todas se enquadram na categoria do "Contado, ninguém acredita". As que assistimos fazem-nos duvidar dos sentidos e as que ouvimos levam-nos a julgar não ser mais que excertos de romances rebuscados que alguém recita tentando fazer passar por sua e verídica a história inventada. Por isso temos de adaptar o velho ditado e, para os contos angolanos, retirar uma mão-cheia de pontos, arriscando mesmo assim a passar por mentirosos, tamanha é a estranheza dos episódios.

Como todas as histórias rebuscadas, esta tem de ter um titulo sugestivo. O General, a sua amante e a casa da morta pareceu-me perfeito, uma vez que é um bom resumo do que se passou e permite aos mais incrédulos ou apressados passar à frente dos detalhes, terminar a leitura por aqui e tentar imaginar uma aventura rocambolesca com estas personagens. Ficariam desiludidos por saber que nem assim, com toda a liberdade artística possível, conseguiriam um conto tão original quanto este. Mas passemos à historia, que já é velha de 35 anos e o seu estatuto de mais-velha talvez a torne menos suspeita.

No rescaldo da ponte aérea e com os últimos cartuchos do Kifangondo a sonorizar os dias de Luanda, a D. Rita viu-se a braços com uma vivenda no Bairro Operário. As minhas fontes são omissas quanto aos anteriores proprietários, mas tudo me leva a crer que a casa fosse mesmo dela, de papel passado e tudo, mas que se tivesse mudado para outra mais espaçosa noutro bairro. Para não a deixar abandonada e convidativa a uma ocupação selvagem, arrendou-a a uma família, que fez da moradia o seu lar até aos dias de hoje.

A ordem natural da vida ditou que a D. Rita fosse ocupar um pequeno apartamento de pinho no cemitério do Alto das Cruzes no princípio da década seguinte. Era uma cave, sem grandes vistas, mas a senhora já não estava em estado de reclamar muito e aceitou a situação com resignação. Não deixando herdeiros directos, a casa e respectivas rendas passaram para as mãos de uma prima ou sobrinha, não sei bem, mas também esta, sentindo-se sozinha, mudou de residência para o cemitério sem herdeiros alguns anos mais tarde. A família da moradia deixou pagar a renda, mas não se preocupou muito com isso, porque ninguém a veio reclamar e herdeiros do senhorio eram tão raros quanto as obras de conservação da casa. Filhos nasceram, pais morreram, irmãos, sobrinhos e cunhados multiplicaram-se até uma vintena de pessoas encher a casa cada vez mais degradada. Os anos passaram-se e a guerra terminou.

Anúncio para venda de casa
Agência imobiliária

Subitamente, um general reclamou a casa da morta como sua e queria despejar os inquilinos. Não tinha documentos que provassem a pretensão, mas a palavra de um militar deveria bastar, segundo exemplos do passado. Como parecia mal aplicar as técnicas antigas e ocupar militarmente a habitação, mostrou ser um homem moderno, confiante no sistema democrático em vigor e levou o caso a tribunal, onde o processo marinou por quase uma década. Durante esse período, para grande alívio da família, o general foi fazer companhia às duas anteriores proprietárias, o que leva a desconfiar de uma eventual maldição lançada pelo feiticeiro do bairro do Pau Grande aos senhorios da casa em questão. Desconheço se o feiticeiro faz parte da trama original, mas um bocadinho de mistério e suspense adicionais nunca fizeram mal a ninguém.

A história teria ficado por aqui, não fosse a amante do general falecido reclamar ser herdeira do mesmo e manter a causa na barra do tribunal até à sentença final. Ninguém sabe ao certo que argumentos foram invocados, mas o juiz acabou por dar razão ao general, ou melhor, à sua amante que, curiosamente, mora na casa ao lado da desta história, tornando-a muito mais emocionante. Se tiver herdeiros, o que seria uma novidade nesta história, aconselho-a vivamente a fazer um seguro de vida chorudo, porque o feiticeiro já começou a dançar e a recitar o feitiço.

Governam os que cá estão
Xê, feitiço poderoso!

O tribunal ditou que a família fosse despejada. Dizem que vão cumprir a ordem e abandonar a casa onde muitos deles viveram desde sempre. Sentem-se injustiçados porque, apesar de concordarem que a casa não é deles, suspeitam das decisões de um sistema que teima em beneficiar os mais ricos em detrimento dos mais pobres. Esta parte da história estão eles fartos de ouvir.


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