12
05
2010
Muitos dos choques culturais que se tem com os angolanos, como a sua teoria de resolução de problemas, horários estranhos ou hábitos exóticos são devidos à enorme descontracção com que encaram a vida. Há muito que perceberam que os problemas não desaparecem só porque nos preocupamos em demasia, e que a vida é para ser vivida com um sorriso nos lábios em vez de uma úlcera no estômago.
Todos sabem que as úlceras se agravam quando não se presta a devida atenção ao que se come e saltar refeições só por causa da pressão do trabalho é meio caminho andado para a azia constante e umas visitas ao médico para receitas de anti-ácido. Isso explica porque razão é difícil encontrar angolanos a trabalhar logo à hora de abertura dos serviços, porque estão ainda a mata-bichar, a meio da manhã, que foram comer qualquer coisa para compôr o estômago, logo a seguir ao almoço, porque ainda não regressaram e cerca de uma hora antes de saírem, porque foram lanchar e vão direitos para casa sem voltar ao serviço, suponho que para jantar.
Mata-bicho
Tamanha obsessão por evitar ficar de estômago vazio talvez explique o monólogo que um vizinho meu no restaurante manteve com o seu telefone dourado, entre garfadas no funge.
”Eu agora não posso falar. Estou a caminho. Eu ligo quando chegar.”
”Já disse que estou a conduzir. Vou de mota. Não dá para falar.”
”Estou quase a chegar. Ele que espere. Vou de mota. É rápido, rápido.”
”Não, não vale a pena telefonares. Estou a caminho.”
”Yá, até já. Quando chegar eu ligo. Fica descansado que é só mais um bocadinho, que ‘tou quase a chegar. Sem makas.”
Acabei de almoçar, paguei e fui-me embora. Ele continuou sentado a apreciar o funge, enquanto fazia que seguia de mota para o destino. Estava quase a chegar, por isso não valia a pena apressar a refeição, não fosse cair-lhe mal.
11
05
2010
O futebol é uma daquelas coisas que ocupa uma posição muito baixa na minha escala de prioridades das coisas. Aliás, no que toca a clubismos, tenho de admitir que poderei ser considerado ateu, ou mesmo herege, dependendo dos pontos de vista.
Apesar de em nada contribuir para a minha felicidade saber que um ou outro clube é ou deixa de ser campeão e os calendários dos jogos, com jornadas infindáveis e matemáticas esquisitas me fazerem demasiada confusão para que sequer os tente perceber, o facto de o Benfica ter sido campeão este ano não me deixou indiferente. Quem me conhece achará estranho o que escrevo a seguir, mas há que dar a mão à palmatória.
Benfica
Por muito que custe aos sportinguistas, portistas e outros ‘istas do futebol, o Benfica é mesmo o maior clube do mundo. Nem que seja apenas do lusófono. Só isso pode explicar que na Baixa de Luanda haja caravanas de carros a buzinar com gente sentada nas janelas a gritar «Benfiiica!», no dia em que o clube se sagrou campeão português. A convicção com que estes jovens festejam é tanta que quase julgaria ter sido um clube angolano a vencer.
Há coisas inexplicáveis, e uma delas é a ligação fortíssima que as pessoas ganham a determinados clubes de futebol. O cordão umbilical com Portugal foi cortado há décadas, mas nascem benfiquistas angolanos todos os dias.
Esta euforia pelo Benfica ajuda a explicar o que o Lobo Antunes disse numa entrevista à Visão acerca dos seus anos de tropa em Angola.
«-Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.
-Parava a guerra?
-Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. (…) E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos.»
10
05
2010
A publicação do livro inspirado no Aerograma teve recentemente lugar de destaque na secção de Cultura da referência que é o Notícias Lusófonas, um projecto com mais de uma década a divulgar o que se passa na Lusofonia.
Para saber mais, aqui está a ligação.

10
05
2010
O futebol é o desporto que os luandenses mais gostam de ver, mas aquele que preferem jogar é o basquetebol. Uma das razões talvez seja por precisar de menos espaço para ser jogado, vantagem essencial numa cidade onde qualquer pedaço de terreno é disputado para construir mais uma casa.
Nas esquinas, aproveitando um pátio desocupado ou um beco pouco movimentado, é frequente ver uma tabela construída com sobras de sucata, contra-balançada com um bloco de motor de camião ou pedras grandes. Os bairros mais afortunados contaram com algumas oferecidas pelas administrações municipais ou Ministério do desporto. Essas até têm rede no cesto.
Campo de basquetebol
Ao fim do dia, quando o calor aperta menos, uma mão-cheia de jovens movimenta-se naqueles poucos metros quadrados entre o cesto e o outro lado da rua, tentando mostrar o seu jogo. Com tanto treino, não é de admirar que Angola já tenha sido várias vezes campeã de África.
9
05
2010
O maior bicho-papão desta terra é o racismo, que assume várias formas, consoante o alvo. Umas vez é racismo, outras tribalismo ou, finalmente, é colonialismo. Na verdade é apenas mais um aspecto da desconfiança que os angolanos sentem não só dos estrangeiros, mas também deles próprios.
Ao mínimo sinal de injustiça contra o próprio, mesmo que imaginada, a única motivação possível só pode ser o racismo ou tribalismo. Em caso de preterimento para um emprego, por exemplo, a justificação será o racismo, caso o outro candidato tenha a pele mais clara ou o tribalismo, caso a etnia do escolhido seja diferente da sua, não importando em nada que as qualificações de um e de outro indiquem claramente o mais adequado.
Libertação
Há alguns meses, uma notícia num jornal privado indicou que mais de metade dos altos cargos governativos são ocupados por angolanos da etnia Kimbundo, o que poderia indicar um tribalismo latente no próprio Estado. Mas não vejamos conspirações sombrias logo à partida e pensemos um pouco na História do MPLA.
Durante as fases mais difíceis de afirmação, o MPLA esteve restringido a Luanda e às margens do Kwanza, zona predominantemente Kimbundu, pelo que será natural que os quadros superiores dessa época fossem dessa etnia. A situação modificar-se-ia se houvesse uma renovação rápida destes quadros, com a entrada de gente nova de outras partes do país, mas as figuras que hoje encabeçam o MPLA são as mesmas quase desde a tomada de posse de José Eduardo dos Santos como Presidente. Os mesmos nomes alternam entre governadores de província, ministros, deputados, embaixadores e governadores de província novamente, ao longo de décadas. A existência de muitos Kimbundu no seio do Governo não é sinal de tribalismo, é um reflexo da História e também do apêgo ao cargo, talvez.
Será talvez por não se admitir que haja tribalismo que grande parte da guarda presidencial seja constituída, segundo dizem, por soldados da etnia Ovambo, do sul de Angola, conhecidos por não gramarem nem um bocadinho os angolanos nascidos a norte do Kwanza, exactamente aqueles que rodeiam o Presidente. Não é tribalismo, é a ironia do destino.