14
02
2010
As expressões idiomáticas contêm conceitos muito mais amplos que a mera soma dos significados das palavras que as compõem. Abrem janelas para um pensamento colectivo que pode ser específico de um determinado povo e que, por vezes, é intraduzível para os estranhos, mesmo que falem a mesma língua.
Gosto de sotaques e de diferenças e sinto-me enriquecer quando descortino um bocadinho mais da cultura que me rodeia. Tenho tido a sorte de estar rodeado de pessoas interessantes nesta aventura em Angola que não se poupam a esforços por me mostrar o que é ser angolano.
Recentemente falávamos de escola e analfabetismo e chegámos à conclusão que há muita gente que tem uma excelente caligrafia e nem sequer dá muitos pontapés na ortografia, mas que não compreende o que lê ou o que escreve.

Escola
Para alguns há desculpa, porque abandonaram a escola cedo demais ou, como se diz por aqui, partiram o lápis cedo. Partir o lápis é uma expressão idiomática deliciosa, que nos remete para um corte radical e violento com a escola, um virar costas premeditado e não uma desistência ditada pelas incertezas da vida.

Fasquia baixa
Para outros, que seguiram o seu percurso escolar com maior ou menor facilidade, já não encontramos justificação para a falta de saber. No meio de muitas candidaturas de emprego que recebemos tem havido alguns estudantes universitários que mal sabem preencher um formulário onde se lhes pede o nome e o telefone. O analfabetismo funcional ainda é mais perigoso porque está disfarçado.
13
02
2010
Os cinemas ao ar livre devem ser uma das mais importantes marcas na paisagem urbana angolana. Representam a vida que é recordada com saudade por quem cá viveu. São locais abertos, onde se aprecia não só o filme, mas também o clima angolano que permite o devaneio de ter cinemas ao ar livre a funcionar o ano inteiro.
Ao entrar num destes espaços percebemos que havia toda uma maneira de encarar a vida específica desta terra. Em vez de se fechar as pessoas numa sala escura, deixa-se que sintam a vastidão de Angola rodear o filme sem perturbar. Os cheiros e os sons da terra misturam-se com a luz e o ruído do filme numa combinação que já não se consegue mais.
Hoje em dia estão quase todos abandonados. Restam os ecrãs em betão e as plateias, por vezes despidas de cadeiras. Em Luanda resistem pelo menos três: o famoso Miramar, o Império, que agora se chama Atlântico e um escondido no quartel da Força Aérea, junto da cabeceira do aeroporto onde se amontoam os aviões velhos.

Cinema Miramar
Quando visito um destes marcos sou invadido por uma onda nostálgica sem saber bem porquê. Talvez os veja como uma espécie de despedida e imagine um fechar de janela como nos filmes de Jacques Tati ou, se calhar, sinto que são o que resta da identidade de um povo e de uma cultura que se extinguiu. Sei que ficarão registados na memória que levarei de Angola.
12
02
2010
A cada vez maior concentração de pessoas nas zonas urbanas fez com que as principais cidades angolanas tenham crescido muito. Os bairros crescem em círculos concêntricos em torno da cidade colonial, que continua a ser o centro económico.
As novas casas são de construção modesta, quase sempre de adobe ou blocos de cimento fabricados nas imediações e um telhado de chapa zincada. As fundações, quando existem, são algumas carradas de pedra despejadas em caboucos pouco profundos. Suportarão sem problemas o piso único da casa, embora haja quem arrisque e construa mais alguns por cima.
Apesar de Angola ser imensa, o espaço nas cidades é um bem precioso e as casas são construídas umas em cima das outras, ocupando cada recanto e quintal ao máximo. As ruas vão-se espremendo pelo meio com um traçado sinuoso determinado pelos acrescentos das casas. Por vezes acontece que alguém constrói uma casa mesmo no meio da rua, criando becos sem saída ou deixando apenas o espaço suficiente para os peões passarem. É uma situação encarada com normalidade por todos.
Nos arredores das cidades indianas há bairros em que quem tiver um quintal cercado por casas pode ter a sua comprando o telhado, arrendando as paredes exteriores dos vizinhos em volta e construíndo as que faltarem.
Em Angola, seria de esperar que com tamanha falta de espaço para construção nas cidades, as casas também partilhassem paredes, mas aqui não há paredes meias, provavelmente devido à habitual desconfiança que os angolanos têm uns dos outros.
Quem constrói uma casa, mesmo que tenha outras em volta, nunca aproveita as paredes existentes para poupar materiais ou trabalho. Os problemas e pedidos de indemnização do vizinho seriam insuportáveis. Aliás, nem sequer se constrói a nova parede junto da existente. Deixa-se sempre um espaço respeitoso entre ambas para que não haja dúvidas da sua independência.
Folga respeitosa
Os primeiros a construir as casas acabam por se arrepender de ter feito janelas nas paredes laterais. É certo e sabido que alguém levantará uma parede a menos de um palmo. Não vale a pena reclamar, porque nenhuma das casas é legal e o assunto acabaria resolvido com gasosas oferecidas aos fiscais.
Espaço neutro
Por outro lado, nunca se sabe quando o vizinho resolve deitar paredes abaixo ou se poupou nos materiais. A parede que lá está hoje pode não estar amanhã.
11
02
2010
Há coisas sobre as quais tenciono escrever, mas nunca começo por achar que ainda não sei o suficiente para abordar o assunto. Outras vezes preparo rascunhos ou termino mesmo artigos inteiros e acabo por ir adiando a publicação em jeito de censura prévia porque, apesar das aparências, em Angola ninguém é verdadeiramente livre de dizer ou escrever o que pensa sem que lhe caiam em cima com os piores insultos e ameaças, especialmente se for estrangeiro ou tiver a cor errada.
Um destes temas que tentei esquecer acabou por ganhar vida própria e voltou para me morder os calcanhares. Durante uma semanas foi um rascunho curto, mas agora é a altura de lhe dar um pouco de atenção.
Para melhor perceber o país, sempre que tenho oportunidade leio os jornais angolanos. Os privados são quase todos semanários e o único diário é o Jornal de Angola, que não esconde ser o porta-voz do partido, que é a mesma coisa que dizer do Governo. Ora foi neste mesmo jornal que me apercebi de um padrão nos temas dos seus editoriais.
Reparei que dia-sim, dia-não, o editorial fazia uma referência a Portugal. O complexo pós-colonial ainda não abandonou aquela redacção. Ora era porque em Portugal não se falava de Angola, ora era porque se falava mas não se elogiava a sua grandeza, ora era porque se falava, elogiava, mas não com a sinceridade e reverência desejada. Outras vezes criticava Portugal pelo desprezo a que tinha votado a antiga colónia, não lhe prestando auxílio devido durante esta crise e noutras ainda, por achar que estava a emprestar dinheiro ao país apenas por interesses neo-colonialistas. Acusava as redacções dos jornais e estações televisivas portuguesas de só dar tempo de antena às críticas a Angola e de sofrer de recalcamentos colonialistas. À falta de mau da fita, o colono é o culpado de tudo. Como de costume.
Pelo teor dos textos, compreendi que a obrigação de Portugal inteiro era perfilar em sentido, com a mão atravessada no peito e olhos esperançosos a mirar o céu, e gritar «Angola é a maior Nação do mundo!».
Porque achei que talvez estivesse a ler mais do que estava escrito e podia estar a interpretar coisas ao sabor de eventuais frustrações no trânsito, nas falhas da internet ou outras quaisquer, resolvi deixar o artigo no limbo. Outros assuntos preencheriam o seu lugar e escusava de despertar os rancores habituais.
Quase me tinha esquecido dele quando ocorreu o atentado em Cabinda. Algumas semanas mais tarde foram emitidos os mandados de captura internacionais e o editorial do Jornal de Angola voltou a apontar as baterias para Portugal, os jornais portugueses e, como novidade, a França. Os textos foram tão corrosivos e insultuosos que acabaram por merecer mesmo uma reclamação do Embaixador de França. Percebi que não era apenas a minha interpretação.
Uma coisa é ter liberdade para escrever o que se quiser. Outra coisa bem diferente é abusar dessa liberdade para insultar ou ofender gratuitamente. O caso ainda é mais grave devido à associação entre o Jornal de Angola e o Estado. Um porta-voz oficioso não pode comportar-se assim. A não ser que aquilo não seja para ser levado a sério.
10
02
2010
O mundo tem vindo a ficar cada vez mais pequeno graças à tecnologia e à sede de lucros dos accionistas das grandes multinacionais. O intercâmbio de culturas têm-se dado num único sentido – a cópia do que se vê na televisão. É mais fácil lidar com as pessoas quando todos pensam da mesma forma ou se adaptam ao modo de pensar estabelecido como padrão. As empresas alimentam expectativas e desejos antes de começar a vender os seus produtos. Primeiro é preciso criar o mercado para o objecto padronizado. Em vez de adaptar o produto às pessoas, adaptam-se as pessoas ao produto.
A maior riqueza que os povos têm é a sua diversidade. Culturas e hábitos diferentes, línguas ou sotaques que os distinguem, coisas a ensinar uns aos outros. A partir do momento em que deixam de exercer essas suas diferenças e começam a acreditar que o importado é que é bom, perdem mais do que imaginam.
Um mundo sem diversidade é uma coisa amorfa. A perda de uma língua não significa a perda de um vocabulário, significa a perda de conceitos intraduzíveis, de uma História que moldou os sons e os pensamentos dos seus falantes. A humanidade evoluiu graças à diversidade de pensamentos e sensibilidades. Se todos se tornarem iguais, repetindo as mesmas coisas, pensando da mesma maneira, entraremos numa nova Idade Média, mas desta vez a uma escala global.
Caminhamos a passos largos para um mundo homogeneizado, onde os hábitos serão tão iguais entre os povos que será necessário procurar diferenças noutras coisas como a cor da pele ou o tamanho das orelhas. Todos sabemos que este caminho já foi trilhado e com maus resultados. Precisamos olhar para as pessoas como pessoas e julgá-las pelo que têm dentro e não pelo que são por fora.
As pessoas precisam de saber o que as distingue umas das outras. Faz parte da definição da consciência humana. A cultura de cada povo enquadra-nos, dá-nos um referencial para determinar onde nos encontramos na experiência que é a vida. Uma sociedade de clones culturais assusta-me. Ao invés de sabermos quem somos, passaremos a fazer parte de uma manada com instintos iguais, respostas iguais, crenças iguais.
Grande parte das culpas recaem na televisão que substituiu as conversas por um monólogo ininterrupto, que nos conta as histórias que lemos nos livros mas não nos deixa imaginar as cenas, impondo a sua versão como a única aceite; dizendo-nos como são as caras e as vozes das personagens. As referências culturais de muitos limitam-se ao que vêem no ecrã, não sabendo o que os distingue dos que assistiram ao mesmo programa.

Tradições importadas
Num mundo cada vez mais padronizado, homogeneizado e certificado, as pessoas também não escaparam e qualquer dia vão ter embalagem e prazo de validade segundo as normas internacionais.