Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

18  02 2010

Antigos combatentes

Os antigos combatentes são um fardo para todos os governos. Tiveram o seu préstimo durante a guerra, mas assim que se atinge a paz tornam-se uma sombra incómoda. São a prova viva de que a guerra não é só um pedaço da História, e que marca as pessoas no corpo e na mente.

Os soldados portugueses que combateram no Ultramar foram ostensivamente esquecidos, como se fossem culpados de defender o regime anterior. Limitaram-se a cumprir o seu juramento e servir a Pátria conforme lhes foi ordenado. Ser retornado era mau, ter sido soldado em África era pior e falar nos antigos combatentes tornou-se tabu.

As injustiças prolongaram-se por mais de três décadas, com os mutilados de guerra e os que viram as suas vidas interrompidas a exigir a compensação devida. Depois, timidamente, ofereceu-se-lhes um complemento de reforma, à laia de esmola, que muitos recusaram ou encaminharam para instituições de solidariedade.

Angola tem o mesmo problema, mas agravado pela proximidade temporal da guerra e pelo maior número de homens afectados. Foram úteis até 2002, mas depois de nada serviam. A sua grande maioria nunca fez mais nada que não lutar, pelo que o seu contributo para a sociedade terminou com a assinatura dos acordos de paz. Foram amados quando eram carne para canhão, mas agora querem-nos longe da vista. Sentem-se usados e abandonados. Exigem que o seu sacrifício seja reconhecido e recompensado com subsídios, casas e empregos.

Existe o Ministério dos Antigos Combatentes, que se preocupa muito com as condições em que vivem, mas que aparenta não fazer muito para os dignificar. São reservados terrenos em cada município para que os antigos combatentes e guerrilheiros construam as suas casas, quase sempre longe dos centros urbanos, mas não são apoiados no que realmente lhes faz falta. Continuarão sem saúde e sem emprego que lhes permita comprar os materiais para construir as casas.

Recordações destas querem-se longe e se durarem pouco tempo, tanto melhor. Os antigos combatentes são mais fáceis de recordar nas pedras de um monumento do que quando andam de cadeira de rodas entre os carros a pedir esmola.

As civilizações também se medem pela forma como tratam quem por elas luta.


17  02 2010

Errata

Aquilo que acreditamos ser a verdade nem sempre o é realmente e a falta de referências para confirmar versões da história fez com que publicasse um artigo com grandes incorrecções, que tento emendar agora.

Há uns meses, enquanto via imagens da Luanda colonial, deparei-me com um postal ilustrado pouco nítido que mostrava ainda no seu pedestal uma estátua saneada após a independência angolana. Graças ao pedestal característico e a silhueta da estátua, identifiquei a personagem que se encontra às fatias em frente à Fortaleza de São Miguel como Diogo Cão. Embora houvesse lá também uma estátua em bronze mais moderna da mesma personagem, a possibilidade de existirem duas estátuas da mesma pessoa na mesma cidade não era de descartar.

Após um pedido de esclarecimento acerca do autor da estátua feito por um leitor, procurei outras fontes que me ajudassem a confirmar a identidade da personagem, uma vez que as obras de recuperação da fortaleza me impedem de ir indagar no local. Descobri outras fotografias, um pouco mais tardias que a anterior, desta feita mostrando a estátua em frente à Igreja de Nossa Senhora do Cabo, na Ilha do Cabo, e com uma legenda indicando que se tratava do fundador da cidade de Luanda, Paulo Dias de Novais.

Paulo Dias de Novais às fatias
Paulo Dias de Novais

Pelo meu erro me penitencio. As minhas desculpas aos leitores.

Adenda:

Entretanto, através do leitor Carlos Nascimento, que deixou um comentário e uma ligação para uma fotografia sua junto à estátua, tenho a oportunidade de enriquecer um pouco mais um artigo que começou por ser uma admissão de erro.

Antes de ser desmontada e depositada na Fortaleza de São Miguel, estava instalada num pedestal, que ainda existe, no largo da Igreja de Nossa Senhora do Cabo, virada para a baía de Luanda, como que para desafiar a Nossa Senhora da Nazaré que fica do outro lado, junto à marginal. Neste largo ficava também a messe de oficiais da Base Naval de Luanda.

É de salientar que a espada, que ainda se vê nesta fotografia, desapareceu algures durante as operações de desmontagem e transporte das secções da estátua.

Estátua de Paulo Dias de Novais em 18/12/1972
Estátua de Paulo Dias de Novais em 18/12/1972
publicada com autorização de Carlos Nascimento (terceiro a contar da esquerda)

O grande edifício no fundo é a Base Naval de Luanda e a Igreja de Nossa Senhora do Cabo estaria nas costas da estátua. A implantação da estátua junto desta igreja não foi casual, pois foi nesta igreja que o próprio Paulo Dias de Novais assistiu à sua primeira missa em Angola. À época, era apenas uma pequena capela erguida pelos poucos comerciantes portugueses que lá habitavam. 

O meu agradecimento a Carlos Nascimento por esta sua grande contribuição.


16  02 2010

Blog da semana

O Aerograma teve a honra de ser distinguido como blog da semana no Blog da Comunicação. Agradeço ao James e ao Guilherme Freitas o incentivo.

Por outro lado, o galardão Best of Blogs, da Deutsche Welle, entrou na fase de selecção. Até meados de Março o júri definirá quais os dez blogs de cada categoria que serão apresentados à votação final.

O Aerograma concorre em três categorias: Melhor Blog em Português, Prémio Repórteres sem Fronteiras e Melhor Blog. Espero que chegue à próxima fase.


16  02 2010

Comitiva oficial

Na mairia dos países, cruzarmo-nos com a comitiva do Chefe de Estado costuma ser uma honra. Em Angola é considerado um azar. O Presidente circula apenas em ruas desertas, coisa que não condiz com o estado habitual das ruas de Luanda. Desertas de carros e de peões, que a guarda presidencial se encarrega de manter à distância gritando ordens com cara feia e apontando armas destravadas.

Horas antes de passar a comitiva, espalham-se militares pelas esquinas. Em pontos estratégicos, sempre os mesmos, ficam as metralhadoras pesadas e os lança-granadas. Soldados maiores que a média mostram os arreios cheios de granadas nos viadutos, junto dos inúmeros cunhetes de munições amontoados nos cantos, a antecipar combates prolongados.

A dada altura todos se agitam e começam a cortar o trânsito. As caras fecham-se e as armas agitam-se. Ouvem-se as primeiras sirenes à distância. Pouco depois passam os batedores. Atrás deles vem uma carrinha de caixa aberta com seis ou oito soldados armados com metralhadoras pesadas, armados em Rambo, que nunca conseguirão disparar a direito sem o tripé que não levam. A fechar a comitiva vem o jipe preto de vidros fumados da vigilância electrónica. Surgiu com a visita da Secretária de Estado Norte-Americana e aquela silhueta escura com as câmaras montadas no tejadilho passou a ser presença regular. Pelo meio vêm os carros do Presidente.

Os vários Chefes de Estado que vi passar por mim têm um carro oficial. Haverá mais um ou dois de reserva, mas nas deslocações aparece apenas um. Os restantes são os do protocolo, dos guarda-costas ou dos assessores. Mas a grandeza de Angola até no carro presidencial se nota. O Zé Dú tem não um, nem dois, nem mesmo três viaturas oficiais. Da última vez que contei, eram cinco Mercedes de luxo, certamente blindados, a ostentar a matrícula PR. Durante o trajecto vão trocando de posição, para confundir quem observa e ninguém adivinhar em qual segue o Presidente.

Sinceramente, não sei se é receio de um atentado ou demasiados filmes de espiões vistos pela segurança, mas fica-se com a sensação de que a cena é caricata. Não percebemos a fronteira entre a vaidade de ostentar cinco carros e o medo de que alguém ataque o homem mais poderoso do país.

Mal a comitiva passa, os militares são recolhidos pelos camiões camuflados que esperavam nas ruas laterais. O trânsito acumulado volta a escorrer para as ruas agora abertas e o engarrafamento perpétuo da cidade volta ao normal. O Zé Dú nunca viu um engarrafamento de Luanda. Talvez seja por isso que anda com cinco carros…


15  02 2010

África amarela

A China resolveu sair das suas fronteiras e lançar-se no mundo capitalista em força. Estudou a fundo as regras do sistema para as poder dominar e contornar melhor que os outros. E está a sair-se muito bem.

A abordagem que adoptou para África é eficaz. Fecham os olhos a tudo o que não diga respeito ao negócio e deixam de lado eventuais escrúpulos quando chega a altura de fazer contas aos lucros.

Enquanto meio mundo reclama dos regimes ditatoriais africanos e tenta que as coisas mudem, os chineses optam por não se imiscuir na política e aproveitam a situação porque sabem que é mais fácil negociar com um ditador do que com um parlamento. Direitos Humanos são bonitos, mas nada têm a ver com negócios.

Os países ocidentais tentam estabelecer parcerias que dêem frutos a ambas as partes, tanto em termos económicos como em termos sociais. Quando se recusam a emprestar dinheiro ou a criar empresas sem contra-partidas de protecção do investimento são imediatamente acusados de adoptar atitudes neo-coloniais. Os chineses emprestam sempre e são adorados por isso.

Os chineses são actualmente os maiores credores de África. Há uns anos começaram a emprestar dinheiro sem fazer muitas perguntas. Viram em África um excelente mercado e uma reserva infinita de matérias-primas de que cada vez mais necessitam. Emprestam centenas de milhões de dólares de cada vez, não exigindo pagamento imediato nem sequer garantias concretas. Como contrapartida, terão de ser empresas chinesas a fornecer materiais e serviços ou a construir infra-estruturas.

Sabem que grande parte desse dinheiro será desviado para contas pessoais de dirigentes e administradores, que endividam o país sem quaisquer remorsos, aplicando o lema dos tempos modernos de capitalizar os lucros e socializar as dívidas. Os políticos assumem a dívida com uma assinatura, recebem a sua comissão e o resto ficará para alguém pagar.

Ao aplicar a teoria de fazer três vezes por metade do preço, conseguem asfixiar a concorrência, mas o preço final será uma vez e meia o preço justo e o prazo de conclusão três vezes o previsto. No entanto, uma vez que a gasosa foi paga têm a certeza de que não haverá reclamações.

Como o dinheiro que emprestam se destina a pagar as próprias obras que lhes são adjudicadas, é óbvio que querem poupar o máximo possível na sua execução. É frequente enviarem trabalhadores sem qualquer experiência para virem aprender fazendo. Quando dominarem a técnica regressam à China e são substituídos por outros aprendizes. A China arranjou quem lhes pagasse a formação profissional dos seus técnicos fingindo que ajuda a financiar as obras.

Obviamente que a factura será apresentada mais tarde. Se não houver dinheiro para a pagar, todos sabem que se poderá chegar a acordo e amortizar parte da dívida com contratos de exploração exclusiva de florestas, concessões mineiras ou jazidas petrolíferas.

Angola ainda está a pagar as dívidas da solidariedade proletária dos seus aliados durante a guerra civil. É uma dívida que nunca se extinguirá, como convém às partes interessadas. Agora lançou-se nas mãos dos chineses, que emprestaram muito dinheiro sem olhar a questões de política interna ou a dívidas pendentes, ao contrário do que faz o FMI.

O país podia aproveitar a oportunidade para negociar contratos com as empresas chinesas em que fosse obrigatória a integração de um número mínimo de trabalhadores angolanos, como faz com outras empresas. Podia até ser para as tarefas menores, que não exigissem qualificações especiais, enquanto não houvesse quadros suficientes. Aprenderiam e ganhariam experiência na obra, tal como os chineses fazem com os seus trabalhadores.

Infelizmente, as empresas chinesas encaram a contratação de angolanos como uma despesa adicional a evitar. O dinheiro quer-se a entrar, não a sair. Por cada angolano a trabalhar, há um salário a pagar. Por cada chinês a trabalhar, há um pagamento a receber. Como não há dinheiro para pagar este trabalhador, emprestam-no e acrescentam uma pequena comissão, também emprestada, para que não haja muitas dúvidas qual a solução mais vantajosa. Acabamos no cúmulo de ver varredores de rua chineses em Luanda. Os chineses fazem tudo e ainda pagam. Deve ser um excelente negócio para todos os envolvidos, excepto para os angolanos desempregados.

Quando a crise chegou a Angola e o Estado deixou de pagar aos seus empreiteiros, algumas empresas de construção civil despediram milhares de angolanos e repatriaram algumas centenas de quadros seus. As obras pararam até que as dívidas fossem saldadas. Não há notícia de que alguma empresa chinesa tenha repatriado funcionários ou que tenha despedido angolanos em tão grandes números. Nas obras de chineses quase só trabalham chineses. Continuaram a emprestar dinheiro para que as obras não parassem. A dívida aumenta, mas esse é um problema da próxima geração.

Sondagem
Únicos trabalhadores

O que perde Angola e África em geral, é que é uma terra rica. Enquanto houver recursos que cubram a ganância dos que a gerem e dos que a cobiçam, quem lá nasceu com a sina de ser pobre, estará condenado a sofrer.


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