A China resolveu sair das suas fronteiras e lançar-se no mundo capitalista em força. Estudou a fundo as regras do sistema para as poder dominar e contornar melhor que os outros. E está a sair-se muito bem.
A abordagem que adoptou para África é eficaz. Fecham os olhos a tudo o que não diga respeito ao negócio e deixam de lado eventuais escrúpulos quando chega a altura de fazer contas aos lucros.
Enquanto meio mundo reclama dos regimes ditatoriais africanos e tenta que as coisas mudem, os chineses optam por não se imiscuir na política e aproveitam a situação porque sabem que é mais fácil negociar com um ditador do que com um parlamento. Direitos Humanos são bonitos, mas nada têm a ver com negócios.
Os países ocidentais tentam estabelecer parcerias que dêem frutos a ambas as partes, tanto em termos económicos como em termos sociais. Quando se recusam a emprestar dinheiro ou a criar empresas sem contra-partidas de protecção do investimento são imediatamente acusados de adoptar atitudes neo-coloniais. Os chineses emprestam sempre e são adorados por isso.
Os chineses são actualmente os maiores credores de África. Há uns anos começaram a emprestar dinheiro sem fazer muitas perguntas. Viram em África um excelente mercado e uma reserva infinita de matérias-primas de que cada vez mais necessitam. Emprestam centenas de milhões de dólares de cada vez, não exigindo pagamento imediato nem sequer garantias concretas. Como contrapartida, terão de ser empresas chinesas a fornecer materiais e serviços ou a construir infra-estruturas.
Sabem que grande parte desse dinheiro será desviado para contas pessoais de dirigentes e administradores, que endividam o país sem quaisquer remorsos, aplicando o lema dos tempos modernos de capitalizar os lucros e socializar as dívidas. Os políticos assumem a dívida com uma assinatura, recebem a sua comissão e o resto ficará para alguém pagar.
Ao aplicar a teoria de fazer três vezes por metade do preço, conseguem asfixiar a concorrência, mas o preço final será uma vez e meia o preço justo e o prazo de conclusão três vezes o previsto. No entanto, uma vez que a gasosa foi paga têm a certeza de que não haverá reclamações.
Como o dinheiro que emprestam se destina a pagar as próprias obras que lhes são adjudicadas, é óbvio que querem poupar o máximo possível na sua execução. É frequente enviarem trabalhadores sem qualquer experiência para virem aprender fazendo. Quando dominarem a técnica regressam à China e são substituídos por outros aprendizes. A China arranjou quem lhes pagasse a formação profissional dos seus técnicos fingindo que ajuda a financiar as obras.
Obviamente que a factura será apresentada mais tarde. Se não houver dinheiro para a pagar, todos sabem que se poderá chegar a acordo e amortizar parte da dívida com contratos de exploração exclusiva de florestas, concessões mineiras ou jazidas petrolíferas.
Angola ainda está a pagar as dívidas da solidariedade proletária dos seus aliados durante a guerra civil. É uma dívida que nunca se extinguirá, como convém às partes interessadas. Agora lançou-se nas mãos dos chineses, que emprestaram muito dinheiro sem olhar a questões de política interna ou a dívidas pendentes, ao contrário do que faz o FMI.
O país podia aproveitar a oportunidade para negociar contratos com as empresas chinesas em que fosse obrigatória a integração de um número mínimo de trabalhadores angolanos, como faz com outras empresas. Podia até ser para as tarefas menores, que não exigissem qualificações especiais, enquanto não houvesse quadros suficientes. Aprenderiam e ganhariam experiência na obra, tal como os chineses fazem com os seus trabalhadores.
Infelizmente, as empresas chinesas encaram a contratação de angolanos como uma despesa adicional a evitar. O dinheiro quer-se a entrar, não a sair. Por cada angolano a trabalhar, há um salário a pagar. Por cada chinês a trabalhar, há um pagamento a receber. Como não há dinheiro para pagar este trabalhador, emprestam-no e acrescentam uma pequena comissão, também emprestada, para que não haja muitas dúvidas qual a solução mais vantajosa. Acabamos no cúmulo de ver varredores de rua chineses em Luanda. Os chineses fazem tudo e ainda pagam. Deve ser um excelente negócio para todos os envolvidos, excepto para os angolanos desempregados.
Quando a crise chegou a Angola e o Estado deixou de pagar aos seus empreiteiros, algumas empresas de construção civil despediram milhares de angolanos e repatriaram algumas centenas de quadros seus. As obras pararam até que as dívidas fossem saldadas. Não há notícia de que alguma empresa chinesa tenha repatriado funcionários ou que tenha despedido angolanos em tão grandes números. Nas obras de chineses quase só trabalham chineses. Continuaram a emprestar dinheiro para que as obras não parassem. A dívida aumenta, mas esse é um problema da próxima geração.
Únicos trabalhadores
O que perde Angola e África em geral, é que é uma terra rica. Enquanto houver recursos que cubram a ganância dos que a gerem e dos que a cobiçam, quem lá nasceu com a sina de ser pobre, estará condenado a sofrer.