23
02
2010
Uma cidade, por definição, não é apenas um maior aglomerado de casas e pessoas ou uma aldeia em ponto grande. A vida económica das cidades assenta em bases muito diferentes das do mundo rural e implica também uma adaptação das relações humanas à maior densidade populacional.
Viver numa cidade é a maneira de se poder usufruir de comodidades que, de outra maneira, seriam incomportáveis ou de muito difícil obtenção para quem vive isolado, como saneamento básico e energia.
Luanda tem áreas que se assemelham a uma cidade, onde as infra-estruturas existem e vão funcionando na medida do possível, mas também tem áreas que são verdadeiras aldeias grandes, onde os problemas dos mundos urbanos e rurais se sobrepõem e anulam quaisquer vantagens de ambos os mundos. As pessoas vivem amontoadas umas nas outras nos bairros de lata que se desenvolvem em círculos concêntricos em volta da cidade de betão, sem usufruir de estradas, esgotos, água ou electricidade, e vendo as terras para cultivo ser ocupadas por mais casas, negando eventuais fontes de rendimento que não os expedientes.
Iluminação semi-pública
A questão da energia é muito importante para Luanda, que apresenta um défice crónico de cerca de 100 MW no abastecimento aos cerca de cinco milhões de habitantes. Este défice poderia ser diminuído mesmo sem um aumento na capacidade de produção se a utilização de energia fosse feita de forma mais racional, mas o preço a que é vendida, altamente subsidiado, não incentiva a poupança.
A iluminação pública nas áreas mais desenvolvidas da cidade costuma estar acesa dia e noite, mostrando que nem os serviços públicos estão verdadeiramente preocupados com o desperdício. Apenas se apaga em caso de avaria ou de falta de energia.
Nas zonas mais pobres, os candeeiros estão ausentes. Assim que se põe o Sol as ruas ficas às escuras e tornam-se perigosas. Os bandidos escondem-se nas sombras, dizem-me. Alguns habitantes improvisam a sua versão de iluminação pública, que montam e pagam do seu próprio bolso, esperando que a porta de sua casa fique mais segura. São instalações muito artesanais, que provocarão curto-circuitos em caso de chuva, mas que resolvem o problema onde os municípios ainda não o fizeram.
22
02
2010
Descobri numa das artérias principais da cidade, a uns quarteirões de casa, um concessionário de carros de luxo acabado de inaugurar. Na montra havia meia-dúzia de carros de cores disparatadas, daquelas que só os ricos são capazes de usar porque um carrinho barato laranja às riscas verdes é pindérico, mas se o dito custar mais que uma casa é apenas uma afirmação de estilo. Sem surpresas, os dois mais caros tinham o letreiro a indicar que estavam vendidos.
A montra está cheia de dedadas e marcas de narizes que se lhe vão colando para melhor ver as máquinas. Carros daqueles são raros até em Angola, terra dos luxos mais extravagantes.

Carros de Luxo
Porém, a reputação de Angola não é feita apenas dos luxos de alguns. A pobreza de muitos faz um contraste demasiado grande para ser ignorado. Enquanto uns vivem no luxo e na ostentação do que há de mais caro, outros sobrevivem no meio do lixo desejando umas migalhas da mesa dos ricos. As migalhas nunca vêm, porque os ricos não dão nada a ninguém. Fecham os vidros fumados do carro de luxo, ligam o ar condicionado e fingem que não vêem as pessoas que fogem da lama que as jantes cromadas fazem salpicar. Vão contornando os montes de lixo e quando chegam a casa oferecem meia-dúzia de kwanzas para que um miúdo lhes lave o carro com água suja.

O Luxo no lixo
A relação entre o lixo e o luxo obedece a uma série de regras secretas, que acabam por fazer os que vivem no lixo sonhar com o luxo e desperdiçar recursos no fútil. Nos grandes contentores de lixo que distribuem pelos musseques e onde se amontoam resíduos de todas as formas e feitios, não é novidade encontrar caixotes de ecrãs planos de cinquenta polegadas. Provavelmente foram comprados por alguém que arrendou o seu apartamento no centro da cidade por uma fortuna para agora ter a televisão gigante na sala e o todo-o-terreno de luxo à porta da casa, a imitar os ricos. Quando chove o todo-o-terreno de jantes cromadas fica atascado na lama do bairro e em casa tem de proteger a televisão com um plástico por causa da água que atravessa os buracos no telhado de chapa ondulada. O lixo convive com o luxo.
21
02
2010
A arquitectura não se resume à definição das formas e divisão interior de um edifício. Deve contemplar também os elementos decorativos que lhe confiram uma identidade e que o distingam de uma caixa onde se aglomeram pessoas.
Avenida do Comandante Valódia (Combatentes)
Ao definir essa identidade, a casa passa a fazer parte da vida das pessoas, que a reconhecerão como uma extensão de si mesmos. Mesmo os moradores das habitações mais modestas sentem a necessidade de as marcar com algo que os defina ou com o qual se identifiquem.
Avenida Marien Ngouabi (António Barroso)
Uma voltinha pelos bairros periféricos da Luanda colonial permite-nos encontrar muitas dessas pequenas marcas que fazem parte das memórias de quem cá vive ou viveu. Algumas delas são agora usadas como pontos de referência para nos deslocarmos na cidade.
Avenida do Comandante Valódia (Combatentes)
Por vezes, a identidade de um edifício não é a que o arquitecto projectou. Pode mesmo ser usurpada pela de um dos ocupantes, como a que provém dos letreiros dos negócios lá instalados.

Nos edifícios maiores, a identidade colectiva impera. Muitas famílias se identificam com os mesmos elementos por viverem todos debaixo desses símbolos.
Perto do Aeroporto
Nas moradias a situação é diferente. Os símbolos que ostentam são muito mais pessoais e a sua escolha é ditada pelas sensibilidades de um grupo muito mais restrito. Prefere-se o concreto ao abstracto e o nome do morador ou a paisagem da terra que amam sobrepõem-se às coisas mais vagas que se vêem nos grandes edifícios.
Perto do Aeroporto
Para os prédios altos são escolhidos símbolos que representam ideais ou valores colectivos, procurando que as interpretações que cada um faz deles sejam parte desse mesmo ideal.
Sei que haverá quem recorde estes recantos que hoje mostro. Espero que me contem histórias ligadas a eles, porque uma cidade não são apenas as casas, são também as pessoas e Luanda tem a particularidade de juntar duas cidades numa só – a colonial e a actual. As pessoas da Luanda actual contam-me como a vivem, mas falta-me conhecer como quem partiu vivia a cidade.
20
02
2010
Nunca fui muito dado ao futebol e não compreendo como pode haver tanta histeria em torno de um espectáculo. Há muito que o futebol profissional deixou de ser um desporto, para se tornar numa versão moderna do circo romano. Não percebo as clubites ferrenhas, os ideiais de equipa inexistentes mas em que todos acreditam ou até os sacrifícios que muitos fazem para ir ver a bola. Acho que nunca perceberei.
Quando era pequeno, achava que um campeonato de futebol era uma coisa excessivamente longa, com jornadas atrás de jornadas e jogos com mais jogos e jogadores que todos conheciam, mesmo das equipas mais obscuras. Eram-me incompreensíveis as contas aos pontos, aos jogos e aos golos de cada equipa e a sua influência na posição final. Já na altura me fazia imensa confusão a maneira como as pessoas viviam o futebol, com buzinas e desfiles sem sentido sempre que a sua equipa ganhava qualquer coisa.
Como a liberdade de cada um termina onde começa a do vizinho, não tenho por hábito incomodar os outros com os meus festejos e por isso, da parte que me toca, sempre torci pela equipa com os adeptos menos expansivos.
Assim que começou o campeonato africano de futebol tive uma amostra dos festejos ruidosos que os angolanos fariam caso a sua equipa marcasse golos ou ganhasse jogos. Apesar de gostar de ver os angolanos felizes com as vitórias da sua selecção, sabia que os resultados que me trariam noites mais descansadas seriam os menos desejados pela maioria.
Pela primeira vez na vida dei por mim a fazer contas de cabeça aos pontos de cada equipa do grupo de Angola, tentando calcular quanto jogos ainda seriam necessários até poder voltar a ter noites sem cornetas e buzinas ou gritos de “Vitória! A taça é nossa!” dados por gente bêbada. Angola acabou por perder o jogo contra o Gana e julguei que teria sossego, mas enganei-me.
Embora não houvesse muito que festejar, o ajuntamento em torno dos televisores era o pretexto para beber mais umas cervejas e aproveitar a noite. A chuvada que se seguiu à partida ajudou a refrear os ânimos de quase todos, fazendo com que as festas ao ar livre terminassem mais cedo, mas um grupo de rapazes bem bebidos achou que a chuva quente não os incomodaria durante uma partida de futebol improvisada debaixo da janela do meu quarto.
Até às duas da manhã andaram a correr só de calções e chinelos atrás de uma bola que flutuava no rio em que se tinha transformado a rua, gritando e festejando golos marcados entre os carros estacionados. Eu, na tribuna, por assim dizer, não tive outro remédio senão assistir à partida até ao fim. Felizmente que foi a última.
19
02
2010
Em Angola, apesar de se venderem cada vez mais carros novos, o parque automóvel ainda é constituído quase exclusivamente por carros japoneses em décima-sexta mão importados de partes do mundo onde já são considerados sucata. Destes, a grande maioria está em mau estado à chegada ao porto e pior ficam após umas semanas nas estradas angolanas.
Quando os carros começam a dar muitos problemas e as reparações a ficar caras, a única solução é encontrar um comprador incauto que fique com o mono. Para fazer subir o preço é necessário dar ao carro um aspecto um pouco melhor e para isso, nada melhor que uma pintura nova.
Há ruas em Luanda que fazem lembrar uma gigantesca estufa de pintura automóvel, apenas com a particularidade de ser ao ar livre. Ao longo da rua perfilam-se carros com os vidros tapados com jornais e homens de tronco nú envoltos numa névoa colorida que se vai agarrando à chapa quase sempre sem primário. O pó deve ajudar a dar uma textura especial à tinta.

Talvez importado
Para que o carro não perca o ar de novidade de importação, uma das coisas que é sempre protegida na pintura é o dístico identificador do país de origem. Carros velhos com pinturas novas mostram, orgulhosamente, o autocolante queimado pelo Sol que assegura serem estrangeiros. Talvez seja uma espécie de garantia de que o carro não circula assim há tanto tempo nas estradas angolanas e que a mecânica está melhor do que se imagina.