Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

28  02 2010

O homem do cabrito

Agosto costuma ser a época em que os jornais têm mais dificuldades em encher as páginas com notícias pertinentes e acabam por dar destaque às histórias mais fraquinhas que seriam sempre preteridas em caso de falta de espaço.

No hemisfério Sul esperaria que, tal como as estações do ano, esta época estivesse desfasada seis meses da que conheço e surgisse lá para fins de Janeiro ou Fevereiro. Afinal, a silly-season é como a chuva, que é para todo o mundo ao mesmo tempo. Em Angola, as notícias fracas atacam também em Agosto.

Em 2009 houve uma destas notícias que circulou durante alguns dias. Ali para os lado da N’Gola Kiluange foram surpreender um homem a abusar de um cabrito, com direito a fotografias do sujeito de calças pelos tornozelos ajoelhado atrás do animal. Como sua defesa, disse que era feiticeiro poderoso e que apenas estava a dar força ao cabrito. Era um tratamento habitual quando os cabritos andam sem força ou apáticos, garantia. Tinha resultado com os outros, que agora andavam cheios de energia lá no quintal.

Depois o fenómeno morreu, como seria de esperar para notícias deste tipo. Meio ano volvido sobre o caso, avisto um candongueiro com a fotografia do homem do cabrito colada no vidro e relembro o episódio.


27  02 2010

Despedidas

As despedidas são sempre difíceis. Os que partem e os que ficam separam-se com corações pequeninos, especialmente quando a despedida marca o fim de um ciclo.

O R. terminou o contrato e despediu-se de todos quantos com ele conviveram, num dia fechado por lágrimas e abraços apertados. A camisola com a bandeira angolana que lhe ofereceram foi a maneira mais bonita de dizerem que se tornou um deles e que lhe sentirão a falta, apesar de todos saberem que as marcas que deixaram uns nos outros são indeléveis.

O último encontro foi também um reencontro com antigos funcionários que, de uma maneira ou de outra, acharam que deveriam estar presentes na despedida. Há dois anos acolheram um estrangeiro que trabalharia com eles, mas hoje despediram-se de um amigo.

Alguns deles confessaram-me que de outros estrangeiros não sentiam saudades nenhumas, mas deste sim, já sofriam com isso.  R. regressou a casa, mas os amigos que deixou em Luanda mostram que fez mais do que trabalhar.

Gaivota
A caminho de casa


26  02 2010

Enxada de dois cabos

Diz o provérbio que a mulher trabalhadora se vê na lavra, porque em Angola são as mulheres que trabalham nas lavras, cuidam da casa, da roupa, dos filhos e da cozinha. Aos homens compete caçar, desbravar novos campos e lavrar os existentes. Nas zonas rurais, em nenhuma altura da vida adulta a mulher deixa de cultivar e colher, nem mesmo quando está grávida ou tem crianças pequenas. Ao trazer os filhos às costas ficam com as mãos livres para desempenhar todas as tarefas.

As enxadas normais, com um cabo comprido não podem ser usadas quando se traz o filho às costas. Um movimento mal medido basta para acertar com a ponta do cabo no corpo da criança. Por essa razão, as enxadas tradicionais dos planaltos têm dois cabos curtos que formam um V. São enxadas que se usam com as duas mãos e permitem trabalhar com o filho às costas. Ter filhos pequenos não é desculpa para não ir para a lavra.


25  02 2010

Regresso às aulas

Há umas semanas algumas zungueiras deixaram de vender fruta. No alguidar passaram a trazer os livros escolares de venda proibida mas que acabam sempre por vir parar ao mercado paralelo por portas travessas.

Um pouco por todo a cidade as ruas começaram a encher-se de batas brancas. As últimas chuvas de Verão marcam o fim das férias dos estudantes angolanos. Nalgumas esquinas apercebemo-nos que há reencontros de amigos do ano escolar anterior pela maneira cúmplice como contam os episódios que lhes sucederam nos últimos meses e o que receberam no Natal.

NÃO PÓRE LIXO NO PASSEIO
Na escola aprende-se ortografia e civismo

Os mais novos andam em grandes grupos, talvez para não se perderem. De longe parece que cresceram pernas às mochilas, tal é a desproporção em relação aos corpos destes pequenitos.

Ao fim do dia há mais correrias e sorrisos. As batas usam-se com menos esmero e algumas são enfiadas num rodilho nas mochilas. Como em todo o lado, o regresso a casa é o momento mais esperado do dia de escola.


24  02 2010

A cantora grossa

Nos últimos resquícios de um Verão que durou até ao final de Outubro, embarcámos com rumo ao Mediterrâneo Oriental. Foi uma viagem memorável em todos os aspectos. Alguns ficarão só para nós dois, mas outros fazem parte da história que temos obrigação de contar.

Um desses episódios envolveu a cantora inglesa muito alta que costumava actuar ao serão numa das salas do navio. Ao fim de alguns dias já lhe conhecíamos o reportório todo, mas não desiludia. Certa noite, depois de um jantar um pouco mais demorado, entrou na sala já com os músicos a tocar a sua segunda ou terceira música. Vinha toda sorrisos, muito mais do que era costume.

Para além de ser muito alta, costumava calçar sapatos com saltos impossíveis, que a faziam crescer mais um palmo. Equilibrar-se naqueles sapatos num barco que se inclina para um lado e para o outro constantemente é um desafio, mas ela fazia-o como se fosse fácil. Desta vez, com o mar quase chão, parecia ter esquecido a arte e tentava evitar que os pés lhe fugissem. Pediu ajuda ao teclista e, com uma gargalhada, agarrou-lhe as duas mãos para subir ao palco.

Os olhos vidrados e as gargalhadas abafadas que dava sempre que olhava em volta faziam crer que o jantar tinha sido bem regado. Os músicos iniciaram mais uma canção sem letra, sem saber muito bem como salvar a situação. Ela insistiu em cantar na música seguinte, mas não foi capaz de ler a letra pequenina das folhas e a memória falhava. A canção começou bem, mas acabou como instrumental.

Bússola
Sem rumo

A solução de recurso foi usar o computador do baterista, mostrando a letra da música em tamanho garrafal. A banda começou a tocar I’m in Heaven e a cantora parecia conseguir seguir a letra. Os risos disfarçados da banda começaram à primeira fífia da cantora «Aaaahh-min réeevan ba diu ba di ba di», mas depressa se tornaram em olhares preocupados assim que perceberam que não iriam ter muito mais que grunhidos de voz arrastada «Aaahh caen aaaaaaa-dliciii». Aos poucos cortam-lhe o microfone e apressaram o final da música. O resto de espectáculo foi instrumental, com uma cantora de trombas a assitir esparramada numa cadeira nos bastiadores.

Os músicos demonstraram um grande sangue-frio e profissionalismo perante a monumental bebedeira da cantora, mas foi impossível disfarçar a bronca.


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