Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

03 2010

SPM

A sigla SPM pouco significará para a maioria das pessoas, mas para quem tinha a sua ligação ao mundo assegurada pelos aerogramas, de certeza que lhe trará recordações.

Não sou do tempo dos aerogramas nem do Serviço Postal Militar porque nasci alguns anos depois da guerra do ultramar ter acabado. Isso não quer dizer que não consiga encontrar algumas marcas desse tempo em Luanda.

SPM
SPM de Luanda

Após a independência muitos símbolos coloniais foram saneados, quase sempre as estátuas. Os símbolos que se poderia pensar serem mais depressa retirados, por identificarem as estruturas militares das tropas do colono foram ficando. Cruzes de Cristo, Quinas, Brasões de unidades e muitas outras pequenas coisas foram ficando. Uma delas é o símbolo do SPM em Luanda, que resiste desde 1975.


03 2010

Peculato

Uma das conclusões mais importantes saídas do último congresso do MPLA foi resumida no discurso de encerramento proferido pelo seu presidente, que decretou “Tolerância Zero à corrupção”. O discurso veio na altura certa ao coincidir com os escândalos das transferências ilícitas de muitos milhões de dólares directamente do Banco Nacional de Angola para contas privadas no estrangeiro.

Desde então todos repetem as palavras do presidente e ficam chocados com a corrupção generalizada no país, como se só agora tivessem descoberto o fenómeno. O mau uso dos dinheiros públicos, os desvios, as luvas continuam a fazer parte do quotidiano, mas com o estigma de se tratar de uma desobediência directa às ordens do Zé Dú.

Papagaio no poleiro
Combater a corrupção! Combater a corrupção!

No jornal e na rádio anunciam-se novas detenções e novos suspeitos no caso do BNA todas as semanas. As largas dezenas de mandados de captura e prisões efectivas que se dizem dever-se às operações fraudulentas do final do ano passado fazem crer que a fatia de cada um era bem pequena.

Paralelamente ao caso mais mediático, vão sendo publicados mandados de captura ligados a processos de combate à corrupção na administração pública. São às meias-dúzias todos os dias, com nomes, fotografias, nomes dos cônjuges, cargos ocupados e crimes de que são acusados. Antes das orientações de combate à corrupção vindas do congresso estes editais eram raríssimos.

A maioria dos mandados são devidos a crimes de peculato e todos os acusados são a arraia mais miúda que se possa imaginar. Condutores, arquivistas e auxiliares em vários serviços são os mais frequentes e o acusado mais importante que vi até agora ocupa o modesto cargo de chefe de secção. Ainda não apareceu nenhum dos tubarões que, de uma penada só, desviam mais dinheiro que estes todos juntos. Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão.


03 2010

Olhos estrangeiros

Cada um acha que o mundo em que cresceu é o mais apropriado, a sua civilização a mais justa e a mais bela alguma vez existente. A identidade nacional é como a mãe de cada povo, que poderá não ser perfeita mas não se admite que outros digam mal dela.

Filhos de outras mães poderão apontar defeitos e virtudes à nossa, ocasião em que lhe reconheceremos todas as virtudes, mesmo as que desconhecíamos, mas refutaremos até os defeitos mais evidentes. Faz parte da natureza humana, suponho.

O mesmo se passará com a maneira como os estrangeiros encaram outros povos. O seu padrão de comparação é o mundo em que cresceram e só após uma convivência prolongada poderão começar a ver a mãe alheia como sua.

O que os turistas acham típico e digno de fotografias poderá ser apenas a maneira como sempre foram as coisas para os locais, sem nada de extraordinário que mereça tanto alarido. A neve, por exemplo, não será um fenómeno particularmente marcante para um finlandês, mas para um algarvio a coisa muda de figura.

Catânia
Diferente, para um estrangeiro

Quando cheguei a Angola tudo era novidade, com gentes de hábitos e tradições diferentes, um clima diferente, mas também muito pontos em comum, fruto de uma História partilhada. A princípio tentei usar estes pontos comuns para poder calibrar as diferenças que encontrava e descobrir o que separava os angolanos dos portugueses. Fui-me apercebendo de que as diferenças não eram assim tão grandes e que, à medida que convivia com elas, me pareciam cada vez mais insignificantes.

A imagem mental do povo que trazemos à chegada vai sendo refinada com o que aprendemos todos os dias. Primeiro procuramos as diferenças e tentamos explicá-las. Assim que as compreendemos passam a fazer parte da nova ideia que temos das gentes que nos acolhem e deixamos de as considerar diferenças. Aos poucos, os olhos do estrangeiro habituam-se ao que é a normalidade da terra. A mãe alheia adopta-nos, por assim dizer.

Talvez seja por isso que os estrangeiros se sintam capazes de escrever um livro sobre o novo país nos primeiros dias, mas que tudo se resuma a uma página ou algumas frases uns meses depois. A novidade dá lugar à normalidade.


03 2010

Amargo

Há dias em que não se deve escrever. O que nos vai na alma é demasiado negro para que saia alguma coisa de agradável ou positivo.

Parece que a Depressão do Cacimbo ataca um pouco mais cedo este ano. Fico na dúvida se é só a mim ou se apenas estou a reparar mais nas pequenas arrelias e discussões a que assisto na rua. Talvez os muitos meses seguidos em Luanda, com todas as suas pequenas contrariedades que se acumulam e pesam cada vez mais, tenham levado a melhor. A contagem decrescente para o fim do contrato também não ajuda nada, porque os dias custam a passar e as saudades de casa vão-se acumulando até que parecem transbordar. Não tenho alma que as contenha. Os últimos meses parecem mais longos que os dois anos acordados pareciam à partida.

Cumprindo a promessa que fiz a mim mesmo de terminar o Aerograma quando me deixasse de dar prazer, estive por um fio para entrar em sabática e interromper os artigos diários. Sem nada de construtivo para acrescentar, repetir o que já tinha escrito ou apenas dizer mal para desopilar o fígado não faria sentido nenhum.

Mas escrever exorciza os fantasmas e escrever sobre o medo que se tem do que saia da pena, neste caso teclado, é uma boa maneira de confrontar as nuvens negras que me atacam nesta mudança de estação. Tenho de pensar no que ainda me falta descobrir, no que quero aprender.

Há que voltar ao Huambo, há que voltar a Massangano, há que me despedir de Angola, que é um país fantástico assombrado por uma Luanda ainda em clima de guerra.

Não quero ficar amargo e desiludido só por causa da cidade e dos insultos que toda a gente troca pela mínima coisa. Não quero ficar marcado de vez com as coisas negativas que me rodeiam e às vezes me fazem odiar Luanda, que não é Angola, mas às vezes se confundem. Não quero descarregar as frustrações nos amigos, que não o merecem. Quero ser capaz de sorrir até ao último dia e poder dizer um adeus já com saudades da porta do avião de regresso.

Cão virando lixo
Amargura

Há dois anos terminava as negociações com a empresa angolana que me contratou. Até à partida vivi na expectativa de vir conhecer um país sobre o qual já tinha ouvido falar muito e que me enchia a imaginação, mas não fazia a mínima ideia do que iria encontrar. Depois vieram as consultas de medicina tropical, os vistos, as burocracias e os receios naturais nestas alturas.

Os balanços finais ficarão para depois, para quando as memórias más se esbaterem e ficarem apenas as que costumam aparecer nos álbuns de fotografias, com rostos conhecidos a sorrir.


03 2010

O trânsito à luz da Lei da Selva

A vida selvagem africana consegue explicar muitas das regras que regem os comportamentos dos condutores luandenses. Impera a lei do mais forte ou do mais apto e ninguém pensa duas vezes no elo mais fraco.

Quando um predador é pressentido por uma das grandes manadas das chanas e savanas, todos os animais dispersam, fugindo do destino fatal a que estão condenadas as presas. Assim que a fera isola e persegue um único animal, geralmente o mais fraco ou azarado, todos os outros regressam à sua rotina. Enquanto o leão estiver a comer aquele bicho não perseguirá mais nenhum e a manada voltará a pastar no mesmo local, rodeando a refeição e os leões.

No trânsito de Luanda, comparando os condutores aos herbívoros que pastam e os polícias aos leões, assiste-se a um espectáculo semelhante. Os leões, neste caso, não querem devorar a presa e contentam-se com um refresco ou uma gasosa. Assim que os condutores pressentem ou avistam um polícia na berma e se sentem particularmente azarados, começam tentar a mudar para as faixas mais à esquerda e tornar-se invisíveis no meio da manada ou seguir imediatamente atrás de um veículo maior e ficar escondidos até ao último instante, altura em que é tarde demais para o polícia atacar. Se o polícia ferrou alguém, todos respiram de alívio e comportam-se como se nada fosse. Enquanto estiver a chegar a um entendimento com aquele cidadão os restantes estarão seguros.

Da mesma maneira que cada um apenas se preocupa com fugir a tempo dos predadores, também não tem grandes escrúpulos em fechar cruzamentos, fazer manobras ilegais ou perigosas, desde que chegue primeiro que os outros. Aliás, os espelhos retrovisores são mera decoração e apenas têm utilidade na altura de estacionar de marcha à ré. Cada um preocupa-se em não bater no carro da frente, porque controlar o carro que segue atrás é inútil. Todos sabem que ele fará o possível por não nos bater, desde que façamos o mesmo a quem nos procede. O hábito de ir espreitando o espelho nas mudanças de direcção perde-se porque todos sabem que se pode esperar tudo. Muda-se de faixa com a confiança de que os restantes condutores, se seguirem um palmo que seja atrás, arranjarão o espaço necessário para que o carro caiba. Talvez buzinem em protesto da manobra inesperada, mas há que encarar isso como um balido no meio do rebanho.

Candongueiro «Deus no céu bicho na terra» 
Lei da Selva

A Lei da Selva pode ser resumida a um simples «Eu por mim e os outros que se lixem!». Depois de se perceber que esta é a única regra verdadeiramente válida e cumprida nas estradas angolanas, torna-se bem mais fácil conduzir e saber o que esperar dos outros motoristas.

Uma das coisas que depressa se aprende é que os estacionamentos paralelos em marcha-atrás só são possíveis se se entrar de frente no lugar e depois voltar a sair para corrigir a manobra. Se alguém comete a ingenuidade de estacionar como mandam as regras, o mais certo é não poder recuar porque alguém se lhe colou à traseira. Ao ganhar meia-dúzia de metros de asfalto cumpriu o «Eu primeiro» da Lei da Selva, ao não facilitar a manobra cumpriu o «E os outros que se lixem!». O mesmo se passa nos cruzamentos que são trancados por uns com medo de que sejam trancados por outros. Quem atravessa o carro na rua pensa «Eu já cá estou…» e nunca mais se preocupa com os outros.

Se alguém fica entalado no trânsito e o condutor de trás se apercebe que o pode ultrapassar pela direita ou na berma da mão contrária para ganhar dois lugares, não hesitará nem um segundo. Tem muita pena pelo azar do outro, mas cada um trata de si. Por esta razão, sempre que há um pequeno estrangulamento, as filas crescem a olhos vistos apenas porque há uns mais espertos que os outros que seguem fora de mão até ao aperto e depois forçam a entrada na fila por saberem que o condutor de trás está condicionado a não bater. O que se resolveria com um pouco de paciência ao seguirem todos na mesma fila mais devagar acaba por se tornar um nó górdio com duas e três filas para cada lado a tentar passar no espaço de uma.

Por estas e por outras é que os expatriados precisam de um desmame da condução angolana quando vão de férias a casa.


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