Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

02 2010

Esquivas e m’baias

As ruas de Luanda têm um colorido próprio, emprestado em partes iguais pelo pó vermelho da terra e pelo azul e branco dos candongueiros, que representam uma grande parte do trânsito da cidade.

O seu número exacto é desconhecido, embora as autoridades confirmem quatro mil licenças válidas e estimem que haja mais três dezenas de milhar de carrinhas a operar ilegalmente. As estimativas são fundamentadas no número de apreensões de documentos e veículos ao longo de alguns meses.

Há vários factores que influenciam a exactidão destes números. O principal dos quais é a corrupção, que pode levar a que algumas multas não revertam a favor do Estado, mas permitam que se chegue a um entendimento entre o agente da polícia e o taxista. O facto de algumas frotas serem propriedade de polícias também deverá contribuir para que se feche os olhos a uma ou outra carrinha suplementar que se adicione às que têm licença.

Candongueiro «O Clone»
Cópias perfeitas, quase clones uns dos outros

Há uns meses as frotas de autocarros foram renovadas com algumas centenas de veículos. Instalaram-se abrigos nas paragens e começou-se a correr com os táxis ilegais do centro de Luanda para incentivar o uso dos machibombos. Apesar dos esforços, ainda há uns quantos resistentes que prestam serviço mesmo sem a documentação necessária. Passou a ser mais difícil, mas não impossível, trabalhar sem licença no centro da cidade.

Candongueiro «A verdade da mentira»
Talvez tenha documentos

A fuga ao controlo de documentos não é motivada apenas pela incúria ou corrupção dos agentes fiscalizadores. Cada taxista exercita permanentemente um sexto sentido para detectar operações policiais e encontrar caminhos alternativos capazes de permitir cumprir a rota e manter a viabilidade económica do negócio, isto é, não danificar a viatura, transportar passageiros pagantes a cada viagem e fazer um número mínimo de percursos que paguem o combustível e a parte do patrão no final do dia.

Candongueiro «Cidade de Deus»
Transportam gente

Quando começamos a ver muitas iáces a circular em contra-mão ou a fazer manobras ainda mais inacreditáveis que o costume, as famosas m’baias, é sinal que no próximo cruzamento há polícias a pedir os documentos. As ruas e picadas paralelas, que habitualmente nem sequer têm trânsito digno desse nome, passam a estar ocupadas de cabo a rabo com carrinhas azuis e brancas, que se afundam alternadamente nos charcos escuros.   

Apenas os menos experientes ou verdadeiramente seguros da sua legalidade ou imunidade são vistos na rota habitual. Os restantes farão o desvio que lhe poupará o prejuízo da imobilização, da multa ou da gasosa.

Candongueiro «Elas Querem»
E eles também

Se tudo isto for encarado como um jogo de gato e rato, poderá ter a sua piada, mas a verdade é que há muito mais por detrás das esquivas dos candongueiros. À luz da Lei os candongueiros estão ilegais. Por outro lado, são essenciais à cidade, e a Lei, que devia ser igual para todos, costuma ser subvertida em proveito de quem ter a obrigação de a aplicar, de tal forma que quem se sente explorado procura formas de o evitar.

A solução não é perfeita, mas enquanto não se encontrarem alternativas para os transportes ou para os setenta mil empregos gerados pelos candongueiros ilegais, esta é a que existe e as esquivas fazem parte dela.


02 2010

A Constituição e o futebol

A Constituição da Terceira República angolana está envolta em polémica desde que a questão das prometidas eleições presidenciais foi remetida para depois da aprovação da nova carta constitucional. Chegou-se a uma situação em que o próprio partido no poder admitiu que a sua proposta criaria um sistema atípico. Como têm maioria qualificada no parlamento nunca se precisaram de preocupar com as propostas apresentadas pelos restantes partidos.

Entretanto, organizou-se um campeonato continental de futebol, que desviou todas as atenções do processo da mudança constitucional, muito mais enfadonho que os jogos, mas muitíssimo mais importante para o futuro do país. Para além disso, não se distribuiram cornetas nem bandeiras para apoiar a constituição e os debates parlamentares não são conhecidos por trazer grande emoção à assistência.

Seria compreensível que se adiantasse ou adiasse o debate constitucional para que não coincidisse com o campeonato, nem que fosse para que pudesse haver um pouco mais de atenção por parte de todos os intervenientes. Tal não aconteceu e a bola abafou o processo.

Na véspera da votação final, a tal em que a UNITA abandonou a assembleia por se recusar a votar na tal solução atípica, a selecção de futebol angolana jogava. Para que a população pudesse assistir ao jogo nocturno, decretou-se tolerância de ponto a partir do meio-dia, dando tempo suficiente para que todos pudessem chegar a casa ou ao estádio a horas.

Na semana seguinte Luanda comemorou o aniversário da sua fundação. Todos os anos, o dia 25 de Janeiro é feriado na província ou, pelo menos, é decretada tolerância de ponto. Todos esperavam que a tradição se repetisse, mas este ano foi diferente. Aliás, os jornais e rádios avisaram com alguns dias de antecedência que seria um dia de trabalho normal, para não comprometer a produtividade das empresas.

A única razão que encontro para que seja decretada tolerância de ponto por causa do futebol e não no habitual feriado provincial é que a Constituição já estava aprovada.


02 2010

Arte popular

Há uns meses reparei num par de pinturas murais muito interessantes na Rua da Rainha Ginga. Por uma razão ou por outra, nunca tive a oportunidade de os observar de perto, mas o contraste que faziam com o meio envolvente estimulou-me a curiosidade de tal modo que não resisti a fazer uma viagem de propósito num Domingo mais sereno.

Foi uma excursão proveitosa. São duas pinturas executadas em 2004 por um antigo morador do prédio, com dedicatória e tudo. Têm sido cuidadas e respeitadas como obras de arte que são. Ainda não se lhes vêem palavras garatujadas em cima ou tapadas por publicidade a canalizadores e pedreiros.

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Numa parede vemos a Kianda nadar com golfinhos no pôr-do-Sol. Gaivotas fazem piruetas sobre uma caravela e o que aparenta ser um drakar viking aparelhado com uma vela latina. Nenhum dos barcos tem gente a bordo, pelo que apenas posso concluir que a Kianda é uma sereia de verdade e atraíu os marinheiros para a morte com uma canção – um semba, talvez.

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A segunda pintura mostra Belerofonte combatendo a Quimera, no mesmo estilo simples que a da Kianda, na parede oposta.

Uma das coisas difíceis de desenhar são cavalos. É irónico que o Homem dependa deles há milhares de anos, mas ainda não sabe muito bem como os pintar. O pintor não se intimidou com este facto e conseguiu desenhar uma parte equina do Pégaso bastante boa. Peca nos sítios habituais, mas não deixa de ser melhor que muitas que tenho visto. A Quimera, com a sua profusão de bestas misturadas deve ter sido um desafio, mas também saiu bem desenhada.


02 2010

The BOBs

O Aerograma está a participar na sexta edição do concurso The BOBs, organizado pela Deutsche Welle. Este prémio visa distinguir os melhores blogs actuais.

A selecção dos dez blogs finalistas em cada categoria é feita através do voto dos leitores.

A competição é renhida e, se achar o Aerograma merecedor desta distinção, pode votar aqui.


02 2010

Pisadelas, palmadas e pontapés

Quem vive num grande centro urbano, mesmo que seja no coração de África, acha que a vida selvagem é algo de parecido com o que se vê nos jardins zoológicos. Longe do pensamento está também dar de caras com alguma dessas feras, até porque são precedidas por histórias de arrepiar cabelo que lhes dão fama de sanguinários. Leões e jacarés são giros, mas é lá longe.

Cá em casa não nos podemos queixar de falta de interacção com a fauna angolana. Pisadelas, palmadas e pontapés são o modo mais frequente de reagir às investidas das feras que insistem em visitar-nos. Entre mosquitos sedentos de sangue, baratas a fugir dos esgotos ou pequenos ratinhos a fazer barulho atrás dos móveis, há muito por onde escolher, até porque a vida selvagem africana não se resume à que os caçadores gostam de exibir como troféus. Imagino já um caçador a mostrar, orgulhoso, um mosquito empalhado ou a cabeça de um grilo na parede.

Temos também um buraquinho qualquer, que ainda não descobrimos onde, suficientemente pequeno para só deixar passar ratos do tamanho de um polegar. Como aconteceu em Janeiro do ano passado, as chuvas de Verão multiplicaram o número de ratos na cidade e somos novamente confrontados com a invasão de uma ninhada de ratos inocentes e, apesar de cobertos de pêlo, imberbes. Nunca aprenderam a conviver com os humanos e abusam. Tirando um ou outro afortunado que se esgueira para não sabemos onde, os restantes não chegam a velhos e acabam debaixo de um chinelo, corridos à vassourada ou com um pontapé estratégico em direcção à porta aberta da varanda, naquilo a que chamamos de futerrato.

Estas sessões de violência mustelídea decorrem quase sempre em horário de expediente, mas abrimos excepções quando um deles se lembra de ir escarafunchar atrás de uma cama e não nos deixa dormir. Revolvemos o quarto até o apanharmos. Nas últimas semanas já tivemos de lidar com quatro destas feras…

rato
A repousar


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