Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

31  01 2010

Lembra-te que és branco

Na fila compacta que segue no sentido oposto, o taxista começa a fazer-me gestos para baixar o vidro. Deve querer falar comigo, mas não faço a mínima ideia porquê. Tento adivinhar a razão. Será que me vai apontar um pneu furado ou avisar que o buraco lá à frente é fundo?

Não, afinal está aflito. Diz que por causa de tanto trânsito está encalhado. Ainda por cima tem sede. Pode ser que eu o possa ajudar com uma gasosa.

Nem queria acreditar no que ouvia. Apenas porque sou branco tinha a obrigação de dar dinheiro a um desconhecido que me interpela na rua. Ainda por cima nem era um pedinte com necessidade aparente, era um pedinte que queria recuperar parte dos lucros perdidos no trânsito. Mandei-o ir ver se chovia lá na curva…

Se há alturas em que conseguimos esquecer que a cor da pele é uma distinção absurda, há outras em que teimam em lembrar-nos disso. Sim sou branco, mas isso não faz de mim especial, da mesma forma que os negros, amarelos e azuis não são nem melhores nem piores que os demais. O facto de ser branco não significa que seja rico. Tal como os outros, trabalho para viver. Se calhar estou a ser exagerado e fui escolhido pela cor do carro ou da camisa.


30  01 2010

LaTeX e cornetas não ligam

Sem ter noção do que me esperava, lancei-me de cabeça na conversão do Aerograma em livro. Depois de perceber a trabalheira que vai dar, quase me arrependi, mas agora não há voltar atrás.

Se tudo se resumisse à cópia de todos os artigos e à montagem num documento único, seria fácil, mas assim não garanto que saia tudo com o mesmo aspecto. Ao longo dos últimos dois anos houve muitas alterações à estrutura interna do Aerograma e à maneira como fui carregando as coisas. Preciso de utilizar o texto original livre de qualquer formatação indesejada. O passo seguinte consiste na aplicação de estilos. A minha veia masoquista levou-me a voltar ao LaTeX, que é trabalhoso, mas tem resultados fantásticos. Antes que façam associações esquisitas com borracha e masoquismo, o LaTeX a que me refiro é uma espécie de linguagem de programação para tipografia.

O processo começa com a separação da alma do Aerograma – a base de dados, do seu corpo – o servidor. Interessa-me a substância, não a forma. A longa lista de artigos, comentários e códigos é transformada num grande ficheiro de texto para ser lido pelo conversor. As formatações, definições de página e outros requintes indicam-se com algumas linhas de comando que se adicionam a este ficheiro. Até agora ainda não sabemos bem como irá sair, apenas podemos imaginar. Quem só conhece os processadores de texto modernos em que tudo se escreve com um aspecto próximo do final pode achar que esta abordagem é paleolítica, mas os resultados finais são surpreendentes.

Quando estivermos prontos, compilamos as nossas instruções e o texto e, segundos depois, obtemos um documento com índices, um excelente aspecto gráfico e, ao contrário do que sucede quando se usa um processador de texto moderno, tem a formatação garantidamente igual do princípio ao fim.

Agora espera-me a fase de limpeza. Tenho de ordenar histórias, retirar os artigos que não quero ver incluídos, eliminar os códigos HTML que sobraram e indicar onde são as divisões de capítulos. O trabalho vai ser longo, porque a primeira compilação resultou em cerca de 1’500 páginas. Para que saia bem necessito de sossego, coisa que é impossível com o Yanick, o chato de serviço, a soprar no raio da corneta do futebol todo o santo dia!


29  01 2010

O cheiro da chuva

O olfacto, por estar ligado às regiões mais primitivas do nosso cérebro, é responsável pelas memórias mais marcantes e duradouras. Aliás, o cheiro da terra é algo que todos os que viveram uma temporada em África recordam com saudade. Talvez não seja do cheiro em si que tenham saudades, mas sim de todas as emoções que trazem à superfície. A imponência da paisagem liga-nos à terra de uma forma indiscritível e recordar a terra é recordar essa sensação de pertença ao mundo.

Já senti o cheiro da terra e, apesar de ser incapaz de o descrever, sei que recordarei o local onde o senti da primeira vez quando me voltar a cruzar com ele. Como todas estas memórias sensoriais telúricas, não há maneira de as partilhar totalmente com ninguém. É preciso senti-las e dar-lhes liberdade para nos tocar lá no fundo e remexer à vontade.

Esta noite choveu em Luanda. Caiu uma chuvada tropical de gotas grossas e quentes que depressa se juntaram no chão e formaram rios onde eram estradas e torrentes furiosas onde eram leitos secos. O lixo que se acumulava nas valas e nos rios foi arrastado para o mar. As ruas secaram. O Sol regressou. As cigarras encheram o silêncio da cidade presa na lama. Ainda não circulavamNão senti o cheiro a terra molhada. Cheirou-me a asfalto e lixo revolvido. Cheirou-me a miséria e percebi que esta não é a África que quero recordar.


28  01 2010

Para ti, que olhas o céu

Por alguma razão que ainda desconhecemos, estamos ligados de muitas maneiras, mas também através do céu e da noite. Dançámos ao luar, contámos estrelas na praia, com beijos a saber a chicla de mentol e a banda sonora das ondas, trocámos segredos e histórias a seguir constelações com os dedos. A noite tem mistérios, mas também tem ternuras e silêncios que dizem tudo.

Mesmo quando a distância se tornou maior que os braços, a Lua sempre foi a guardiã dos nossos sorrisos e afectos. Cada um olha para a ela do seu lado do mundo e sabe que o sorriso que lá vê reflectido não é o seu, nem sequer o dos selenitas, mas o da outra metade de nós.

Não são raras as vezes em que olho para o céu e penso em ti, para logo a seguir receber uma mensagem tua acerca do sorriso que vês desenhado na noite, ou da Lua Cheia que também espreito da janela.

Transmissão de pensamento ou sintonia, uma delas deverá ser concerteza, porque as coincidências excluí no dia do nosso casamento. Ainda mal o Sol despontava e ambos saímos das respectivas casas para os últimos preparativos. A Oriente, o céu que ainda não se tinha decidido se ficaria laranja ou azul, foi atravessado por uma estrela cadente. Soubemos mais tarde que ambos tínhamos gravado na memória aquele risco brilhante parecido com a estrela dos presépios.

Talvez os antigos interpretassem o meteoro como um sinal. Eu sorrio ao pensar que olhávamos na mesma direcção, como acontece quando olhamos para a Lua.

E hoje, para não variar, enquanto escrevia sobre o céu e o que nos une a ele, recebo uma mensagem tua a falar-me de sorrisos e da Lua…


27  01 2010

O esquema no Ti Afonso

Às horas a que eu ainda estou arrependido de me ter levantado e a olhar com inveja para a almofada que fica mais um bocadinho na cama, toca o telefone. É um número desconhecido, mas atendo. Pode ser um cliente.

– Bom dia, sou o Adriano, estás bem?
– Sim, bom dia Adriano.
– Te lembras de mim?
– Sinceramente, o nome não me diz nada…
– Sou o rapaz que te pediu trabalho lá no Cassenda, no ano passado. Está tudo bem?
– Sim, está tudo bem, mas nunca mais ouvi falar de ti.
– Já arranjei emprego, na Capanda. É em Malanje.
– Isso é bom. Um emprego na barragem nova. Que fazes lá?
– Sou electricista.
– E então, que queres?
– Venho pedir um favor no Ti Afonso.
– Um favor? Se estiver ao meu alcance…
– Não é para pedir contribuição nem nada, mas preciso de um favor do Ti Afonso.
– Diz lá o que precisas.
– O meu supervisor, que é brasileiro, me mandou a Luanda buscar bombas de pressão. É para as fábricas funcionarem. Sem bombas de pressão não trabalham. E as bombas de pressão estão na Talatona, com os vendedores.
– Adriano, não estou a ver para que precisas de mim…
– É que o material está em Luanda e eu preciso de ir aí buscá-lo. O meu supervisor diz que custa 350’000 dólares e que eu tenho de ir buscar o material a Luanda. Sem o material não se pode trabalhar. São bombas de pressão. Para as fábricas.
– E qual é o problema?
– É que o meu supervisor foi de férias e o chefe não me deixa ir sozinho a Luanda com o dinheiro porque eu só estou a trabalhar cá há duas semanas. Então venho pedir um favor no Ti Afonso.
– Ainda não percebi o que queres.
– Eu telefono a um amigo meu ou a um primo e eles falam nos vendedores para entregar o material no Ti Afonso. Só é preciso 30% e eles entregam.
– Adriano, não me parece que te consiga ajudar…
– Mas é preciso o material e o chefe não me deixa ir buscar.
– Parece-me que esse é um problema do teu chefe.
– Tá, obrigado. Bom dia Ti Afonso.

Histórias da Carochinha
Eu também acredito no Pai Natal

É bom acordar com um esquema. Se calhar gostam de apanhar a malta ainda a dormir para ver se acreditam mais. Um pormenor de classe é a repetição de que o material são bombas de pressão e que são muito necessárias. O apelo pessoal do Ti Afonso dá um toque de familiaridade à conversa que demonstra requinte, ou muita experiência nestas andanças. Melhor ainda é esperar que um desconhecido adiante 100’000 dólares a um gajo que nunca viu, provavelmente a troco de um caixote com sucata.

Haverá quem caia nestes golpes?


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