Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

26  01 2010

A derrota

Desde que os estádios começaram a ser construídos que se aclama a selecção angolana como campeã. É uma questão de justiça. Se Angola é a maior em tudo, também será, certamente, a maior no futebol. Jogar em casa reforçava a intuição popular. Até os jogadores se recusavam a jogar antes de se decidir qual seria o prémio no caso de serem campeões.

Antes de começar o campeonato, perguntámos a um colega qual era a sua previsão para a prestação dos Palancas Negras. «Vai ser uma vergonha se Angola não ganhar!»

A passagem à segunda fase da competição, mesmo que com um jogo que todos acusam de ter sido combinado, apenas parecia confirmar o desígnio nacional de vencedores em todas as frentes. As bandeiras eram agitadas com mais fervor, as cornetas sopradas com gana e os jingles radiofónicos dos patrocinadores cantados como se fossem o hino.

Depois veio o silêncio. Todo o país parou para ver o último jogo, mas não se ouviram gritos a comemorar golos, nem cornetas a confirmar uma boa jogada, apenas um silêncio sepulcral.

Nem tudo eram favas contadas. A equipa angolana foi eliminada no campeonato por si organizado. Para quem está de fora e conhece mais ou menos as capacidades de cada equipa participante, não foi surpresa nenhuma, nem mesmo para os que nem ligam ao futebol. Para os angolanos, foi um rude golpe no orgulho.

Até então, o brutal investimento nos estádios que paralisou a reconstrução do país era justificado. Enchia de orgulho todos os angolanos que decoravam os carros com bandeiras e, acima de tudo, fazia esquecer tudo o resto.

Na manhã que se seguiu ao fatídico jogo, o sentimento nacional resumia-se ao desabafo do segurança.

«Filhos da Puta! Tanto dinheiro gasto para nada…»


25  01 2010

A terra dos paupérrimos

Antes de passar ao que interessa preciso de introduzir um pouco de teoria. Servirá não só para compôr um bocadinho a estrutura do artigo, o que é vulgarmente designado por encher chouriços, mas também para ajudar a perceber as coisas estranhas que se passam nesta casa, para além dos ratos, mosquitos e baratas, claro.

A história começa há mais de um século, no meio da casmurrice de dois senhores ligados ao progresso tecnológico da humanidade, de seus nomes Westinghouse e Edison. A rivalidade entre as suas empresas e, acima de tudo, sobre qual a norma de fornecimento de electricidade que vingaria, ditou manchetes de jornais, vinganças, sabotagens e outras desventuras. Edison defendia que a forma mais vantajosa de usar electricidade era sob a forma de corrente directa, do mesmo tipo da que é produzida por pilhas ou dínamos. Westinghouse apoiava a ideia da corrente alternada, sugerida por Tesla, o protótipo do cientista louco. A solução mais segura e económica acabou por ser a corrente alternada, para grande desconsolo de Edison.

Uma das grandes vantagens da corrente alternada é que só precisa um fio para levar energia até ao local de consumo, ao contrário dos dois da corrente directa. A electricidade, em vez de ir por um fio e voltar por outro, vai e volta por um só fio. Na verdade, a electricidade sai das centrais em três cabos, o que poderia parecer um desperdício, mas estes três condutores equivalem a seis de corrente contínua porque o retorno à central não necessita de cabos.

Para a mesma energia transportada, quanto maior a tensão, menor é a corrente que passa nos condutores. Por isso, quanto mais elevada for a tensão de transporte, menor será a corrente, menor o aquecimento que provocam e, portanto, menor o diâmetro mínimo dos cabos para suportar esse calor, o que implica menos dinheiro investido em material. A corrente alterna facilita muito as mudanças de tensão, pelo que se produz electricidade a uma determinada tensão, se transporte a uma tensão muito mais elevada para evitar perdas e, finalmente, se converta para uma tensão baixa e mais segura para utilização doméstica.

Os três cabos, a que se dá o nome de fases, ligam as centrais aos postos de transformação. Em teoria, estes cabos apenas levam energia até ao transformador. O retorno do electrões é feito pela terra, embora ainda não me tenham dito como cada electrão sabe para que central se há-se dirigir… As cargas, isto é, os consumidores, são distribuídos de forma a equilibrar os consumos em cada fase. Por questões de segurança, do posto de transformação até às casas a energia segue em dois cabos, como aconteceria com a corrente contínua. A um chama-se fase, que é o que leva energia, e ao outro chama-se neutro, por onde se dá o retorno e está ligado à terra, dentro do posto de transformação. Com o circuito aberto, um é perigoso e o outro é só um fio. Os mais perspicazes já devem ter percebido que podem ligar a tomada da televisão à terra e à fase que, se tudo correr bem, trabalha na mesma. É essa a magia que faz funcionar os busca-pólos. Tocamos na fase com a ponta da chave e o nosso corpo fecha o circuito com a terra, acendendo a luzinha.

Alguns sistemas de protecção, chamados de diferenciais, comparam a quantidade de electricidade que passa em cada fio e, caso não seja a mesma, cortam a corrente, pois significa que há uma fuga em qualquer lado, quase sempre provocada por alguém que meteu os dedos onde não devia. Porque nem sempre estes sistemas estão disponíveis e pode haver avarias nos aparelhos que causem choques aos utilizadores, há instalações protegidas com circuitos de terra. No fundo, cria-se um atalho para a electricidade que, em vez de usar o nosso corpo para fazer ligação e nos dar um belo esticão, segue um caminho mais fácil, num circuito paralelo ao original que não regressa ao posto de transformação, mas sim a um robusto eléctrodo de cobre que se enterra algures. Nas instalações mais antigas, nem sempre é fácil instalar um eléctrodo de terra. Há soluções de recurso, uma das quais é conhecida como terra dos pobres, que consiste em ligar o circuito de terra aos canos da água. Funciona bem quando são de ferro ou cobre mas, em instalações um pouco atabalhoadas, podem implicar que se apanhem choques quando se abre uma torneira.

Depois desta introdução que tomou vitaminas em pequenina, chegamos ao ponto em que começa a ficar grande demais e tenho de começar o relato das coisas estranhas que sucedem cá em casa antes que me perca.

Há uns meses, o fogão começou a fazer disparar os disjuntores quando se utilizava a rede pública, mas se usássemos o gerador tudo funcionava normalmente. Chamou-se o electricista, que mexeu nalgumas coisas, olhou de lado para outras, assobiou às mulheres que passavam na rua, foi almoçar e voltou para cobrar 100 dólares. No final do dia deu o problema como resolvido. Desde essa altura que, quer de gerador, quer de electricidade pública, as coisas funcionaram com normalidade. Até que começou o tempo húmido. Subitamente, com a rede pública as coisas funcionavam, mas com o gerador havia uma sobrecarga no fogão. Situação incompreensível a todos os níveis.

Suspeitávamos que, devido à maior humidade no ar, houvesse uma pequena passagem de corrente para o circuito de terra no fogão e que o electricista tenha trocado de posição as fases que alimentam a casa, colocando o fogão numa com menos perdas até ao posto transformador. Como o gerador da central eléctrica é muito mais potente que o nosso de emergência, é capaz de alimentar esta perda sem notarmos quebra de tensão apreciável. É claro que se medirmos a tensão numa tomada não temos nada parecido com os 230 V esperados, tantas são as perdas deste tipo ao longo da rede. Se tivermos sorte, 205 ou 210 V.

Para satisfazer a curiosidade, resolvemos desligar o fogão da tomada. O que descobrimos não nos deixou animados. O eléctrodo de terra dos pobres acabou de se tornar numa jóia cintilante ao lado desta maravilha da técnica e do improviso. Três pregafusos enfiados na parede a formar um triângulo seguram um pedacinho de fio miseravelmente oxidado. A isto chama-se a terra dos paupérrimos.

Circuito de terra
Pesadelo electrotécnico

Talvez se trate de uma nova abordagem aos circuitos de segurança. Se há fuga de corrente, quer dizer que ela está a fugir. Se está a fugir é porque está a correr e então enfia-se pelo circuito de terra a alta velocidade, faz a primeira curva a voar, com algum esforço dobra a segunda esquina, na terceira quase perde o controlo e nem dá por ter entrado numa armadilha. Ficará a dar voltas dentro do triângulo até se cansar. No final do dia basta-nos ir buscar o arame e sacudi-lo para uma garrafa e recuperar a electricidade perdida, possivelmente para se ir revender no Roque Santeiro como se fosse nova. Ou então não é nada disto e é um verdadeiro mistério como ainda ninguém morreu electrocutado nesta casa.


24  01 2010

Barba para dentro ou barba para fora?

N’«O caranguejo das tenazes de ouro» perguntam ao capitão Haddock se vai dormir com a barba para dentro ou para fora do lençol, apenas para lhe causar insónias. A coisa resulta tão bem que o pobre Haddock passa a noite a experimentar ambas as opções e nenhuma lhe parece confortável. Em Luanda tenho o mesmo dilema. Não que tenha deixado crescer uma farta barba ou até que durma tapado, mas nunca me decido sobre qual posição dormir.

Normalmente, prefiro dormir de lado. Sempre dormi assim e não me parecia haver razões para mudar. Há uns anos preferia deitar-me para o lado esquerdo, talvez por ter a cama a um canto do quarto, mas, depois de partir um punho, tornou-se mais confortável fazê-lo para o lado direito. A diferença não era muita e não demorei a habituar-me. Depois conheci o Verão Austral e fiquei sem saber quais são as posições confortáveis para dormir. Já é suficientemente mau passar o dia inteiro com suor a escorrer pela testa ou debaixo de ar condicionado, quanto mais dormir assim.

Nas noites em que o ar se cola à pele e só nos apetece tomar banhos consecutivos, não há posições agradáveis. Deito-me na posição que me é confortável e descubro, segundos depois, que uma perna sobre a outra me faz calor, que um braço atravessado no peito me faz calor, que tudo me faz calor. O suor escorre-me pelas costas e pela cara. Sinto a pele pegajosa. Volto a almofada ao contrário, para ver se está mais fresca. Não está. Volto-me para o outro lado. Mais uns segundos e estou a escorrer suor outra vez. Deito-me de costas. Fico mais fresco, mas a almofada parece que está a arder. Viro-me de barriga, com os braços e pernas bem afastados para expôr mais pele. Atiro a almofada para longe. Fico mais fresco, mas é desconfortável. Resigno-me e tento dormir.

Da próxima vez que acordar, com uma qualquer buzina ou escape ruidoso, voltarei a enfrentar o mesmo dilema. O que vale é que não tenho barbas…


23  01 2010

Numerações

As moradas completas servem não só para receber correspondência como para as famosas facturas da água e da luz. Sem nomes de ruas e números de porta é difícil saber quem paga o quê e quanto.

As moradas de Luanda foram-se deteriorando com o tempo. Não é só nas zonas novas que as moradas não existem ou são confusas. Mesmo na cidade velha, com as mudanças de nomes de rua, a modificação das numerações e o fim dos serviços de distribuição de correio porta a porta, indicar uma morada pode ser uma tarefa muito difícil. Os pontos de referência são essenciais.

Para contornar este problema, as empresas de electricidade, água e telefones optaram por criar os seus próprios sistemas de moradas, à semelhança do que se vem fazendo um pouco por toda a África. A partilha de informação é feita com desconfiança e, infelizmente, são iniciativas isoladas e cada empresa usa o seu sistema que, quase sempre, difere do que a administração municipal ou comunal instaurou. O sistema não é perfeito mas funciona.

Numerações
Profusão de números

Cada casa pode ter até três número que a identificam face ao Estado ou às empresas de água e luz. Os telefones fixos cingem-se quase só à Luanda colonial, pelo que a haver outra numeração, não se dá por ela.

Nos bairros populares a que se costuma chamar de musseques, cada empresa pinta os seus números nas portas e paredes. A EDEL usa sempre letras azuis sobre um quadrado branco, por exemplo.

Numerações
Redundância

Vendo as coisas por outro prisma, usando as várias numerações de cada casa obtemos uma morada com informação redundante, quase como os dígitos de controlo dos códigos de barras. Em vez de se indicar só o número da porta, indicam-se todos e, caso haja mais do que uma casa com o mesmo número, os restantes tiram as dúvidas. Já estou a imaginar «Moro na Rua A, Casa 21, Epal 17, Edel 38» em vez de «Passas a vala, viras na rua da mangueira grande e procuras a casa com o portão verde em frente do carro partido e perguntas onde moro».


22  01 2010

Se não os vences, dá-lhes tolerância

Tirando os geradores e o alarme do banco na esquina, apenas o som abafado do relato nos rádios dos seguranças enche as ruas. Circulam os autocarros por obrigação. De resto, nem carros nem motas. Os peões reduzem-se a umas poucas mulheres de passo lento ou estrangeiros na sua corrida diária pela marginal. Acordei com o calor, mas confesso que dormi uma das sestas mais sossegadas de que tenho memória em Luanda.

A calma que agora reina contrasta com a febre dos últimos dias, em que todos se apoquentavam com o futuro da selecção nacional no campeonato de futebol. O jogo entre a Argélia e Angola prometia ser tão crucial que era o centro de todas as conversas. A hora do jogo é que não deixava ninguém sossegado. Às cinco horas é quando se sai do trabalho e quem mora longe chega a casa já depois do jogo acabar.

Preparativos para a festa
Preparados para a vitória

Antevendo um êxodo maciço dos trabalhadores logo a seguir ao almoço, ou a invasão de todos os serviços por televisões e rádios que perturbariam o trabalho todo o dia, a Governadora resolveu não contrariar a vontade do povo e decretou tolerância de ponto em toda a província de Luanda para que se fosse ver o jogo. Foi o melhor que fez. A partir do meio-dia a debandada começou. A hora de ponta foi mais curta mas mais intensa que o habitual, mas os condutores sorriam, cheios de calor por causa dos cachecóis e bandeiras.

Cores nacionais
A caminho de casa

O final do jogo estava a ser tão interessante que fui dar com o R. a dormir em frente à televisão. Acabou empatado, mas serviu os propósitos de ambas as equipas. Lá fora ouvem-se uns tímidos «Ganhámos», mas o que se sente é um imenso suspiro de alívio por não terem perdido.


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