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Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

21  01 2010

Desconfiança

Um dos maiores entraves ao desenvolvimento de Angola é a desconfiança que os angolanos têm deles próprios. Não se trata de questões de racismo ou tribalismo que, talvez por serem mais evidentes, se conseguem ir corrigindo ou, pelo menos, mascarando.

Modo geral, os angolanos são afáveis e tratam-se bem uns aos outros, a menos que detenham alguma forma de poder. Aí, todos passam a ser inimigos e devem estar a conspirar para lhes ocupar o lugar. Diz o povo que cada um sabe como lá se chegou. Todos aspiram chegar a chefe e olham com desconfiança quem almeja o mesmo. Os rivais não são tolerados e quem está abaixo é mantido no seu lugar e relembrado constantemente que não é aconselhável exprimir as ambições.

O clima do salve-se quem puder que a guerra civil trouxe marcou várias gerações e os angolanos habituaram-se a matar para não ser mortos em todas as ocasiões. Vemos esse espírito no trânsito, com manobras incríveis para ganhar um lugar, na pequena corrupção para poder ser atendido primeiro, nas cotoveladas nas filas ou nas motas a circular por onde calha. Corrupção, impunidade e falta de civismo são marcas da guerra.

Candongueiro «Staff dos Corruptos»
Na boca do povo

O cada vez maior fosso entre os que têm tudo e os que nada têm agrava ainda mais este clima de desconfiança. Os chefes têm a certeza absoluta que estão a ser roubados pelos empregados, quer sejam 50 Kz no táxi ou um saco de limões no bar. Às vezes têm razão, porque os próprios empregados acham que o pequeno roubo não será notado pelo patrão, que já tem tanto. Infelizmente, o pequeno roubo acaba por se tornar hábito e os que não o fazem acabam por se sentir idiotas ao ver os colegas fazê-lo sem represálias. Parte do problema resolver-se-ia dando condições um pouco melhores aos empregados e punir com justiça os menos honestos, mas grande parte dos patrões prefere pagar muito mal e reclamar que os empregados não prestam.

O clima de desconfiança está tão enraizado que até se desconfia das empregadas domésticas, figura na qual se deveria depositar inteira confiança, uma vez que se lhe dá acesso à nossa casa. Ao invés de pedir referências, tranca-se os valores ou combina-se um horário em que haja gente em casa. Novamente, paga-se muito mal, só para o caso da empregada não ser honesta. Como se desconfia que a senhora até roube comida, os frigoríficos vendidos em Angola têm chaves e fechaduras, como os que há nos hotéis.

Fechadura
Desconfiança institucionalizada

Se a empregada rouba comida, talvez seja para a comer, o que poderia significar que o salário é demasiado baixo. Em vez de se corrigir a situação e pagar bem a uma empregada de confiança, despede-se aquela e contrata-se outra pelo mesmo preço. Os patrões continuarão a desconfiar das empregadas e as empregadas a sentir-se exploradas pelos patrões ao ponto de acharem lícito roubá-los.

Todos estes problemas são mais evidentes em Luanda, porque aqui a guerra civil ainda não acabou. Já não há disparos nas ruas, mas o modo de funcionamento da cidade ainda está condicionado pela guerra. Talvez a situação melhore com a geração que cresceu depois da paz.

Não consigo deixar de pensar que é um pouco triste que só se encontrem frigoríficos com fechadura. É a admissão da derrota numa rendição incondicional. Os próprios angolanos acham que os demais são ladrões. Mas lá está, também há quem diga que não se consegue ter um milhão de dólares de forma honesta.


20  01 2010

A memória da Mutamba

Quando se estabelece uma nova povoação, a sua localização e organização são condicionadas pelo meio. A orografia, ventos dominantes, solos, cursos de água, pântanos e florestas determinam onde se construirão as primeiras casas ou como será o traçado das primeiras ruas. A expansão urbana implica que se atribuam nomes aos novos bairros. Quase todos são escolhidos em função de pontos de interesse locais, nomes antigos das zonas agora ocupadas ou de habitantes conhecidos.

Luanda é uma cidade com vários séculos de história. Herdou o seu nome da população que habitava a região e, à medida que cresceu, foi ganhando divisões de fronteiras mais ou menos difusas. Para além das divisões administrativas actuais, com limites bem definidos, há as divisões populares que todos sabem a que zona se referem mas ninguém consegue precisar exactamente onde mudam de nome. Tudo depende um pouco da escala. Para quem vem de longe basta dizer que se mora em Luanda, para os de cá é necessário precisar se é na cidade baixa, se no Sambizanga, se na ilha. E, para os vizinhos, é necessário especificar se moram na Mutamba, no Baleizão ou no Kinaxixi.

Serpa Pinto
No antigo Largo Serpa Pinto, actual Largo Amílcar Cabral

Estes nomes são uma verdadeira memória viva da cidade, pois perduram muito para além da razão que os instituiu. Ao fim de muitos anos, todos sabem onde fica a Avenida dos Combatentes ou a António Barroso, mas talvez desconheçam os nomes oficiais actuais. Em certos lugares, há lojas que se identificam com a toponímia antiga, que todos conhecem. A memória da cidade ditará que o nome perdure mas as suas origens serão esquecidas. A Mutamba é um desses exemplos.

Todos sabem onde fica a Mutamba. Grande parte das pessoas identifica a zona com a praça entre os Ministérios das Finanças e Obras Públicas e o Governo Provincial de Luanda. Durante o tempo colonial foi o Largo Almirante Baptista de Andrade, antigo Governador de Angola. Actualmente não há placas toponímicas que a identifiquem e ficamos com a impressão que herda o nome das ruas que a cruzam.

A cerca de um quarteirão ficava a Travessa da Mutamba, reclamada por um projecto imobiliário de aço e vidro, que se chamará Muxima Plaza, amordaçando para sempre o nome da antiga rua. Era a última memória da Mutamba. Desde que desapareceu, ninguém pode explicar exactamente porque se chama Mutamba à zona.

Acontece que me cruzei com uma verdadeira preciosidade. Um roteiro de Luanda de 1954. Está bastante danificado, com manchas e rasgões em quase todas as páginas que sobraram, mas não deixa de ser um magnífico documento. Na biblioteca municipal perguntei se tinham alguma cópia em melhor estado, mas a única existente estava requisitada por um dos organismos de planeamento da província, sem previsão de devolução.

Roteiro de Luanda
Preciosidade

Por ter assistido aos últimos dias da Travessa da Mutamba e à perda de parte da memória da cidade, a minha curiosidade levou-me a procurar esta rua no roteiro. Tive sorte. A página ainda existia. Fiquei a saber um pouco mais da História da cidade e a razão do nome da rua. Aparentemente, houve aqui um tamarindeiro suficientemente conhecido para dar o nome à zona.

Excerto do roteiro
Memória de Luanda

As questões da toponímia podem parecer arbitrárias e até mesmo tratadas como tal, mas contam histórias muito mais interessantes do que possamos julgar.


19  01 2010

A ginguba dá força

Na fila para a gasolina há à venda de tudo um pouco. É um bom local para vender. A longa espera aborrece os condutores, que ficam um pouco mais receptivos aos argumentos dos vendedores, nem que seja para afastar o tédio.

Para um lado seguem os vendedores de óculos de sol, sapatos e desodorizantes, para o outro vão os de escovas de limpa-pára-brisas, capas de estofos tapetes e telefones. Az zungueiras, com grandes alguidares de bananas ou mangas à cabeça aproximam-se das janelas à vez, dizendo que «a fruta é boa, amigo».

O vendedor de auriculares reclama do pedinte que lhe estraga o negócio e as mulheres sentadas à sombra do toldo da esquina conversam e riem alto com a mercadoria presa entre as pernas e os panos.

O vendedor de filmes piratas mostra a mercadoria, desfolhando os discos com títulos sonantes do cinema chinês ou êxitos de série B de há vinte anos. Pelo meio há um ou outro filme recente e os sempre presentes Savimbi e Bin Laden. Quando o cliente não se mostra interessado pela oferta do videoclube inclina-se um pouco para dentro do carro e pergunta «E jindungo?», enquanto mostra os filmes do fundo da pilha. Têm títulos que deixam pouco à imaginação quanto ao argumento. «Big booty blacks», «Blacks on blondes» ou »Ebony fest» são alguns exemplos. As imagens das capas também contam a história toda, mas o vendedor fica um pouco desconsolado porque nem isto lhe compramos.

Um pouco mais tarde, pela outra janela, vem a oferta de vendedora de amendoim torrado, segurando uma bacia vermelha entre os braços: «A ginguba é boa. A ginguba faz bem e dá força!». Com o sorriso malandro que o vendedor de filmes picantes fez há momentos, aproxima-se um pouco mais e acrescenta «Dá força lá em baixo!».


18  01 2010

Lotação esgotada

Respondendo às críticas da falta de camas em Luanda para os turistas, o ministério da hotelaria e turismo, cuja sigla – MINHOTUR – faz lembrar uma agência de viagens de Viana do Castelo ou Vila Praia de Âncora, pagou um anúncio de página inteira no Jornal de Angola. Ficámos a saber que a oferta hoteleira de Luanda é de quase cinco mil camas, contando todos as camas, divãs, beliches e enxergas dos hotéis de luxo, pensões de meia estrela e hospedarias de telhado de chapa ondulada que estão registadas na província. A lista era extensa e, para parecer maior, incluía até as três camas disponibilizadas por uma hospedaria modestíssima algures nos arrabaldes.

Pensão de uma estrela
Pensão de uma estrela

Em situação normal, todos os hotéis rebentam pelas costuras e o famoso campeonato de futebol trouxe algumas preocupações sobre o alojamento dos turistas. Os tais que se desejavam para trazer algum benefício ao país para além de um orgulho inchado. A julgar pelo que se viu nos estádios vazios, as preocupações eram desnecessárias. Os turistas não vieram. Não conseguiram.

Entre bilhetes postos à venda a menos de um mês das partidas e o filtro eficaz que os serviços consulares aplicaram na emissão de vistos, tornou-se tarefa quase impossível conseguir entrar em Angola no princípio do ano.

Bem tinham razão os que diziam que os hotéis que abrirão até ao fim do ano ainda vêm bem a tempo do futebol…


17  01 2010

Dinheiro às pinguinhas

Uma mina de dinheiro fácil foi descoberta recentemente pelos corpos de fiscalização dos diversos municípios de Luanda. Ao contrário das minas vulgares, e daí ser de dinheiro fácil, esta não causa calos nas mãos ou dores nas costas. Causará, se tanto, pescoços doridos ou carecas molhadas.

A mais actual multa-do-dia que os fiscais aplicam tem como justificação as irritantes pingas que as máquinas de ar condicionado deitam para a rua. Com a quantidade absurda de aparelhos instalados em cada fachada, não é preciso sequer andar muito para se encontrar infractores. O fiscal sobe a rua, olhando para o chão à procura de poças suspeitas ou até sentir uma gota na cabeça, afasta-se, identifica a máquina em contravenção e parte à procura do seu proprietário.

Os 50’000 Kz de multa, cerca de cinco ordenados mínimos, chegam a ser ridículos face ao crime. O carro estacionado indevidamente fica por cerca de metade. Pelo mesmo preço compra-se um aparelho novo ou, por um desconto substancial, adquire-se uma graciosa extensão do prazo, a negociar com os fiscais, para reparar a falta. Expia-se o pecado com uma indulgência, digamos.

Ar condicionado
Em qualquer parede se encontram máquinas

Nalguns prédios, as gotas provenientes dos andares mais elevados vão-se dispersando ao embater na fachada, nos peitoris das janelas ou nas outras máquinas mais abaixo. Acabam por se transformar numa névoa fina levada pelo vento a que se juntam as gotas grossas dos andares mais baixos. É difícil prever onde vão cair as gotas neste Pachinko aquático e o mais seguro é mudar de passeio.

É certo que é aborrecido cair água das fachadas, até porque ficamos sempre na dúvida se a água vem dos condensadores ou de um esgoto improvisado. Todos concordam que o regulamento não o permite e que é bom que assim seja. É desagradável andar a fazer gincanas nas ruas a contornar as goteiras suspeitas e a evitar olhar directamente para cima. Os fiscais não chegam a todo o lado nem acodem todas as situações provocadas pelo desordenamento da cidade, e defendem que têm de começar por algum lado, mas é preciso convir que haverá outras prioridades na cidade que não passam pelas goteiras do ar condicionado.


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