Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

16  01 2010

Se as notícias fossem só títulos…

Folhear o Pravda tropical é sempre uma experiência sublime. Nada se compara à enxurrada de boas notícias e artigos animadores que asseguram ser Angola o melhor país não só de África, mas do mundo inteiro. Apenas as más línguas o poderão acusar de tendencioso porque, como alguns angolanos me dizem, a sua única falha será pecar por defeito e não conseguir mostrar realmente quão grandiosa é a nação. Talvez seja por falta de páginas.

Habituado a ler primeiro os títulos das notícias e só depois aprofundar a leitura nas mais interessantes, costumo ter surpresas, daquelas que contrariam toda e qualquer lógica que ainda tenhamos a ilusão de existir. Assim, num país onde o imenso potencial agrícola é desperdiçado em campos abandonados ou minados e a agricultura de subsistência reina ou onde a criminalidade aumenta nas cidades a cada dia que passa, temos notícias com os seguintes títulos:

“Na província do Uíge – Capturadas milhares de moscas”

“Benguela abandona a produção de açúcar”

“Nas zonas rurais oferecidos ecrãs gigantes”

Confesso que são excelentes títulos. Cativantes ao ponto de me despertarem um interesse legítimo na notícia, uma verdadeira curiosidade indomável. Quis saber porque se perseguiam moscas em vez de bandidos e se os agricultores de Benguela tinham largado as lavras e trocado as enxadas pela televisão nova.

Afinal, ofereceram mesmo ecrãs gigantes e antenas parabólicas para os agricultores verem a bola e a novela. Água, ferramentas, sementes e médicos virão mais tarde, talvez. Dizem que é para incentivar as crianças a praticar desporto e não se tornarem ladrões. Infelizmente, a televisão vai mostrar-lhes também um mundo de sonho que só conseguirão atingir de formas menos lícitas.

E, na província de Benguela, a cana-de-açúcar vai mesmo acabar. Segundo dizem, as plantações actuais não têm dimensão suficiente para as refinarias, que também irão fechar. Abrem falência por excesso de capacidade de produção, por assim dizer. Parece que em toda a província não há locais com dimensão suficiente para instalar uma plantação de 20’000 hectares contíguos, ou melhor, haver até há, mas estão ocupados por explorações pecuárias cujos proprietários não são expropriáveis, quer pelos seus galões, quer pelas suas agendas telefónicas. Dizem que vão começar a plantar hortícolas e leguminosas nas plantações abandonadas. Espero apenas que comecem a tratar das novas culturas antes de acabar com a existente.

A notícia com o título mais surreal acaba por ser a mais interessante. Quem vê caras não vê corações e quem vê manchetes pode não ver a notícia. Em Novembro, no Uíge, foram capturadas moscas aos milhares, reza o título. O corpo da notícia adianta 11’480 como valor mínimo. Mas não são moscas quaisquer, são moscas tsé-tsé, o que é uma boa notícia, porque mostra que há esforços a ser desenvolvidos na luta contra a doença do sono. Não ficar doente é capaz de ser melhor que ter uma televisão nova…


15  01 2010

Há. Não há. Há. Não há. Há. Sei lá.

Desde há quase dois meses que a internet cá de casa se comporta como um catavento epilético. De uma maneira totalmente imprevisível a internet vem e vai sem prestar contas a ninguém. Os registos do modem indicam que em cada quarto de hora, isto é 900 segundos, não há ligação durante 540 segundos e em mais 140 tem demasiado ruído para haver transmissão de dados. Sobram 220 segundos de serviço em condições, que se distribuem aleatoriamente pelos quinze minutos em períodos de 15 ou 20 segundos. Antes de andar assim, a velocidade já não era famosa, mas agora brincamos ao dizer que em vez de largura de banda temos intermitência de banda.

Aceder ao correio electrónico ou até mesmo publicar artigos passou a ser missão quase impossível. Usar o skype para ligar para casa ou trocar mensagens é uma coisa tão distante e futurista que nem temos a certeza de que alguma vez tenha funcionado.

Pelo sim, pelo não, trouxe dúzia e meia de livros comigo, alguns bem maçudos, para ajudar a passar os serões. A má notícia é que ando a ler dois por semana e não tarda, vou ter mais serões que páginas.

A esperança de que a situação volte ao normal não se perdeu, mas esmorece a cada dia. Começamos a resignar-nos ao contacto soluçado com a família. Mensagens aqui, telefonemas demasiado curtos e com parcimónia a roçar o excessivo para que o saldo dure até ao fim do mês.

Os abraços e carinhos que fazem falta no corpo fazem agora falta aos olhos e ouvidos. Dos cinco sentidos que usamos para sentir quem amamos usamos apenas o sexto e o sétimo – a memória e a imaginação.


14  01 2010

O que deixamos para trás

Por ter vivido alguns meses numa terra onde tantos deixaram vidas inteiras para trás e todos os dias me cruzar com marcas desse tempo e dessas pessoas, cada vez mais me interrogo acerca da marca que cada um deixa nesta nossa curta existência.

Jogo em Monsaraz
Ainda se sabe quem traçou este jogo, mas acabará por ser anónimo

Apaixonei-me pelas ruínas pequenas e grandes, mas mais pelas pequenas, que são ofuscadas pelas outras e por isso ainda mais esquecidas. Um letreiro desactualizado, riscos fundos gravados num banco ou simplesmente uma caixilharia velha fazem-me pensar em quem tocou aquele objecto, nas mãos agora anónimas que o moldaram, provavelmente sem saber que seria a sua marca no mundo depois do corpo e da memória desapareceram.

Tabacaria Progresso
Letreiro abandonado

É talvez por isso que me custa assistir a demolições de casas velhas e ver as marcas nas paredes deixadas pelas rotinas de quem lá habitou. Compreendo como se chegou áquele ponto e compreendo porque razão é inevitável, mas cá dentro sinto sempre um nó apertado, se calhar por ainda não saber bem a marca que deixarei.

Ruínas da Vila Maria
Quem morou aqui?

Bem vistas as coisas, não é de agora que me preocupo com isto. O tempo que dedico ao Aerograma obriga-me a procurar respostas (ou mais perguntas) para explicar o que vejo e sinto e muitas dessas perguntas são as que me perseguem há anos. Hão-de me perseguir até as conseguir responder mas, pelo que fui aprendendo pelo caminho, não são dúvidas originais.


13  01 2010

Rubro-negra

Os campeonatos internacionais de futebol têm o condão de alimentar o nacionalismo consumista da bandeira, bandeirinha e bandeirota.

Tal como aconteceu em Portugal em 2004, o campeonato de futebol encheu Angola de bandeiras de todos os tamanhos e feitios. Dentro e fora de cada carro penduram-se e colam-se várias bandeiras vermelhas e negras. Há bandeiras nas janelas, nos terraços e nos carros de madeira dos roboteiros. Alguns motoristas investem num par de bandeirinhas de secretária e colam-nas no pára-choques dianteiro, talvez para imitar os carros das embaixadas.

Bandeira na traseira do carro
A matrícula fica melhor tapada

Perucas estilo carapinha-microfone pintadas de vermelho, amarelo e preto são vendidas e usadas na rua, juntamente com os cachecóis, que tanto sentido fazem no Verão Austral. Os zungueiros, para além de vender as tralhas do costume, vendem agora bandeirinhas, cornetas e apitos com as cores nacionais.

Angola agradeceu a generosa oferta de 40’000 t-shirts e apitos por parte da CIF. Uma igreja evangélica distribuiu milhares de cornetas para os angolanos festejarem o futebol. Se não se oferece o pão, ao menos que se ofereça o circo.

Da parte que me toca, apoio totalmente que as pessoas sorriam enquanto agitam a bandeira, que cumprimentem desconhecidos porque têm um cachecol da selecção ou que se abracem e gritem quando festejarem um golo. As cornetas é que eram escusadas!

Infeliz o gajo que se lembrou de distribuir cornetas. A toda a hora as sopram e, na altura em que escrevo, o raio do campeonato ainda nem sequer começou. Não me bastavam já as buzinas por tudo e por nada?


12  01 2010

Reduzir, reutilizar, reciclar

Cada vez mais se tenta incutir o espírito de preservar o meio ambiente, tudo em prol do futuro dos nosso filhos, netos ou até mesmo de animais em perigo de extinção.

Fizeram-se anúncios sobre reciclagem com crianças e até mesmo animais, e se elas conseguem, todos podemos separar e reciclar e assim se vai educando para que o Mundo seja um sítio melhor para todos, principalmente para as gerações vindouras.

Há uns dias uns amigos contaram um episódio muito engraçado da filha de 5 anos. Estavam no carro e como estavam à espera de alguém ela lembrou-se que o melhor seria ir circulando (já estava a ser aborrecido ficar à espera no mesmo sitio), o pai disse que não podia ser, porque assim os Ursos Polares morriam. Ela achou estranho aquela justificação e contrapôs logo, mas se eles não estavam ali não havia problema, o pai lá explicou o melhor que pode, que morriam na mesma, porque os gases do carro iam para o céu e chegavam ao sitio onde estavam os ursos polares e assim ia fazer mal e os ursos polares acabavam por morrer, pouco convencida acabou por aceitar.

Com estas pequenas coisas se vai educando e sensibilizando para as questões ecológicas e ambientais.

Depois deste curioso episódio dei por mim um dia a pensar noutra realidade que me conta o Afonso. De uma Luanda cheia de lixo, na quantidade de condutores que circulam e esbanjam recursos e achei curioso na quantidade de ursos polares que podem morrer e ninguém quer saber, nem tão pouco está sensibilizada para estas questões.

Mas depois descobri que estava a ser injusta porque na verdade existe em Angola quem já esteja no espirito dos 3 R’s, pode ser inconsciente mas é feito e tem todo o valor. Estão curiosos… os meninos e meninas angolanas já reciclam.

Como?

É muito simples. Usam latas e coisas velhas que são lixo e criam os seus brinquedos.

Land Cruiser
Reciclagem

Não há dúvida que o futuro está nas mãos das crianças… e que devemos seguir o seu exemplo.


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