12
01
2010
Em cada vôo de Lisboa para Luanda há um tipo de passageiros que se distingue facilmente. São os gajos do Nuórte, carago.
Ao longo do último ano fui traçando um mapa com as características mais óbvias destes portugueses que rumam a Angola. Formam um grupinho compacto e vestem, geralmente, roupa escura. Calças castanhas e camisas pretas a condizer com óculos de sol muito grandes, que lhe dá a todos, novos e velhos, o ar de quem acabou de sair da discoteca às seis da manhã e quer esconder as olheiras e olhos vermelhos aos guardas. A idade varia entre os vinte e tantos anos e os cinquenta, mas todos se comportam da mesma maneira e não resistem a fumar com gana dois ou três cigarros entre sair do avião e entrar no controlo de passaportes.
Penteados à Dino Meira, Art Garfunkel ou outros artistas das mesmas épocas condizem absolutamente com o sotaque de Entre-Douro-e-Minho que é tão doce nalgumas mulheres mas que, quando ouvido num homem, apenas nos faz pensar no Pinto da Costa a gritar «FêQuêPê!».
Ao contrário dos restantes passageiros, conhecem-te todos desde sempre, mesmo que nunca se tenham visto antes. Falam alto e contam proezas dignas do nosso fenómeno. Chegam a ser irritantes. Mas caramba, são muito mais unidos que os mouros lá de Lisboa!
11
01
2010
Os jogadores do Togo são recebidos a tiro. Alguns são atingidos. A FLEC diz que o alvo era a escolta. A escolta diz que não esperava ser atacada, mas respondeu. Tiros, muito tiros cruzaram os céus de Cabinda. Dois mortos e muitos feridos. Para já.
A FLEC reinvindica, o Governo desmente e acusa os vizinhos congoleses, porque em Cabinda não há guerra. Os congoleses de Luanda olham por cima do ombro. Os congoleses do Congo nem fazem caso da acusação. Se a acusação fosse séria, já haveria tropa angolana a caminho da fronteira congolesa.
Durante todo o dia, a estação de televisão pública emite programas promocionais do CAN «De Cabinda ao Cunene», reportagens acerca das condições de alojamento das selecções, comentários acerca da beleza dos estádios e verdura da relva. Em Cabinda ainda há desaparecidos.
Notícias, só nas cadeias televisivas estrangeiras. Sabemos que vão ser acusadas de só falar no CAN quando há desgraça e sangue, que antes não falavam só para não dizer bem de Angola. Especialmente as televisões europeias que têm selecções apuradas para o Campeonato do Mundo daqui a uns meses e para as quais o Campeonato Africano diz tanto como o Asiático.
As selecções que chegam desejam fazer parte das que vão disputar jogos «Do Zaire ao Cunene», porque Cabinda assusta. Os jogadores do Togo sabem-no. Talvez desistam de participar, adiantam alguns menos confiantes das capacidades da equipa da casa. Desistiram mesmo.
O CAN está a trazer Angola para a boca do mundo. Mas talvez não seja pelas melhores razões.
10
01
2010
Quem fala de Luanda não pode deixar de mencionar os candongueiros. Dão um certo colorido à cidade sempre empoeirada, mesmo que seja em diferentes tons de azul e branco.
As frotas de autocarros renovadas ostentam publicidade e os táxis prometidos para o campeonato de futebol têm um painel para afixar cartazes. Inovações nada originais quando comparadas com os dizeres que costumam decorar os vidros traseiros das iáces.
A Dalila também cortou a ponta da língua ao Sansão
Para além dos mais banais, que decoram as frotas maiores e, por isso se cruzam connosco mais vezes, há as peças únicas que se destacam não só pela novidade como pelas gralhas habituais. Talvez sejam reflexos do acordo ortográfico.
O Profeta com sotaque da Cedofeita
Todos lhes apontam defeitos mas, por enquanto, ainda são o único meio de transporte fiável em Luanda.
9
01
2010
Em caso de emergência há coisas que devemos saber de antemão. A primeira é não entrar em pânico. A segunda é não entrar em pânico. A terceira é não entrar em pânico. O resto vem a seguir.
Depois de acalmar os instintos mais básicos do nosso cérebro, procuramos uma solução para a crise. Os letreiros florescentes e as caixas vermelhas são bons sítios para começar. Caso não tenham uma função ou modo de operação claros, costumam ter um pequeno painel explicativo para auxiliar.
É óbvio que há excepções para todas as regras e as janelas de emergência dos autocarros que transportam os passageiros do avião para o terminal do aeroporto de Luanda devem ser englobadas nesta categoria.
Caso alguém precise usar o martelinho para partir o vidro, é bom que o instinto comande a acção e que se abstenha de ler as instruções. É bem capaz de perecer sem saber o que fazer. Traduzir de inglês para chinês e depois para português palavra por palavra é capaz de sair baratinho, mas não sei se o resultado é o esperado. O pânico ditará como, onde e quando usar o martelo de emergência.
Amanhem-se
Eu ficaria na dúvida na altura de desmantelar um martelo seguro. O martelo do autocarro parece-me demasiado sólido para que seja desmantelado facilmente. Também não sei se cada autocarro tem copos quebrados nos quais bater. A última figura talvez represente alguém a quem partiram o copo e que procura o carro para conduzir até um local mais seguro.
Na grande maioria das traduções apressadas consegue-se reconstituir as frases na língua original, mas esta até isso dificulta.
8
01
2010
A primeira experiência que tive de Luanda foi a antiga sala de controlo de passaportes do aeroporto 4 de Fevereiro. Ainda muito desorientado, aquela sala com tectos falsos a cair, muita confusão e demasiada burocracia não me deixou muito entusiasmado com o que encontraria lá fora.
Entretanto, as obras começaram e o terminal de chegadas internacionais foi mudado para a outra ponta do aeroporto. Mesmo provisório, tinha melhores condições que o antigo. As partidas internacionais foram transferidas para tendas montadas na placa e, da mesma forma que as chegadas, as condições melhoraram muito nas instalações provisórias.
Desta feita quase estreei a nova sala de desembarque internacional, inaugurado dias antes da minha chegada, de propósito para o CAN. Agora sim, Luanda tem um aeroporto com as letras todas. O controlo de imigração tem mais funcionários, é mais rápido e até as malas chegam depressa. A melhor surpresa que tive foram os carrinhos de bagagem, estranhamente ausentes nas anteriores encarnações do aeroporto que conheci.
É certo que ainda há uns pormenores a limar, como instalar travões ou um lancil mais alto que impeça os carrinhos de bagagem de deslizar pelo passeio inclinado até se atirarem para cima dos carros estacionados ou distribuir os questionários de saúde no avião ou à entrada do aeroporto em vez de ter cada passageiro a perguntar ao seguinte onde é que conseguiu desencantar o seu. Por falar em questionários de saúde, seria interessante que os números de emergência médica que são indicados no fim da folha fossem entregues aos passageiros, em vez de ficarem no controlo de passaportes.
Há uma sala de espera para quem vem buscar viajantes e cá fora já não se assiste ao triste espectáculo dos abutres carregadores que se atiravam às malas dos passageiros e só as largavam a troco de kwanzas, dólares, euros ou ameaça de polícia.
Na verdade, Luanda vista da porta do terminal de chegadas internacionais até parece arrumada e limpa.
As ruas esburacadas e a miséria continuam lá, nas mesmas esquinas, mas o viajante entra na cidade com outro ânimo. Em volta do aeroporto todas as fachadas estão pintadas, à conta de visitas importantes como o Papa e a Secretária de Estado Norte-Americana. As avenidas que ligam o aerporto à cidade estão também todas arranjadas e sinalizadas.
Ano e meio depois, a primeira impressão que se tem da cidade é muito diferente. Espero que as melhorias não se fiquem apenas por aqui.