7
01
2010
A Rua da Administração da Maianga esteve fechada para obras cerca de meio ano. Entre esgotos, passeios, gravilha, esgotos novos, passeios novos, terra, esgotos novíssimos, passeios novíssimos, asfalto e mais uns arranjos, estes dois quarteirões mal medidos devem ter custado o seu peso em ouro, diamantes e barris de petróleo.
Quase acabada
A obra foi tão demorada que já se faziam apostas em torno da data da reabertura da rua e do estado em que estaria uma semana depois. Ganharam os que disseram que abriria antes do Natal. Foi quase a prenda para o campeonato de futebol. Uma semana depois ainda estava transitável, tanto em termos de buracos como em termos de engarrafamentos.
Ao fim de tanto tempo com desvios improvisados pelas ruas das redondezas, saltitando de poça em poça e esperando que não fossem tão fundas como prometiam, as pessoas acabaram por se esquecer desta rua. Para atravessar o Prenda deixou de fazer parte das rotas indicadas. Enquanto esteve fechada, os desvios tornavam o trânsito tão difícil que todos queriam evitar a zona.
Depois das férias de Natal e Ano Novo, sempre quero ver se a memória dos condutores foi reavivada.
6
01
2010
Caramba, tenho as mãos numa desgraça. Nos últimos dias têm exercido uma atracção especial por coisas pontiagudas ou cortantes. Se isto continua, passo a andar com elas nos bolsos.
No último ano e meio tenho tido apenas trabalho de escritório e os calos a que me habituei desapareceram quase todos. Fiquei com aquilo a que se pode chamar de mãos de princesa. Estou a precisar de rachar lenha, ir escalar ou fazer um móvel, para ver se os calos voltam.
Entre arranhões, cortes e furos, conto onze marcas pintadas a vermelho nas mãos. Corto-me e arranho-me a reparar a vedação que o cão teima em romper, pico-me a lavar garfos e espeto coisas debaixo das unhas, o que não é uma sensação agradável.
5
01
2010
Ao longo do caminho que sobe até ao Partenon, amontoam-se dezenas de cães e gatos vadios. Estão gordos e usam coleira. Não ligam nenhuma às pessoas que têm de os contornar quando estão estendidos ao Sol. Dizem-me que não há canis em Atenas, mas que os cães vadios são vacinados e esterilizados. Enquanto não andarem a morder pessoas são tolerados.
Naturalmente, procuram os locais onde a vida é mais fácil. Onde há turistas costuma haver muita comida e algumas festas sem grande esforço, com a vantagem adicional de não haver trânsito a incomodar as longas sestas no meio do caminho.
A convivência entre cães e gatos é a esperada, pelo que cada um procura não se intrometer muito no território do outro. Mesmo assim as bulhas acontecem e resultam num focinhos arranhados ou em gato com o seu saldo de vidas esgotado.
«E agora?»
Cá em baixo, na beira do caminho, Piotr, um russo de vida dura que já percorreu meia Europa, afina a guitarra sentado no seu banco articulado. As primeiras notas não são brilhantes e requerem mais um ajustamento nas craveiras.
Um dos cães da zona, de apurado sentido musical, resolve mostrar-lhe o seu desagrado oferecendo-lhe um gato morto. Percorre grande parte da rua com o bicho na boca e deixa-o no chão a uns metros do músico, que parou de tocar e fez uma cara de incredulidade.
O cão afasta-se, contente com o silêncio. O músico desarma a cadeira e olha em volta, à procura de outro local abrigado. Hoje está chuvoso. A todo o momento espero ouvir alguém dizer «E esta, hein?».
4
01
2010
Regressar a casa pelo Natal e ser recebido por um temporal de árvores arrancadas e chuva forte pode não ser a situação ideal para muitos. Pessoalmente, não desgostei. Serviu para quebrar a monotonia de viver o resto do ano num Verão permanente.
Mesmo que o frio pareça ainda mais frio quando comparado com os calores tropicais, não é nada que um casaco não resolva enquanto se dá uma volta no parque e se vê o bafo a condensar à nossa frente. Não é preciso muito tempo para começar a tentar imitar a chaminé de um combóio e depois olhar em volta para ver se alguém assistiu à linda figura «Olha aquele marmanjão armado em petiz!».
O rio que me acordou de noite com o barulho da cascata do açude mostrou que afinal é mesmo um rio e não apenas aquele fio de água do tempo seco. Os patos não acharam muita piada e têm passado as primeiras semanas do Inverno confinados às margens mais altas, porque até os ninhos foram arrastados.
Cães e gatos escondem-se dos trovões. Uns desaparecem nas casotas ou ficam a uivar nos cantos, os outros enfiam-se nos motores dos carros ou trepam às árvores e esperam que o temporal passe.
Depois da trovoada
O velho limoeiro acabou por desistir. Dos três ramos que lhe restavam, dois resolveram separar-se. Depois de cortados, a árvore ficou com um único ramo torto, a parecer um ponto de interrogação grande, talvez porque também se pergunte se resistirá até à Primavera.
Vou aproveitar a aberta para ir rachar lenha. O frio sabe melhor quando estamos em casa ao pé da lareira!
4
01
2010
A mais fácil circulação no pais com o fim da guerra e a estabilização da inflacção, associada ao estímulo proveniente da falta de transportes públicos eficientes e pela recuperação das estrada têm incentivado a procura de carro próprio por mais gente. A procura é tão grande que nem a crise conseguiu abrandar a enxurrada de carros usados que todos os meses chega aos portos angolanos.
A melhoria das vias periféricas que ligam Luanda ao resto da província tem reduzido muito o tempo necessário para chegar à cidade. Longe vão os tempos das odisseias de sete horas ao volante para percorrer os doze quilómetros que separam Luanda de Viana. Ao ser mais fácil chegar a Luanda por meios próprios, viajar apertado dentro de um candongueiro é cada vez menos convidativo.
Se chegar à cidade se tornou mais fácil, circular dentro dela tornou-se um pesadelo que não mostra sinais de vir a melhorar. Por muitas estradas que se reparem ou avenidas que se alarguem, o centro económico continua na cidade baixa.
Os ministérios, conservatórias e outros organismos públicos, os hospitais, as empresas de água e electricidade e grande parte das lojas especializadas estão concentrados entre a baía de Luanda, a fortaleza de São Miguel, o São Paulo e o alto da Maianga, mais ou menos dentro do limite urbano da Luanda colonial. Quem quer tratar de alguma coisa tem de ir lá.
Com cada vez mais carros a circular e o mesmo espaço para os estacionar, arranjar um lugar para deixar o carro enquanto se resolvem as coisas tornou-se uma tarefa quase impossível. Encontrar um lugar legal ainda é mais difícil, razão pela qual a grande maioria dos sinais de proibição de estacionamento são encarados como decoração pelos condutores mais desesperados.
Em Luanda não se deixam multas de estacionamento nos pára-brisas dos carros. A polícia sabe que, se não apreender os documentos da viatura ou do condutor, a multa (ou gasosa) nunca será paga. A única solução é rebocar o carro e esperar que o dono o vá buscar. Os condutores sabem que vale a pena arriscar. Não há muitos reboques e, mesmo com batedores a abrir caminho, com o trânsito infernal da cidade não conseguem rebocar muitos carros por dia. As probabilidades de sair impune da transgressão são elevadas. Um carro estacionado indevidamente respira mais impunidade que um candongueiro em contra-mão, o que já de si aparenta ser um crime sem castigo.
Os reboques de Luanda apresentam muitas semelhanças com duas espécies de animais sobejamente conhecidas: os abutres e as hienas. Para além de necrófagos, por se alimentarem de animais mortos ou carros parados, os reboques também atacam em bandos, daí ser uma questão de justiça baptizá-los de abutrenas.
Em certas ruas estratégicas, escolhidas pela polícia por permitirem um rápido carregamento do reboque, surge um cortejo de abutrenas. Meia-dúzia de reboques de cabina amarela seguem em filinha pirilau e param à frente do primeiro carro mal estacionado. Depois, como uma cadeia de montagem, o último reboque carrega o primeiro carro da fila e parte, altura em que todo o cortejo recua uns metros e repete a operação. Retira-se um carro de cada vez até que a rua esteja desimpedida ou se tenham acabado os reboques. Habitualmente é o primeiro critério que se usa porque entre descarregar o carro no parque da polícia e regressar demora umas horas.
Como tempo é dinheiro e o dono do carro não está a ver, não há meiguice para ninguém. Se o carro não sobe só com o guincho porque está travado e engatado, até se pode fazer marcha-atrás com o reboque e tentar raspar o carro do chão. No final da operação a rua está cheia de marcas de pneus arrastados e sulcos no asfalto onde o reboque raspou a rampa. Maltrata-se o carro e o próprio reboque, mas os necrófagos não são conhecidos pela delicadeza com que tratam as vítimas. Quando o material partir, ninguém vai saber como foi, sempre assim esteve, eu não fui e o estado depois dá um novo.