Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

29  12 2009

Santorini

Sei que a comparação é injusta. Afinal de contas, Santorini não passa de um calhau no meio do Mediterrâneo e Luanda é a capital da grande Nação Angolana. Mas é também nos contrastes que se encontra a beleza.

Santorini vive para os turistas. Embelezou-se para os cativar e sabe recebê-los. Faz das suas fraquezas os seus pontos fortes, como se tivesse seguido as orientações milenares de famosos generais chineses.

Moinhos de Ía
Postal ilustrado

Luanda não gosta de turistas. Faz os possíveis para que se sintam a mais desde que chegam ao aeroporto até que partem. Sem levar Kwanzas, obviamente.

Ilha de Luanda
Postal ilustrado

Em Luanda cobram-se diárias de hotel astronómicas, que acompanham o preço das refeições. As ruas são inseguras e até os polícias é preciso temer. O simples acto de fazer uma fotografia faz o turista sentir-se criminoso. A verdadeira antítese deste resto de vulcão onde se fala grego.

Piscina interior
Casas amontoadas

Em Santorini as casas amontoam-se umas nas outras. A lembrar os candongueiros temos paredes brancas e as portas e janelas azuis. Não fora a falta de poeira e latas de cuca amassadas nos cantos, o visitante mais desatento poderia julgar-se em Luanda.

Azul e Branco
Azul e Branco


28  12 2009

A balança

Para os estrangeiros, a vida em Luanda tem de ser encarada como se de uma balança se tratasse. Chegamos à capital angolana com o fiel a indicar o equilíbrio e, a partir daí, temos de procurar viver as coisas de modo a que os pratos não se movam desmesuradamente para nenhum lado.

Problemas e alegrias têm de ser cuidadosamente pesados para que não vejamos tudo através de óculos cor-de-rosa ou pintado de negro.

De início, as coisas más são insignificantes, relativamente ao peso das novidades, mas são sólidas, ao contrário das outras, que se evaporam lentamente. Se não tivermos cuidado, o prato que compensa os amargos de boca fica vazio e ameaça tombar, arrastando consigo toda a balança. Se esse momento chegar, seremos incapazes de encontrar coisas boas que compensem as más e o fim da estadia em Luanda estará próximo.

Balança
Há que manter o fiel perto do equilíbrio

Há dias em que damos por nós a reclamar de pequenas coisas que, em circunstâncias normais, seriam apenas isso, pequenas coisas. Quem estiver de fora e nos ouvir poderá pensar que são exageros desmedidos ou que damos demasiada importância a insignificâncias. São essas insignificâncias que acabam por fazer tombar a balança. Mais um insulto racista na rua, mais um dia de trânsito infernal ou voltar a faltar a electricidade durante o fim-de-semana inteiro, a impunidade de alguns e o sofrimento de outros, uma noite em claro por causa dos escapes das motas, um polícia ou funcionário público compreensivo que quer arranjar solução rápida para os nossos problemas, mais crianças sem futuro a brincar descalças no lixo, hospitais cheios de doentes e vazios de medicamentos, as m’baias dos candongueiros, a corrupção pequena e a corrupção grande, jantes cromadas do jipe de último modelo a partilhar a poça de água escura e cheiro a esgoto com os pés da zungueira de filho à costas, os polícias a distribuir pauladas às mulheres que vendem na rua em frente às lojas de marcas de luxo, o encolher de ombros do «Isso é Angola!», o orgulho e a falta de brio, a miséria, a miséria absoluta e o sentimento de impotência para lidar com tudo isto. Isoladamente seriam apenas pedacinhos, mas são pedacinhos atrás de pedacinhos que se vão juntando num só prato e que raramente conseguimos que saiam.

Acabamos por viver num dilema, sem saber se devemos contar tudo e passar por exagerados ou mentirosos, ou continuar a relatar meias-verdades e mostrar os pratos da balança equilibrados ao mesmo tempo que escondemos o dedo que os segura no sítio.

Felizmente que desabafar ajuda a reequilibrar as coisas.


27  12 2009

Em prol do CAN

O CAN parece ser o desígnio nacional angolano da estação. Tudo correrá bem se o campeonato se realizar sem sobressaltos. Todo o mundo ficará a conhecer a grandeza da nação angolana.

Empregam-se fundos necessários noutras áreas para apressar a conclusão dos estádios e abdica-se de resolver problemas bem mais prementes em prol da imagem que se julga vir a transmitir para o estrangeiro. Mas a imagem que chega lá fora começa a coincidir com a que se vê cá dentro: mesmo que se terminem os estádios e a competição decorra sem problemas, a população vai continuar a viver nas mesmas condições e a julgar que o futebol veio a Angola só por causa dos ricos e das gasosas na construção dos estádios.

Novas pinturas rodoviárias
Cosmética para o CAN

O futebol não se faz só com estádios, são também precisos hotéis para alojar os visitantes, transportes para os levar aos locais e água, electricidade e telefones para que possam sentir-se a viver uma situação de normalidade.

Ainda há hotéis para ser inaugurados até ao início do ano, mas é certo que nunca serão suficientes para albergar toda a gente, pelo que haverá também um mercado paralelo de alojamento a funcionar, como se espera nestas situações.

O Governo assegurou que os consulados estariam prontos para atender o aumento de pedidos de visto motivados pelo campeonato de futebol, mas o certo é que chegaram notícias de Lisboa dizendo que os processos para requisição de visto deixaram de ser aceites a partir de dia 9 de Dezembro, porque o consulado vai fechar para férias até Janeiro.

Bem vistas as coisas, se não há alojamento que chegue para todos e é necessário apresentar uma reserva de hotel ou similar para se obter o visto, mais vale encerrar o consulado.


26  12 2009

A Saudade e as mulatas

Isto de ser Português tem uma série de implicações estranhas. A minha preferida é usar uma língua riquíssima que permite brincar com as ideias de uma forma que se aproxima da poesia, em que as mesmas palavras são capazes de dizer tudo e nada ou que reduzem conceitos indefiníveis a uma única palavra intraduzível para qualquer outra língua. Ao contrário de outras línguas, como o Alemão ou o Inglês, mecânicas e cheias de arestas; no Português as palavras fundem-se umas nas outras sem aquela impressão de malho na bigorna. Reconheço que a língua falada não tem a musicalidade de outras, mas a língua escrita é linda.

Estando fora de Portugal, somos obrigados, mais que nunca, a procurar a nossa identidade. Tentamos descobrir porque somos diferentes dos demais e, acima de tudo, porque razão nos identificamos como Portugueses.

Portugal é um país pequeno mas muito variado, onde se unem pessoas diferentes em torno de um ideal comum que nem eles sabem bem qual é, mas que definem como sendo Ser Português.

Os Portugueses são optimistas natos, embora muitos confundam isso com conformação. Para o bem e para o mal, aceitam a vida como é e tentam sempre ver um lado positivo em qualquer situação, comparando o mal que lhes sucede com outros piores. Seguindo este raciocínio, o melhor exemplo de um Português no cinema é o Igor, assistente do Dr. Frankenstein no filme de Mel Brooks e Gene Wilder Young Frankenstein. O cientista reclama da vida e acha que bateu no fundo na noite em que dá por si a roubar cadáveres num cemitério, com lama pelos joelhos. O assistente Igor acrescenta, com a maior despreocupação, «Podia ser pior. Podia estar a chover.»

Esse optimismo natural resultou no maior factor de distinção dos outros povos. Os Portugueses sabem o que é a Saudade. Não a sabem explicar, mas sentem-na todos os dias. A dada altura, cada Português apercebe-se que a Saudade demora uma vida inteira a compreender e, quando esse momento chega, já não há tempo para a explicar a ninguém.

A Saudade é o desespero da perda adiada e da efemeridade da vida. É o aperto no coração que sentimos porque sabemos que não temos tempo para tudo, mas que disfarçamos aproveitando o melhor de cada momento.

Talvez tenha sido a demanda do significado da Saudade que levou os Portugueses a espalhar-se pelo mundo e serem bem aceites em quase todo o lado. Talvez tenha sido a Saudade que criou as mulatas…


25  12 2009

Tradições de Natal

O final do ano está ligado a inúmeras tradições. Algumas religiosas e muitas seculares misturam-se criando aquilo a que chamamos a época de Natal. As tradições angolanas para a quadra não são muito diferentes das do resto do mundo cristão, mas revestem-se de algumas particularidades.

Tal como a festa cristã se sobrepôs às celebrações pagãs do norte da Europa para não distanciar as pessoas das suas tradições ao mesmo tempo que aceitavam as da nova religião, também os países socialistas de ateísmo oficial procuraram cumprir os seus programas ideológicos e manter os hábitos instituídos alterando o nome ou substituindo o programa dos dias das festas religiosas.

Nos tempos idos em que Angola era uma República Popular, de economia centralizada e guerra generalizada, os feriados religiosos foram abolidos. Em seu lugar foram instituídos feriados novos, de nomes modernos que, oficialmente, nada têm a ver com questões religiosas, apesar de serem gozados nos mesmos dias. Actualmente, o Natal angolano celebra-se no Dia da Família, a Páscoa no Dia da Paz e o Carnaval, esse é Carnaval até mesmo em Angola.

Todos os anos, nas semanas que antecedem o Dia da Família, como que numa tradição há muito instituída, em Luanda começam a faltar coisas. É uma das particularidades do Natal em Angola.

Uma das situações preocupantes é a falta de gás de cozinha sem razão aparente. Durante o resto do ano, com o mesmo número de garrafas no mercado, não se registam falhas dignas de registo.

O gás esgota no princípio de Dezembro e apenas no mercado negro se consegue adquirir garrafas cheias, a preços especulativos que chegam a atingir oito vezes o preço tabelado. Esta situação leva-me a crer que haja açambarcamento organizado de garrafas de gás para provocar o esgotamento das existências nos distribuidores e, posteriormente, fazer chegar ao mercado paralelo, com lucros astronómicos, algumas garrafas de cada vez. A situação torna-se tão grave que até mesmo os que conseguem comprar garrafas ao preço tabelado nos distribuidores oficiais acabam por abdicar do gás para si e revendem-no a terceiros pelo preço de várias garrafas, estimulando ainda mais o mercado paralelo.

As faltas de energia eléctrica tornam-se também mais frequentes, graças ao maior uso de aparelhos de ar condicionado na estação quente e à crónica falta de capacidade dos produtores de electricidade em suprir as necessidades de Luanda. Associada à falta de luz está a falta de água, porque as bombas que abastecem os depósitos também param.

A tradição mais insidiosa do Natal angolano será talvez as visitas que as brigadas de inspecção dos diversos ministérios fazem às empresas privadas. Vão de empresa em empresa, nos seus carros de luxo, certamente pagos exclusivamente com os seus salários de funcionários públicos, e passam dias à procura de motivos para assegurarem o subsídio de Natal, relembrando, caso os gerentes estejam um pouco esquecidos da tabela de gasosas, que podem sempre aplicar multas, nem que seja sobre coisas absurdas. É curioso que apenas façam estas visitas por esta altura e mais curioso ainda é que não escondam as razões porque lá vão.


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