Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

24  12 2009

Consoada tropical

Como acontece todos os anos, organizou-se um almoço de Natal na empresa. Permite juntar toda a gente à volta da mesma mesa e conversar sobre tudo menos trabalho.

O pessoal de campo, habitualmente vestido com a roupa de trabalho, apareceu todo bonito. O G. parecia uma estrela de cinema, com direito a sorriso brilhante para a fotografia e tudo.

Para os que estão longe de casa, este almoço é uma antecipação da Consoada, mas o clima tropical obriga a que a tradição do bacalhau seja alterada para algo mais apropriado à terra.

Cabidela de galinha com funge
Eu fiquei-me pela cabidela com funge


23  12 2009

Marginal de Luanda

As obras de requalificação da baía de Luanda recomeçaram, após uma paragem de mais de um ano. As máquinas voltaram a movimentar os montes de areia com que se vai conquistar uns metros ao mar, ao estilo dos empreendimentos do agora falido Dubai.

Num país com tanto espaço livre pode parecer contra-senso encher parte da baía para se construir restaurantes, discotecas e uma mão cheia de faixas de rodagem adicionais. Ainda antes de perguntar porquê, pensamos noutras coisas mais elementares. Se os esgotos do resto da cidade já vão parar à baía sem qualquer tratamento, o que acontecerá com os destes edifícios? Ninguém espera que se monte estações de bombagem para os encaminhar para tratamento adequado. Mesmo que se montem, com a electricidade sempre a falhar, não durarão muito tempo.

Montes de areia na baía de Luanda
Como no Dubai

Os coqueiros que foram a imagem de marca da marginal de Luanda e que morreram, talvez de desgosto, estão a ser substituídos pelas palmeiras milionárias vindas do viveiro da Barra do Kwanza.

Com um centro comercial no Kinaxixi, outro na Fortaleza e mais um na Mutamba, as prometidas seis faixas de rodagem da marginal vão ficar a parecer um imenso estacionamento. Nenhuma das vias que desemboca na marginal será capaz de escoar tanto tráfego.

Prioridade ao acessório parece ser o mote da cidade.


22  12 2009

A gramática do rico e do pobre

Após aturadas investigações aos hábitos e costumes dos habitantes desta Luanda que nos acolheu, podemos finalmente distinguir o que separa os angolanos que têm muito daqueles que têm quase nada.

Pusemos a hipótese de ter a ver com a filiação partidária, como muitos defendem, mas cedo descobrimos que muitos militantes do partido no poder se enquadram na categoria dos que nada têm, da mesma forma que alguns militantes dos partidos na oposição se podem considerar, no mínimo, bem remediados.

As diferentes origens étnicas ou tribais, apesar de invocadas nas discussões da mesma maneira que se acusam todos os estrangeiros brancos, amarelos e cinzentos de racismo quando faltam outros argumentos, também não são o factor que decide quem tem vida de rico. Há ricos e pobres de todas as etnias e cores.

Chegámos à conclusão que tudo se resume à maneira como se conjugam determinados verbos. Em abono da verdade, foi o R. quem conseguiu sintetizar de uma forma quase perfeita as diferenças entre os ricos e os pobres em Luanda.

Angola, pelo menos em termos de recursos naturais, é um país rico. A melhoria das condições de vida das populações depende essencialmente da maneira como essa riqueza é transferida da terra para as pessoas. No fundo, da maneira como os dinheiros públicos são devolvidos aos cidadãos.

O problema da distribuição da riqueza está neste verbo. É que há uns quantos que acham que devolver se conjuga assim:

«Eu de Volvo
Vós de Hiace
Eles a pé»

Sempre cheio de pressa
Eu de Volvo

Entrando no espírito do presidente angolano, que declarou tolerância zero à corrupção, há que ensinar gramática a muita gente.

Negro que brilha
Vós de iáce


21  12 2009

Solstícios

A poucos dias do Natal ocorre o Solstício de Inverno no hemisfério Norte e o de Verão para o hemisfério Sul. Nesta data começa oficialmente cada uma destas estações.

Também oficialmente, meio mundo vive o seu dia mais curto e o outro meio o seu dia mais longo. Na verdade, no meio do mundo, onde não vive meio mundo, este dia tem mais ou menos a mesma duração que os restantes. Isto leva-me a crer que nas zonas equatoriais não haveria grande necessidade de comemorar solstícios ou equinócios, pelo que as manifestações religiosas equatoriais não dão ênfase especial a estas datas, ao contrário do que acontece com as religiões das zonas temperadas. Aliás, o Natal, que celebra um nascimento, veio ocupar o lugar da celebração do Solstício de Inverno, altura em que o Sol renascia e voltava a aumentar a duração dos dias.

É curioso como o local onde se vive consegue moldar de forma tão profunda as coisas que achamos simples. Não fora haver estações bem marcadas, com épocas de abundância e carência e, provavelmente, ninguém se lembraria de procurar pistas para isso na duração dos dias. Nas regiões equatoriais será improvável que se descubram monumentos megalíticos cuja orientação dependa de solstícios ou equinócios, nem que seja porque esses dias não são distintos dos demais.


20  12 2009

Central das Mabubas

Depois de algumas visitas à barragem das Mabubas, resolvi informar-me melhor acerca da situação das minas do outro lado. No quartel disseram-me que a situação não era tão negra quanto tinha pintado o polícia na primeira visita.

Tanque russo
A guardar a barragem

O passeio na margem esquerda do rio é muito mais agradável. Por alguma razão, quando se construiu a barragem fez-se também um miradouro para ver a albufeira e a povoação.

Miradouro
O miradouro

seguindo paralelamente ao rio há um caminho que liga a casa dos filtros às câmaras de equilíbrio de pressão antes dos geradores. Lá em baixo correm os dois grandes tubos octogonais que levavam água à central eléctrica.

Condutas de abastecimento à central
O caminho da água

Há muito que a água deixou de correr nas condutas. A guerra e a incúria encarregaram-se disso. Hoje servem de mesa para os grupos de turistas que vão visitar a barragem ao Domingo e resolver fazer uma patuscada à beira-rio.

Tubo rebentado
Sabotagem

O caminho reparado recentemente por uma máquina de rastos está juncado de maços de tabaco chinês, com marcas traduzidas para Inglês, talvez para lhes dar um ar mais internacional. Tabaco Dupla Felicidade ou Dragão Dourado tem mais charme que tabaco de linha branca. Sem precisar de imaginar muito, adivinhamos que o empreiteiro escolhido para esta obra é o novo parceiro oriental de Angola.

Central das Mabubas
Arqueologia industrial

Chega-se à central pelas traseiras, de onde podemos ver a destruição que a guerra civil causou. O telhado de vidro da casa dos geradores, todas as janelas, os isoladores dos cabos de média tensão que abasteciam o quartel na margem oposta e todas as paredes apresentam cicatrizes de balas de vários calibres. Para além das paredes, quase nada ficou inteiro.

Ruínas
Marcas da guerra

O parque de alta tensão fica do lado oposto do edifício. Lá, uma máquina vai amontoando a sucata que alguns trabalhadores retiram da central. Tratam com especial cuidado os núcleos dos geradores, que, literalmente, valem o seu peso em cobre. Peço autorização para fotografar ao capataz. Não falo Mandarim nem Cantonês, ele não fala Português, mas arranha Inglês e, à mistura com alguns gestos e acenos de cabeça aponta-me na direcção pretendida com um sorriso.

Interior da central
Destruição

Descontando as actividades de desmantelamento das máquinas e turbinas, o interior da casa dos geradores parece ter sido o palco de uma batalha sem quartel. Se do lado de fora havia muitos buracos de bala, aqui parece faltar espaço onde fazer mais um.

Chapa característica Westinghouse
Igual a este havia mais três

No piso inferior, sombras e silhuetas iluminadas pelos maçaricos vão dançando enquanto as turbinas são cortadas em pedaços mais pequenos. De vez em quando vemos alguém pousar a máscara e acender um cigarro. Pelos buracos conseguimos espreitar mais um pedaço de arqueologia industrial que desaparece.

As boas notícias são que a central está a ser recuperada, depois de muitos anos de abandono. Ainda não há previsão para a sua entrada em funcionamento, porque há muito para arranjar. Novas turbinas e transformadores tratam da parte eléctrica. Reparar o túnel de alimentação e a casa dos filtros também não deve ser uma operação demorada, mas voltar a pôr as comportas a funcionar e encher a albufeira até aos níveis mínimos, será a parte complicada.


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