Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

19  12 2009

Mostrando os cifrões

Cromados e vidros escuros são dois requisitos essenciais para o carro de qualquer angolano que se preze. Poder associar isto a uns pneus de baixo perfil montados num todo-o-terreno é o supra-sumo do estilo.

Há jantes para todos os gostos e feitios, desde as mais modestas, que vieram com o Starlet e depois levaram uns tampões com torneirinhas, até às jantes de raios cromadas que fazem doer a carteira só de olhar para elas.

Quando julgamos que já vimos tudo, temos uma bela surpresa. No meio de um musseque, um todo-o-terreno de muitos litros de cilindrada com os habituais cromados e vidros fumados tinha umas jantes que mais se diria saídas de um desenho animado.

Jantes com cifrões
Alguém as achou bonitas

Suspeito que o dono do carro tenha sido enganado. As jantes têm cifrões, que representam escudos. O símbolo para dólares tem só um traço vertical, mas isso talvez seja um pormenor irrelevante. Quem feio ama…


18  12 2009

Artesãos

O mercado de arte de Benfica e a loja da baixa não são os únicos locais onde se vende artesanato africano em Luanda. Há uma espécie de extensão do mercado na Ilha do Cabo, com preços devidamente inflaccionados e uma ou outra banca com estatuetas e pinturas espalhadas nos clubes e hotéis frequentados por expatriados.

Há, no entanto, locais menos conhecidos para adquirir peças interessantes. Nas traseiras do mercado de São Paulo, no meio de casebres rodeados de lixo, há um desses locais escondios.

No meio da lama empilham-se grandes troncos de madeiras tropicais. Um ou outro homem, com a ajuda de machados ou catanas vai transformando estes blocos em pedaços mais pequenos, próximos do tamanho das peças acabadas.

Artesão
Esculpindo um batuque

Meia dúzia de homens sentam-se em círculos e vão aprimorando as formas toscas que o machado deu à madeira. As ferramentas têm todas um aspecto artesanal, mas também o de algo que evoluiu ao longo das gerações até atingir a perfeição para a função desejada. O verdadeiro significado da função definir a forma que as escolas de arquitectura alemãs defendem.

Neste pequeno quintal lamacento produzem-se peças para todas as clientelas. A um canto, por cima de pedaços de madeira de peças danificadas ou inacabadas e sanitas partidas, amontoam-se os batuques, tambores esculpidos numa única peça de madeira, com pele de animal não curtida esticada e presa com pequenas cavilhas de madeira. Destinam-se principalmente aos turistas. Há grandes e pequenos, para todas as bolsas e gostos.

Artesão com enxó
Talhando o pau do pilão

Do outro lado esculpem-se almofarizes e pilões, tábuas para lavar a roupa, bancos, maços de madeira para a carne e pau de funge ou outros apetrechos usados no dia-a-dia.

Artesão dando forma à peça
Esculpindo o interior do pilão

Quem mora na zona chama aos artesãos que ali labutam de ciganos, por razões que ainda não compreendi, nem me conseguiram explicar. O certo é que é mais um sítio interessante para visitar, não pelas vistas, mas pelas gentes.


17  12 2009

Sete horas e meia de aborrecimento

A parte mais difícil de trabalhar em Angola é a localização. Angola fica mesmo longe. Meio mundo nos separa das nossas referências e dos que nos são mais chegados.

Até custa a acreditar que, há cinco séculos, uns maduros se tenham feito ao mar no que hoje chamamos cascas-de-noz e tenham, não só aqui chegado, como continuado viagem até outras paragens ainda mais distantes.

Actualmente faz-se a viagem de avião e Lisboa está a sete horas e meia de distância. Mas é uma viagem monótona e aborrecida. Para passar o tempo e manter os passageiros ocupados, de vez em quando serve-se uma refeição mais ou menos boa.

A bordo dos aviões da TAAG há mais formas de nos abstrairmos da duração da viagem. Filmes e jogos nos monitores individuais permitem ir ocupando o tempo. Também proporcionam uma viagem mais cansativa porque acabamos por dormir menos. Pior que não ter estas mordomias é tê-las e elas não funcionarem…

Tetris avariado
Mais valia não haver

Já não bastava ter dado um pontapé no banco da frente, as costas do meu assento não rebaterem e não ter espaço para cruzar as pernas, nem o tetris funciona…


16  12 2009

Os confortos do mundo moderno

Como capital moderna e progressista, inserida na sociedade global, Luanda orgulha-se de contar com todos os confortos habituais do mundo moderno. Apenas os sistemas de aquecimento central estão ausentes, por manifesta falta de necessidade.

As redes de água canalizada, muito danificadas durante os primeiros anos da guerra civil, vão-se recompondo lentamente. Novas condutas de calibres médios estão a ser instaladas um pouco por toda a cidade, melhorando muito a qualidade da água distribuída e diminuíndo a frequência das falhas.

Um pouco por toda a área metropolitana de Luanda há depósitos de gás de cozinha para abastecer os milhões de habitantes da cidade. Segundo informações da Sonangol, enchem-se diariamente trinta mil garrafas, o que equivalerá mais de duzentas e cinquenta toneladas de gás. É preciso resistir a fazer as contas que agora estão na moda para calcular a quantidade de dióxido de carbono resultante da queima de tanto gás. As pessoas têm de cozinhar e, se não usarem o gás, vão usar carvão vegetal de fabrico artesanal, o que significa muitas árvores abatidas por essa África fora.

Distribuição de gás
O gás que uns levam à cabeça e outros esperam em casa

Os combustíveis que alimentam a cada vez maior frota de automóveis angolana chegam em cada vez maior quantidade ao país, sendo vendidos a um preço altamente subsidiado que não incentiva em nada a sua poupança. Estando habituado a preços da gasolina e gasóleo a variar semanalmente em função do valor do barril de petróleo, não deixo de estranhar que um litro de gasolina custe 40 Kz com o câmbio para o dólar a 75 ou a 90 e com o custo do barril a variar loucamente. Em Angola tudo aumenta de preço excepto a gasolina, que fica cada vez mais barata.

Como em qualquer país civilizado, a rede de caixas automáticos permite levantar dinheiro a qualquer hora do dia e sem esperar nas filas dos bancos. O limite de levantamento diário foi aumentado para 36’000 Kz, facilitando ainda mais a vida às pessoas. Talvez seja a preparação para a febre consumista que se prevê com a abertura da próxima dezena de centros comerciais repletos de lojas de luxo.

Milhares de máquinas de ar condicionado revestem as fachadas de todo o tipo de edifícios de Luanda, desde as mais modestas casas de blocos e chapa, até às torres de vidro do centro. Como é natural, necessitam de electricidade para funcionar, tal como todos os frigoríficos, televisores, lâmpadas e receptores de satélite. Mesmo que a produção da EDEL seja insuficiente para a cidade inteira, sempre se pode contar com um gerador com combustível subsidiado.

Sonangol e CIF iluminadas
Bairros inteiros às escuras

As redes de telefone fixo foram, por razões pragmáticas, substituídas pelos telefones móveis. Há quase tantos números em serviço como angolanos vivos. As poucas linhas fixas que ainda resistem sofrem avarias demoradas, mas vão trabalhando.

Para melhorar os serviços de telecomunicações, constou-me que já se tinha concluído o anel de fibra óptica em Luanda. Esta infra-estrutura permite maiores larguras de banda para internet e telefones, aproximando a situação actual dos padrões mínimos do resto do mundo.

Os transportes públicos têm sofrido grandes investimentos em vias e material circulante, tanto a nível de autocarros, como de combóios. Foi também noticiada a aquisição, pelo Estado Angolano, de um cargueiro para transporte de carros, claramente uma prioridade para a satisfação dos apetites burgueses da nova classe média em termos de automóveis importados.

Candongueiro «Me chulao ja»
Os transportes actuais não satisfazem

Tenho de concluir que, numa cidade com tantas condições, devo ter um azar desgraçado. A luz falta há seis horas e a água outras tantas. O gasóleo para o gerador e a gasolina para o carro estão esgotadas nas bombas mais próximas. Se o gás acabar não há onde comprar sem ser no mercado negro, a dez vezes o preço normal, mas, a menos que o sistema Multicaixa voltar a ficar operacional brevemente, também não vou ter dinheiro para isso.

Os telefones fixos há semanas que não dão sinal de vida e os telemóveis reclamam com a rede demasiado congestionada. Ninguém faz ou recebe chamadas e nem adianta reclamar, que a resposta vai ser a do costume: «que uma empresa cortou a fibra óptica a abrir uma vala». É uma empresa azarada ou então a fibra foi enterrada a um palmo da superfície.

A internet não passa de um boato que circula por aí e, sinceramente, já nem me lembro quando foi a última vez que tive notícias de semelhante fenómeno. Em vez de descrever a qualidade da ligação pela largura de banda, terei de passar a falar em intermitência de banda.

Ainda quis escrever uma carta para relatar o sucedido, mas parece que os Correios não ma entregam.


15  12 2009

O Governo tem que dar

Uma das frases mais repetidas em Angola ou, pelo menos, em Luanda é que o Governo tem de dar. Não sei o que pensa a maioria dos angolanos acerca disto, mas eu acho-a pouco condizente com o orgulho que se tem no país.

Não há problemas que as pessoas encarem como seus. A resolução de tudo tem de passar pelas mãos do Governo. Para este estado de espírito colectivo contribuiu, entre outros factores, um período de economia centralizada em que cada um era tratado como uma criança e apenas tinha de esperar que o Estado providenciasse trabalho, pão e tecto.

Boca de incêndio desactivada
O Governo tem de apagar os incêndios

Os pescadores não têm barcos. Esperam que o Governo lhes dê uns, de preferência com motor. Passados alguns meses, o motor avariou, quer seja por falta de manutenção, quer seja por má utilização. Reclama-se e espera-se que o Governo ofereça outro, sabe-se lá a que custo para o país.

Se se constrói uma casa no leito de um rio seco e ela é destruída nas primeiras chuvas é uma desgraça, mas quem tem de resolver é o Governo, porque o cidadão construiu e o Governo não o avisou que era perigoso e agora não sabe onde vai morar. Se se encheu o rio de lixo e ele transbordou, tem de ser o Governo a limpar e a reparar as casas. Afinal de contas, a população tem muito orgulho no país e muito brio na obra do Governo.

Lixo retirado do rio seco a cada dois meses
Lixo retirado do rio

Diz o Governo que quer apoiar os jovens, que é a grande maioria da população. Dá-lhes ferramentas, máquinas e motorizadas, geralmente sem contrapartidas. Já se sabe que o quue não custa a ganhar não é estimado como o que foi adquirido com o trabalho. Aliás, quando for preciso, o Governo dá novo.

Se há lixo nas ruas, não se pede caixotes, que seria a obrigação do Governo, pede-se que venha limpar, mas continua-se a atirar o lixo para qualquer canto.

Contentor a transbordar
Lixo

O Governo tem que dar casas, carros e cabazes de Natal. Poucos são os que pedem aquilo que o Governo devia mesmo dar, que são escolas, pontes, saneamento básico e transportes públicos. O Governo dá gasolina barata em vez de transportes e electricidade. O Governo dá estádios em vez de pontes. O Governo dá casas em vez de hospitais. As pessoas habituam-se a andar de mão estendida para o Governo e passam a acreditar que a solução para tudo é pedir.

Conhecemos um sujeito que anda num carro a cair de podre, que lhe gasta o salário e mais alguma coisa em reparações e litros de óleo que vai pingando na estrada. A partir do próximo ano o seguro automóvel vai passar a ser obrigatório e ele não sabe como o há-de pagar. A solução por ele encontrada é que deveria ser o Governo a ajudar os jovens e pagar-lhes o seguro. A desresponsabilização por tudo excepto parece demasiado arreigada.

Quando ocorre um incêndio por causa das dezenas de geradores e depósitos de água que se acumulam promiscuamente nas traseiras dos prédios, é uma desgraça. Os bombeiros, quando chegam a tempo, contam apenas com a água que levam nos carros, porque a rede de incêndios há muito que deixou de funcionar. Muitas vozes se levantam depois pedindo geradores e depósitos novos ao Governo, em vez de exigirem bocas de incêndio a funcionar ou electricidade e água sem falhas que causem a necessidade de comprar os geradores e depósitos que fizeram arder o prédio.

Diz uma zambiana mal vista por meia África que os africanos têm de perder o hábito de estender a mão e enfrentar os seus problemas em vez de esperar que alguém os resolva por si. O desenvolvimento de África vai-se conseguir pela educação e não pelas ajudas humanitárias que apenas adiam a resolução das coisas.

"Impulsos" - carros de mão em madeira
Todo o trabalho é digno

Por este país fora tenho visto gente empreendedora, homens, mulheres e jovens a trabalhar para ganhar a vida, mas também tenho visto muitos desocupados, cujo único propósito na vida é espera que o Governo lhes dê alguma coisa, de preferência sem exigir nada em troca.

Espero que os angolanos aprendam depressa que o Governo não tem de dar nada senão educação, segurança, assistência social e médica, infra-estruturas e incentivos à economia. Tudo o resto depende de cada um.


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