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2009
Este ano tem sido cruel para as minhas figuras de referência. A idade também pesa nos ombros dos heróis e não há eternidade merecida que compense a efemeridade do corpo.
No princípio de Dezembro morreu um dos Heróis de Portugal em África. Não esteve lá, ao contrário de muitos outros, a defender cinco séculos de História com armas e farda, mas nem por isso foi menos bravo.
O Engenheiro Frias de Barros foi, para gerações de engenheiros geógrafos, uma figura de referência, o ideal do que era ser, verdadeiramente, um engenheiro geógrafo. Ensinava não só pelos conhecimentos teóricos, mas também pela imensa experiência de campo.
Todos os seus alunos se recordam dos exames orais no final do semestre, em que nunca se chumbava mas, se a matéria não estivesse bem sabida, se marcava um novo exame para a semana seguinte. Só se passava depois de saber. Os bons professores medem-se não pela quantidade de alunos que reprovam, mas pela quantidade de alunos que de facto aprendem.
Começou a sua carreira em Macau. Acabado de sair do curso e sem experiência de campo, foi incumbido da missão de observar e calcular latitudes e longitudes astronómicas para a determinação de pontos de Laplace (uma coisa esotérica que só os engenheiros geógrafos apreciam). Aprendeu por si métodos práticos que refinou e ensinou às gerações seguintes. Nasceu não só para ser engenheiro e resolver problemas, mas também para ensinar.
De 1958 até 1975, enquadrado na Missão Geodésica de Angola, passou seis meses de cada ano em Angola, longe da família e dos confortos da civilização, percorrendo os extremos do território naquela que foi a última grande campanha geodésica do mundo. Durante meio ano observava triângulações e no meio ano restante, em Lisboa, tratava e calculava os dados recolhidos, tendo sido um dos pioneiros na utilização de computadores em Portugal, na década de 1960.
A sua experiência no cálculo destas redes revelava-se quando fazia cálculos aritméticos em base sexagesimal com a mesma facilidade com que os fazemos na base decimal, coisa que nos deixava sempre espantados.
Com a revolução de 1974 foi traído e esquecido pela História. Tornou-se guardião do tesouro que são os dados das redes geodésicas ultramarinas, numa instituição que, por ter um nome associado ao passado colonial português, foi também ela quase esquecida.
Foi herói merecedor das odes dos poetas e de constar nas epopeias que ainda se hão-de escrever. A sua memória perdura nas gerações de engenheiros geógrafos que formou e será, para todos eles, o verdadeiro Professor.
E sei que todos eles se recordarão das alturas em que interrompia a lição e dizia, com o seu sotaque algarvio “Isso tem muita história…”, antes de contar mais um episódio de uma vida aventurosa.
Durante dezassete anos usou vários teodolitos. Aproveitei uma visita ao Instituto Geográfico e Cadastral de Angola para fotografar um dos instrumentos que talvez tenha passado pelas mãos deste herói.
O seu instrumento de eleição
Presto-lhe esta singela homenagem, na tal da internet que lhe acabou por substituir os almanaques que tanto amava, porque não vou já a tempo de lhe contar as minhas aventuras pessoalmente.
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2009
Uma das coisas que os turistas procuram em África é a autenticidade das coisas, fartos de viver num munda cada vez mais igual. Esperam que as cidades tenham alma, ao invés de grandes torres espelhadas espetadas como lanças no chão. Grande parte dos visitantes sonha com animais selvagens como nos filmes, e paisagens e gentes retiradas dos diários dos grandes exploradores do séc. XIX.
Tal como a maioria dos sonhos, este também é quase inatingível. As guerras e a ganância do capitalismo apátrida destruiram grande parte da África virgem. Os leões e as cubatas forma sendo trocados por iáces e casas com telhados de chapa.
Angola surpreende-me todos os dias, às vezes pela sua grandeza, outras pela sua pequenez. O deslumbramento inicial, natural em todas as coisas, acabou por desaparecer e deixar ver que nem tudo o parece típico faz parte da tradição.
Por ser uma terra de contrastes abissais, facilmente a conseguimos dividir em Luanda e o resto. No resto de Angola somos confrontados com uma terra sofrida, mas com carácter, com a grandiosidade esperada das coisas africanas e com as dificuldades que todos os dias são superadas, sabendo perfeitamente que no dia seguinte continuarão lá, porque existem como parte integrante da vida. Em Luanda, chocamos de frente com mentalidades que ainda não saíram da guerra, com injustiças tremendas, espíritos quebrados e um sentimento de impotência avassalador. Se, no interior, ainda encontramos construções e hábitos que podemos considerar típicos, na capital assistimos a uma homogeneização que a torna igual a quase todas as grandes cidades africanas.
Mesmo em Luanda, não podemos desistir de procurar saber o que torna esta terra diferente. Fazemos de conta que não existem as torres reluzentes das petrolíferas, diamantíferas e outras íferas símbolos de riqueza desmesurada a nadar em miséria.
Procuramos os produtos típicos, nem que seja no mercado de arte, onde a maioria dos artesãos são congoleses. Olhamos para as fachadas em busca de pormenores que permitam definir a identidade de um povo. Falamos com as pessoas e descobrimos histórias e lendas.
Mas um dia, ao virar a esquina, descobrimos que toda a individualidade de um povo se está a perder depressa. As torres que foram ocupando o lugar das casas que criaram a identidade da cidade já nem tentam disfarçar a sua indiferença para com a terra que as acolhe e sustenta. Criam a sua própria versão do que é o típico de África.
O pagode africano
A torre da CIF tornou-se, graças às suas características especiais, um marco de referência na paisagem nocturna luandense. Querendo ou não, as imagens que passa na fachada vão definir a identidade da cidade, pelo que, numa terra tão ciosa da sua individualidade, pareça estranho que se mostrem imagens de pagodes chineses. Ou então, talvez o tal milhão de casas venha reformular, de uma vez por todas, o que é a habitação típica angolana.
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2009
As festas ao fim-de-semana fazem parte da vida de Luanda. Poderá faltar tudo, menos cerveja, música e divertimento.
Como a concorrência é muita, cada entidade organizadora se esforça por marcar a diferençam quer seja no programa, no preço das bebidas e entradas ou nos cartazes com fotografias e nomes mais ou menos chamativos.
Na divisão dos nomes chamativos encontramos as noites «do bumbum escaldante» ou «da saia curtinha» como clássicos incontornáveis. Nos que optam pelas fotografias, o tema é quase sempre o mesmo: umas moças com ar de angolanas de gema vestidas com bikinis muito pouco modestos e a prometer que os deixam de usar brevemente.
Angolana de gema
Os nomes artísticos dos convidados musicais são também uma agradável surpresa. No cartaz que ilustra este artigo, por exemplo, há quem dê pelo nome de Big Pum. Será famoso pela sua flatulência?
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2009
A previsível dança de cadeiras nos ministérios e governos provinciais que ocorrerá no congresso do MPLA não deverá afectar muito as actuais linhas de actuação do governo. Os ajustes na hierarquia do poder perturbarão um pouco as esferas de influência de cada um e, até que um novo equilíbrio seja estabelecido, haverá uma luta de bastiadores em torno dos elos mais fracos. Tais alterações não trarão grandes diferenças na vida dos angolanos, ou mesmo dos estrangeiros que cá trabalham. Cada um procurará descobrir novos atalhos na cadeia do poder e depressa voltará tudo ao normal.
A faceta mais interessante do congresso do MPLA também não é o lavar de roupa suja entre figuras do Estado ou alguns antigos militantes de referência virem a público renegar o partido pelo qual deram a cara muitos anos.
Nem mesmo nos espanta que a indistinção que existe entre o partido e o Estado seja de tal ordem que o congresso se torne mais importante que as instituições oficiais. É aqui que realmente se define o rumo do país e não na assembleia nacional.
As principais alterações na vida do dia-a-dia dos angolanos, especialmente da quase metade da população que vive na capital não se prendem com os novos embaixadores ou os ministros e governadores exonerados ou nomeados, nem sequer com os bonitos discursos do presidente do partido prometendo lutar determinadamente contra a corrupção.
Graças ao congresso de um partido, a capital pára. O cortejo de militantes, ministros, governadores, generais e, acima de tudo, do presidente do partido e da república obriga a que, num acesso de vaidade disfarçado de desconfiança, se cortem as principais vias de acesso do centro da cidade ao Futungo de Belas durante as horas de ponta, com direito a milhares de militares armados com metralhadoras de grande calibre, granadas e cara de mau.
O Congresso
O congresso, que deveria afectar apenas os que a ele estão directamente ligados, acaba por se fazer sentir por todos quantos tentam chegar a casa ou emprego. Os percursos de poucos minutos transformam-se em odisseias de horas em marcha lenta ou parada, sob os auspícios das forças de segurança afectas ao congresso. Como sempre, ninguém desliga o motor do carro. Após a primeira experiência, todos os que podem passam a sair mais cedo do trabalho para não passarem o resto da tarde no trânsito. A produtividade vem por aí abaixo.
Dezembro já é conhecido por ser a época em que menos se trabalha, mas a data escolhida para o congresso adianta em cerca de duas semanas a habitual paralização do país na quadra festiva. A luta continua!
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2009
Os embondeiros são as árvores emblemáticas de África. São também a primeira coisa que nos salta à vista como totalmente estranha ao que estamos habituados.
Não são apenas os estrangeiros que se sentem tocados pela sua aparência bizarra, os naturais também sentem que são diferentes das restantes árvores e procuraram explicá-las através de lendas e histórias.
São as árvores que já nascem velhas ou que estão plantadas ao contrário, dizem os mais-velhos, tentando explicar às gerações seguintes que os embondeiros novos não se parecem com os adultos e que, ao contrário de quase todas as outras árvores tropicais, estas são de folha caduca e passam parte do ano com ramos a parecer raízes.
Os seus frutos estranhos, as múcuas, podem servir para explicar o mundo ou ser o berço de um herói mitológico. Mas também as múcuas partilham a estranheza com a árvore.
Com o início da estação quente, os embondeiros cobrem-se de folhas brilhantes, escondendo os dedos esticados com que se parecem os seus ramos. Depois nascem pequenas bolas verdes na ponta de hastes compridas que se penduram na ponta dos ramos. Supomos que cresçam e se transformem em múcuas, mas estamos enganados.
Um dia essas bolas verdes rebentam e revelam que afinal não serão múcuas, pelo menos para já. As flores são grandes e brancas, mas quase passam despercebidas, esmagadas pela imensidão da árvore.
Em flor
Ao fim de algumas semanas as pétalas caem e o pedúnculo começa a inchar, dando origem à múcua tão característica. Os embondeiros ainda têm muito que me ensinar.