Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

12 2009

Correndo o risco

Numa tentativa de melhorar a imagem da cidade aos olhos de quem a visitará no campeonato de futebol, algumas ruas de Luanda estão a ser beneficiadas.

Em torno dos principais hotéis o asfalto novo nas avenidas contrasta com os buracos das tranversais e os riscos pintados de fresco conseguem dar um ar de organização que há muito falta na cidade.

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Numa das principais vias da cidade, a Avenida Revolução de Outubro, que liga a Mutamba ao Aeroporto, a circulação fazia-se em três faixas que iam alternando de sentido consoante as necessidades. Duas para cima e uma para baixo e vice-versa, com as motas a furar no meio. O esquema funcionava, embora com as limitações habituais de ser difícil saber a que hora se trocava de sentido na faixa do meio.

A cerca de um mês do final do ano começaram a pintar a sinalização horizontal ao longo da avenida, no trecho que ainda estava em falta, mais ou menos desde o hospital do Prenda. Passaram a existir duas faixas em cada sentido, separadas por um duplo traço contínuo onde agora as motas tentam furar com muito menos à-vontade que anteriormente.

O trânsito, apesar de mais compacto nos dois sentidos, passou a fluir um pouco melhor, sinal de que a rebaldaria do costume em que cada um tenta chegar primeiro que os restantes é contra-producente.

Talvez por falta de hábito, há umas alminhas que continuam a achar que a fila é só para os outros e resolvem ultrapassar todos pela contra-mão, desrespeitando as mais elementares regras de trânsito.

Depois dos riscos pintados, já por duas vezes assisti a esta cena. Na primeira vez, com os carros parados no semáforo, há um esperto, num todo-o-terreno de jantes cromadas e rádio alto, que sai da sua mão para ultrapassar todos e entrar na fila no outro lado do cruzamento. Estava um polícia no cruzamento que não tolerou a esperteza e, muito bem, vendeu um bilhete para o baile da polícia ao condutor. A multa não deve ter sido leve: traço contínuo, semáforo vermelho, desrespeito pelo sinaleiro e chico-espertice. Espero sinceramente que não se tenha deixado convencer com uma gasosa.

Candongueiro em contravenção
Apanhado a ultrapassar as duas faixas da sua mão

Na segunda ocasião, a cena repetiu-se. A manobra, o polícia e a conversa. O mais engraçado era ver o polícia à frente do candongueiro, para que este não arrancasse, a pedir os documentos e o condutor, fazendo-se de inocente, punha fora da janela a licença para transporte de passageiros. O polícia agirava o indicador e dizia que não, que queria ver a carta de condução.

Acredito que as mentalidades hão-de mudar, mas há sempre umas ovelhas ronhosas que acham estar acima da lei.


12 2009

O mundo ao contrário

Cresci com Verões secos e Invernos molhados. Esta é a minha noção da ordem natural das coisas.

Mesmo sabendo que chove na mesma altura pelo mundo todo, ainda me faz uma certa confusão ter as grandes chuvas na estação quente. Por muitas vezes que explique a mim mesmo que tudo isto tem uma razão de ser e que a culpa é a inclinação do eixo de rotação da Terra, a Primavera a terminar em Dezembro e Invernos sem chuva não me parecem naturais. Durante uma vida inteira fui-me mentalizando que o final do ano significa chuva, frio e castanhas assadas. Agora dou por mim a terminar o ano com chuva, praia e mangas maduras. Ainda por cima não gosto de mangas.

A perfeita monotonia da duração dos dias da zona intertropical contrasta com os dias curtos do Inverno temperado, dos quais não sinto muita falta, e com os longos dias de Verão, que associo sempre às brincadeiras de criança na rua. Novamente, o culpado é a inclinação do planeta, embora não me sirva de consolo.

Lua
Lua de pernas para o ar, talvez em crescente

Novamente por causa dessa famosa inclinação, a Lua voltou a ser um mistério. As mnemónicas que sempre funcionaram em criança tornaram-se inúteis. Em vez de um C ou de um D, a Lua passou a ser uma ferradura voltada para baixo ou para cima, que só a custo identifico com um quarto crescente ou minguante. Mais a sul voltaria a não ter dúvidas, mas aqui, perto do equador, é difícil ter a certeza.

Ainda acho um pouco desconcertante ouvir as cigarras, que sempre associei aos dias secos e quentes do Verão, a cantar logo a seguir a uma chuva que só pela água quente se distingue dos temporais de Inverno. As águas de Março a fechar o Verão podem fazer todo o sentido para o hemisfério Sul, mas, para além de fazerem uma excelente canção, são a coisa mais surreal que conheço.

Parece-me que o mundo está ao contrário, porque temos tendência em usr o nosso corpo como referencial, mas a verdade é que o mundo está no mesmo sítio e eu é que mudei de hemisfério.


12 2009

10’000, outro número redondo

Com cerca de um ano e meio de existência, o Aerograma atingiu a barreira da dezena de milhar de visitas mensais. É mais um número redondo para comemorar.

Cerca de duzentas e dez mil palavras e quase milhar e meio de fotografias renderam mais de quinhentos artigos publicados diariamente. O ritmo de publicação é exigente, até pelo facto de tentar repetir-me o mínimo possível. Há alturas em que a falta de imaginação me faz duvidar que o tenha conseguido manter até agora.

Como tenho de antecipar-me às vicissitudes da internet angolana, deixo sempre alguns artigos preparados para publicação para os dias seguintes e, caso se justifique, faço os necessários ajustes na sua sequência mais próximo da data de publicação.

Gostaria de ter publicado este artigo logo no início do mês, para coincidir com a concretização do objectivo das dez mil visitas mensais. Infelizmente, as falhas de luz e água foram acompanhadas pela falta de internet. Tenho de conviver com isso e adaptar-me. A comemoração chega com uma semana de atraso, mas chega!


12 2009

Corrente alternada

Com a chegada do Verão e a cada vez maior utilização das máquinas de ar condicionado, os cortes de corrente eléctrica têm-se tornado mais frequentes. Dizem que atingem o seu pico pela época do Natal, em que há mais gente em casa e menos funcionários nos piquetes.

Apagões em Portugal e no Brasil já são caso para manchetes de jornais e pedidos de responsabilidade política. Em Angola ainda há o conformismo servido com um encolher de ombros e um «Isso é Angola…».

Com as trocas de fases que se fazem nos postos de seccionamento, numa tentativa vã de equilibrar as cargas, os bairros vão sendo ligados e desligados após um sobreaquecimento ou curto-circuito algures na rede. Por vezes são apenas alguns minutos, outras vezes, várias horas às escuras.

Em Luanda encara-se com muita seriedade as características da energia fornacida. Durante as últimas falhas, por exemplo, as ruas do bairro têm recebido corrente alternada, ou melhor, vão tendo electricidade alternadamente.

Após várias horas às escuras, com os frigoríficos a entrar no modo tropical, lá voltou a electricidade, apenas para falhar no outro lado da rua ao fim de uns segundos. Talvez tenha a ver com o tal plano da iluminação de Natal à escala metropolitana.


12 2009

Espreitando o passado

Qualquer voltinha que se dê por Luanda, mesmo que seja nos sítios por onde se passa todos os dias, resulta sempre em fotografias que me parecem deslocadas no tempo. Por esta altura já devia estar imune a estas coisas, mas é-me impossível resistir a estes pedaços de História recente que não foi engolida pelo progresso das últimas décadas.

Rua de Moçambique
Outra época

No meio dos edifícios envelhecidos e descurados encontramos pequenas marcas dizendo que nem sempre foi assim. São os restos da decoração que agora é considerada supérflua, como letreiros que não foram removidos depois do fecho das lojas.

Barbearia Avenida
Negócio desaparecido

Nem todos estes testemunhos se encontram olhando para cima. Alguns surpreendem-nos quando olhamos para o chão, tentando não sujar os pés. Nos átrios dos edifícios construídos no final da década de 1960 é frequente encontrar padrões e cores característicos da época.

Átrio
Padrões de uma época

Há certos locais da cidade em que nos julgamos sugados para um outro tempo, tal é a quantidade de marcas do passado que nos rodeia, e não nos é difícil imaginar como seria viver nessa época.


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