Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

29  11 2009

A meio da noite

O fim da noite aproxima-se, embora a alvorada ainda pareça vir longe. Esticado na cama, com os braços e pernas a desenhar um X contorcido, acordo com aquele silêncio ensurdecedor que se abate sobre Luanda nas últimas horas antes do nascer do Sol. Depois de lutar contra o barulho para adormecer, é a falta dele que me desperta.

Não está nem frio nem calor, mas também estou a dormir destapado e quase nu. Viro-me de lado e sinto o suor escorrer-me pelas costas e empapar o lençol. Vou fugindo das zonas mais húmidas, mas depressa dou comigo quase enrolado no mosquiteiro. É preciso aguentar.

Passo os momentos seguintes a sentir cada nova gota a traçar-me linhas nos braços e costas. Na linha do cabelo surgem pequenas gotas que se juntam às da testa e me descem pela cana do nariz até pingarem sem ruído na cama. Já estou na dúvida se está frio ou calor. Clima tropical.

Duas horas depois, a cidade já despertou. O coro de buzinas e escapes recomeça, embora mais contido que habitualmente. O quarto também parece um pouco menos luminoso que o costume. Está ou dia cinzento, ou melhor, amarelento, porque o pó que enche o céu de Luanda também pinta as nuvens de laranja e a luz que filtram torna tudo amarelo. O ar está pastoso com tanta humidade.


28  11 2009

Entendimento entre cidadãos

É bem sabido que a satisfação profissional não passa exclusivamente pelo salário. Claro que ser mal pago não contribui para a felicidade de ninguém, por muito que goste do emprego. Os mais radicais defendem que o trabalho ou é bem pago ou é feito de graça, mal pago nunca. Depressa concluímos que os mais radicais não têm de pagar contas.

Depois da melhoria de comportamento da polícia em Luanda, no que toca a gasosas, por altura das eleições legislativas e da visita do Papa, e também à admissão de muitos novos polícias, ainda sem os vícios dos mais antigos, a crise que afectou o mundo e atingiu Angola, contrariando o discurso oficial, originou um retrocesso.

Ao que parece, os salários dos polícias foram reduzidos. Os rendimentos têm de ser complementados de outras formas, nem que para isso se tenha de denegrir a farda, corrompendo e sendo corrompido ou, usando o eufemismo oficial, «chegar a um entendimento entre os cidadãos».

Os esquemas das gasosas estão de novo na moda na berma da estrada, no aeroporto, nas repartições públicas e em todos os sítios onde se consiga vender facilidades para contornar as dificuldades de geração espontânea.

Conduzir ao fim-de-semana, especialmente para fora da capital, voltou a ser complicado, com muitos controlos demorados que acabam por quebrar o ritmo da viagem a fazer apetecer regressar.

É curioso ver os condutores ser mandados encostar, pedirem-lhes um documento qualquer e mandarem-nos esperar mais à frente uns minutos. Um pequeno período de reflexão, talvez para sortear uma dificuldade. Mais tarde, depois de muitos documentos trocados pela janela e de perguntas acerca de coletes, triângulos, macacos, chaves de rodas, pneus e data da última revisão, começa o jogo da paciência. Mesmo que não haja nada a apontar, algo se acertará, na medida da pressa do condutor.

Toda a gente está de olhos postos na grande corrupção, mas é a pequena que mais afecta a vida das pessoas. A primeira a ser combatida tem de ser esta, para que as próximas gerações cresçam com referências de integridade a cada esquina. Não se pode achar normal que se ache normal parte do rendimento habitual dos funcionários públicos provir de subornos.


27  11 2009

Os benefícios do CAN 2010

Muito se tem escrito (eu incluído) acerca do campeonato de futebol organizado por Angola. Geralmente fala-se da falta de infra-estruturas em torno dos estádios, dos próprios estádios, dos hotéis inexistentes, da segurança, dos empreiteiros chineses e de tudo quanto poderá fazer a competição emperrar fora do domínio desportivo, prejudicando a imagem do país.

Mural do Campeonato
As pinturas já surgiram

O atraso dos estádios parece estar resolvido. Os empreiteiros chineses costumam ficar muito motivados quando cobram taxas de urgência. E, para quem julga que não se deviam ter contratado chineses por falta de experiência na construção de estádios, que fique descansado, porque agora já fizeram currículo.

O CAN também tem coisas boas. A cerca de mês e meio do início do campeonato nota-se um esforço para melhor, pelo menos, a imagem da capital.

Foi instalado um balcão de informações junto ao aeroporto, para fornecer mapas, informações turísticas e ajudar os visitantes a orientar-se na cidade. É pena que tenha sido construído fora do aeroporto, longe do actual terminal de chegadas. Duvido que haja algum estrangeiro novato em Angola que se arrisque a sair pelo seu pé do terminal e percorra uma avenida que não lhe inspira confiança só para ir pedir um mapa e saber onde há hotéis. Aliás, para obter o visto já deve ter tido de confirmar a reserva no hotel, por isso, que se lixe o mapa.

Avenida Revolução de Outubro
Asfalto novo, um luxo

As principais avenidas da cidade, ou pelo menos, as que passam perto dos hotéis de cinco estrelas ou que ligam o aeroporto ao centro, estão a ser asfaltadas de novo. Há anos que precisavam. Ainda bem que se organizou o CAN! Logo a seguir ao asfalto novo surgiram as guias para as pinturas de riscos, para dar um ar mais civilizado às ruas. Vai ser engraçado ver se as delimitações de faixa diminuem o número de filas de carros que se consegue fazer nas ruas. Ou então, mais motivos para pequenos entendimentos entre polícias e motoristas que pisam o risco.


26  11 2009

As armas do dinheiro

Num país que atravessou quase três décadas de guerra civil, é natural que haja armas um pouco por todo o lado. Fazem parte da vida, tal como as enxadas e os livros deveriam fazer no tempo de paz.

Com o fim da guerra, tornou-se necessário recolher os milhões de armas de guerra espalhados pelas dezoito províncias. O desarmamento dos civis e a criminalização da posse de armas de guerra é um dos passos para a estabilidade social do país. As campanhas de recolha e destruição continuam e têm dado frutos.

Até há bem pouco tempo, militares, polícias e seguranças eram os únicos com permissão para usar armas automáticas ou com calibres considerados de guerra. Os milhares de seguranças espalhados pelo país eram todos antigos militares, cujas qualificações profissionais consistiam em saber usar uma arma ou, pelo menos, apertar o gatilho com convicção. A falta de preparação destes últimos veio fazer com que apenas os seguranças afectos ao transporte de valores, mais treinados, possam agora exibir armas. Alguns dos restantes também as têm, apesar de as manterem guardadas algures, por vezes nos sítios mais incríveis, como já testemunhei.

Há dias, no banco, enquanto esperava a minha vez para ser atendido, chegou uma carrinha com seis guardas armados. Saltaram dos bancos corridos com almofadas coloridas e encardidas, para disfarçar a dureza das tábuas, e espalharam-se, aos pares, pelas portas do banco, enquanto esperavam a chegada da segunda carrinha, com o cofre do dinheiro. Graças à excelente invenção dos vidros espelhados, pude observar discretamente a chegada do dinheiro e, acima de tudo, o armamento dos seguranças.

Cada um trazia uma AK-47 pendurada pela bandoleira, com o cano a apontar para o chão e a mão esquerda sobre a janela de ejecção dos cartuchos. Na mão direita uns traziam um rádio, outros uma garrafa de água gelada e outro um boné preto. Ao peito usavam uns arreios com bolsas para quatro ou cinco carregadores, todas vazias. As espingardas mostravam os sinais de uma longa vida de serviço nas mazelas da coronha, nos canos enferrujados e nos plásticos polidos pelo uso. Alguns dos carregadores estavam envolvidos em fita isoladora. Apesar de tudo, algumas marcas de óleo com pó em volta do gatilho e carregador faziam adivinhar que estavam em ordem de marcha.

Um dos seguranças aproveitou a sombra dada por um arbusto num vaso para se abrigar. O vaso estava quase encostado à janela onde eu estava. Tirou a bandoleira e apoiou o cano da arma na aba do vaso, como se fosse uma bengala. Empunhava-a com a mão direita e falava com o colega encostado à ombreira da porta. Enquanto rodava a arma de um lado para o outro, reparei num pormenor muito interessante, que quase me fez rir alto. O cano da arma estava torcido. Os últimos centímetros antes da boca apontavam nitidamente para a esquerda!

Alguém deve ter usado aquela espingarda como alavanca, à falta de uma ferramenta apropriada. Custa-me pensar no que acontecerá se a tentarem disparar. Talvez acertem ao lado, talvez o atirador tenha uma surpresa, talvez as duas coisas… Ou então, o barulho das luzes disfarça.


25  11 2009

A última aventura de Leocádia

Num dado ponto da vida cruzei-me com aquela que viria a tornar-se a minha amiga Viviane, pessoa de outra época e de uma nobreza de carácter como já se torna difícil encontrar.

Transmitiu-me grandes lições de vida, misturando-as com episódios das suas memórias fascinantes. Auxiliou-me sempre que precisei e deixou que a auxiliasse quando necessitou.

Conheci-a já na recta final da viagem, a poucos dias de completar os seus 89 Outonos. Tive oportunidade de partilhar momentos de História vivida na primeira pessoa ao longo de quase todo o século XX, desde a história de vida do seu pai, que foi piloto na Grande Guerra, à sua aversão a bananas ganha durante a adolescência em Madagáscar, até à saudade com que recordava a devoção que o marido lhe tinha. Acompanhei-a na despedida de Paris e lugares de uma infância passada num tempo tão longínquo que não consigo sequer imaginar. Contou-me aventuras e desventuras que a experiência de uma vida tão rica é capaz de proporcionar.

A estrada chegou ao fim a duas semanas de completar 97 anos, encurtada certamente pelo desgoto que lhe trouxe a perda súbita da neta que sempre tratou como filha.

Soube do seu desaparecimento a meio mundo de distância, o que me entristeceu. Vi-a, pela última vez, na véspera de regressar a Angola, para combinar um encontro no Natal. é hoje o seu funeral. Entristece-me saber que já não acontecerá.

A sua memória não desaparece com o corpo. A pessoa especial que foi deixou marcas em muita gente. Até mesmo nas que não a conheceram sem ser pelo carinho com que sempre falei dela.

Aos 95 anos, depois de ter escrito as suas memórias, iniciou um blog, prova da sua imensa lucidez e curiosidade, sob o pseudónimo de Leocádia, interrompido apenas por questões de saúde. Transcrevo um dos episódios que contou.

[20 de Fevereiro de 2008]

«Ça fait aujourd’hui  20 ans que Vitorino Nemésio est mort. J’ai une anecdocte très amusante à son sujet.

Nous étions, mon mari et moi, réfugiés à Paris (à ma grande joie, je n’avais jamais espéré vivre à Paris!) de part la révolution des oeillets…

Un jour, on sonne à la porte, je vais ouvrir, c’est Vitorino qui, sans me voir, se jette dans les bras d’Armando, retrouvailles, grande excitation, ils se mettent à bavarder sans s’apercevoir que je suis là, on passe à table, ils dévorent tous les deux, parlant sans arrêt, jusqu’à la fin du repas, puis, au moment où je sers le café, Vitorino s’apperçoit tout d’un coup que je suis là (depuis le début), me regarde comme s’il ne m’avait jamais vue, et s’exclame: “Tiens! Vous! Comment allez-vous, ma chère?” – et je ne peux m’empêcher d’éclater de rire, devant ces deux vieux, qui comme deux gamins, sont tout à la joie de se retrouver!»


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