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11
2009
Há certos conceitos que sabemos serem verdadeiros mas que, na verdade, não somos capazes de apresentar um exemplo concreto dos seus efeitos. A inflacção é um deles. Nas sociedades capitalistas, sabemos que os preços variam com a aplicação da lei da oferta e da procura. Geralmente sobem, o que, é considerado bom sinal, caso a subida seja controlada e moderada.
Numa economia saudável, o facto de os preços subirem, só por si não traz grandes desvantagens, uma vez que os salários, pelo menos em teoria, acompanham esta subida. Por este motivo, apesar de sabermos que as coisas estão mais caras, os efeitos no dia-a-dia são modestos e só fazendo um esforço mental para nos lembrarmos do quanto custavam as coisas no passado é que nos apercebemos das variações. Geralmente, esquecemo-nos de recordar quanto se ganhava na altura.
Uma corrida nas zungueiras
A menos de uma mudança de divisa, que nos congela as referências de preços numa determinada época, a inflacção normal não deixa marcas permanentes. Claro que fiquei espantado quando encontrei uma prova física dos efeitos da inflacção.
Quando estava a organizar os trocos que tinha na carteira, separando por valores as várias notas de kwanza de pequeno valor que se vão acumulando com o passar das semanas, reparei numa coisa intrigante. Em meados de 2008, as notas mais usadas e sujas eram as de 10 e 5 Kz, à conta das muitas vezes trocarem de mãos nos trocos e, devido ao seu baixo valor, serem pouco estimadas. As notas de 50 kz circulavam muito gastas, mas comparativamente mais limpas, talvez porque ainda valiam alguma coisa. Pouco mas valiam.
Margens magras
Ano e meio depois, as notas de 50 kz juntaram-se às de menor valor no seu estado de conservação. As de 100 Kz ocuparam o seu lugar. Não é que não se emitam novas notas para substituir as estragadas, porque se vêem muitas notas novas, ainda duras e brilhantes, a circular. Só que o que os 50 Kz valem não paga o cuidado em preservar as notas. São apenas trocos.
Nunca pensei que a inflacção se pudesse notar tanto que levasse a mudar a denominação da unidade monetária mais circulada. Numa conclusão apressada, em cerca de 18 meses, o preço mínimo das coisas duplicou. O estranho é que, com os preços absurdos que se praticam em Angola, nem mesmo adiantando uma inflacção anual de 30%, fico minimamente preocupado.
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11
2009
Durante anos foi escutando histórias e episódios de quem tinha vivido em África, Angola em particular. Antigos militares, civis que deixaram a terra temendo pela vida e angolanos na diáspora foram descrevendo este país, um pormenor de cada vez, mas, acima de tudo, falavam das suas gentes e costumes.
Lembro-me de, em pequeno, ter ouvido falar do modo peculiar como as mulheres fumavam, mordendo o cigarro ao contrário, com o morrão para dentro, cuspindo a cinza por um canto da boca e fazendo sair o fumo pelo outro. Diziam que era por ser mais prático fumar assim enquanto se trabalhava no campo, curvadas de enxada na mão, com o filho às costas. Os homens, ao que parece, fumavam com os cigarros para o lado normal.
Na minha estadia em Angola, poucos angolanos tenho visto a fumar regularmente. Quase sempre só jovens, no intervalo das cervejas. Alguns velhos, por vezes. Mesmo na província, os únicos fumadores inveterados com quem me cruzei foram russos e chineses, umas verdadeiras chaminés, uns e outros.
Mulheres a fumar têm sido ainda menos, daí que a cena com que me deparei há uns dias me deixou a olhar embasbacado.
Parado no meio do trânsito, como de costume, reparei numa mais-velha, de aspecto frágil, sentada à sombra de um carro estacionado a revolver um bibe verde-alface à luz do Sol que lhe iluminava as mãos. Dava-lhe voltas, sempre com as costas encostadas à parede fresca, afastando o tecido dos olhos, provavelmente por já ver mal ao perto. De cabelo branco e muito enrugada, contrastava com as três crianças luzidias só de cuecas que, de pé, não lhe chegavam à cabeça. Segurava qualquer coisa na boca. Primeiro pensei que fosse uma agulha e que procurasse coser um qualquer rasgão na roupa de um dos miúdos. A posição em que tinha a cabeça e a sombra escura não me deixavam perceber o que era. Vi-a soltar uma baforada de fumo, como quem enxota uma mosca com um sopro pelo canto da boca. Percebi que as gentes das histórias que ouvi há decadas não mudaram…
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11
2009
Mesmo aterrando em Luanda em meados de 2008, cedo reparei que o número de varredores de rua aumentou à medida que se aproximavam as eleições. Segundo me disseram, era muito recente a aparição de brigadas de varredores regulares. As descrições que os luandenses me faziam da cidade em 2004 eram dantescas e todos destacavam o fedor. Devo confessar que só fui confrontado com esse cheiro nas zonas mais pobres da capital e numa ou noutra avenida onde os esgotos entupidos transbordam para a rua. Os montes de lixo a cada esquina são, felizmente, cada vez menos frequentes.
Todos os dias, desde há meses, os varredores retiram as toneladas de pó e o muito lixo que se acumulam de um dia para o outro nas principais artérias da cidade. Pode parecer um esforço inglório, porque o trabalho ainda não está acabado e mal parece ter sido começado, no entanto, os resultados começam a surgir. Apanha-se cada vez mais pó e cada vez menos lixo, talvez porque a recolha passou a ser mais eficiente ou porque as pessoas começaram a ficar mais educadas em relação ao lixo. Não todas, obviamente, porque ainda se vê muito lixo ir parar ao chão por preguiça.
Aquilo que começou por ser uma novidade, os fatos-macaco laranja e as vassouras nas bermas, faz agora parte da paisagem urbana de Luanda. Até mesmo os cones com que sinalizam o seu trabalho deixaram de estorvar o trânsito porque passaram a ser normais.

Varredor
Quase no final de 2009, os varredores persistem na luta contra o pó que todos os dias teima em encher as estradas. Comparando com o ano anterior, a principal diferença que notamos reside não no pó ou nas ruas, mas nos próprios varredores. Durante este período, o género dominante passou a ser o feminino. Cada vez mais os homens desistem de varrer ruas, quer seja por ser um trabalho mal pago ou preferirem empregos menos cansativos, ao passo que as mulheres continuam a ser o motor do país, ocupando os postos de trabalho recusados pelos homens.
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11
2009
Aqui no bairro mora uma criatura muito ciosa do seu automóvel. Uma das coisas que comprou logo a seguir à viatura foi o alarme mais sensível que encontrou. Suspeito que não queira cagadelas de mosca na pintura, porque apenas com as melgas a esvoaçar a uns metros dispara e só se cala uns minutos depois.
Há dias em que a combinação e frequência certas de peões, peidociclos e outras motoretas, carros do lixo e um ou outro automóvel a circular mais depressa garantem que o raio do alarme não se cale. Chegamos mesmo a acreditar que, a dada altura, o próprio carro entra em ressonância e faz disparar o alarme.
Quando não encontra lugar à porta, o dono do carro geralmente estaciona-o na nossa rua, que é mais sossegada. Regressa a casa e tem uma noite descansada, o que é mais do que se pode dizer da noite dos azarados da rua onde deixou o seu alarme com rodas.
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11
2009
A expressão que mais custa ouvir nesta terra é o encolher de ombros vocalizado «Isso é Angola…». Serve de desculpa para tudo, desde as falhas associadas a um país com as infra-estruturas degradadas ou em estado embrionário, até às inerentes ao comodismo ou preguiça de cada um.
Com o elevador avariado, o contrapeso foi roubado
É a outra face do excesso de orgulho e falta de brio com que se consegue caracterizar os angolanos. Têm muito orgulho na sua terra e no seu país, com as riquezas enterradas e potenciais agrícola e turístico enormes, mas não há nenhum sentimento de frustração por não se explorar os motivos de orgulho.
Falta de higiene num «restaurante»
Da mesma maneira que alguns encolhem os ombros ao ver alguém despejar lixo fora do sítio, outros partem garrafas na praia com um imenso sorriso e exclamam «Isso é Angola!». A pouco e pouco, o sentimento generalizado é que Angola é assim e não há volta a dar. Não pode evoluir para não perder essa genuidade definida nas três palavrinhas de Isso é Angola.
Depois de três décadas de guerra, com as dificuldades a serem enfrentadas e resolvidas individualmente por ser impossível pensar nos outros, todos se habituaram a não exigir condições. Se falta a electricidade, há que comprar um gerador porque Isso é Angola e não há volta a dar. Se falta a água, investe-se num depósito porque ninguém espera que a água corrente seja um serviço básico universal.
Alguns serviços básicos desapareceram
Nos jornais lê-se que os angolanos não podem tolerar que os filhos do novo presidente da Zâmbia, no poder há menos de um ano, já estejam milionários. Não questionam quem são os mais ricos de Angola nem a sua relação com o poder. Afinal de contas, é Angola.
Enquanto isso, uns ganham a vida vendendo no chão
Criticar os defeitos alheios e branquear os nossos é um pecadilho frequente. Não estou esquecido da promiscuidade entre poderes públicos e empresas privadas que grassa lá no hemisfério Norte, mas essa é uma história para outra altura. Espero que os portugueses se indignem tanto da sua situação como os angolanos da dos zambianos.
Para sobreviver, tudo se faz
Isso é Angola não é só um desabafo, é sinal de desistência. É sinal de falta de esperança no futuro. Diz-nos que a guerra ainda não acabou, pelo menos a nível psicológico. Ninguém precisa de se preocupar com nada, o brio profissional é algo quase desconhecido e tudo continuará como dantes. Isso é Angola. Antes assim que pior.