Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

11 2009

Surpresas

A baixa de Luanda não tem apenas torres de aço e vidro a nascer pelo meio de ruínas coloniais. Nem todas as ruas estão em mau estado e há até mesmo muitos passeios já compostos. Para infelicidade minha, o da minha rua não é um deles.

As quantidades prodigiosas de lixo que me receberam em 2008 foram desaparecendo e, aos poucos, as ruas começam a ter um aspecto mais limpo. Mesmo nos arrabaldes, as montanhas de lixo já voltaram a ser mais baixas que os telhados.

Como passou a ser mais seguro andar na rua sem ter de olhar onde se põe os pés a cada passo, sobra um pouco mais de tempo para olhar para cima, para as fachadas e para o céu. E descobrem-se grandes surpresas nas ruas mais esquecidas pelo trânsito e pelos escapes.

Paredes meias com a sede da Sonangol há uma velha casa arruinada, com vidros partidos e o telhado abaulado. Uma entre muitas, quer-nos parecer à primeira vista. Mas depois reparamos nas varandas e vemos obras de arte expostas.

Arte na varanda
Quadros expostos na varanda

Numa janela está pendurada uma faixa já muito apagada com iniciais, talvez as de uma associação de artistas angolanos. De imediato procuramos saber o como, o quem e o porquê, mas ninguém nos explica. Uma surpresa que rapidamente se converte em mistério.

De vez em quando, as obras mudam, mas a intervalos indefinidos. Para onde irão no dia em que a casa vier abaixo?


11 2009

Os estádios e os vistos

Tal como um certo país à beira-mar plantado, que resolveu organizar um campeonato de futebol e gastar uma fortuna em estádios para depois não saber o que fazer com eles, Angola decidiu organizar um campeonato de futebol e desatar a construir estádios.

Como quase todas as obras que vemos por estes lados, somos capazes de imaginar outras bem mais urgentes ao nível das infra-estruturas. Nem deve ser saudável fazer as contas ao número de quilómetros de condutas de água seria possível construir com o que se gasta num só estádio.

Com a falta de asfalto ou excesso de buracos que as estradas da capital apresentam, a via rápida de acesso ao estádio de Luanda quase parece deslocada. Talvez a solução seja construir um estádio a cada esquina.

Estádio de Luanda em construção
A um mês da entrega

A um mês da data de entrega dos estádios, as obras estavam tão atrasadas que ninguém duvidava que não estariam prontos. Mesmo com mais uns milhares de chineses nos estaleiros, há limites para a velocidade a que se consegue fazer as coisas. Julgo que o problema do atraso será solucionado como se resolvem os problemas militares: vai-se atirando pazadas de dinheiro até que esteja resolvido. Felizmente que as contas públicas nunca revelarão os montantes envolvidos.

Para organizar o campeonato de futebol é preciso um pouco mais que estádios. Os hotéis para alojar equipas e espectadores também não existem em número suficiente. Estão a construir-se alguns, que talvez funcionem a tempo, mas são precisos muitos mais.

Mesmo que todos estes problemas logísticos sejam resolvidos de forma graciosa, que haja estádios a funcionar, táxis, hotéis suficientes e aeroportos com condições mínimas, o processo de obtenção de vistos para Angola não deve sofrer muitas alterações. A desconfiança oficial dos estrangeiros é algo demasiado enraizado.


11 2009

Aerograma Siciliano

À medida que a aventura angolana se aproxima do fim, agravam-se os receios de que o Aerograma se torne mais difícil de escrever por falta de assunto ou medo da repetição. Há alturas em que o artigo diário parece ser demasiado ambicioso, mas tenho conseguido.

Recentemente fiz uma pausa na escrita, tendo deixado o Aerograma entregue a si próprio e às reservas acumuladas durante os dias em que vários artigos se alinhavam para publicação. Recomecei a escrever in extremis, sem grande margem de manobra para preguiças ou bloqueios. O dia seguinte tinha de ser assegurado.

Procurando inspiração, revi fotografias das férias, ainda muito atrasadas na catalogação e ordenação. Algumas passo à frente mais depressa porque a comparação com o que vejo pela janela em Luanda é demasiado chocante.

Ainda antes de ter encontrado assunto, cheguei a uma conclusão importante. Tenho a certeza de que o Aerograma não acabará com o regresso a Portugal. Descobri que, por esse mundo fora, vou tropeçar nele nos sítios que menos esperar. Desta feita surpreendeu-me num museu em Catânia, a rir-se para mim dentro de uma vitrina.

Biglietto postale per le forze armate
Ao contrário deste, o italiano carece de selo

Já há uns meses achava que o Aerograma tinha ganho vida própria. Agora tenho a certeza.


11 2009

Desidratação

Uma das coisas com que não se conta quando se vem trabalhar para Angola é a estranha reacção do nosso corpo ao clima novo. Especialmente nos meses de Verão, com a humidade do ar bem próximo dos 100%, por muito que suemos não arrefecemos e, a dada altura, já nem damos pelo suor que nos escorre pelo corpo. Por outro lado, a sede também deixa de se fazer sentir.

Primeiro chega o cansaço e a falta de concentração. Depois vêm as dores de cabeça e o mal-estar generalizado, aparentemente sem razão de ser. Só ao final do dia, quando já nos apetece cortar a cabeça e fugir para Espanha é que nos apercebemos que não bebemos nada o dia inteiro.

Até que se retome o hábito de ir bebendo ao longo do dia e que o corpo se habitue ao clima, há que quase cumprir um ritual, bebendo um copo de água a cada pausa no trabalho.


11 2009

Em Luanda, cheio de sono

Regressei a Luanda num dia tão nublado que quase diria ser de Cacimbo. O aeroporto e os telhados de chapa com pedras que o rodeiam só surgiram nos últimos segundos da viagem. Antes disso, a única recordação de uma viagem dormida à janela é a de ver relâmpagos iluminar as nuvens algures sobre o equador.

Muitas caras cansadas fizeram fila para o controlo de passaportes. As filas, mais ou menos ordeiras, avançavam lentamente. De vez em quando alguém tentava furar o esquema e apresentar-se no controlo de passaportes diplomáticos ou de tripulações. Nem sempre eram recusados, apesar de terem de conversar um pouco a justificar a pressa.

Imediatamente a seguir ao carimbo aplicado pela funcionária sonolenta vem o controlo à esquina. Por alguma razão, os serviços de estrangeiros acham que o controlo da validade dos vistos feito no computador é de qualidade inferior ao olhar de esguelha que lhe deitam ainda antes da tinta do carimbo secar.

Uma novidade a que já não estava habituado no novo terminal de chegadas é o controlo sanitário. O formulário destacável que era carimbado à entrada foi substituído pelo questionário universal da gripe suína entregue ainda no avião e pela apresentação do boletim de vacinas antes da recolha das malas.

Ao cruzar a porta, fui brindado com um daqueles dias abafados que promete chuva mas sabemos que não vai cumprir. Luanda não é quente, mas tem dias em que nos sentimos cozer. Contra o corrimão acotovelavam-se centenas de pessoas a esticar o pescoço para a porta. Algumas seguravam folhas de papel com nomes de empresas e pessoas. Uns chegavam mesmo a interpelar passageiro a passageiro se eram a pessoa referida no papel. Fiquei a pensar no que aconteceria se tivesse dito que sim…

A grande novidade do novo terminal de chegadas é que a polícia conseguiu correr com os moços das bagagens que se agarram às malas dos incautos e as transportam em passo acelerado até ao carro sabendo perfeitamente que só as voltam a largar a troco de alguns kwanzas. Dentro do parque de estacionamento não se vêem, mas, perto das saídas, assim que o polícia vira costas entram logo a correr dois ou três para «servir» quem sai. Com sorte arranjam cliente, com azar, uma traulitada com o cassetete.

Autocarro «Voo Terrestre»
Antes de avião

Fui directamente para o escritório, sem passar na casa da partida ou receber os 2’000$00 – sim, ainda sou do tempo do Monopólio em escudos. Cheio de sono e com um longo dia pela frente até ao banho e a soneca, antecipei um dia mau… e foi.


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