4
11
2009
O trânsito caótico que estrangula a cidade durante o dia evapora-se com o avançar da noite, fazendo Luanda ficar com o movimento de uma pequena cidade de província. Tirando o ocasional acelera ou buzinador crónico, o bulício diurno é a última coisa imaginável.
As obras de arte construídas recentemente para aliviar os cruzamentos mais críticos passam despercebidas durante o dia, quando todos estão preocupados em manter o palmo de distância ao carro da frente, receoso que alguém se meta na nesga. O pó que os carros levantam esconde tudo, enche as narinas e os olhos, mas também ele parece descansar durante a noite.
É exactamente nas horas que antecedem o nascer-do-Sol que a cidade nos apresenta uma faceta nova e interessante. As imagens que temos de Luanda não são as costumeiras do lixo e da confusão, mas antes as de uma cidade limpa e organizada.
Modernidade
Se conseguir convencer os patrões a deixarem-me trabalhar de noite, as neuras que Luanda às vezes me provoca eram capazes de desaparecer de vez…
3
11
2009
Nas cidades que mais cresceram a seguir à revolução de 1974, as saudades de Angola ainda se fazem sentir.
Milhares reconstruíram as vidas nos bairros em torno da capital, invocando, sempre que possível, as referências à vida passada. Os que partilhavam o êxodo apegaram-se a estes nomes, como que se de cordões umbilicais se tratassem.
Alguns negócios desapareceram, bem como muitos portugueses ultramarinos, seguindo a ordem natural da vida, mas continua a ser frequente encontrar os letreiros que para mim eram mistério e que só passaram a fazer sentido depois de alguns meses em Angola.
As praias de Cacuaco
A Angola colonial sobreviverá nas memórias cada vez mais romantizadas dos que a deixaram e dos seus descendentes que ouviram histórias de África desde crianças. Sobreviverá também na saudade com que se baptizaram os novos começos de vida.
2
11
2009
Cá em casa vai sobrando sempre um pouco de pão. Numa tentativa de reciclar também este desperdício, primeiro tentamos torradas, depois pão ralado, mas a matéria-prima rapidamente ganha a consistência de betão armado bem curado. Foi necessário encontrar outras soluções.
Perto de casa há um rio que um bando de patos transformou em estância de veraneio, para grande deleite de netos e avós, que passam horas com as mãos pelo meio das grades da guarda da ponte a atirar pedaços de pão aos bichos.
O destino para este pão velho começou a adivinhar-se, mas estou na dúvida se não serei interpelado por um guarda da polícia venatória por falta de licença de caça com pão duro. É que se acerto na cabeça de um pato com o pão que levo, ainda o mato.
1
11
2009
Os jactos modernos, para poupar combustível, voam muito alto. A paisagem costuma ser monótona, vendo-se quase sempre apenas a parte de cima das várias camadas de nuvens. Com um pouco de sorte encontramos algumas abertas que nos permitem espreitar o chão.

Por cima das nuvens do equador
Na mudança de estação, há dias excepcionais, em que não se avista uma única nuvem assim que se cruza o trópico de Câncer. Tive a felicidade de, num destes dias sem nuvens, ver o deserto do Saara surgir da savana cada vez mais rala.
A primeira ideia que temos do deserto é a de paisagem monótona, como geralmente são retratados nos filmes. O Saara é tudo menos um mar de areia monótono. A cada centena de metros a cor do chão muda, há ravinas e leitos de rios, arbustos e pedras espalhados segundo um padrão intrincado e não nos custa acreditar que seja possível memorizar estes acidentes naturais para nos orientarmos no chão.

Tudo menos monótono
Apesar de não ser todo igual, é de tal maneira grande que somos incapazes de recordar muitos pormenores e tudo se confunde. Não encontramos grande diferença entre a areia fina e amarela do senegal e o cascalho cinzento de certas partes dos Atlas. São diferentes, mas acabam por ser iguais por não os conseguirmos abarcar.

Erosão
Talvez por isso, é estranho encontrar uma fronteira desenhada no deserto. Procuramos, debalde, razões que expliquem o traçado daquela linha. Procuramos descortinar o que há de diferente entre um e outro lado da fronteira e, sinceramente, parece-nos que é tudo igual.

Fronteira no deserto
Mas, a separar Marrocos do resto de África, uma linha mais clara rasga o deserto. De um lado e de outro, algumas estradas mais estreitas correm paralelas. Pequenos edifícios ao longo da linha relembram que algures ali há uma terra de ninguém.
31
10
2009
Poderá haver uma série de razões subjectivas para preferir a TAP na rota de Luanda. Tentar explicá-las passaria seguramente por dizer que o nacional é bom e que os Portugueses são os melhores do mundo. Chover no molhado, porque todos reconhecem que é verdade. Nestes casos, prefiro ser mais objectivo, porque as razões que não se explicam em nada ajudam os outros.
As primeiras viagens para Luanda foram pela TAAG, na altura em aviões Sul-Africanos, porque a interdição de voar para a Europa com os aviões angolanos ainda estava em vigor. Achei o serviço normal, embora os 747 sejam muito barulhentos.
Quando a TAAG voltou a voar para Lisboa, fiz duas viagens que recordarei sem saudade nenhuma. Na ida para norte, fiquei num lugar de coxia, que seria perfeito não fosse estar à frente dos coletes salva-vidas das crianças e, portanto, não rebatia as costas. A distância ao banco da frente era tão reduzida que viajei sempre com os joelhos de lado. Para completar o desconforto, dei um valente pontapé no parafuso que segura o banco da frente ao chão. Um mês depois, ainda me doía o dedinho…
No regresso a Luanda, tentei regatear um lugar à janela. Estavam todos ocupados. Propus um lugar na coxia, mas só havia um livre e o senhor suspeitava que também não rebatesse. Sabendo o desconforto da viagem anterior, resignei-me a um lugar mesmo a meio do avião, com a garantia de que a cadeira rebatia. Afinal estava avariada e tornei a voar sete horas e meia todo contorcido.
Achando que a diferença de preço haveria de ter justificação, voei na companhia portuguesa. Começando pelo avião mais silencioso e acabando no check-in via internet, tudo é melhor. Cheguei à conclusão que não é preciso que o passageiro da coxia se levante para os outros passarem. Há espaço suficiente para as quatro pernas que se cruzam em frente ao banco. Mais espaço para as pernas debaixo do banco da frente, cadeiras que funcionam e menos barulho na cabine implicam uma viagem muito mais repousante.
É verdade que a TAAG tem um monitor para cada passageiro onde passa filmes e jogos para que a longa viagem seja menos aborrecida. É engraçado, mas, com tanta distração, nunca chegamos a descansar.
É certo que as mantinhas da TAP me deixam as calças sempre cheias de fios vermelhos e que os monitores onde passam os filmes não são lá grande coisa, mas há um pormenor que me deixa rendido. Mesmo na classe económica come-se com talheres de metal.