Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

30  10 2009

Espalhando a felicidade

Há alturas em que a felicidade nos enche e começa a transbordar efusivamente, qual cascata de água com gás e aroma de groselha. Temos que extravasar, partilhar com o mundo a alegria que nos faz vibrar e sorrir.

É um sentimento estranho, este, que nos leva a partilhar algo que já não cabe em nós e, por ser partilhado, cresce ainda mais, numa espiral sem volta. Espalhar alegria cria alegria. Faz-nos querer dançar, dar pulos, cantar, tocar música alto, bater tachos e panelas, assobiar, tudo menos ficar parado.

Aaah! Como compreendo o nosso simpático vizinho que descobriu os prazeres da nova buzina de ar do camião. Que felicidade suprema não deve ser a de poder, com a pressão de um dedo singelo, partilhar todo o sentimento que traz no peito, umas vezes com toques ritmados, outras com chamamentos prolongados. Sinto-me contagiado pela sua felicidade, de tal modo, que só me apetece ir à janela e gritar-lhe o feliz que estou por ele estar nas suas sete quintas, a dar à buzina às cinco da manhã!


29  10 2009

Nas traseiras

Para não sentir tanto os efeitos das faltas de água e electricidade, a nossa casa tem alguns sistemas de emergência instalados. Com excepção dos supressores de picos que vão salvando frigoríficos e televisor das variações da tensão, os restantes, gerador e depósitos de água, moram numa jaula nas traseiras, entalados entre o anexo onde vive a filha do dono da casa e um conjunto de casebres abarracados onde moram outras pessoas. Um pormenor muito interessante é que estas construções improvisadas, apesar de terem paredes de madeira e plástico e telhado de chapa, têm ar condicionado.

As escadas que ligam as cozinhas de todos os apartamentos ao pequeno quintal onde ficam os geradores e os anexos já há muito foram fechadas com portas de chapa e grades, tornando cada patamar uma varanda quase quadrada, rodeada de grades. Sempre que vou a esta nossa varanda, fico com vontade de estender o braço através das grades e esperar que alguém me dê amendoins ou uma banana. Tenho reparado que há mais quem sinta o mesmo. Ali para os lados do São Paulo há um prédio com pequenas varandas cercadas por gradeamentos improvisados e todos os que as usam se agarram às grades com ar de prisioneiro.

O gasóleo de reserva fica guardado na varanda, fora de casa, mas não longe demais, não vá evaporar-se com garrafões e tudo. Sempre que é necessário reabastecer o gerador, tiram-se cadeados e trancas e escolhe-se o garrafão menos sujo. Não que adiante alguma coisa, porque estão sempre imundos à conta da extraordinária atracção do pó de Luanda pela gordura do gasóleo.

Há que descer as escadas em poses de contorcionista, evitando sujar a roupa e saltar sobre a cirurgia coronária do nosso esgoto da cozinha. Sim, também somos afectados pela tradicional instalação de derivações em torno dos entupimentos, de tal forma que somos obrigados a partilhar a escada com um tubo preto que leva o esgoto do lava-loiças directamente para a caixa do colector do prédio. Por vezes acontece que alguém pisa este tubo e ele se desencaixa da emenda. Damos por isso quando ouvimos a água de lavar a loiça a salpicar as escadas. Felizmente que escorre directamente para o colector. Voltar a encaixar o tubo não é agradável, mas tem de se fazer.

O contorcionismo não acaba na escada. Depois de abertos os cadeados da jaula do gerador, é necessário equilibrar o gasóleo numa posição impossível, porque a gaiola é demasiado pequena ou o gerador demasiado grande. Os salpicos são inevitáveis, mesmo usando o funil gigante no depósito. O banho a seguir à alimentação da fera enjaulada está assegurado.


28  10 2009

Albarda-se o burro à vontade do dono

Achei por bem dar a este artigo um provérbio como título. Afinal de contas, vou falar de um outro, que por cá ouvi, que sofreu uma pequena alteração.

Num dos famosos engarrafamentos de Luanda em que toda a gente tenta chegar primeiro que os outros e depois ninguém anda, com os candongueiros armados em baratas tontas de azul e branco, furando aqui e ali, passando nas valas e nos taludes e seguindo em contra-mão, troquei de estação de rádio. A do costume passava as horrorosas versões acústicas de músicas que nem na versão original se ouviam, quanto mais nesta edição melosa, mais indicada para um serão abraçado à dama que à hora do almoço. A não ser que os angolanos aproveitem a hora do almoço para dar uma escapadinha e ir ter com a outra… Mas divago e fujo ao tema. Hoje quero falar de provérbios.

Dizia eu que troquei de estação de rádio porque a música melosa não era a banda sonora ideal para o bailado dos candongueiros. A tecnologia moderna trouxe grandes conquistas para o conforto dos preguiçosos. Uma delas é a sintonia automática. Carrega-se num pequeno botão e o próprio receptor se encarrega de ir testando cada frequência até encontrar um canal ocupado e depois ainda se dá ao trabalho de fazer o ajuste final, para o som não ficar roufenho. Só falta mesmo inventar-se a sintonia automática com bom gosto musical, mas isso terá de ficar para outra altura.

Assim que o concerto de buzinas do exterior e o arfar da ventoinha do ar condicionado do interior foram substituídos pela voz nada desagradável da locutora, senti-me como um verdadeiro nababo. Mexo um dedo e tenho uma senhora a dizer-me as principais notícias do dia. Fabuloso. E com isto tudo, na fila que desaparecia lá na curva, avancei exactamente: nada. Ou melhor, na fila que agora eram três, mantive a mesma posição relativa, absoluta ou outra coisa qualquer, porque as rodas nunca se mexeram.

Dois funcionários viajam deitados sobre a carga no semi-atrelado
Já que não se vai a lado nenhum, aproveita-se a praia

Terminadas as notícias, uma curta informação sobre o trânsito na capital. Nada de novo, mas fica sempre bem referir todas as artérias da cidade e dizer que há trânsito intenso em cada uma delas. Só faltou o directo com o repórter de trânsito no local, mas desconfio que não tenha conseguido sair da rua da redacção. Os eufemismos acerca do engarrafamento geral são deliciosos. Apeteceu-me abrir a janela e gritar «Trânsito era se isto se mexesse»!

Não me esqueci do provérbio. A sério.

Depois do panorama acerca do consumo de combustíveis fósseis de várias dezenas de milhar de automóveis durante horas para cada um se mover um par de quarteirões, traduzido apenas pela expressão trânsito intenso, seguiu-se o conselho de prevenção rodoviária.

Mais um pequeno aparte. Prometo que é o último. Confesso que contribuí, durante quase uma hora para o consumo de gasolina e mil vezes me arrependi de não ter ido a pé, até porque as obras obrigaram-me a um desvio de quase onze quilómetros. Nesta perspectiva, 1’800 metros a pé para cada lado, ao Sol e a pular poças de lama e regos de esgoto nem me pareceram maus de todo.

O conselho de prevenção rodoviária apelava ao bom senso das pessoas. Não é aconselhável andar depressa, dizia a senhora de voz agradável. A pressa é inimiga da segurança. Terminou com uma adaptação de um provérbio conhecido que, apesar de esquisita, pareceu-me a mais adequada ao trânsito de Luanda.

«Devagar e bem, há pouco quem.»

Em Luanda, só se circula a duas velocidades: depressa e parado. Em qualquer das situações é pedal no fundo – acelerador ou travão, conforme o caso. Quando se está parado, vemos sempre os espertos a tentar contornar e furar a fila, piorando tudo. Quando se anda depressa, são as ultrapassagens selvagens, são as passadeiras, as m’baias e as manobras demasiado cretinas para merecerem categoria própria. Concluí-se que, em Luanda, nem se conduz devagar, nem bem. Genial, a adaptação do provérbio à realidade. Os meus parabéns à locutora!


27  10 2009

Aeroportos e pontes a duplicar

Rodeadas de mistério, as obras do novo aeroporto de Luanda vão avançando a ritmo desconhecido. Daqui a uns meses ou anos, a capital terá um novo aeroporto a cerca de cinquenta quilómetros do centro da cidade, numa zona rodeada de pântanos e lagoas que, todos estão certos, irão dar origem a nevoeiros cerrados. Se as rádio-ajudas funcionarem tão bem como as do actual aeroporto, será um problema aterrar em segurança. O 4 de Fevereiro não poderá encerrar tão cedo, apesar de se dizer que tem a capacidade esgotada e não se pode expandir. Deixou-se que fosse engolido pelos bairros de casas de chapa e metade está afecto aos militares, que têm uma base aérea cheia de espaço em Cabo Ledo.

Não sei porquê, mas lembrei-me da megalomania do novo aeroporto de Lisboa, com a Base Aérea do Montijo do outro lado do Tejo, ou o Aeroporto de Beja para os voos de carga.

As estruturas de betão como os viadutos, barragens e pontes são desenhados para uma vida útil que ronda a centena de anos na maioria dos casos. Causa estranheza ler editais de concursos públicos para a construção de novas pontes onde já as há. Com tanta falta de pontes no país, a prioridade aparenta ser substituir estruturas com menos de quarenta anos, algumas das quais recuperadas logo a seguir ao fim da guerra civil.

À medida que lia os concursos públicos para a construção das novas pontes sobre o Kwanza, o Keve e o Longa, fui tendo uma sensação estranha. A descrição das novas pontes pareceu-me demasiado familiar.

A ponte sobre o Kwanza, com tabuleiro de betão suspenso por cabos de aço a partir de duas torres, vai ser substituída por uma ponte com tabuleiro de betão suspenso por cabos de aço a partir de duas torres. A ponte sobre o Longa, em arco de betão, desenhada pelo Eng.º Edgar Cardoso, vai ser substituída por uma ponte em arco de betão. Quase parece que se tenta trocar uma obra do colono por outra dos angolanos. A única falha neste raciocínio é que a antiga foi construída pelos angolanos e a nova será por chineses, brasileiros, portugueses ou outros estrangeiros.

Ponte do Kwanza
A ponte do Kwanza

Parece que vão ser mais largas que as originais. Não que eu tenha alguma coisa a ver com isso, mas acho que saíria mais barato deixar a ponte velha em funcionamento e construir uma igual ao lado, e, sinceramente, fico com a ideia de que se está a tentar começar a casa pelo telhado nas obras de requalificação da estrada Luanda-Lobito.

Voltei a lembrar-me de outra megalomania lusa, a de querer ligar Lisboa e Porto por TGV, encurtando a viagem do combóio de Alta Velocidade nuns míseros quinze ou vinte minutos, através de um investimento mais que milionário.


26  10 2009

Caxito

Ao contrário do Dondo, que sempre foi o meu destino final noutros passeios, o Caxito, uma pequena cidade a meia centena de quilómetros de Luanda, no caminho para Uíge ou M’Banza Congo, tem sido apenas um ponto de passagem onde nunca me dei ao luxo de passear sem hora marcada. Ali mesmo ao lado fica a Barragem das Mabubas, pelo que se percebe logo como a comparação seria injusta. Mesmo assim, já lá almocei e fiz a minha quota-parte de fotografias.

Sumaúma
A caminho

A primeira impressão que tive da cidade foi estranha. Pareceu-me bem organizada e limpa, comparada com Luanda, mas com um ambiente um pouco mais opressivo. Talvez porque para lá norte da vala haja apenas capim rasteiro, nos talhões de cana-açucareira abandonados e toda a cidade viva encostada a uma fronteira invisível quase parecendo o limite de um campo minado. As ruas vazias perto dos edifícios oficiais, ao contrário do que acontece no Dondo também terão contribuído para o ambiente pesado.

Antigo coreto
O antigo coreto é agora um quiosque

O Caxito desenvolve-se ao longo de uma estrada, como algumas povoações ribatejanas, pelo que a visita à cidade é feita começando numa ponta e acabando noutra.

Logo depois de cruzar a vala de irrigação que tem acompanhado a estrada pela direita, chegamos ao centro da cidade, onde se encontram os edifícios oficiais, as igrejas principais e as casas mais antigas. É também aqui que a povoação aparenta ter mais quarteirões paralelos à estrada e, mesmo aos Domingos, é possível encontrar um restaurante aberto, o que dá muito jeito.

Igreja do Caxito
Arquitectura moderna

As primeiras impressões confirmaram-se noutra visita quando, ao tentar fotografar uma igreja, fomos abordados por um polícia dizendo que era proibido fazer fotografias no Caxito sem autorização do Governo. Fez-me lembrar a proibição de fotografar a sede do MPLA no Huambo. Parece que a guerra ainda não acabou por aqui.

Torre sineira
Nem o sino ficou como recordação

A questão resolveu-se sem discussão ou gasosas. Arrumámos as máquinas e desejámos um bom dia ao senhor, que deve ter ficado todo satisfeito por ter cumprido a sua missão. Ainda equacionámos mostrar-lhe a folha com as orientações do Comando Nacional da Polícia em relação à fotografia em locais públicos, mas suspeitámos que ele haveria de insistir que tinha razão até nos cansarmos.

Escadas para o coro
Interior da igreja

Recentemente, o Caxito ficou famoso pelas piores razões. A vala de irrigação que acompanha a estrada ao longo da qual a cidade cresceu é usada para fornecer água para beber, cozinhar, lavar a roupa ou carros, tomar banho e nadar, mas também de latrina pelos mais preguiçosos. Como seria de esperar, uma epidemia de cólera grassou durante meses na região.

É melhor não pensar muito nisso quando nos servem salada no restaurante…


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