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25  10 2009

Arquitectura colonial

Grande parte do património arquitectónico de Luanda deixado pelos colonos encontra-se em mau estado. Muitos anos de uso e abuso marcaram fachadas e abalaram alicerces, de tal forma que, para muitos edifícios, o destino está mais que traçado. A demolição é inevitável.

No entanto, de vez em quando, deparamo-nos com a excepção à regra. Um ou outro edifício escapou mais ou menos incólume à destruição e abandono que um país em guerra trouxe. Vamos sabendo que alguns edifícios, ao contrário de muitos outros, mantiveram os seus elevadores a funcionar, os esgotos desentupidos e os sistemas eléctricos sem grandes avarias.

Arquitectura da década de 1950
Em bom estado

Em frente ao Hospital do Prenda, perto da pérola do musseque, um edifício isolado destaca-se. A pintura está em bom estado, a fachada não ostenta muitas marcas de antigas máquinas de ar condicionado e, acima de tudo, a traça original ainda não foi completamente adulterada com a construção de anexos ou pisos adicionais.

A arquitectura desta época tem características bem marcadas, como as coberturas nos terraços, os pés-direitos altos com ventilação junto ao tecto para combater o calor e as janelas com palas a fazer sombra nas vidraças durante as horas mais quentes. O Museu Arquitectónico de Luanda por vezes mostra-nos estas raridades.


24  10 2009

A maldição do relógio

A certa altura na História do Homem alguém, provavelmente muito bem intencionado, teve a ideia peregrina de medir a quarta dimensão. Não lhe bastava só saber onde estava, queria também saber quando estava.

A princípio, a ideia trouxe benefícios interessantes. As estações do ano podiam ser identificadas não só pelos sinais habituais, mas também por uma contagem independente. Para os agricultores, mesmo que as condições não o prometessem, havia o conhecimento de qual a época apropriada para as sementeiras. Para os caçadores, as migrações passavam a ser acontecimentos cíclicos que não dependiam da aprendizagem individual de inúmeros sinais para serem previsíveis.

A curiosidade levou a ideia longe demais. Para além de usar o tempo para indicar acontecimentos futuros, começou-se também a aplicar as medidas aos acontecimentos passados, os quais são impossíveis de mudar. Depressa se começou a medir a duração da vida e aquilo que sempre tinha sido uma sucessão de dias interminável, passou a ser um número finito de anos e meses, que se escoam a um ritmo seguro, imperturbáveis.

A noção de mortalidade, que já existia, sofreu uma promoção. Passou a ser uma meta que se atinge, mesmo contrariado. O tempo e a noção de mortalidade devem-se ter unido para criar a religião.

O que mais me espanta é que não temos inata esta noção de mortalidade a prazo. Esquecendo calendários e relógios, a cada dia que passa somos apenas nós mesmos, mais experientes talvez, mas nunca muito diferentes do que éramos na véspera. Mesmo que nos digam que temos tantos anos, não acreditamos. Sentimo-nos insensíveis a essa coisa da idade. Ainda não percebi a diferença intrínseca entre ter vinte anos ou ter trinta. Sei que sou uma pessoa diferente, mas não me sinto diferente. Talvez me assuste mais com o número infindável de coisas que ainda quero fazer e com o conhecimento de que a meta não se compadece com os meus projectos.

Nem costumo pensar nisto, mas, tal como dizia, é preciso referências externas para que o calendário faça sentido. Hoje acordei a pensar que a minha mana está quase a fazer anos. Vinte e nove, para ser exacto. Não me pareceram assim tantos e demorei uns segundos até me aperceber que eu também os tenho, e ainda mais alguns. O tempo passa depressa quando estamos desatentos…

Pôr-do-Sol em Luanda
Relógio perfeito

O nosso relógio interno está ligado ao Sol e, todos os anos, volta a zero. Faz-nos confusão que tal não aconteça nos calendários. Talvez seja esse o choque que sentimos quando nos apercebemos destas armadilhas. Quando será que tomamos consciência disto?

Quem inventou os relógios não criou uma máquina para contar o tempo que passou. Criou uma máquina que mede o tempo que ainda falta.

Entretanto, e porque o tempo que passou nunca será mais feliz que o há-de vir: Parabéns Bulza!


23  10 2009

Para o Guiness

Esqueçam as tentativas miseráveis de bater os recordes da maior árvore de Natal do mundo. Esqueçam os grandes edifícios decorados com luzes festivas que deixam assombrado quem passa. Luanda faz tudo isso, mas numa escala inimaginável. Os preparativos começaram logo no fim do Cacimbo, para afinar as coisas.

Em vez de distribuir decorações pela cidade, toda a capital angolana é usada em simultâneo. Ao longo do dia vai-se ligando e desligando a electricidade aos vários bairros da cidade. À medida que o Natal se aproxima, a frequência destes cortes vai aumentando e espera-se que, nas duas últimas semanas do ano, se conseguia um ritmo semelhante ao das luzes com que se decoram os pinheiros.

O centro de comando dos efeitos luminosos, suspeita-se que esteja instalada no edifício que demonstra o monopólio chinês no mercado das iluminações natalícias, a torre do Tom & Jerry, que servirá também como decoração especial no grande esquema das coisas.

É bom saber que as falhas de luz constantes fazem parte de um plano complexo em vez de serem apenas obra do acaso. Sinto-me orgulhoso por participar num evento desta envergadura. Espero que avisem os senhores dos recordes do Guiness.


22  10 2009

O estrangeiro cada vez mais próximo

Hoje senti-me completamente estranho nesta cidade a que me tenho vindo a habituar. Percorri as ruas da baixa durante toda a manhã e foram poucas as pessoas que compreendi.

Mas esquinas, grupos de pessoas falavam línguas que não percebo. Cruzavam-se comigo libaneses a conversar em árabe. Os chineses na obra gritavam coisas uns aos outros com aquele ar cordial com que dizem as coisas. Algo se passava atrás do tapume, mas não sei se falavam do almoço ou da obra.

Os cobradores dos candongueiros, pendurados na porta com o braço direito no ar anunciavam destinos com um sotaque mais carregado que o habitual. Juntavam-se às peixeiras que, no meio das buzinas, apregoavam qualquer coisa com escamas.

Dois sujeitos altos e louros esperavam alguém à porta de um edifício, provavelmente o motorista. Conversavam entre si numa língua eslava que não identifiquei.

Por momentos, julguei ter acordado numa cidade onde todos se compreendiam menos eu.

A definição de fronteira, segundo a tradição africana, é a língua. Onde as pessoas falam uma língua diferente da nossa, são estrangeiros. Aplicando esta definição apenas temos a confirmação de um facto já conhecido. Este mundo está a ficar cada vez mais pequeno.


21  10 2009

Desorientação matinal

Ao fim de quase ano e meio em Angola, seria de esperar que já me tivesse habituado a tudo o que estranhei à chegada.

Nos primeiros meses era frequente acordar completamente desorientado, julgando estar no meu quarto em Queluz. Abria os olhos e achava que a janela estava no síto errado, o que, pelas voltas que tinha dado, estava prestes a cair da cama ou a dar uma cabeçada na parede. Quase me habituei a esta cama imensa, mas continuo a ser capaz de passar semanas inteiras em que só durmo de um dos lados. Estou tão seguro disso que nem me dou ao trabalho de pôr o livro na mesinha de cabeceira. Fica no lado desocupado, para me fazer companhia.

Habituei-me aos barulhos, às buzinas e sirenes a horas certas. Conheço o zumbido dos compressores das máquinas de ar condicionado e do gerador do banco. Os apitos e estalos que se ouvem quando a electricidade volta também já não me acordam. Começo a ter a noção das dimensões da cama.

Mesmo assim, ainda há um dia ou outro em que algo me desperta subitamente e, antes de poder reagir, dou por mim a tentar perceber o que se passou a meio mundo de distância. Lá, não faz sentido aquele ruído ou aquela luz. Aqui, ainda não sei o que é.

Um destes dias, acordei enrolado no mosquiteiro, sem saber porquê. Antes que percebesse o que era e onde estava, juro que recuei dez anos e o Roni, um fox-terrier com muito carácter, tinha resolvido saltar-me para a cama.


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