20
10
2009
Assim que começa a vir o calor do fim do Cacimbo, a tensão em Luanda começa a baixar. A eléctrica, entenda-se.
Com o arranque de milhares de máquinas de ar condicionado um pouco por toda a cidade, a carga nos circuitos é superior à que os grupos geradores são capazes de gerar. A tensão, que deveria rondar os 230 V, a custo mantém-se nos 200 V. De cada vez que alguém acende uma lâmpada, as restantes tremeluzem. De cada vez que a bomba de água arranca, os estabilizadores de corrente soltam estalidos, as luzes ficam amarelas e os frigoríficos sobressaltam-se.
A dada altura, a tensão baixa tanto que a corrente nos seccionadores dos postos de transformação é demasiada e obriga a que abram os circuitos. Um quarteirão fica às escuras durante umas horas.
Os circuitos eléctricos, tal como as redes de águas e esgotos, não foram feitos para andar a ser ligados e desligados. Funcionam melhor e duram mais tempo se as cargas forem constantes. Os cortes frequentes não dão saúde nem aos aparelhos de corte e transformadores, nem às instalações, que já não são famosas, nem aos equipamentos dos consumidores.

Instalação eléctrica-tipo
A parte melhor é que cada corte potencia a existência de uma sucessão deles. Se, durante o dia, as máquinas de ar condicionado e os frigoríficos vão arrancando alternadamente, à medida das necessidades, o que fazem os frigoríficos de um quarteirão inteiro depois de uma horas desligados? Arrancam em conjunto, claro está. A grande demanda nas correntes de arranque multiplicada pelo número de compressores vai provocar uma nova subtensão que, por sua vez, poderá originar um novo corte. A verdadeira pescadinha de rabo na boca…
19
10
2009
Luanda da década de 1970 era uma cidade moderna. Poderia quase arriscar que a mais moderna de Portugal.
Os exemplos são muitos, desde a maior liberdade para expressar opiniões, à quase livre circulação de livros marcados como proibidos na metrópole, passando pela mentalidade dinâmica e empreendedora das pessoas, mas também pela arquitectura.
Bem no centro de Luanda há uma mão-cheia de exemplos da arquitectura de estilo moderno que marcou a vanguarda da arquitectura durante décadas. Um bom exemplo é o edifício do Ministério das Obras Públicas, que fecha um dos lados da Praça da Mutamba. Não o escolhi de forma inocente. Afinal de contas, está paredes meias com a antiga Travessa da Mutamba, quase simbolizando o Presente a olhar o Passado transformar-se em Futuro.
O Estilo Moderno na arquitectura teve um dos seus principais impulsionadores um senhor que assinava com o pomposo nome de Le Corbusier e ficou também conhecido por desenhar aqueles sofás desconfortáveis que abundam nas salas de espera de certas repartições. Esboçou o estilo em cinco princípios simples.
A primeira inovação do estilo foi a de que os edifícios deveriam nascer, não do chão, mas a partir de pilares, permitindo que o logradouro se prolongasse para o interior. A estrutura dos edifícios deveriam estar separadas das fachadas, para que fosse possível criar grandes janelas horizontais, elementos decorativos ou até mesmo palas para fazer sombra nas vidraças. Linhas direitas e um terraço a fazer as vezes de telhado demonstravam a aposta no novo material de construção, o betão armado. Com as paredes dos edifícios a suportar cargas maiores, foi possível criar salas amplas, limitadas apenas pelos desejos do arquitecto.
Julgo que o Ministério das Obras Públicas cumpre todos os requisitos para ser considerado de Estilo Moderno. Le Corbusier tinha ainda mais um requisito favorito, que era o de, sempre que possível, usar o Número de Ouro para as proporções das coisas. Não o incluiu nos cinco princípios por achar que poderia ser encarado como uma limitação ao estilo. No entanto, quase aposto que o MinOp também segue esta recomendação.
18
10
2009
Certos filmes têm o condão de nos marcar para a vida, pela história, pela fotografia, pela encenação ou por uma coisa tão simples como um plano bem enquadrado.
O final de quase todos os filmes de Jacques Tati, com as suas janelas abertas para um futuro impossível que se perde numa nostalgia insuportável devem ser a perfeita tradução visual da saudade que a tantos poetas escapa.
Pequenos pormenores levam-nos de imediato ao escuro da sala de cinema, onde recordamos o cheiro do pó das cadeiras e imaginamos a cruz de malta do projector a marcar o ritmo da fita.
Um destes dias tive esta sensação na Baixa de Luanda, vi-me dentro do filme, com uma cena elaborada, cheia de planos e cortes encadeados de forma quase hipnótica, que me rodeava e fazia olhar para todas as direcções ao mesmo tempo, sem perceber muito bem como tinha sido sugado para a tela.
No cruzamento, a ambulância marcava o compasso do quarteirão, qual maestro de orquestra sinfónica. O polícia apitava acompanhando a sirene e, seguindo o mesmo ritmo, o operário martelava alguma coisa contra o tapume, que ressoava pela rua inteira. As peixeiras preenchiam os espaços mortos, anunciando carapaus e peixes-espada. Rabos pendurados à janela dos azuis-e-brancos gritavam paragens importantes nas rotas dos candongueiros, com o seu ritmo característico, que hoje parecia estar preso ao da ambulância, como o resto do trânsito e o engraxador, que batia com a escova na caixa da graxa, atraíndo clientes.
Por uns instantes apenas, toda esta cacofonia fez sentido. Parecia que tinha sido escrita para a cena. Procurei, em vão, a mulher-a-dias a bater o tapete ou o homem com os sapatos de palhaço a pintar o tecto. Nem sequer consegui distinguir as molas do colchão da amante do talhante, mas sei que estavam lá, provavelmente afogadas pela sirene da ambulância presa no trânsito.
A ilusão desfez-se tão depressa como surgiu. As câmaras foram-se embora, sem nunca ter ouvido o famoso «Corta!». Mas hoje, por uns instantes, o Delicatessen esteve em Luanda, com todos os seus canibais, chamarizes de vaca e novelinhos de lã.
17
10
2009
Quando encontramos a pessoa que nos completa e nos faz feliz, todos os momentos são vividos de outra forma, o que é vulgar e normal passa a ter outro sentido mesmo as coisas mais simples que fazemos a dois.
Muitas vezes reparei que descobri a pessoa que me completa, mesmo sendo diferentes a vida fazia sentido contigo.
Um dia ao beber café o pacote de açucar tinha a seguinte mensagem: ” Um dia deixará de ser só um dia e passará a ser o nosso dia. ”
Acho que no dia de hoje não há melhor frase que defina o passo e o compromisso que resolvemos dar os dois.
Hoje selamos o compromisso que queremos partilhar o resto das nossas vidas um com o outro e queremos fazer o outro feliz.
Amo-te Afonso!
17
10
2009
Podia falar dos preparativos, dos projectos e de tudo o resto, mas acho que o consigo resumir em duas palavras:
Sim, aceito!