Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

16  10 2009

O despertador V8

As corridas de motas em Luanda têm um horário bem definido, que quase parece ter sido estabelecido por decreto. O aquecimento e as eliminatórias começam por volta das dez da noite e a última prova decorre um pouco antes do Sol nascer. Por volta das duas da manhã podemos assistir às provas mais importantes de todas as categorias.

O horário reduzido é fruto de limitações impostas pela própria cidade. Durante o resto do dia o trânsito está tão compacto no centro de Luanda, que as corridas se resumem a arranques de vinte metros entre os carros ou quarteirões inteiros feitos em contra-mão no passeio.

Com tanto piloto a exibir-se um período tão concentrado, não se conseguiu estabelecer um circuito isolado, pelo que a qualquer altura há pistas e provas que se cruzam sem qualquer segurança. Cá para nós, mesmo que se fechasse algumas ruas, os corredores arranjavam maneira de contornar as barreiras em vez de ir dar a volta.

A segurança em prova é crucial para a manutenção da actividade, mas os semáforos e as regras de trânsito já não valem durante o dia, quanto mais durante as noites de competição. A organização arranjou um método engenhoso para evitar acidentes nos cruzamentos de pista, obrigando todos os veículos a circular de escape aberto e dando um curso intensivo a todos os pilotos para, sempre que possível, conduzam dando aceleradelas a fundo.

Os choques entre pilotos diminuíram drasticamente, à custa do sono dos vizinhos, que, diga-se, também não tinham nada que vir morar paredes meias com as pistas mais concorridas do mundo.

As noites mais concorridas são as do fim-de-semana. A maior parte das estrelas do asfalto também trabalha ou estuda e não se pode dedicar totalmente ao desporto. Mesmo assim, há sempre alguns que se aplicam nos treinos nos dias úteis.

É claro que o despertador apenas vem confirmar que muitas noites são mal dormidas e toca exactamente quando o trânsito compacto com a ocasional buzinadela furiosa substituíu os escapes livres. Com a buzinadela ainda se consegue viver…

Para evitar quebras de produtividade do pessoal que acaba por desligar o despertador e virar-se para o lado, um departamento governamental, que ainda desconheço, envia todos os dias uma viatura oficial como despertador de última linha, percorrendo as ruas anteriormente usadas para as corridas com uma sirene estridente. Como estamos em Angola, o despertador é um imenso oito cilindros em V, pintado de azul e com vidros fumados.

Todos os dias, a cerca de quinze minutos das oito, o Volvo azul vai serpenteando entre as filas de Corollas, iáces e Rav4s assinalando uma coisa que julgávamos ser marcha de urgência. Ao fim de duas semanas a passar à mesma hora chegámos à conclusão que não era urgência nenhuma, porque a definição de urgência exclui factos previsíveis e duvidamos que haja todos os dias urgências no mesmo sítio.

Sempre cheio de pressa
O despertador oficial – hoje passou às 7:48

A viatura oficial passa sempre vazia, pelo que o senhor motorista quer é chegar ao emprego a horas e sai sempre tarde. Acha piada abusar do facto de ter uma sirene. Faz-me lembrar os polícias que foram denunciados por todos os dias passarem em marcha de urgência na ponte sobre o Tejo…


15  10 2009

Mudanças

O Aerograma já há muito que me escapou do controlo. Agora limito-me a satisfazer-lhe os apetites, que não se resumem apenas a palavras. Ia escrever conteúdos, mas a palavra é feia. Peço perdão às fotografias pela desconsideração com que as trato.

Foi necessário fazer grandes mudanças nas entranhas desta casa. Algumas ferramentas mostravam-se desactualizadas e muitas arestas tinham ficado para ser limadas quando houvesse vagar. Aos poucos, a mecânica informática recuperou o atraso e está agora no ponto certo. As próximas actualizações darão dores de cabeça mais pequenas.

Para evitar os plágios e abusos, passei a inscrever a origem das fotografias não só na margem, mas também no centro. Fica feio, mas é mais aborrecido ser roubado e depois gozarem com a nossa cara.

Vi-me também obrigado a separar assuntos de locais, para permitir uma mais fácil consulta dos arquivos. Esta foi a mudança mais trabalhosa e ainda está longe de terminada. As tais arestas por limar são as mais de quatro centenas de artigos usavam a classificação antiga e têm de ser mudados um a um. Tags e Categorias são agora Assuntos e Locais. Desta forma, desde há algumas semanas que passou a ser possível utilizar a ferramenta Locais, que separa os artigos em função do sítio de que falam. Os assuntos deixarão de conter referências geográficas.

A maior mudança, embora praticamente invisível, é a morada alternativa do Aerograma, que agora pode também ser acedido através de:

www.aerograma.net

Amanhã, a programação volta à normalidade.


14  10 2009

Aleluia, aleluia Jesus!

As igrejas evangélicas fazem sucesso em Angola. Em cada rua encontramos templos mais ou menos sumptuosos e cartazes indicando as igrejas do culto divino do Salvador numa imensa variedade de cores e paladares.

Aos Domingos, as congregações fazem cortejos com os fiéis todos vestidos de igual. Elas, com camisas, lenços e panos coloridos, eles, de camisa branca e gravata, com uma Bíblia muito coçada debaixo do braço. Como dizem os brasileiros, parecem vendedores de rapadura que, para quem não sabe, é a seiva da cana de açúcar solidificada e cortada com a forma de um pequeno tijolo, de proporções muito semelhantes às das Bíblias…

Um destes dias deixei o rádio do carro num posto qualquer que passava boa música. Na viagem seguinte, mal liguei o motor, com o rádio ainda sintonizado no mesmo posto, levei um susto. Das colunas alguém me gritou com uma voz severa «Hoje é o dia da maldição!».

Por instantes, fiquei sem reacção. As histórias de feitiçarias que nos contam são extraordinárias, mas nunca contamos que sejamos amaldiçoados por meio de ondas hertzianas.

O senhor continuou. «Vamos quebrar a maldição! Com a ajuda de Deus – Sagrado é o nome de Deus, nosso Senhor e Salvador. Aleluia, aleluia! – vamos quebrar a maldição! Aleluia, aleluia Jesus! Vamos acabar com a maldição! Aleluia, aleluia Jesus! Deus – Sagrado é o nome de Deus, nosso Senhor e Salvador. Aleluia, aleluia! – vai ajudar a acabar com a maldição! Aleluia, aleluia Jesus! O trabalho não corre bem? É a maldição que tem de ser quebrada! Vamos quebrar a maldição, com a ajuda de Jesus – Jesus é o nosso Salvador! Aleluia, aleluia! Esta Sexta-Feira a maldição termina! Já sofreste demais. Jesus – Sagrado é o nome Jesus, o nosso Salvador! Aleluia, aleluia! -vai acabar com a maldição de vez. A maldição é a doença que não cura, mas Jesus vai curar! Aleluia, aleluia Jesus! Sagrado é o nome Jesus, o nosso Salvador! Aleluia, aleluia Jesus! Hoje vamos acabar com a maldição! A maldição acaba hoje, porque Jesus vai chegar. Aleluia! Sagrado é o nome de Deus, nosso Senhor e Salvador. Aleluia, aleluia! A sorte que não aparece e o amor que não corre bem é tudo maldição! Jesus – Sagrado é o nome de Jesus, nosso Senhor e Salvador. Aleluia, aleluia Jesus! – vai fazer a maldição desaparecer! Aleluia! Aleluia! A maldição anda entre nós…»

Desliguei o rádio, respirei fundo e murmurei Aleluia, aleluia Jesus!


13  10 2009

Não pronunciarás o nome da DEFA em vão

Os estrangeiros em Luanda estão habituados a ouvir pronunciar com uma espécie de assombro e uns olhares por cima do ombro o nome da polícia de estrangeiros. Poucos conseguem dizer a palavra sem baixar um pouco a voz ou fazer uma pausa comprometida e os outros dizem-na alto e bom som, mas disfarçam o calafrio que lhes percorre a espinha.

Tal é a reverência prestada à – olha em volta – DEFA, que a simples expressão «vou à DEFA» nos faz logo imaginar uma visita a um edifício austero e bem guardado onde teremos a sensação de que mil olhos invisíveis nos vigiam. No fundo, todos receiam ter de entrar na António Maria Cardoso, sede de outra instituição cujo nome era pronunciado com o pescoço encolhido, e já não sair.

Confesso que não estava a achar piada nenhum ter de ir à DEFA, e usei todos os pretextos para ir adiando. Quanto mais adiava, mais pequenas ficavam as janelas e mais armados ficavam os polícias do edifício que imaginava.

Diziam-me que ficava algures para os lados da Fortaleza, mas não conseguia identificar nenhum edifício que se parecesse remotamente com a imagem que formava. Entre o Palácio da Cidade Alta e a Fortaleza apenas existiam umas casas velhas e uns anexos de estilo provisório-definitivo com ar decrépito. Cheguei a temer que a DEFA fosse subterrânea e cheirasse a bafio. Pintei um quadro mental de corredores estreitos com as paredes escurecidas por milhares de corpos suados que se lhes encostaram, permanentemente iluminados por lâmpadas fluorescentes velhas, que enchem tudo com uma luz amarela tremeluzente.

Até que um dia fui lá.

Primeiro, subi uma rampa íngreme em direcção à Cidade Alta, desviando-me dos rapazes das motas que se divertem a subir e descer a rua o dia inteiro. Para cima só na roda de trás e para baixo sem travões. Na esquina, um edifício cujas entradas dizem todas serem reservadas a funcionários da DEFA prometia qualquer coisa. Lá em cima, à esquerda há o controlo policial para entrar no Palácio, à direita o acesso à Fortaleza e, em frente, a cancela do que parece ser um parque de estacionamento com uns contentores marítimos encostados a um canto.

Perguntei a um militar de óculos escuros onde era a DEFA. Apontou-me para o tal parque de estacionamento. Junto da cancela, dois polícias revezam-se a deixar entrar e sair dezenas de pessoas ou simplesmente a embirrar que têm de contornar um cone pela esquerda ou pela direita. Infelizmente, nunca estão de acordo sobre qual o lado certo e mudam de opinião frequentemente. Apanhei-os na altura em que discutiam um com o outro acerca de onde era a entrada. Entrei e fiquei boquiaberto. Aquele pátio entre três paredes de contentores é a DEFA!

Uma dúzia de contentores de vinte pés transformados em escritórios forma um U comprido. O espaço no meio está coberto com um telhado de chapa de zinco. Os bancos corridos aqui instalados são a sala de espera. Muita confusão, muito barulho, muitas caras negras, algumas caras brancas e dois chineses. Das janelas numeradas saem mãos que acenam a alguém na multidão. Processos entram e saem por frestas entre vidro. Funcionários de farda azul chamam alto nomes e são interrompidos por alguém que acabou de chegar e quer saber se já é a vez dele. A restante multidão reclama e grita para o recém-chegado «Deixa o homem trabalhar! Sai daí!».

Olho em volta e não acredito que isto seja a temida DEFA. Ao contrário de uma masmorra bafienta, o local é arejado e iluminado. Bem vistas as coisas, é ao ar livre, que é coisa que nunca me teria passado pela cabeça; e não é muito diferente dos escritórios dos restantes fiscais da DEFA que pedem documentos na berma das estradas.

Obviamente que isto é só o atendimento. O trabalho a sério deve ser feito no edifício da esquina e nesse ninguém entra. Ou se entrar, já não sai!

Suspeito que, da próxima vez que ouvir alguém dizer DEFA com o ar enfiado de quem pecou ao invocar o seu nome em vão, me dê vontade de sorrir. São piores os medos que imaginamos do que os que confrontamos…


12  10 2009

A voz da consciência

Muito se fala da voz da consciência e daquelas famosas figuras que se sentam nos ombros das personagens de banda desenhada, vestidas de diabinho e anjinho, segredando conselhos mais ou menos sábios nos momentos de dúvida.

Por muito que pense no assunto, sinto-me incapaz de definir a minha voz interior. Não sei se é grave, aguda ou desafinada ou até mesmo de falsete. Aliás, nem sei bem se me oiço pensar ou se os pensamentos só surgem como palavras escritas, que às vezes me sucede pensar por escrito; o que leva a interrogar-me acerca da forma dos pensamentos de quem não sabe ler. Um mistério quase tão bom é descobrir porque razão a minha caligrafia do pensamento é tão ordeira e a que me sai dos dedos tão trapalhona.

Poderá acontecer que esteja tão habituado à minha voz interior, que, qual tradutor simultâneo perfeito, me explica e ordena o turbilhão em que a cabeça se transforma, que já não seja capaz de a definir. Temo mesmo que, se alguém inventar uma maneira de a escutar, me pareça tão estranha como a nossa voz gravada, que os outros ouvem habitualmente.

Sombras
“Olha para ali”, disse-me a voz em mim

O certo é que a língua que falamos parece ser a única maneira de traduzir os nossos pensamentos. É através dela que exploramos melhor as potencialidades do cérebro. Acaba por ser a língua a moldar-nos o pensamento, a impôr limites ou a expandir horizontes. Se a nossa voz interior não souber o significado de uma palavra, nunca poderemos expressar verdadeiramente o pensamento que lhe está associado. Uma língua pobre  estabelece fronteiras apertadas à mente. Uma língua rica permite explorar todas aquelas pequenas gradações que surgem nos sinónimos que, apesar de serem semelhantes, diferem sempre nalguma coisa.

Procurava saber como era a minha voz interior e descobri que me levou por outros caminhos, quase como se se estivesse a vingar de todas aquelas vezes em que a ponho à procura da palavra certa, aquela palavra perfeita, que descreve exactamente aquilo em que pensamos mas que se mostra esquiva porque a memória não colabora.


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