Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

11  10 2009

Surreal, mas plausível

No final de um dia de trabalho, o trânsito da cidade até está a escorrer de uma forma bem mais fluida que o habitual. Os cruzamentos, que costumam estar atulhados de gente impaciente com o dedo na buzina e a gesticular para os demais condutores, parecem vazios.

De repente, tudo parado. No único sítio onde se costuma andar sem preocupações há até angolanos com o motor desligado, o que é algo de completamente inédito. Faço o mesmo e espreito por entre os carros lá para a frente. Nem acredito nos meus olhos. Numa rua estreita e de sentido único, com um sinal proibindo o trânsito a pesados logo à entrada, está um camião com um contentor de quarenta pés a fazer uma inversão de marcha. Obviamente que ficou encravado. Só o reboque tem mais de comprimento que a rua de largura sem os carros estacionados nas bermas.

Dois polícias de trânsito aproximam-se da rolha e ficam a ver. Não ajudam à manobra nem reclamam que não pode circular naquela rua e muito menos no sentido errado.

Unimog com grua, rebocando uma carrinha frigorífica avariada
Antes um Unimog que uma Hiace

Como ainda tenho escolha, estaciono o carro ali mesmo e faço os restantes quarteirões a pé. Quando o camião se for embora vou lá buscá-lo, que a coisa ainda demora.

O estranho é nada disto espanta ninguém. Aliás, nem eu fico espantado.


10  10 2009

Sublimação

A naftalina é um composto conhecido, não só por habitar urinóis e roupeiros, mas também por passar do estado sólido ao gasoso à temperatura ambiente. Na maior parte do mundo, é um fenómeno físico reservado a algumas substâncias. Em Luanda, tal coisa sucede às matérias mais diversas, especialmente as embaladas e transportadas por estrada. Há relatos absolutamente fidedignos de sublimação de grades de cerveja, sacas de cimento, barras de aço e caixas de azulejos pirosos para casa-de-banho no trajecto entre o armazém e o cliente. Já é ponto assente que os camiões costumam chegar com menos carga ao destino do que aquela com que partiram, quase como se caixas e sacos passassem do estado sólido ao gasoso e desaparecessem na atmosfera sem deixar rasto.

É um verdadeiro mistério. A mercadoria é contada e conferida à saída do armazém. Ao cliente chega metade. O motorista, pessoa da mais absoluta confiança, faz a sua rota e demora as habituais seis horas a atravessar a cidade. Tanto ele como o ajudante juram que nunca saíram do camião. Para evitar perder tempo, compraram comida e bebida no engarrafamento da estrada de Viana, às mulheres e aos rapazes que passavam entre os carros.

A única coisa fora do habitual que viram, foi uns vendedores que, à ida, não levavam nada, mas à volta, traziam umas caixas de mosaicos iguaizinhas às que eles levavam na caixa de carga do camião. O condutor bem ficou de olho nos espelhos, para ver se alguém subia, mas com a lona a tapar, nunca deu para perceber. A única explicação é a sublimação.

Os empresários avisados já fazem as contas ao factor de sublimação, que tem em conta não só a distância da entrega, mas também quantos quilómetros de trânsito compacto será necessário cruzar.

Há outros, mais cépticos ou com um espírito científico mais apurado, que enviam observadores treinados para tentar perceber como funciona o fenómeno da sublimação da mercadoria. Estes aprendizes de laboratório viajam na caixa de carga ou no atrelado, sempre de olho na mercadoria, atentos a todo e qualquer sinal de sublimação. Se se aperceberem dele, reagem logo, espetando um soco no agente catalizador da sublimação, que, geralmente, apanhado de surpresa, desata a correr rua fora, pelo meio dos carros parados, deixando os chinelos para trás.

Dois funcionários viajam deitados sobre a carga no semi-atrelado
Técnicos de laboratório impedindo a sublimação


10 2009

O metropolitano de Luanda

Ainda é um segredo bem guardado, mas Luanda está prestes a inaugurar a sua primeira linha de metropolitano que, suspeito, irá ligar o Aeroporto 4 de Fevereiro à Mutamba. Uma das primeiras estações deverá surgir mesmo em frente à Administração Municipal da Maianga.

Há cerca de um ano, as obras na Rua da Administração começaram. Durante alguns dias cortavam o trânsito para, aparentemente, encher os buracos maiores com entulho. O trânsito voltava a circular por mais umas semanas, até que as crateras fossem de novo tão fundas que assustassem os candongueiros mais afoitos.

A certa altura, com a desculpa de que era necessário fazer passeios para os peões, o trânsito na rua foi condicionado por cerca de três meses. Nalguns troços tiveram o cuidado de desfazer os passeios em betão armado existentes e fazer uns novos, na mesma posição, com as mesmas dimensões e, imagine-se, também de betão armado.

Restos dos passeios antigos
Passeios antigos desfeitos

Depois de se fazer os passeios, mas não as valetas, cortou-se a rua por mais quatro meses para instalar um novo sistema de esgotos pluviais e domésticos. Esventrou-se a rua, meteram-se as condutas, fechou-se o buraco e… nada. A rua ficou assim por semanas, com os carros a contornar as caixas de visita inacabadas. À medida que os atrelados dos semi-reboques foram partindo as guardas, começaram a ser cada vez mais frequentes os carros que ficavam presos nos buracos. Como paliativo, instalavam umas fitas brancas e vermelhas à volta de cada buraco. No dia seguinte já estavam todas no chão, deitadas abaixo nalguma mbaia.

Caixas de visita sem tampa
Um azarado

A situação foi-se arrastando até que as obras recomeçaram. A primeira coisa a fazer era limpar o lixo que se tinha acumulado nos novos esgotos ainda por estrear. Ao longo de uma semana, três operários retiraram pedaços de conduta, terra e lama, bocados de carros, pneus, sacos com lixo, cães mortos e um sem-fim de coisas indiscritíveis. Concluíram que o sistema estava de tal maneira deteriorado que havia de se refazer.

Nos quatro meses seguintes, abriram-se as valas, partiram-se as condutas novas, puseram-se as novíssimas e fecharam-se as valas. No entretanto, com tanta escavação e movimento de máquinas, os passeios feitos meio ano antes desapareceram sem deixar rasto algum.

A única justificação que me ocorre para uma obra assim é a instalação de um metropolitano subterrâneo, como há em quase todas as grandes capitais. Obras assim complexas e demoradas, vi-as na Avenida Duque de Ávila, que fecharam por dois anos, para o prolongamento da linha vermelha do metropolitano de Lisboa. Deve estar para breve o anúncio oficial.


10 2009

Jornal de Angola: «Faltou a luz em Luanda – escândalo nacional»

Em noites como esta, nas quais tento ir acertando nas teclas às escuras, enquanto a bateria do portátil se aguenta, sinto-me verdadeiramente longe de casa. Não é pela falta do conforto da electricidade, que não sou assim tão dado aos luxos, é mais pela resignação a que esta situação remete. Estranho que no dia seguinte não seja notícia de jornal a falha prolongada de luz na capital do país. Estranho ainda mais que não haja mais gente a estranhar.

Os angolanos estranham é que nós achemos o facto digno de notícia de jornal ou que achemos inadmissível que os bancos estejam sempre sem sistema ou que as caixas automáticas trabalhem apenas a meio gás.

É como dizem, pedra de rio não sabe quando chove. Já dizia a falecida Mamã Vitória, acerca das falhas de luz, água e estradas esburacadas “Se os angolanos soubessem como se vivia antes, recusar-se-iam a viver assim”.

Rua em obras, com poças de lama a ocupar toda a largura
Via principal

Mas há-de chegar o dia em que o jornal das boas notícias não trará apenas artigos elogiando as grandes conquistas da nação e que publique, em letras garrafais, o escândalo que é, num país civilizado, faltar a electricidade com tanta frequência.

Até lá, continuarei a vaguear cá por casa com a lanterna à cabeça, sonhando com o cheiro do acetileno no Algar da Lomba ou pendurado a meio da Galeria das Aranhas. Já que não há luz, sempre posso sonhar com as grutas.


10 2009

Mas que grande lata

Numa rua secundária que se converteu em avenida principal graças ao desvio a que a obra eterna obriga, o trânsito estava tão parado que quase parecia andar para trás. De vez em quando lá se vislumbra uma carrinha a cabecear enquanto mergulhava numa das muitas piscinas de águas negras e cheiro característico que esconde os buracos mais fundos. Os peões vão saltitando de pedrinha em pedaço de sucata, evitando a lama fétida.

As duas filas de trânsito que seriam normais converteram-se em três para cada lado. Há sempre quem ache que tem mais pressa que os demais e se sinta no direito de ultrapassar a fila na contra-mão, gozando com a cara de quem cumpre o código e obrigando os que vêm em sentido contrário a desviar-se para os muros ou buracos fundos. Para além destes, há os que aproveitam um pouco do passeio desocupado para imitar a proeza, desta vez pela direita.

No cruzamento, quem chega primeiro é rei, mesmo que isso implique trancar tudo durante largos minutos, desprezando a hipótese de efectuar manobras que facilitem a vida aos outros. Sabe perfeitamente que, se não for ele a fechar o cruzamento, alguém o fará sem remorsos.

Nos bloqueios mais graves, os carros que cruzam a rua para virar à esquerda acabam por impedir a passagem dos que seguem em sentido contrário. Estes bloqueios chegam a demorar tanto tempo que o quarteirão seguinte fica com trânsito num só sentido e os espertos aproveitam para ocupar a faixa contrária, impedindo ainda mais a circulação. Porque todos têm pressa e são incapazes de ceder passagem nas alturas devidas, ficam a olhar uns para os outros, a esbracejar e a buzinar.

Ferro-velho com carros amontoados
Trânsito organizado

Para se avançar é necessário furar, circular colado ao pára-choques do carro da frente, cortar trajectórias.

Foi numa destas situações, em que, para evitar a entrada abusiva de um candongueiro vindo do passeio, me colei ao carro da frente. Quem vinha atrás de mim fez o mesmo. Pela esquerda, um todo-o-terreno ultrapassava a fila desde o cruzamento anterior, parando mesmo ao meu lado porque vinha um maior no sentido contrário a fazer-lhe sinais de luzes e a chamar-lhe nomes.

A fugir do trânsito e a tentar atravessar a rua, vinham três mulheres. Não podiam passar à frente do carro que me antecedia por causa da lama, não podiam passar à frente do meu porque o espaço era apertado e não podiam passar entre o meu e o do esperto porque ele já estava colado a tentar entrar na fila.

Nisto, ao ver o embaraço das mulheres, abriu o vidro e gritou-me, irado, «Tem que ter humanidade e deixar as pessoas atravessar…»

Pensei cá para os meus botões «Fazes a merda e depois sou eu quem paga as favas?»

O carro da frente avançou, esperei que as mulheres atravessassem e segui viagem. Reparei, pelo espelho, que os quatro condutores seguintes também não o deixaram entrar…


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