6
10
2009
A relação que as pessoas têm com a internet ainda está por explicar. A diversidade de contextos culturais, académicos e sociais cria uma mistura tão heterogénea que dificulta muito o estabelecimento de padrões de uso.
A evolução da tecnologia tem vindo a permitir que cada vez mais pessoas acedam à informação disponível sem a necessidade de conhecimentos técnicos especiais. A internet tornou-se mais um electrodoméstico, uma televisão com um comando à distância mais complicado.
Talvez porque o acesso já não está limitado apenas aos que dominam as ferramentas, há cada vez mais gente que tem uma relação com a internet semelhante à que tem com a televisão. As pesquisas facilitadas foram o catalizador desta explosão de utilizadores inexperientes. Infelizmente, encaram-na como uma fonte de informação perfeitamente credível e, muitas vezes, são incapazes de filtrar a verdade da invenção ou a informação da desinformação.
A prova disso tenho-a quando analiso como chegam os visitantes ao Aerograma. As frases mais curiosas mereceram mesmo um lugar de destaque noutro lugar.
Como quem pede a pesquisa é uma pessoa e quem a executa é uma máquina, há sempre diferenças entre o que era realmente pretendido e o resultado devolvido. Geralmente, para solucionar esta ambiguidade, são devolvidos milhares de resultados aproximados, para que o utilizador faça a selecção final.
Recentemente, uma baiana de São Salvador da Baía ficou frustrada por não encontrar a informação que desejava acerca de ritos de passagem africanos. Numa das muitas voltas que deve ter dado, veio dar a um artigo acerca da Cabala do Kwanza que fala de ritos de passagem em África, mas não os que a senhora queria.
Descarregou a frustração na caixa dos comentários…
Misera desgraça vcs nunca tem o que eu quero seus lesados filhos da putha…e raparigeira ….. rele
Fico a pensar se se daria ao trabalho de comentar a agradecer se tivesse encontrado o que procurava. Espero que sim!
5
10
2009
Luanda é a cidade mais irónica que conheço. A cada esquina que dobramos somos confrontados com atitudes e situações cuja compreensão só atingimos se as encararmos com um piscar de olho.
A marginal que tanto ama está a ser esventrada e revolvida para se parecer com a marginal de outra cidade qualquer, no entanto, ninguém sabe quando ou se as obras terminarão. Até lá, o ex-libris da capital continuará com os coqueiros a morrer e o lixo a acumular-se na praia.
Luanda projecta novos centros comerciais para o centro e, em vez de assumir que a EDEL lhes deve fornecer energia em qualidade e quantidade suficientes, prepara-se para adquirir grupos geradores capazes de abastecer o empreendimento e o bairro à volta. O falhanço é um dado a priori, o que não deixa de ser irónico para estes projectos ambiciosos.
Os esgotos entupidos levam a que se façam derivações em torno das obstruções mais obstinadas ou, em último recurso, que se abram fossas nas caves ou nos quintais. Quando estão cheias, chamam-se carros para as limpar, aspirando as lamas pestilentas para as cisternas. Ao fim do dia, estes mesmos camiões aproveitam uma sarjeta insuspeita para despejar o que foram limpar, entupido os esgotos noutra parte da cidade com as lamas que depressa fazem uma argamassa impermeável.
O ideal para os buracos
Numa cidade onde as ruas esburacadas ou em terra batida são mais frequentes que as asfaltadas, seria improvável que o sonho dos condutores fosse circular com pneus de baixo perfil e jantes cromadas. Aparentemente, carros com cinco litros de cilindrada, mesmo que todo-o-terreno, só são aceites com rodas assim.
Não deixa de ser interessante pensar que, apesar de ser quatro vezes mais barata, gasta-se o mesmo em gasolina que em Portugal, porque os consumos nos engarrafamentos permanentes são astronómicos.
Mas, a maior ironia vem dos vendedores de meias ou sapatos que ganham a vida acenando a mercadoria por entre as filas de carros, descalços…
4
10
2009
A confusão toponímica de Luanda é sobejamente conhecida. Os nomes antigos nunca chegaram a cair em desuso e os novos parecem ainda ser artificiais. A co-existência das placas com as várias designações das ruas também não ajuda.
Os estrangeiros, que passam os primeiros meses perdidos numa cidade confusa, em que a navegação é feita à custa de pontos de referência e contagem de ruas, assim que aprendem os nomes de algumas ruas importantes tentam usá-las para novos pedidos de orientações, mas depressa descobre que os angolanos não fazem a mínima ideia do que estão a falar. Instituíu-se que as direcções têm de ser dadas como se a cidade só tivesse ruas sem nome.
Mesmo nos jornais estatais, onde seria de esperar que se tentasse aplicar a toponímia actual sempre que possível, lemos notícias que remetem para a toponímia colonial. Recordo-me da nota acerca de um incêndio na Maianga, identificado como no prédio do jacaré, na Rua D. António Barroso. O prédio fica numa transversal à actual Rua Marien N’Gouabi, paralela à Rua Garcia de Resende, cujo novo nome já desapareceu da placa.
Uma solução de recurso para nos orientarmos em terras estranhas é usar a informação disponível na extraordinária ferramenta que é o Google Earth, passe a publicidade. Infelizmente, até há bem pouco tempo, quem procurava informação de toponímia em Luanda, deparava-se com um vazio inexplicável.
Entretanto, o interesse pelo petróleo angolano e a visita da Secretária de Estado Hillary Clinton, fez despertar a necessidade de suprimir esta falha. Cerca de um mês depois da visita, os arruamentos de Luanda começaram a ostentar nomes. A orientação na cidade ficou mais fácil.
Percebemos, finalmente, porque razão as placas toponímicas com os nomes coloniais têm sido deixadas no lugar. A informação mostrada no Google Earth é quase toda desta época e pode necessitar de tradução para a actualidade.
Toponímia colonial no séc. XXI
3
10
2009
O Tempo apanha-nos distraídos e, num piscar de olhos, meia vida se passou sem que tenhamos dado por isso. Apercebemo-nos especialmente nos aniversários dos outros, que os nossos não importam. É por isso que fico espantado quando a minha mana completa vinte e nove anos. É uma sensação tão estranha que tenho de o dizer alto. A voz do pensamento não consegue ser convincente o suficiente.
«Vinte e nove, caramba!»
Ainda ontem eras a minha maninha e agora até já moras noutro concelho…
Parabéns Bulza, minha mana favorita!
2
10
2009
Há alturas em que a imaginação para a culinária anda em baixa. Abro o frigorífico e não consigo lembrar-me de nada que não tenha feito tantas vezes que me tenha fartado. O paladar também precisa de variedade e emoção.
Depois de esgotar os bolos de banana-pão, os ingredientes esquisitos e provar os sabores da terra, chegou a altura de experimentar coisas verdadeiramente novas.
Inspirado por uma história de um colega de Curitiba, investiguei a possibilidade de aldrabar uma receita suíça, lá do cantão de Berna, o rösti. A primeira experiência correu bem e agora requer apenas continuação.
O único inconveniente que vejo nesta receita é o facto de se ter de preparar com muita antecedência, quase como o peixe de véspera que se vai comer amanhã se o pescarmos hoje…
O rösti tradicional é um prato de pequeno-almoço que, na sua variante mais simples, leva apenas batata. A aldrabice consiste em rechear o rösti com algo que lhe dê mais substância e faça dele uma refeição principal.

ingrediente principal
Em primeiro lugar, precisamos de batatas. As mais indicadas são as para fritar, que absorvem menos gordura e garantem um rösti mais bonito.

Uma entaladela
É necessário preparar de véspera as batatas, dando-lhes uma entaladela. Cozem apenas o suficiente para começar a ficar moles. Dez minutos são mais que suficientes. Depois escorrem-se, descascam-se, espera-se que arrefeçam e guardam-se no frigorífico.

Esperamos um dia
No dia seguinte, obviamente cheios de fome, agarramos num ralador e nas batatas da véspera e esfregamos um no outro.

Instrumento de tortura medieval
Com um pouco de cuidado não ralamos as pontas dos dedos e obtemos uma grande taça de batatas às tirinhas. O passe-vite não serve, porque deixa as batatas demasiado moles.

Raladíssimas
Numa frigideira com um fio de azeite, faz-se uma camada compacta de batata ralada. Para a batata não se agarrar aos dedos e temperar ao mesmo tempo, vão-se molhando as mãos em água com sal.

Recheio inventado
Com o que houver à mão, inventa-se um recheio. Desta feita usei queijo e atum, mas já experimentei com salsichas, cogumelos, maçã ou ananás e passas.

Mais um pouco de lubrificante
Cobre-se o recheio com outra camada de batata e tenta-se fazer uma espécie de bolacha não muito alta.

Cinco a sete minutos de cada lado
Em lume forte, vai-se tostando o lado baixo até ficar dourado. Como não o conseguimos ver, fazemos de ouvido, com um cronómetro de cozinha a marcar um pouco mais de cinco minutos.

A acrobacia
Depois é preciso virar. Não se pode fazer como as omeletes porque o rösti se desfaz todo a meio do salto. É preferível usar uma omeleteira ou simplesmente dois pratos e a frigideira.

Segunda volta
A cada volta acrescenta-se um pouco de azeite. Pelas minhas contas, duas vezes de cada lado dão bons resultados.
Depois das batatas cozidas, descascadas e repousadas, prepara-se o rösti recheado em menos de três quartos de hora, contando com cerca de meia-hora na frigideira.