1
10
2009
As últimas legislativas em Portugal tiveram cinco vencedores, o que não deixa de ser um feito notável, uma vez que só havia verdadeiramente cinco candidatos.
O PS ganhou o governo de novo. Poderá obter maiorias absolutas juntando-se ao CDS ou ao Bloco de Esquerda e CDU, situações que até nem parecem descabidas de todo.
Já o PSD, com 78 deputados, não consegue maioria absoluta coligado com o aliado tradicional, o CDS. Só juntando os votos de todos é que conseguirá alguma vez ter uma maioria absoluta contra o PS.
Desta vez, o resultado das eleições espelha o que acontece nas sociedades anónimas. O poder não está no accionista que tem 49%. Quem tem a palavra final é o dono de 1% da empresa.
O PS não conseguirá fazer passar medidas sem o aval dos pequenos accionistas, quer seja à direita ou à esquerda.
30
09
2009
O Aeroporto 4 de Fevereiro, ódio de estimação de alguns, está em obras. Já não tem dimensão para as dezenas de voos diários. O aspecto provisório das passagens criadas pelo meio do estaleiro ajudam a disfarçar a confusão habitual. As filas que se retorcem até à porta sempre se podem dever apenas à empreitada.
As melgas do costume, as de quatro asas e as de duas pernas, continuam a esvoaçar por lá. Umas sugam-nos o sangue, as outras preferem-nos sugar a carteira. A troco de alguns kwanzas ou dólares, o acesso ao check-in é agilizado. A troco de alguns kwanzas ou dólares, a última imagem que se tem do país é a de alguém a sacar uma gasosa.
As salas de espera continuam desconfortáveis, especialmente a do embarque, onde alguém distribuiu as cadeiras em quatro longas filas, sem passagem evidente para as de trás. Num dos extremos, os mais magros podem espremer-se contra a parede e passar. Os restantes ficam de pé.
O ritual da declaração de valores ainda é uma daquelas conversas em surdina que se tem nos cantos escuros. Tavez se faça negócio… «E kwanzas, levas?»
29
09
2009
Há um ano atrás recebi a noticia que o Tomás tinha nascido, e soube tão bem ir conhecer este pequenito que viamos dentro da barriga da mãe e que tinhamos curiosidade em conhecer.
Lembro-me tão bem quando fui vê-lo á maternidade, um pequenito encostado á mãe e tão giraço ( eu sou suspeita, mas ele é muito nito).
É incrivel como o tempo passa e o Tomás já tem um anito.
Foi um ano cheio de coisas boas, a sua presença nas nossas vidas veio mudar tanta coisa. Acho que já disse, mas é incrivel como uma coisita tão pequenita nos preenche tanto e nos faz tão feliz, até nos dias em que me senti mais triste, o Tomás com o seu sorriso, as suas gracinhas e o seu colinho, faz-me sentir melhor.
Parabéns pelo teu primeiro anito. Está um homenzinho.
O primeiro
29
09
2009
Por muito que alguns angolanos procurem esquecer, o passado colonial constitui grande parte da História angolana. Ao longo de 500 anos, o colono escreveu a sua História de Angola com pedra e ferro, igrejas e presídios, pontes, barragens e cinemas.

Forte de Cambambe
A tradição oral tem limites práticos, definidos pela memória do contador mais esquecido. Os eventos menos importantes, mesmo que procurem ser lembrados, caem no esquecimento permanente ao fim de umas gerações ou então começam a ser alterados em tempo, forma ou lugar.

A guerra também ajudou a perder a tradição oral
A competição entre estas duas versões da História sempre foi desigual. Não há como acusar de esquecida uma data inscrita em pedra. A nova toponímia de Luanda procura homenagear nomes importantes da História africana de Angola ou da guerrilha contra o colono, embora haja grandes dúvidas sobre quem seja verdadeiramente o Rei Katyavala ou se determinado comandante das FAPLA é reconhecido pelos angolanos como seu herói.

Herói da História antiga
Um pouco por todo o lado vemos provas de que a separação da História colonial da História de Angola é tarefa impossível. Os monumentos e edifícios de referência não são esquecidos ou abandonados por decreto. As igrejas continuaram, como antes, a ser usadas. As ruas, os largos e os jardins, mesmo mudando de nome, durante muitos anos continuam a ser chamados pelo nome antigo.

1774
Na capital especialmente, as marcas deixadas pelo regime colonial estão a ser apagadas pela História que a Angola Independente escreve. Custa-me ver os edifícios velhos serem derrubados, não por serem coloniais, mas por serem marcas do passado. Custa-me mais ver que a História que escrevem também não é a de Angola, é a da multinacional dona da torre.

Breve resumo da História de Angola desde a Independência
Como a grande maioria dos angolanos não conhece outra Angola que não a independente, a História que vivem será a sua. Os monumentos deixarão, aos poucos, de ter conotações com o passado colonial. Passarão a ser apenas angolanos.

Séc. XVII
28
09
2009
Devido a uma estranha sucessão de acontecimentos, desencadeada por ainda mais bizarras razões, dei por mim a ter uma autêntica experiência luandense, daquelas irrepetíveis noutro lugar porque só aqui fazem sentido, como andar de gôndola noutro lugar que não Veneza.
Conduzir um Starlet com quase duas centenas de milhar de quilómetros nas ruas de Luanda é uma experiência e tanto. Não por conduzir em Luanda, ou por conduzir um Starlet com 20 anos. A verdadeira experiência é mesmo conduzir um Starlet velhinho em Luanda. Ou melhor, um Cetarléte, como aqui lhes chamam.
O rádio, garantiram-me, é dos que fazem bwé barulho. Achei desnecessário, porque até nem gosto de ouvir música alta no carro. Dei à chave e pegou à primeira. Nada mau. Um trabalhar certinho, embraiagem e caixa sem folgas. Parecia novo. Liguei o rádio e escolhi um dos discos piratas riscados e sujos que rebolavam debaixo do banco. Apesar de parecer impossível, o leitor reconheceu aquilo como um disco e começou a tocar.
Devagarinho, arranquei. A suspensão não faz barulhos estranhos nem se contorce como muitas que tenho visto nas avenidas e ruelas de Luanda. Tudo parece funcionar perfeitamente. Excepto os travões, que apenas permitem ir abrandando nas subidas, mas não se pode pedir tudo. Por outro lado, é facto conhecido que os condutores de Luanda apenas usam o travão nas duas ou três situações que uma aceleradela a fundo não resolve o embaraço.
Assim que passei sobre o primeiro buraco compreendi, finalmente, porque razão há tantos carros a circular com a música tão alta que incomoda os condutores da rua ao lado. Todos os plásticos e parafusos no interior do carro chiam e guincham a qualquer trepidação. O concerto de grilos é de enlouquecer. A única solução é abrir a janela, aproveitar o rádio que faz bwé barulho e esperar não ficar surdo por ouvir Bob Marley aos berros. E sorrir alarvemente, claro!