Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

22  09 2009

Tou na tua trás

Manda tradição entrar no banco e perguntar à última pessoa da fila se ela é realmente a última. Pode muito bem não ser. Aliás, ainda podem estar mais quinze pessoas invisíveis logo a seguir à última.

Depois de se estabelecer com segurança quem nos antecede, completamos o ritual com uma pancadinha no ombro e um «tou na tua trás». Depois vamos à nossa vida, fazer o mesmo na fila do supermercado. Regressamos ao banco de vez em quando para espreitar e saber como está a correr a nossa espera. Não podemos é cair na asneira de entrar antes de ser a nossa vez. Ainda aparece alguém que nos toca no ombro e nos usa para marcar o seu lugar enquanto vão tratar de um outro assunto urgente.

O melhor, é que quem reocupa o seu lugar na fila nem sequer se preocupa em avisar os que chegaram mais tarde que aquela era a posição certa. Entra, fura a fila e é atendido. Quase aposto que os mais descarados furam as filas com o maior desplante e depois defendem com unhas e dentes que era atrás de quem acabou de sair que eles estavam sim senhor e que se ele não se tivesse ido embora podiam perguntar, mas agora, com licença, que é a minha vez.


21  09 2009

Meio milhar para receber o Solistício

As cinco centenas de artigos publicados não devia merecer comemorações, mas é um daqueles números redondos que me faz parar para pensar um pouco. O número redondo, só por si, nada quer dizer. Usasse eu o sistema hexadecimal e comemoraria noutras datas, mas nestas alturas imagino a quantidade de coisas que ainda há para escrever acerca de Angola. Infelizmente, nem todas poderão ser publicadas, pelo menos para já. Descobri que não se pode tocar em certos assuntos sem que surjam ameaças veladas ou assumidas.

Quinhentos artigos equivalem a muitos milhares de palavras, mais do que sonharia vir a escrever neste modesto teclado que agora se apresenta muito polido e gasto nas letras mais usadas. Nos dias menos inspirados penso se terei tomado a decisão correcta de querer publicar um por dia.

Altos e baixos há-os sempre. A depressão do Cacimbo, que afectou muita gente também me apanhou. Talvez uma estadia prolongada em Luanda, em vez de ir passear para o interior tenha contribuído um pouco para isso. Ouvi histórias de quem não tivesse renovado o contrato porque sentia que se estava a tornar uma pessoa demasiado diferente por viver demasiado tempo na capital angolana. As recordações de outras paragens equilibram as contas.

A reunião com antigos colegas relembrou-me o desporto de que tanto gosto e fez-me despertar a vontade de regressar. Acompanhei o campeonato do mundo à distância e assustei-me com a evolução das marcas. Em pouco mais de uma década, deixámos de ter três arqueiros a bater a barreira dos 1300 pontos para ter os primeiros quarenta e nove a fazê-lo. Deixou realmente de ser um desporto desconhecido.

Para comemorar mais este marco, abri os cordões à bolsa e registei também o domínio Aerograma.net. Agora pode-se aceder ao Aerograma também por lá.

Amanhã, último dia do Verão, a programação regressa à normalidade.


20  09 2009

Solução elegante

O José tinha um problema. Um problema grave. O seu partido tinha ganho as eleições com uma maioria para lá de absoluta, qualificada ou suprema. Um problema gravíssimo. O José prometeu que faria eleições para o lugar que ocupa. Para o lugar de presidente de todos. Mas começou a desconfiar que teria menos votos que o seu partido. Um problema que se agravava a cada dia que passava. Porque a cada dia as pessoas se perguntavam porque razão adiava ele o prometido. Porque os que votaram no partido votaram no José e é inconcebível que, quando chegar à altura de votar no José, haja menos a votar do que no partido. E assim não seria o presidente de todos. Que dilema. Que dilema.

Sugeriram-se soluções. O partido eleito nomeia o José como presidente de todos. Não serve. Haveria sempre quem o acusasse de deturpar valores fundamentais. Para além disso, rebaixava o José a alguém que o partido indigitou e isso não pode ser, porque o José é quem manda no partido e não o contrário.

Os dias passavam e o problema do José agravava-se ainda mais. Graças à crise mundial, era agora impossível repetir o brilharete do partido, nem que conseguisse fazer outra campanha de encher o olho. Diziam que tinha de se esperar para alterar as leis fundamentais ou que a altura não era propícia, mas o problema estava apenas a ser adiado.

Finalmente, uma solução surgiu. Uma solução tão simples e elegante que quase parece ser o ovo de Colombo. E que tal eleger o José com os votos do partido e mais nada? Eleições dois-em-um, em que se vota no partido e na fotografia do José. No final, o partido agradece ao José por lhe ter emprestado a fotografia e nomeia-o presidente. Já agora, evita-se o aborrecimento de fazer novas eleições quando ainda nem se esqueceu as anteriores. Talvez seja boa ideia esperar pelo fim da legislatura. Só faltam três anitos, coisa pouca. E assim, o José dorme descansado porque nunca terá menos votos que o partido do José!


19  09 2009

Parabéns pai!

Uma das memórias mais antigas e fortes que tenho do meu pai é vê-lo a barbear-se. Gostava de o ver espalhar a espuma com o pincel e ver que ficava sempre com os lábios a aparecer no meio de uma cara toda branca. Hoje, quando me barbeava, lembrei-me desta imagem, com a janela da casa-de-banho aberta para o quintal e as folhas do limoeiro a espreitar. Faria hoje sessenta e um anos…

Um dia levou-me a conhecer o sítio onde tinha nascido e crescido, uma antiga casa senhorial da Rua São João da Praça. Foi no quarto do óculo, na esquina do edifício, com vista para o Tejo. Em frente à janela redonda que dava o nome ao quarto, ficava a litografia onde trabalhava o meu avô, que era gravador. O fogão a lenha dos meus avós era alimentado com as aparas do mogno que sobravam da litografia. Depois descemos uma rua inclinada e passámos por um arco para chegar ao Chafariz D’El-Rei.

Mais tarde, os meu avós mudaram-se e a casa ficou abandonada muitos anos. Graças à janela característica e a um cipreste que tinha crescido junto a um cunhal, a casa era um ponto de referência que marcava a fronteira entre Alfama e a Sé. De vez em quando cruzo-me com uma fotografia ou uma aguarela do quarto onde nasceu o meu pai numa qualquer exposição dedicada a Lisboa.

Na década de 1990, o velho palácio arruinado foi comprado e sofreu obras que o transformaram num condomínio privado. O cipreste foi cortado. O óculo foi fechado.


18  09 2009

A identidade perdida

As circunstâncias em que meio milhão de portugueses deixou África não permitiram uma transição suave entre as duas vidas. De um dia para o outro, amigos, casas, empregos e paisagens mudaram completamente. A única vida que conheciam eclipsou-se sem deixar rasto no fim de uma ponte aérea. Muitos separam a vida em duas épocas distintas, o antes e o depois. Grande parte não teve remédio senão adaptar-se às novas circunstâncias, outros nunca o conseguiram.

Hoje em dia, apesar de já não se falar tanto nisso, os retornados ainda procuram saber quem são, porque a sua identidade e referências ficaram lá em África, enterradas num passado que os outros querem esquecer.

Graças ao Aerograma, tenho-me apercebido de que as saudades não esmorecem. Uma parte significativa das novas visitas que recebe são de pessoas que procuram referências do passado ou que tentam reavivar memórias. Muitos procuram-se a si mesmos, provavelmente porque ainda não compreendem bem a cambalhota que a vida deu há mais de trinta anos.

Há ainda os descendentes desta geração que viu a sua terra tornar-se estrangeira e que se sentem estrangeiros na terra que agora dizem ser sua. Estes últimos buscam confirmação das histórias contadas pelos pais, talvez para tentar perceber tudo aquilo que não faz sentido.

Por muito que me esforce, sou incapaz de imaginar o que será perder a identidade desta forma abrupta. Mas já me dou por feliz se a minha visão de Angola puder ajudar alguém.


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